Posts Marcados Com: Zeus

Eros

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_A_Young_Girl_Defending_Herself_Against_Eros_(1880)

Jovem defendendo-se de Eros (1880), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἒρως (Éros), Eros, do verbo ἒρασθαι (érasthai), estar inflamado de amor, significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.C. ao século VI d.C.

Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Gaia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um daimon, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens e, como o deus do Amor está a meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se, assim, o elo que une o Todo a si mesmo. Foi contra a tendência generalizada de considerar Eros como um grande deus que o filósofo da Academia lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (Expediente) e de Penía (Pobreza), no Jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e “carência”, sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, “a plenitude”. Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ἐνέργεια (enérgueia), uma “energia”, perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca do objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam ser o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite vulgar, da Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Ártemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência dos poetas, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sob a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incompatível com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

Uma das Odes atribuídas ao grande poeta lírico grego do século VI a.C, Anacreonte, nos dá um retrato de corpo inteiro desse incendiário de corações. Vamos transcrevê-la, para que se tenha uma ideia da concepção sobretudo alexandrina de Eros:

Winged youth (Eros) flying to an altar. Side A of a Lucanian red-figure nestoris, terracotta, ~350-325BC, at Metropolitan Museum of Art

Eros alado, terracota em figtura vermelha (ca 350-325 a.C.), Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta.
“Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?”
Respondeu Eros: “Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua”.
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
“Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo”.
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão.
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro, acrescentou, alegra-te,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido”.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina na consciência, onde poderá tornar-se uma força espiritual de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades. Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontra-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sido total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação.

Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo.

Relativamente a TânatosHipno, Eros é acentuadamente mágico e o mais flexível dos três, com um papel mais definido na cosmogonia e fertilidade. Tem, por sua própria natureza, uma capacidade bem maior de cooperar com os mortais dia e noite nas conquistas e no amor. Promotor de uniões e despedidas, recebido sempre com mais simpatia que Hipno e Tânatos, possui um público muito mais entusiasta na poesia e na arte. Nos poemas homéricos, ainda não antropomorfizado, o substantivo Eros compartilha efetivamente os poderes das duas divindades anteriores: derrama uma caligem sobre a cabeça dos homens, apodera-se dos corações, como fez com Páris em relação a Helena; relaxa os membros, domina as criaturas humanas como se fossem corcéis, convertendo-se num déspota e é difícil combatê-lo, quanto mais vencê-lo.

Era companheiro e solidário a Hipno, mas por vezes se tornava inimigo do mesmo. Quando o Sono atrai ou Eros, este pode desencadear aparições de pessoas amadas ou um sono agitado com riscos e despedidas. A mente pode viajar para longe, perturba-se a identidade e a psiqué se afasta para além dos limites da experiência em vigília. Portador, como Hermes, de uma varinha mágica para seguir as pistas de Hipno, tem o poder de encantar, fechando ou despertando os olhos adormecidos dos mortais. Se a θέλξις (thélksis), o encantamento, é um elemento perigoso na magia e no encanto, Eros com frequência se identifica como cantor e músico. É o Eros da lira, capaz de transtornar inteligência e coração. Apresenta-se igualmente como depredador que captura veados e lebres.  Era o caçador clássico com o arco, ἀμήϰανος (amékhanos), difícil de combater, ἀνίκατος μάϰαν (aníkatos mákhan), invencível numa batalha, como se expressa Sófocles na Antígona sublinhando a antiga associação entre τόξα (tóksa) “as armas” e τοξικόν (toksikón), “a flecha envenenada”.

erosExiste, no entanto, um Eros bem mais arcaico, adolescente musculoso, de asas poderosas, um convite falaz para o sexo. Participa, como tal, de um grupo tradicional de violadores alados, que transportam suas vítimas à força para locais inacessíveis, como Bóreas, o vento do norte, Hipno, Tânatos, as Harpias, a Esfinge. É o Eros de que nos fala o poema Íbico (séc. VI a.C.), um Eros atrevido e sombrio, que se manifesta entre relâmpagos e loucuras desenfreadas, como o vento do norte flamejante com seus raios, o qual enlouquece nossas mentes da cabeça aos pés.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

Anúncios
Categorias: Deuses, Deuses Primordiais | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Oceano

Oceanus in the Trevi Fountain, Rome

Oceano, em Fontana di Trevi, Roma, Itália.

’Ωκεανός (Okeanós), Oceano, sem etimologia ainda bem definida deve ser um empréstimo, uma vez que os indo-europeus  não tinham noção de “um rio original e universal”, nem tampouco possuíam uma palavra para designar “mar”. É possível que se trate de palavra mediterrânea com o sentido de “circular, envolver”.

Parece que Oceano, nas concepções primitivas helênicas, era concebido, a princípio, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras extremas do globo terráqueo. Pelo menos esta é a ideia que do mesmo faziam os Sumérios, segundo os quais a Terra estava sentada sobre o Oceano, o rio-serpente.

Tal conceito ajuda de muito a explicar a topografia de algumas façanhas de Héracles, deslocando-se de um ponto cardeal a outro por mar, bem como a localização dos Jardins das Hespérides, das Górgonas e de outros pontos geográficos imaginários. No mito grego, Oceano é a personificação da água que rodeia o mundo: é representado como um rio, o Rio-Oceano, que corre em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo em Prometeu Acorrentado: Oceano, cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

Quando, mais tarde, os conhecimentos geográficos se tornaram mais precisos, Oceano passou a designar o Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo antigo.

Filho de Gaia e Urano, é o mais velho dos Titãs, mas, extremamente “conciliador”, visto que jamais se indispôs com Zeus.

Representa o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, simboliza o poder e a fecundidade feminina do mar. Como deus, Oceano é o pai de todos os rios, que, segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceânides. Dentre os rios, Hesíodo cita particularmente o Nilo, Alfeu, Erídano, Estrímon, Meandro, Istro, Fásis, Reso, Aqueloo, Nesso, Ródiom Haliácmon, Heptáporo, Granico, Esepo, Símois, Peneu, Hermo, Caíco, Sangário, Ládon, Partênio, Eveno, Ardesco e Escamandro.

As Oceânides, que personificam os riachos, as fontes e as nascentes. Unidas a deuses e, por vezes, a simples mortais, são responsáveis por numerosa descendência. Dentre elas, as mais importantes no mito são: Estige, Admeta, Iante, Electra, Dóris, Urânia, Hipo, Clímene, Calírroe, Idiia, Pasítoe, Dione, Toe, Polidora, Perseis, Ianira, Acasta, Menesto, Europa, Métis, Eurínome, Telesto, Ásia, Calipso, Eudora e Ocírroe.

O Oceano, em razão mesmo de sua vastidão, aparentemente sem limites, é a imagem da indistinção e da indeterminação primordial.

De outro lado, o simbolismo do Oceano se une ao da água, considerada como origem da vida. Na mitologia egípcia, o nascimento da Terra e da vida era concebido como uma emergência do Oceano, à imagem e semelhança dos montículos lodosos que cobrem o Nilo, quando de sua baixa. Assim, a criação, inclusive a dos deuses, emergiu das águas primordiais. O deus primordial era chamado a Terra que emerge. Afinal, as águas simbolizam a soma de todas as virtualidades: são a fonte, a origem e o reservatório de todas as possibilidades de existência. Precedem a todas as formas e suportam toda a criação.

Oceano e suas filhas, as Oceânides, surgem na literatura grega como personagens da gigantesca tragédia de Ésquilo, Prometeu Acorrentado.

Oceano, apesar de personagem secundária na peça, um mero tritagonista, é finamente marcado por Esquilo: tímido, medroso e conciliador, está sempre disposto a ceder diante do poderio e da arrogância de Zeus. Com o caráter fraco de seu pai contrastam as Oceânides, que formam o Coro da peça: preferem ser sepultadas com Prometeu a sujeitar-se à prepotência do pai dos deuses e dos homens.

Mesmo quando os Titãs, após a mutilação de Urano, se apossaram do mundo, Oceano resolveu não participar das lutas que se seguiram, permanecendo sempre à parte como observador atento dos fatos. . .

Dada a pouca ou nenhuma importância dos Titãs Ceos, Crio e Hipérion no mito grego, a não ser por seus casamentos, filhos e descendentes, vamos diretamente a Crono.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

Categorias: Deuses, Titãs | Tags: , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Reia

Rhea and Cronus, ca 475 - 425 BC, at Metropolitan Museum, New York City, USA.

Reia e Crono, pélica de figuras vermelhas (ca. 475-425 a.C), Museu Metropolitano de Nova York, EUA.

Ῥέα (Rhéa), Reia, talvez seu nome seja um epíteto da terra: ampla, larga, cheia, da raiz ureia, com o mesmo sentido. Seu nome também pode significar fluxo ou facilidade. Como esposa de Crono, ela representou o eterno fluxo do tempo e de gerações; como a Grande Mãe (Meter Megale), o “fluxo” era sangue menstrual, águas de nascimento, e leite.

Trata-se, em todo caso, de uma divindade minóica, de uma Grande Mãe cretense, que, no sincretismo creto-micênico, decaiu de posto, tornando-se não apenas esposa de Crono, mas sobretudo “atriz de um drama mitológico”, cuja encenação já se começou a ver com a fuga da deusa para a ilha de Creta e o estratagema da pedra.

Reia, uma das titânides, filha de Gaia e Urano, uniu-se ao irmão Crono, era a Rainha dos Céus, e foi mãe, segundo a Teogonia de Hesíodo, de seis filhos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus.

Instruído por um presságio de Gaia, Crono devorava todos os filhos, tão logo nasciam, porque sabia que um deles o destronaria. Grávida de Zeus, a deusa fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz ao caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança e o deus, de imediato, a engoliu. Mais tarde, Crono foi obrigado a devolver todos os filhos à luz. Estes, comandados por Zeus, destronaram o pai.

Reia submetida a Crono pariu brilhantes filhos:
Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,
o forte Hades que sob o chão habita um palácio
com impiedoso coração, o troante Treme-terra
e o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,
sob cujo trovão até a ampla terra se abala.
E engolia-os o grande Crono tão logo cada um
do ventre sagrado da mãe descia aos joelhos,
tramando-o para que outro dos magníficos Uranidas
não tivesse entre os imortais a honra de rei.
Pois soube da Terra e do Céu constelado
que lhe era destino por um filho ser submetido
apesar de poderoso, por desígnios do grande Zeus.
E não mantinha vigilância de cego, mas à espreita
engolia os filhos. Reia agarrou-a longa aflição.
Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens
ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos,
aos seus, à Terra e ao Céu constelado,
comporem um ardil para que oculta parisse
o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai
e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar.
Eles escutaram e atenderam à filha querida
e indicaram quanto era destino ocorrer
ao rei Crono e ao filho de violento ânimo.
Enviaram-na a Licto, gorda região de Creta,
quando ela devia parir o filho de ótimas armas,
o grande Zeus, e recebeu-o Terra prodigiosa
na vasta Creta para nutri-lo e criá-lo.
Aí levando-o através da veloz noite negra atingiu
primeiro Licto, e com ele nas mãos escondeu-o
em gruta íngreme sob o covil da terra divina
no monte das Cabras denso de árvores.
Encueirou grande pedra e entregou-a
ao soberano Uranida rei dos antigos Deuses.
Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.
Teogonia – Hesíodo

Na época romana, Reia, antiga divindade da Terra, acabou fundindo-se com Cibele. Reia simboliza a energia escondida no seio da Terra. Gerou os deuses dos quatro elementos. É a fonte primordial ctônia de toda a fecundidade.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

Categorias: Deuses, Titãs | Tags: , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Crono

Κρόνος (Krónos), Crono, sem etimologia certa até o momento. Por um simples jogo de palavras, por uma espécie de homonímia forçada, Crono foi identificado muitas vezes com o Tempo personificado, já que, em grego Χρόνος (Khrónos) é o tempo. Se, na realidade, Krónos, Crono, nada tem a ver etimologicamente com Khrónos, o Tempo, semanticamente a identificação, de certa forma, é válida: Crono devora, ao mesmo tempo que gera; mutilando a Urano, estanca as fontes da vida, mas torna-se ele próprio uma fonte, fecundando Reia.

Crono é o mais jovem filho de Gaia e Urano na linhagem dos titãs. Pertence, por conseguinte, à primeira geração divina, anterior a Zeus e aos restantes deuses olímpicos.

O fato é que Urano, tão logo nasciam os filhos, devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia então resolveu libertá-los e pediu aos filhos que a vingassem e libertassem do esposo. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe Gaia uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos.

Rápida [Gaia] criou o gênero do grisalho aço,
forjou grande podão e indicou aos filhos.
Disse com ousadia, ofendida no coração:
“Filhos meus e do pai estólido, se quiserdes
ter-me fé, puniremos o maligno ultraje de vosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou e a todos reteve o terror, ninguém
vozeou. Ousado o grande Crono de curvo pensar
devolveu logo as palavras à mãe cuidadosa:
“Mãe, isto eu prometo e cumprirei
a obra, porque nefando não me importa o nosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou. Exultou nas entranhas Terra prodigiosa,
colocou-o oculto em tocaia, pôs-lhe nas mãos
a foice dentada e inculcou-lhe todo o ardil.
Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra
desejando amor sobrepairou e estendeu-se
a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão
esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice
longa e dentada. E do pai o pênis
ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás.
Teogonia – Hesíodo

O sangue do ferimento de Urano, no entanto, caiu todo sobre Gaia, concebendo esta, por isso mesmo, tempos depois, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram, com a espuma, que saía do membro divino, uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite. Com isto, o caçula dos Titãs vingou a mãe e libertou os irmãos.

Com a façanha de Crono, Urano (Céu) separou-se de Gaia (Terra). O Titã, após expulsar o pai, tomou seu lugar, casando-se com sua irmã Reia. Senhor do mundo, converteu-se num déspota pior que o pai. Temendo os Ciclopes que Urano lançara no Tártaro e que ele havia libertado, a pedido da mãe, novamente os aprisionou nas trevas inferiores e desta vez lhes deu por companhia dos Hecatonquiros.

Dois pontos básicos devem ser ressaltados no episódio de Crono e Urano: a castração do rei e, em consequência, sua separação da rainha. A castração de Urano põe fim a uma longa e ininterrupta procriação, de resto inútil, uma vez que o pai devolvia os recém-nascidos ao ventre materno.

Saturno devorando a un hijo, por Francisco de Goya (1819–1823). Museu do Prado, Madri, Espanha 2.jpg

Saturno (Crono) devorando seu filho (1819-23), por Goya, Museu do Prado, Madri, Espanha.

Como Urano e Gaia, depositário da mântica, vale dizer, do conhecimento do futuro, lhe houveram predito que seria destronado por um dos filhos, que teria de Teia, passou a engoli-los, à medida que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades ou Plutão e Posídon. Escapou somente Zeus. Grávida deste último, Reia fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz o caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança, e o deus, de imediato, a engoliu.

Uma vez nascido, Zeus, ajudado por Métis ou pela própria Gaia, fez que Crono ingerisse uma poção mágica que o forçou a devolver todos os filhos anteriormente devorados. Comandados por Zeus, os deuses olímpicos iniciaram uma luta de dez anos contra os Titãs. Por fim venceu o caçula de Reia. Os Titãs, expulsos do céu, foram lançados ao Tártaro. Para obter tão retumbante triunfo, o futuro pai dos deuses e dos homens, a conselho de Gaia, libertou das trevas os Ciclopes e os Hecatonquiros. Estes últimos tornaram-se, desde então, os guardiães dos inimigos destronados.

Além dos filhos que teve com Reia, algumas tradições atribuem à união de Crono com Fílira a paternidade sobre Quíron, o grande pacífico Centauro. Outros mitógrafos dão-lhe ainda como filhos Hefesto e Afrodite.

Na tradição religiosa órfica, Zeus, tão logo sentiu consolidado seu poder, libertou o pai Crono da prisão subterrânea, recompôs-se com ele e o enviou para a lha dos Bem-Aventurados. Esta reconciliação do senhor do Olimpo com o pai, considerado como um príncipe justo e bom, o primeiro a reinar no céu e na terra, é que gerou o mito da Idade de Ouro.

Na Hélade, sobretudo entre os Órficos, se dizia que em priscas eras o deus pacífico e generoso teria reinado em Olímpia.

Diga-se, de caminho, que essa ideia de o deus ter reinado em “priscas eras” fez de Crono sinônimo de um passado incomensurável. Asim é que o derivado κρονεῖον (kroneîon) significa “no tempo de Crono”.

Dizia-se igualmente que o rei bom justo teria reinado na África, na Sicília e em todo o ocidente mediterrâneo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

Categorias: Deuses, Deuses Primordiais, Titãs | Tags: , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Dânae

Δανάη (Danáē), Dânae, o nome está relacionado com a raiz indo-europeia dānu, “água”, pelo fato de a heroína ter sido lançada ao mar com o filho Perseu.

Dânae é filha do rei de Argos, Acrísio e de Eurídice, esta, filha de Lacedêmon e de Esparto. Há outra tradição que faz de Dânae filha de Aganipe.

Desejando, além de Dânae, um filho homem, preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o Oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

A fecundação de Dânae, por Klimt. 1907

A fecundação de Dânae (1907), por Gustav Klimt.

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá enclausurou sua filha, em companhia de sua ama. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura e “inviolável” prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

No dia em que o rei tomou conhecimento da existência do neto, encerrou-o juntamente com a mãe num cofre e mandou expô-los ao mar. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae (1892), por Waterhouse.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los. Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então arquitetou um plano e mandou o jovem herói buscar a cabeça de Medusa, missão de que o herói jamais regressaria, segundo pensava o rei tirano.

Uma variante atesta que foi Díctis quem levou a princesa à corte de Polidectes, que a ela se uniu e cuidou da educação do menino.

A seguir a primeira versão, mais difundida por sinal, o rei, na ausência de Perseu, tentou violentar-lhe a mãe. Em seu retorno glorioso, o herói encontrou Dânae e Díctis abraçados à lareira do palácio, tentando escapar das ameaças violentas do tirano. Perseu mostrou-lhe a cabeça de Medusa e o petrificou, bem como a seus cortesãos. Entregou, em seguida, o trono de Sérifos a Díctis e deixou a ilha em companhia de Dânae, que voltou a Argos para viver em companhia de sua mãe Eurídice.

Perseu, no entanto, seguiu à procura de Acrísio. Este, sabedor de que o neto desejava conhecê-lo, e com a sentença do Oráculo a perturbar-lhe a paz, fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Léon-François Comerre's Danaë and the Shower of Gold, 1908.

Dânae e a chuva de ouro (1908), por Léon-François Comerre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

Categorias: Heróis, Mortais | Tags: , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Tártaro

Mundo-gregoΤάρταρος (Tártaros), Tártaro, abismo insondável, que se encontra sob a terra, não possui etimologia em grego. Trata-se possivelmente de um empréstimo oriental.

Na Teogonia de Hesíodo, 116-132, Tártaro, personificado pelo poeta, é, ao lado de Caos, Gaia e Eros, um dos elementos primordiais do cosmo. Unindo-se a Gaia, foi pai dos monstros Tífon e Equidna, as quais se acrescentaram por vezes a Águia de Zeus e Tânatos, o Gênio da Morte.

Nos poemas homéricos e na Teogonia, o Tártaro é o local mais profundo das entranhas da terra, localizado muito abaixo do próprio Hades, isto é, dos próprios Infernos. Na Ilíada, VIII, 5-29, Zeus reúne a assembleia dos deuses e ameaça lançar “no Tártaro escuro, a voragem profunda de soleira de bronze e portas de ferro” qualquer dos imortais que se atravesse a lutar ao lado dos aqueus ou troianos. E acrescenta que a distância que separa o Hades do Tártaro é a mesma que existe entre Gaia, a Terra, e Urano, o Céu.

Era nesta vasta e horrenda prisão que as diferentes gerações divinas lançavam seus inimigos. Os primeiros a visitá-la foram os Ciclopes Arges, Estérope e Brontes, que lá foram aprisionados por Urano. Após a vitória de Crono sobre o pai, os Ciclopes foram libertados, a pedido de Gaia, mas por pouco tempo. Crono, que os temia, mandou-os de volta às trevas, em companhia dos Hecatônquiros, de onde só foram arrancados em definitivo por Zeus, que a eles se aliou na luta contra os Titãs, chefiados por Crono, e contra os terríveis Gigantes. Derrotados por Zeus foi a vez dos Titãs descerem ao mais tenebroso dos cárceres e tiveram por guardiões seus inimigos, os Hecatônquiros Coto, Giges e Briareu.

Na Ilíada, VIII, quando Zeus proíbe os Imortais de se imiscuírem nas batalhas entre Aqueus e Troianos, e ameaça lançar os recalcitrantes nas profundezas do Tártaro, observa-se que este é perfeito sinônimo de Hades, aonde iam ter, para todo o sempre, sem prêmio nem castigo, todas as almas.

Em Hesíodo a ideia de permanência eterna na outra vida já parece também existir, pelo menos para alguns deuses e mortais: lá foram lançados os Titãs e as almas dos homens da Idade de Bronze. Os Ciclopes tiveram mais sorte: duas vezes lançados no Tártaro, duas vezes de lá foram libertados, o que demonstra que para algumas divindades o Tártaro podia funcionar apenas como prisão temporária, ao menos até Hesíodo. Seja como for, é no Tártaro que as diferentes gerações divinas lançam sucessivamente seus inimigos, como os Ciclopes e depois os Titãs.

Local temido pelos próprios deuses, Zeus se aproveitava do fato para frear-lhes qualquer oposição ou simples ameaça a seu poder. Quando Apolo com suas flechas certeiras matou os Ciclopes, o pai dos deuses e dos homens ameaçou lançá-lo no Tártaro. De imediato, Leto suplicou ao antigo amante que poupasse o filho comum e Zeus fez que Apolo fosse exilado por um ano e servisse como pastor ao rei Admeto.

Um pouco mais tarde, quando o Hades foi dividido em três compartimentos, Campos Elísios, local onde ficavam por algum tempo os que pouco tinham a purgar, Érebo, residência também temporária dos que muito tinham a sofrer, o Tártaro se tornou o local de suplício permanente e eterno dos grandes criminosos, mortais e imortais. Lá se encontram Ixíon, Tântalo, Sísifo, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros…

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

Categorias: Deuses, Deuses Primordiais | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Gaia

GaeaΓαῖα (Gaîa), Gaia, “Terra”, ainda não possui etimologia convincente. A forma γῆ (guê) tem o mesmo sentido que Γαῖα (Gaîa), “Terra”, por oposição a Céu. Esta última, no mito, é a Terra, concebida como elemento primordial e deusa cósmica, diferenciando-se, assim, teoricamente de Deméter, a terra cultivada. Embora de sentido idêntico, os dois vocábulos não possuem relação etimológica entre si. Já se tentou mostrar que γαῖα (gaîa) era uma contaminação de γῆ (guê) com αἶα (aîa), “grande mãe”, donde Gaia significaria a Terra-Mãe, mas trata-se de uma hipótese.

Segundo a Teogonia hesiódica, Gaia surgiu após o Caos e antes de Eros, que escraviza os membros dos deuses e dos homens.

Sem concurso de macho, isto é, por partenogênese, Gaia deu à luz Urano (o Céu), Óreas (as Montanhas) e Pontos (o Mar).

Unindo-se, em seguida, a Urano, foi mãe dos Titãs, denominados Oceano, Ceos, Crios, Hipérion, Jápeto, e Crono; das Titânides, Teia, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis. Ainda com Urano gerou os Ciclopes,  Arges, Estérope e Brontes, divindades ligadas aos raios, relâmpagos e trovões. Finalmente, também de seus amores com Urano, nasceram os Hecatônquiros, monstros de cem braços, chamados Cotos, Briareu e Giges.

Urano, porém, temendo ser destronado por um dos seus filhos, devolvia-os ao seio materno. Gaia, pesada e cansada, resolveu libertá-los e pediu o concurso dos filhos. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe a Terra-Mãe uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, à noite, se deitou “ávido de amor” sobre a esposa, o caçula cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento do Céu, todavia, caiu sobre a Terra, concebendo esta, no tempo devido, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Ninfas dos Freixos, símbolo da guerra e do sangue, uma vez que o cabo das laças era confeccionado com esta madeira. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma espumarada, de que nasceu Afrodite.

Gaia e Urano

Gaia e Urano. Obra exposta na seção Cosmogonias e Cosmologia do Espaço do Conhecimento UFMG, Praça da Liberdade.

Com a mutilação de Urano, Gaia uniu-se novamente a um de seus filhos, Pontos, e com ele teve cinco divindades marinhas: Nereu, Taumante, Fórcis, Ceto e Euríbia.

Tendo assumido o poder, Crono se uniu à irmã Reia e transformou-se num tirano mais despótico que o pai. De saída, porque temia os Ciclopes, seus irmãos, que ele havia libertado do Tártaro a pedido de Gaia, lançou-os novamente nas trevas, bem como os Hecatônquiros. Como Urano e Gaia, depositário da mântica, isto é, do conhecimento do futuro, lhe houvessem predito que seria destronado por um dos filhos, passou a engoli-los, à medida que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades ou Plutão e Posídon. Escapou apenas o caçula, Zeus. Grávida deste último, Reia fugiu para a ilha de Creta a conselho de Urano e Gaia, que lhe ensinaram como enganar Crono. Nascido o menino no monte Dicta, a mãe escondeu-o numa gruta profunda e, envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, que imediatamente a engoliu.

Atingida a idade adulta, Zeus iniciou, ajudado pelos irmãos, que haviam sido devolvidos à luz por Crono, uma terrível refrega contra este e os outros Titãs. O futuro pai dos deuses e dos homens obteve retumbante vitória, graças sobretudo às advertências e predições de Gaia, que lhe sugerira a libertação dos Ciclopes e dos Hecatônquiros, presos no Tártaro por Crono. Os Ciclopes, agradecidos, deram ao senhor do Olimpo os raios, relâmpagos e trovões e os Hecatônquiros, com seus cem braços, muito cooperaram para o triunfo. Gaia, porém, descontente com Zeus, que lançara no Tártaro os Titãs, excitou contra ele os terríveis Gigantes, nascidos do sangue de Urano. Derrotados também estes, a Terra-Mãe, num derradeiro esforço, uniu-se a Tártaro e gerou o mais horrendo dos monstros, Tífon ou Tifeu, que só foi derrotado após longos e indecisos combates.

Com o mesmo Tártaro foi mãe da disforme e cruel Equidna. Outras tradições e teogonias atribuem-lhe igualmente a maternidade de Triptólemo, de sua união com Oceano. De sua ligação com Posídon teria nascido Anteu, adversário de Héracles.

Na realidade, quase todo os monstros, como as Harpias, Píton, Caribdes, bem assim o dragão, que vigiava o velocino de outro a pedido de Eetes, e até mesmo Fama são considerados filhos de Gaia.

A pouco e pouco, no entanto, com a antropomorfização dos deuses e sua personificação, a Terra, reserva inesgotável de fecundidade, transmutou-se em mãe universal e mãe dos deuses. Tendo como hipóstase Cibele e Deméter, Gaia foi se afastando da mitologia para entrar nos domínios da filosofia.

Era a detentora e inspiradora de vários oráculos, bem mais antigos e tidos por alguns mitólogos como mais confiáveis que os de Apolo.

Gaia se opõe, simbolicamente, como princípio passivo ao princípio ativo; como aspecto feminino ao masculino da manifestação; como obscuridade à luz; como Yin ao Yang; como anima ao animus; como densidade, fixação e condensação à natureza sutil e volátil, isto é, à dissolução. Gaia suporta, enquanto Urano, o Céu, a cobre. Dela nascem todos os seres, porque Gaia é mulher e mãe. Suas virtudes básicas são a doçura, a submissão, a firmeza cordata e duradoura, não se podendo omitir a humildade, que, etimologicamente, prende-se a humus, “terra”, de que o homo, “homem”, que igualmente provém de humus, foi modelado. Ela é a virgem penetrada pela charrua e pelo arado, fecundada pela chuva ou pelo sangue, que são o spérma, a semente do Céu. Como matriz, concebe todos os seres, as fontes, os minerais e os vegetais. Gaia simboliza a função materna: é a Tellus Mater, a Mãe-Terra. Concede e retoma a vida. Prostrando-se ao solo, exclama Jó 1,21: Nu saí do ventre de minha mãe; nu para lá retornarei. Reuertere ad locum tuum, volta a teu lugar, é um lembrete que alguns cemitérios gostam de estampar. “Rasteja para a terra, tua mãe” (Rig Veda, X, 18,10), diz o poeta védico ao morto. Assimilada à mãe, a Terra é símbolo de fecundidade e de regeneração, como escreveu Ésquilo nas Coéforas, 127-128:

A própria Terra que, sozinha, gera todos os seres,
alimenta-os e depois recebe deles novamente o gérmen fecundo.

Gaia - Earth GoddessConsoante a Teogonia, a própria Gaia gerou a Urano, que a cobriu e deu nascimento aos deuses. Esta primeira hierogamia, quer dizer, casamento sagrado, foi imitado pelos deuses, pelos homens e pelos animais. Como origem e matriz da vida, Gaia recebeu o nome de Magna Mater, a Grande Mãe. Guardiã da semente e da vida, em todas as culturas sempre houve “enterros” simbólicos, análogos às imersões batismais, seja com a finalidade de fortalecer as energias ou curar, seja como rito de iniciação. De toda forma, esse regressus ad uterum, essa descida ao útero da terra, tem sempre o mesmo significado religioso: a regeneração pelo contato com as energias telúricas; morrer para uma forma de vida, a fim de renascer para uma vida nova e fecunda. É por isso que nos Mistérios de Elêusis se efetuava uma καταβάσις είς ᾄντρον (katábasis eis ántron), uma descida à caverna, onde se dava um novo nascimento. Para vencer o gigante Anteu, Héracles teve que segurá-lo no ar e sufocá-lo, já que o gigante readquiria todas as suas forças e energias, cada vez que tocava a Terra, sua mãe. Mater, mãe, tem a mesma raiz que materia, “madeira”: pois bem, quando se quer atrair a sorte ou afastar o azar, bate-se três vezes na matéria, na madeira, isto é, na mater, na mãe, detentora das grandes energias e de um mana poderoso.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

Categorias: Deuses, Deuses Primordiais | Tags: , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Pégaso

Pegasus at the spring, Apulian red-figure vase C4th B.C., Tampa Museum of Art

Pégaso na primavera, vaso apúlio em pintura vermalha séc. IV a.C, Tampa Museum of Art, Flórida, EUA.

Πήγασος (Pégasos), Pégaso, deriva de πηγή (pégue), “fonte”, pelo fato de Pégaso ter feito nascer a fonte Hipocrene (fonte do cavalo), ferindo violentamente o monte Hélicon com uma patada. Talvez o nome do famoso cavalo prenda-se a πηγóς (pegós), “forte, sólido”.

Pégaso passa por ser filho de Posídon e de Medusa, ou da própria terra, fecundada pelo sangue da górgona. Conta-se que Perseu, a mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, grávida de Posídon, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso, ou, segundo uma variante, conforme se viu, este teria nascido de Gaia, “a terra”, fecundada pelo sangue da górgona.

Após relevantes serviços prestados a Perseu, o ginete divino voou para o Olimpo, onde se colocou a serviço de Zeus.

Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
tem este nome porque ao pé das águas do Oceano
nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos,
voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos
e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus,
portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio.
Teogonia, vv. 280-286.

A respeito da maneira como Pégaso desceu para ajudar Belerofonte, as tradições variam: Atena e Posídon o teriam levado ao herói ou este, por inspiração de Atena, o encontrara junto à fonte Pirene. Foi graças o ginete divino que Belerofonte pôde executar duas das grandes tarefas que lhe impusera Iobates: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Após a morte trágica do herói, Pégaso retornou para junto dos deuses.

BellerophonFightsChimera

Belerofonte cavalgando Pégaso e enfrentando a Quimera. Medalhão central de um mosaico romano restaurado encontrado em 1830, Museu Rodin, Paris.

No grande concurso de cantos entre as Piérides e as Musas, o monte Hélicon, sede do certame, se envaideceu e se enfunou tanto de prazer, que ameaçou atingir o Olimpo. Posídon ordenou a Pégaso que desse uma patada no monte, a fim de que ele voltasse às dimensões normais e guardasse “seus limites”. Hélicon obedeceu, mas, no local atingido por Pégaso, brotou uma fonte, Hipocrene, a Fonte do cavalo.

Pégaso, cavalo alado, está sempre relacionado com  a água, daí sua etimologia popular, como proveniente de pegué, fonte. Filho de Posídon e Medusa, teria nascido junto às fontes do Oceano. Belerofonte o encontrou bebendo na fonte Pirene. Com uma só patada fez brotar a Hipocrene, fonte do cavalo. Está também ligado às tempestades, por isso que é o “portador do trovão e do raio por conta do prudente Zeus”. Pégaso é, por conseguinte, uma fonte alada: fecundidade e elevação. O simples cavalo figura tradicionalmente a impetuosidade dos desejos. Quando o ser humano faz corpo com o cavalo, torna-se um monstro, como o Centauro, imaginação criadora sublimada e sua elevação real.

Birth_Of_Pegasus_by_LindaLisa

O nascimento de Pégaso por LindaLisa via Deviantart.

Com efeito, foi cavalgando Pégaso que Belerofonte matou a Quimera. Temos aí os dois sentidos da fonte e das asas: a fecundidade e a criatividade espiritual. É que, como dizia o poeta latino, alis grave nil, para os que têm ideal, as dificuldades não pesam tanto: nada é pesado quando se tem asas… Não é em vão que Pégaso se tornou o símbolo da inspiração poética.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

Categorias: Criaturas | Tags: , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Perseu: cumpre-se o oráculo

Ao retornar a Argos, seu avô, Acrísio, havia desaparecido. Por medo de que o antigo oráculo se tornasse realidade, abandonou o trono e fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Perseu tornou-se rei da cidade.

Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Perseu retornou a Argos extremamente triste. Não queria reinar no trono do avô que, sem querer, havia matado. Na vizinha Tirinto, o rei era Megapentes, filho de Preto, e a imensa inimizade entre Preto e Acrísio não fora herdada por Perseu e Megapentes. Sendo grandes amigos, concordaram em trocar seus reinos.

Perseu também é conhecido por ser o fundador e primeiro rei de Micenas, a mais rica, brilhante e poderosa cidade dos tempos míticos. Quando certa vez encontrou um bom sítio, um pouco além de Tirinto, resolveu fortificá-lo com um castelo e transferir para lá a sua capital. Os ciclopes o ajudaram muito na construção da cidade: eram os únicos, dizem, que poderiam erguer rochas colossais como aquelas que vemos nas muralhas de Micenas, as muralhas ciclópicas, como são chamadas desde então.

Perseu e Andrômeda viveram muitos anos e tiveram sete filhos. O mais velho deles, Perses, se tornou o primeiro rei dos persas e fundador desse grande povo. O segundo filho, Eléctrion, tornou-se mais tarde rei de Micenas. Sua filha, Alcmena, gerou Héracles, o grande herói da Grécia.

Todos esses fundadores, reis e heróis, descendem da linhagem do deus-rio Ínaco, o fundador e primeiro rei de Argos. Se colocarmos essas grande linhagem em ordem, para ver como chegamos a Perseu e Héracles, teremos: primeiro Ínaco, em seguida Io, depois Épafo, e então Líbia, Belo, Dânao, Hipermnestra, Abas, Acrísio, Dânae e Perseu. Depois virão Eléctrion, Alcmena e, finalmente, Héracles.

Sidney_Hall,_Perseus_and_Caput_Medusæ,_1825

Constelação de Perseu (1825) por Sidney Hall.

Perseu e Andrômeda reinaram em Micenas pacificamente e, quando morreram, não foram para o escuríssimo Hades, mas subiram ao céu, pois assim quis o pai de Perseu, o grande Zeus. Ainda hoje, qualquer um pode achar a constelação de Perseu, ao lado da constelação de Andrômeda. Um pouco mais além, encontram-se as de Cefeu e Cassiopeia, porque Andrômeda, quando morreu, ficou amargurada por não haver revisto os pais desde que se casara e, então, Zeus, o grande soberano do céu e da Terra, colocou Cefeu e Cassiopeia nas estrelas, ao lado da filha.

Sidney_Hall_-_Urania's_Mirror_-_Gloria_Frederici,_Andromeda,_and_Triangula

Constelação de Andrômeda por Sidney Hall.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

Categorias: Heróis | Tags: , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Lélape

Laelaps and Cadmean vixen

Minos possuía um cão de caça de força prodigiosa, chamado Lélape (em grego Λαιλαψ, Lailaps, “tempestade”), que jamais deixava escapar uma presa, e uma flecha que nunca errava o alvo. Zeus, anteriormente, ofertara à Europa muitos presentes valiosos, entre eles estava Lélape. Este foi transmitido de para um dos filhos de Europa, Minos. Por ter inúmeras amantes, o rei Minos tornou-se vítima de uma maldição de sua esposa, Pasífae: a cada vez que ele se unia a uma mulher, nasciam de seu corpo serpentes e escorpiões que a matavam imediatamente. Prócris, para libertá-lo de tal encantamento, deu-lhe uma erva que obtivera da feiticeira Circe, mas exigiu em troca o cão e a flecha. Mais tarde, ela os deu de presente a Céfalo, seu marido.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta que assolava a região, a Raposa de Têumesso – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

The Teumessian Fox and Laelaps

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

Categorias: Criaturas | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Pensamentos Flutuantes

Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

%d blogueiros gostam disto: