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Oceano

Oceanus in the Trevi Fountain, Rome

Oceano, em Fontana di Trevi, Roma, Itália.

’Ωκεανός (Okeanós), Oceano, sem etimologia ainda bem definida deve ser um empréstimo, uma vez que os indo-europeus  não tinham noção de “um rio original e universal”, nem tampouco possuíam uma palavra para designar “mar”. É possível que se trate de palavra mediterrânea com o sentido de “circular, envolver”.

Parece que Oceano, nas concepções primitivas helênicas, era concebido, a princípio, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras extremas do globo terráqueo. Pelo menos esta é a ideia que do mesmo faziam os Sumérios, segundo os quais a Terra estava sentada sobre o Oceano, o rio-serpente.

Tal conceito ajuda de muito a explicar a topografia de algumas façanhas de Héracles, deslocando-se de um ponto cardeal a outro por mar, bem como a localização dos Jardins das Hespérides, das Górgonas e de outros pontos geográficos imaginários. No mito grego, Oceano é a personificação da água que rodeia o mundo: é representado como um rio, o Rio-Oceano, que corre em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo em Prometeu Acorrentado: Oceano, cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

Quando, mais tarde, os conhecimentos geográficos se tornaram mais precisos, Oceano passou a designar o Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo antigo.

Filho de Gaia e Urano, é o mais velho dos Titãs, mas, extremamente “conciliador”, visto que jamais se indispôs com Zeus.

Representa o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, simboliza o poder e a fecundidade feminina do mar. Como deus, Oceano é o pai de todos os rios, que, segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceânides. Dentre os rios, Hesíodo cita particularmente o Nilo, Alfeu, Erídano, Estrímon, Meandro, Istro, Fásis, Reso, Aqueloo, Nesso, Ródiom Haliácmon, Heptáporo, Granico, Esepo, Símois, Peneu, Hermo, Caíco, Sangário, Ládon, Partênio, Eveno, Ardesco e Escamandro.

As Oceânides, que personificam os riachos, as fontes e as nascentes. Unidas a deuses e, por vezes, a simples mortais, são responsáveis por numerosa descendência. Dentre elas, as mais importantes no mito são: Estige, Admeta, Iante, Electra, Dóris, Urânia, Hipo, Clímene, Calírroe, Idiia, Pasítoe, Dione, Toe, Polidora, Perseis, Ianira, Acasta, Menesto, Europa, Métis, Eurínome, Telesto, Ásia, Calipso, Eudora e Ocírroe.

O Oceano, em razão mesmo de sua vastidão, aparentemente sem limites, é a imagem da indistinção e da indeterminação primordial.

De outro lado, o simbolismo do Oceano se une ao da água, considerada como origem da vida. Na mitologia egípcia, o nascimento da Terra e da vida era concebido como uma emergência do Oceano, à imagem e semelhança dos montículos lodosos que cobrem o Nilo, quando de sua baixa. Assim, a criação, inclusive a dos deuses, emergiu das águas primordiais. O deus primordial era chamado a Terra que emerge. Afinal, as águas simbolizam a soma de todas as virtualidades: são a fonte, a origem e o reservatório de todas as possibilidades de existência. Precedem a todas as formas e suportam toda a criação.

Oceano e suas filhas, as Oceânides, surgem na literatura grega como personagens da gigantesca tragédia de Ésquilo, Prometeu Acorrentado.

Oceano, apesar de personagem secundária na peça, um mero tritagonista, é finamente marcado por Esquilo: tímido, medroso e conciliador, está sempre disposto a ceder diante do poderio e da arrogância de Zeus. Com o caráter fraco de seu pai contrastam as Oceânides, que formam o Coro da peça: preferem ser sepultadas com Prometeu a sujeitar-se à prepotência do pai dos deuses e dos homens.

Mesmo quando os Titãs, após a mutilação de Urano, se apossaram do mundo, Oceano resolveu não participar das lutas que se seguiram, permanecendo sempre à parte como observador atento dos fatos. . .

Dada a pouca ou nenhuma importância dos Titãs Ceos, Crio e Hipérion no mito grego, a não ser por seus casamentos, filhos e descendentes, vamos diretamente a Crono.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Urano

UranusΟὐρανός (Uranós), Urano, “abóboda do céu, céu, firmamento”. A antiga etimologia que aproximava Uranós de Varuna foi descartada. O Varuna é, no panteão hindu, o patrono da realeza. É a personificação do Céu, enquanto elemento fecundador de Gaia.

Filho de Gaia na Teogonia de Hesíodo e, em outros poemas, de Éter e certamente de Hemera, o dia, na teogonia órfica Urano e Gaia são filhos de Nix, a noite.

Urano (Céu) era concebido como um hemisfério, a abóbada celeste, que cobria Gaia, a Terra, concebida como esférica, mas achatada: entre ambos se interpunham o Éter e o AR e, nas profundezas de Gaia, localizava-se o Tártaro, bem abaixo do próprio Hades. Mais adiante se falará da mutilação de Urano por Crono.

Do ponto de vista simbólico, o deus do Céu traduz uma proliferação criadora desmedida e indiferenciada, cuja abundância acaba por destruir o que foi gerado. Urano caracteriza assim a fase inicial de qualquer ação, com alternância de exaltação e depressão, de impulso e queda, de vida e morte dos projetos.

Deus celeste indo-europeu, símbolo da fecundidade, o deus do Céu é representado pelo touro. Sua fertilidade, todavia, é perigosa, além de inútil. A mutilação de Urano por Crono põe cobro a uma odiosa e estéril fecundidade e faz surgir Afrodite, nascida do esperma ensanguentado do deus, a qual introduz no mundo a ordem e a fixação das espécies, impossibilitando qualquer procriação desordenada e nociva. As três fases da evolução criadora seria, a saber: Urano (sem equivalente no mito latino) é a efervescência caótica e indiferenciada, chamada cosmogenia; Crono (Saturno) é o podador, corta e separa. Com um golpe de foice ceifa os órgãos de seu pai, pondo fim a secreções indefinidas. Ele é o tempo da paralisação. É o regulador que bloqueia qualquer criação no universo. É o tempo simétrico, o tempo da identidade. Sua fase denomina-se esquizogenia. O reino de Zeus (Júpiter) se caracteriza por uma nova partida, organizada e ordenada e não mais caótica e anárquica: esta chamada de autogenia. Após a descontinuidade, a criação e a evolução retomam seu caminho.

Urano unido em amor com a deusa-mãe Terra teve os seis Titãs, as seis Titânides, os três ciclopes e os três hecatônquiros.

Gaia e Urano

Gaia e Urano. Obra exposta na seção Cosmogonias e Cosmologia do Espaço do Conhecimento UFMG, Praça da Liberdade.

Tão logo nasciam os filhos, porém, Urano devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia, já curvada com tanto peso ou sentindo-se esgotada com o abraço sem tréguas do esposo, pediu aos filhos que a libertassem da opressão e da fecundidade inesgotável do marido. Todos se recusaram, exceto Crono, o caçula dos titãs. Gaia entregou-lhe uma foice (instrumento sagrado que cortas as sementes, e semente em grego é spérma, “esperma”) e quando o céu, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento do deus caiu sobre a Terra, concebendo esta, no tempo devido, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite.

Com a façanha de Crono, Urano separou-se de Gaia e, impotente, tornou-se um deus ocioso.

Uma interpretação inteiramente diferente do mito do deus do céu foi conservada por Diodoro Sículo (séc. I d.C.). Urano teria sido o primeiro rei dos atlantes, povo justo e respeitador dos deuses, cujo habitat seriam as margens do Oceano. O “deus” os civilizou e iniciou nas artes. Hábil astrônomo, Urano inventou o primeiro calendário, segundo os movimentos dos astros, prevendo o destarte os principais acontecimento que deveriam ocorrer no mundo. Ao morrer, foram-lhe concedidas honras divinas e acabou por ser identificado como o próprio céu. Na versão de Diodoro, Urano foi pai de quarenta e cinco filhos, sendo dezoito de titãs (que mais tarde se chamou Gaia). A ela devem os filhos genéricos de titãs. As filhas do civilizador dos atlantes chamavam-se Basileia (a rainha), mais tarde cognominada Cibele, e Reia, denominada Pandora. Basileia, que era de grande beleza, sucedeu ao pai no trono, e, unindo-se a seu irmão Hipérion, foi mãe de Hélio (Sol) e Selene (Lua). Como filhos de Urano, ainda são mencionados por Diodoro, Crono e Atlas.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Gaia

GaeaΓαῖα (Gaîa), Gaia, “Terra”, ainda não possui etimologia convincente. A forma γῆ (guê) tem o mesmo sentido que Γαῖα (Gaîa), “Terra”, por oposição a Céu. Esta última, no mito, é a Terra, concebida como elemento primordial e deusa cósmica, diferenciando-se, assim, teoricamente de Deméter, a terra cultivada. Embora de sentido idêntico, os dois vocábulos não possuem relação etimológica entre si. Já se tentou mostrar que γαῖα (gaîa) era uma contaminação de γῆ (guê) com αἶα (aîa), “grande mãe”, donde Gaia significaria a Terra-Mãe, mas trata-se de uma hipótese.

Segundo a Teogonia hesiódica, Gaia surgiu após o Caos e antes de Eros, que escraviza os membros dos deuses e dos homens.

Sem concurso de macho, isto é, por partenogênese, Gaia deu à luz Urano (o Céu), Óreas (as Montanhas) e Pontos (o Mar).

Unindo-se, em seguida, a Urano, foi mãe dos Titãs, denominados Oceano, Ceos, Crios, Hipérion, Jápeto, e Crono; das Titânides, Teia, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis. Ainda com Urano gerou os Ciclopes,  Arges, Estérope e Brontes, divindades ligadas aos raios, relâmpagos e trovões. Finalmente, também de seus amores com Urano, nasceram os Hecatônquiros, monstros de cem braços, chamados Cotos, Briareu e Giges.

Urano, porém, temendo ser destronado por um dos seus filhos, devolvia-os ao seio materno. Gaia, pesada e cansada, resolveu libertá-los e pediu o concurso dos filhos. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe a Terra-Mãe uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, à noite, se deitou “ávido de amor” sobre a esposa, o caçula cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento do Céu, todavia, caiu sobre a Terra, concebendo esta, no tempo devido, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Ninfas dos Freixos, símbolo da guerra e do sangue, uma vez que o cabo das laças era confeccionado com esta madeira. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma espumarada, de que nasceu Afrodite.

Gaia e Urano

Gaia e Urano. Obra exposta na seção Cosmogonias e Cosmologia do Espaço do Conhecimento UFMG, Praça da Liberdade.

Com a mutilação de Urano, Gaia uniu-se novamente a um de seus filhos, Pontos, e com ele teve cinco divindades marinhas: Nereu, Taumante, Fórcis, Ceto e Euríbia.

Tendo assumido o poder, Crono se uniu à irmã Reia e transformou-se num tirano mais despótico que o pai. De saída, porque temia os Ciclopes, seus irmãos, que ele havia libertado do Tártaro a pedido de Gaia, lançou-os novamente nas trevas, bem como os Hecatônquiros. Como Urano e Gaia, depositário da mântica, isto é, do conhecimento do futuro, lhe houvessem predito que seria destronado por um dos filhos, passou a engoli-los, à medida que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades ou Plutão e Posídon. Escapou apenas o caçula, Zeus. Grávida deste último, Reia fugiu para a ilha de Creta a conselho de Urano e Gaia, que lhe ensinaram como enganar Crono. Nascido o menino no monte Dicta, a mãe escondeu-o numa gruta profunda e, envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, que imediatamente a engoliu.

Atingida a idade adulta, Zeus iniciou, ajudado pelos irmãos, que haviam sido devolvidos à luz por Crono, uma terrível refrega contra este e os outros Titãs. O futuro pai dos deuses e dos homens obteve retumbante vitória, graças sobretudo às advertências e predições de Gaia, que lhe sugerira a libertação dos Ciclopes e dos Hecatônquiros, presos no Tártaro por Crono. Os Ciclopes, agradecidos, deram ao senhor do Olimpo os raios, relâmpagos e trovões e os Hecatônquiros, com seus cem braços, muito cooperaram para o triunfo. Gaia, porém, descontente com Zeus, que lançara no Tártaro os Titãs, excitou contra ele os terríveis Gigantes, nascidos do sangue de Urano. Derrotados também estes, a Terra-Mãe, num derradeiro esforço, uniu-se a Tártaro e gerou o mais horrendo dos monstros, Tífon ou Tifeu, que só foi derrotado após longos e indecisos combates.

Com o mesmo Tártaro foi mãe da disforme e cruel Equidna. Outras tradições e teogonias atribuem-lhe igualmente a maternidade de Triptólemo, de sua união com Oceano. De sua ligação com Posídon teria nascido Anteu, adversário de Héracles.

Na realidade, quase todo os monstros, como as Harpias, Píton, Caribdes, bem assim o dragão, que vigiava o velocino de outro a pedido de Eetes, e até mesmo Fama são considerados filhos de Gaia.

A pouco e pouco, no entanto, com a antropomorfização dos deuses e sua personificação, a Terra, reserva inesgotável de fecundidade, transmutou-se em mãe universal e mãe dos deuses. Tendo como hipóstase Cibele e Deméter, Gaia foi se afastando da mitologia para entrar nos domínios da filosofia.

Era a detentora e inspiradora de vários oráculos, bem mais antigos e tidos por alguns mitólogos como mais confiáveis que os de Apolo.

Gaia se opõe, simbolicamente, como princípio passivo ao princípio ativo; como aspecto feminino ao masculino da manifestação; como obscuridade à luz; como Yin ao Yang; como anima ao animus; como densidade, fixação e condensação à natureza sutil e volátil, isto é, à dissolução. Gaia suporta, enquanto Urano, o Céu, a cobre. Dela nascem todos os seres, porque Gaia é mulher e mãe. Suas virtudes básicas são a doçura, a submissão, a firmeza cordata e duradoura, não se podendo omitir a humildade, que, etimologicamente, prende-se a humus, “terra”, de que o homo, “homem”, que igualmente provém de humus, foi modelado. Ela é a virgem penetrada pela charrua e pelo arado, fecundada pela chuva ou pelo sangue, que são o spérma, a semente do Céu. Como matriz, concebe todos os seres, as fontes, os minerais e os vegetais. Gaia simboliza a função materna: é a Tellus Mater, a Mãe-Terra. Concede e retoma a vida. Prostrando-se ao solo, exclama Jó 1,21: Nu saí do ventre de minha mãe; nu para lá retornarei. Reuertere ad locum tuum, volta a teu lugar, é um lembrete que alguns cemitérios gostam de estampar. “Rasteja para a terra, tua mãe” (Rig Veda, X, 18,10), diz o poeta védico ao morto. Assimilada à mãe, a Terra é símbolo de fecundidade e de regeneração, como escreveu Ésquilo nas Coéforas, 127-128:

A própria Terra que, sozinha, gera todos os seres,
alimenta-os e depois recebe deles novamente o gérmen fecundo.

Gaia - Earth GoddessConsoante a Teogonia, a própria Gaia gerou a Urano, que a cobriu e deu nascimento aos deuses. Esta primeira hierogamia, quer dizer, casamento sagrado, foi imitado pelos deuses, pelos homens e pelos animais. Como origem e matriz da vida, Gaia recebeu o nome de Magna Mater, a Grande Mãe. Guardiã da semente e da vida, em todas as culturas sempre houve “enterros” simbólicos, análogos às imersões batismais, seja com a finalidade de fortalecer as energias ou curar, seja como rito de iniciação. De toda forma, esse regressus ad uterum, essa descida ao útero da terra, tem sempre o mesmo significado religioso: a regeneração pelo contato com as energias telúricas; morrer para uma forma de vida, a fim de renascer para uma vida nova e fecunda. É por isso que nos Mistérios de Elêusis se efetuava uma καταβάσις είς ᾄντρον (katábasis eis ántron), uma descida à caverna, onde se dava um novo nascimento. Para vencer o gigante Anteu, Héracles teve que segurá-lo no ar e sufocá-lo, já que o gigante readquiria todas as suas forças e energias, cada vez que tocava a Terra, sua mãe. Mater, mãe, tem a mesma raiz que materia, “madeira”: pois bem, quando se quer atrair a sorte ou afastar o azar, bate-se três vezes na matéria, na madeira, isto é, na mater, na mãe, detentora das grandes energias e de um mana poderoso.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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