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Pégaso

Pegasus at the spring, Apulian red-figure vase C4th B.C., Tampa Museum of Art

Pégaso na primavera, vaso apúlio em pintura vermalha séc. IV a.C, Tampa Museum of Art, Flórida, EUA.

Πήγασος (Pégasos), Pégaso, deriva de πηγή (pégue), “fonte”, pelo fato de Pégaso ter feito nascer a fonte Hipocrene (fonte do cavalo), ferindo violentamente o monte Hélicon com uma patada. Talvez o nome do famoso cavalo prenda-se a πηγóς (pegós), “forte, sólido”.

Pégaso passa por ser filho de Posídon e de Medusa, ou da própria terra, fecundada pelo sangue da górgona. Conta-se que Perseu, a mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, grávida de Posídon, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso, ou, segundo uma variante, conforme se viu, este teria nascido de Gaia, “a terra”, fecundada pelo sangue da górgona.

Após relevantes serviços prestados a Perseu, o ginete divino voou para o Olimpo, onde se colocou a serviço de Zeus.

Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
tem este nome porque ao pé das águas do Oceano
nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos,
voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos
e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus,
portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio.
Teogonia, vv. 280-286.

A respeito da maneira como Pégaso desceu para ajudar Belerofonte, as tradições variam: Atena e Posídon o teriam levado ao herói ou este, por inspiração de Atena, o encontrara junto à fonte Pirene. Foi graças o ginete divino que Belerofonte pôde executar duas das grandes tarefas que lhe impusera Iobates: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Após a morte trágica do herói, Pégaso retornou para junto dos deuses.

BellerophonFightsChimera

Belerofonte cavalgando Pégaso e enfrentando a Quimera. Medalhão central de um mosaico romano restaurado encontrado em 1830, Museu Rodin, Paris.

No grande concurso de cantos entre as Piérides e as Musas, o monte Hélicon, sede do certame, se envaideceu e se enfunou tanto de prazer, que ameaçou atingir o Olimpo. Posídon ordenou a Pégaso que desse uma patada no monte, a fim de que ele voltasse às dimensões normais e guardasse “seus limites”. Hélicon obedeceu, mas, no local atingido por Pégaso, brotou uma fonte, Hipocrene, a Fonte do cavalo.

Pégaso, cavalo alado, está sempre relacionado com  a água, daí sua etimologia popular, como proveniente de pegué, fonte. Filho de Posídon e Medusa, teria nascido junto às fontes do Oceano. Belerofonte o encontrou bebendo na fonte Pirene. Com uma só patada fez brotar a Hipocrene, fonte do cavalo. Está também ligado às tempestades, por isso que é o “portador do trovão e do raio por conta do prudente Zeus”. Pégaso é, por conseguinte, uma fonte alada: fecundidade e elevação. O simples cavalo figura tradicionalmente a impetuosidade dos desejos. Quando o ser humano faz corpo com o cavalo, torna-se um monstro, como o Centauro, imaginação criadora sublimada e sua elevação real.

Birth_Of_Pegasus_by_LindaLisa

O nascimento de Pégaso por LindaLisa via Deviantart.

Com efeito, foi cavalgando Pégaso que Belerofonte matou a Quimera. Temos aí os dois sentidos da fonte e das asas: a fecundidade e a criatividade espiritual. É que, como dizia o poeta latino, alis grave nil, para os que têm ideal, as dificuldades não pesam tanto: nada é pesado quando se tem asas… Não é em vão que Pégaso se tornou o símbolo da inspiração poética.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Quimera

Chimera. Apulian red-figure dish, ca. 350-340 BC, Louvre Museum III.jpg

Quimera, representação em um prato (~350-340a.C.), Museu do Louvre, Paris.

Χίμαιρα (Khímaira), Quimera, ainda não possui etimologia clara. A relação etimológica entre χίμαρος (khímaros), “cabrito”, e χίμαιρα (khímaira), “cabrita de um ano, nascida no ano anterior” é defendida por alguns etimólogos.

O sentido mais comum dado a Quimera, no mito, é de um monstro, filha de Tífon e de Equidna que tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Cérbero e os criaturas terríveis.

São muitas formas por que se apresenta Quimera, mas a fusão de cabra com o leão é uma constante. Trata-se, pois, de um monstro híbrido, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente e, segundo outros, de três cabeças diferentes: na frente, um leão; atrás, um dragão (ou serpente) e, no meio, uma cabra selvagem. A cabeça da caprina era a mais perigosa, pois cuspia fogo pela boca. Segundo outra versão, as chamas eram lançadas pelas narinas da cabeça de serpente.

Criada por Amisódaro, rei da Cária, vivia em Patera, devastando a região e sobretudo devorando os rebanhos. Por toda a redondeza, a Quimera espalhava a catástrofe e a morte. E não eram só os homens e os animais que ela matava e fazia em pedaços; de sua fúria destruidora não se salvavam nem as lavouras, nem os frondosos bosques. Tudo se queimava com as chamas que ela lançava de sua boca caprina.

Ela [Equidna] pariu a Cabra que sopra irrepelível fogo,
a terrível e grande e de pés ligeiros e cruel,
tinha três cabeças: uma de leão de olhos rútilos,
outra de cabra, outra de víbora, cruel serpente.
Na frente leão, atrás serpente, no meio cabra,
expirando o terrível furor do fogo aceso.
Teogonia, vv. 319-324

Cavalgando Pégaso, cavalo alado, Belerofonte, de um só golpe, cortou as cabeças da Quimera. Outra tradição conta que Belerofonte matou a quimera com muitas flechadas.

  Chimere 3

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Medusa

Medusa (1595-96), by Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Medusa (1595-96), por Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Μέδουσα (Médusa), Medusa, é um particípio presente feminino do verbo μέδειν (médein), “comandar, reinar sobre”, donde Medusa é “a que comanda, a que reina”. Etimologicamente, Médusa, está presa à raiz indo-europeia med-, que, em outras línguas aparece com significações diversas: latim modus, “medida, moderação”, meditari, “refletir, meditar”. No irlandês antigo midiur é “eu penso, eu julgo”. Esta noção de pensamento que “regula, modera” está presente no osco mediss, “aquele que julga”, umbro mers, “direito”. Por vezes, o radical med- forneceu termos relativos à medicina, “o médico que regula, domina a doença”, daí o latim mederi, “cuidar de”, medicus, “o que cuida de”. No germânico a raiz se especializou no sentido de “medir, avaliar”, gótico mitan, anglo-saxão metan, antigo alemão messen. Em síntese, o sentido geral da raiz med-, que originou Medusa, “é assumir com autoridade as medidas apropriadas”

Das três Górgonas só Medusa era mortal. Filha de Fórcis e Ceto, vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano, junto ao país das Hespérides. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de serem figuras terríveis, seus olhos eram flamejantes e o olhar tão penetrante, que transformavam em pedra quem as fixasse. Eram espantosas e temidas não só pelos homens, mas também pelos deuses.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Apenas Posídon ousou aproximar-se de Medusa e fazê-la mãe de Crisaor e Pégaso. Encarregado por Polidectes de lhe trazer a cabeça da górgona, Perseu viajou para o Ocidente. Utilizando determinados objetos mágicos, que pegou emprestado com as ninfas estígias, e sobretudo o seu escudo de bronze, o filho de Dânae pairou acima dos três monstros, graças às sandálias aladas. As górgonas dormiam profundamente. Sem poder olhar diretamente para Medusa, o herói refletiu-lhe a cabeça no escudo e, com a espada que lhe dera Hermes, decapitou o monstro.

Do pescoço ensanguentado de Medusa saíram dois seres engendrados pelo deus Posídon: Crisaor e Pégaso.

Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano
os confins da noite (onde as Hespérides cantoras):
Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto,
era mortal, as outras imortais e sem velhice
ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta
no macio prado entre flores de primavera.
Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
Teogonia, vv. 274-281.

Perseu utilizou a cabeça recém decepada como arma. Em sua viagem de retorno, num ato descuidado, petrificou o titã Atlas. Posteriormente cabeça de Medusa foi colocada por Atena em seu escudo ou no centro da égide. Assim os inimigos da deus eram transformados em pedra, se olhassem para ela. O sangue que escorreu do pescoço da górgona foi recolhido por Perseu, uma vez que este era detentor de propriedades mágicas: o que flui na veia esquerda era um veneno mortal, instantâneo; o da veia direita era uma remédio salutar, capaz até mesmo de ressuscitar os mortos.

Cabeza de Medusa, por Peter Paul Rubens (1617-18)

Cabeça da Medusa (1617-18), por Peter Paul Rubens, Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de suas madeixas. Tendo, porém, ousado competir em beleza com Atena, esta eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em górgona.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte

Sísifo: a sagacidade, o castigo

Belerofonte, o neto de Sísifo

Belerofonte contra a Quimera: preliminares

Belerofonte contra a Quimera: Pégaso é domado

Belerofonte contra a Quimera

Belerofonte e Iobates

Belerofonte sobe ao Olimpo

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Belerofonte contra a Quimera

The Winged Horse, by Mary Hamilton Frye (1914)

Belerofonte e Pégaso, por Mary Hamilton Frye (1914).

Depois de domar Pégaso, Belerofonte conduziu o já manso animal à fonte e, tendo ambos bebido água, montou nele. Puxou um pouco as rédeas, ao que imediatamente o cavalo abriu as grandes asas brancas e, com Belerofonte às costas, voou  em direção ao céu. O sonho se tornara realidade!

Agora, conduzindo Pégaso, o herói não se fartava de apreciar aquele incrível voo nas alturas. Enquanto seu peito se enchia de ar puro, seus olhos presenciavam um espetáculo grandioso. Como que enfeitiçado, via a terra de cima e olhava as montanhas com bosques verdejantes, os rios que reluziam ao sol, o mar e suas muitas ilhas… Então o herói tomou forças, voando assim como um deus, em companhia das nuvens.

Não tardaram a chega à Lícia. Belerofonte vasculhou por toda parte para descobrir onde morava a Quimera. Logo chegaram a um lugar deserto, sem árvore alguma. O herói conduziu Pégaso mais baixo para ver melhor.

Não havia uma folha verde sequer, em lugar nenhum. Apenas troncos de árvores queimadas encontravam-se aqui e ali. Entre eles estavam espalhados ossos de animais e, às vezes, de humanos também. Era evidente que em algum lugar por ali deveria estar o covil do monstro.

Belerofonte montado Pégaso e matando a Quimera. Medalhão central restaurado de um mosaico romano de mais de 100m² descoberto em 1830 em Autun, França.

Belerofonte montado Pégaso e matando a Quimera. Medalhão central restaurado de um mosaico romano de mais de 100m² descoberto em 1830 em Autun, França.

Mas eis que a Quimera saiu de seu abrigo. Percebendo que algo incomum acontecia, quis ver do que se tratava. O herói, junto com Pégaso, atentou para ela. Era um monstro repugnante e assustador, mas Belerofonte não teve medo. Pégaso apenas voou mais alto nesse instante, e felizmente, porque a Quimera começou a vomitar fogo pela boca caprina. Se as chamas tocassem o herói e seu cavalo, estariam ambos perdidos.

A besta, vendo que eles haviam escapado, enfureceu-se e começou a berrar e silvar terrivelmente, arremessando o mais longe que podia suas chamas, que brilhavam como relâmpagos em meio ao céu nublado: parecia que uma furiosa tempestade estava prestes a cair.

Bellerophon and the Chimaera, by Walter Crane

Belerofonte mata a Quimera, por Walter Crane.

Belerofonte nem assim teve medo. Montado em Pégaso, voava alto o suficiente para que as chamas não pudessem atingi-los. E agora havia chegado sua vez! Com movimentos lentos e seguros, ele retirou o arco do ombro: em seguida, pegou uma flecha da aljava, retesou o arco com toda a força, apontou cuidadosamente e, quando disparou, um assobio rasgou o ar. Logo um urro pavoroso mostrou que a seta não errara o alvo. Lépido, Belerofonte pegou outra flecha e atirou de novo. Depois outra e outra. A cada tiro ouviam-se os urros de aflição da Quimera. Incapaz de resistir, o monstro levou tantas flechadas que, num espasmo estrondoso, desmoronou morto no chão. A invencível Quimera foi vencida.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: Pégaso é domado

O filho de Glauco, porém, não ficou desencorajado e rumou para a Grécia. Ao chegar, perguntou por toda parte onde vivia Pégaso, mas as pessoas o olhavam com estranheza, pois nenhum jamais vira o cavalo alado com os próprios olhos.

Pegasus 11


Sobre Pégaso:
Belíssimo cavalo alado, com asas grandes, que voava graciosamente pelos céus. Filho de Posídon e Medusa, nasceu, juntamente com o irmão gigante Crisaor, quando a górgona teve sua cabeça decapitada por Perseu. Pégaso era uma cavalo arisco e selvagem, pois gostava de voar livremente e não admitia ser montado por ninguém, fosse mortal ou imortal. 


“Se os homens não sabem”, pensou Belerofonte, “talvez o saibam as ninfas, as nereidas, as Musas!”. Com esse pensamento se pôs a caminho do Hélicon, a montanha de muitas fontes e densas florestas, onde se dizia que viviam várias dessas divindades. O herói subiu as encostas arborizadas, prosseguiu entre os vales frondosos e, depois de caminhar por bastante tempo, chegou a uma fonte. Milhares de plátanos ocultavam o céu e as encostas escarpadas; rochas rodeavam aquele lugar encantador, que parecia inexplorado… Mas eis que, em meio ao murmúrio da água e o gorjeio dos passarinhos, ouviram-se de repente alegres vozes femininas e canções. Vieram à mente do herói as Musas do Hélicon. Realmente, três moas lindíssimas, iguais a deusas, logo surgiram diante dele e ofereceram sua ajuda. Quando Belerofonte disse que queria encontrar Pégaso, as Musas ficaram surpresas:

– O que você pede não é nada fácil! Você não tem sorte. Se tivesse vindo um pouco mais cedo, o encontraria aqui! Esta fonte que está vendo foi ele próprio quem fez e, por isso, se chama Hipocrene. Ao bater sua pata na rocha, a água jorrou. Pégaso se encontra agora em Acrocotrinto, onde há uma outra fonte sua, criada da mesma maneira, chamada Pirene. Vá para lá e pode ser que o encontre. Apenas mantenha-se  a distância, porque Pégaso não deixa que ninguém se aproxime dele. Ainda que consiga chegar perto, não tente montá-lo! Ele é muito selvagem e, se quiser fazer isso, perderá a vida nessa vã tentativa!

Contudo. Belerofonte não desanimou. Satisfeito com as informações, despediu-se das Musas e tomou o rumo de Acrocorinto. A ideia  de libertar a terra de Iobates da fúria destruidora da Quimera lhe dava coragem, e o pensamento de cavalgar Pégaso o encantara tanto, que de modo algum lhe passou pela cabeça recuar diante do perigo.

Marchando para Acrocorinto, Belerofonte avistou um templo dedicado à deusa Atena. Entrou, pôs-se de pé em frente à estátua da deusa, reverenciou-a humildemente e pediu-lhe que o ajudasse a encontrar e domar Pégaso. Em seguida, como era tarde e o Sol já tinha se posto, esticou-se em um canto do lado de fora do templo. Cansado, logo pegou no sono. Em sonho, viu a própria deusa Atena, que segurava entre as mãos uma rédea dourada:

– Belerofonte, filho de Posídon! – disse ela – Saiba que Pégaso é seu irmão, uma vez que também é filho do deus do mar. Porém, não é por isso que vai deixar você montá-lo. Tome estas rédeas; são mágicas. Se as colocar em Pégaso, ele se tornará tão obediente a você quanto o mais calmo dos cavalos.

Belerofonte logo estava voando pelo céu montado em Pégaso. Era incrível. Era mágica, mas uma mágica que não era real, nem durou muito, pois logo o herói acordou e se viu deitado sobre a terra.

Desapontado por tudo não passar de um sonho, decidiu levantar-se, quando enxergou uma rédea ao seu lado. Era a mesma rédea dourada que a deusa lhe dera em sonho. Tomou-a nas mãos. Desta vez não era sonho! Ele realmente tinha em suas mãos rédeas mágicas, com as quais poderia domar Pégaso!

Imediatamente Belerofonte retomou seu caminho para Acrocorinto. Logo encontrou a fonte Pirene, escondeu-se atrás de um arbusto e esperou. A cada farfalhar das folhas, virava a cabeça, pensando ser o cavalo que procurava. De repente, um estranho barulho de bater de asas o fez olhar para o céu e lá estava Pégaso!

Bellerophon on Pegasus, Walter Crane (1892)

Belerofonte montando Pégaso, por Walter Crane (1892).

Belerofonte olhava encantado para ele. Percebeu que precisava se esconder melhor e abaixou-se atrás do arbusto. Em pouco tempo Pégaso desceu até a fonte, bem em frente ao esconderijo do herói.

Apesar de não ter visto Belerofonte, o cavalo percebeu que havia alguém por perto e ficou arisco. Olhando para a esquerda e para a direita, relincho alto, enquanto movia as asas de modo ameaçador. O herói não se acovardou, e ficou esperando que surgisse a oportunidade. Entretanto, não havia jeito de Pégaso se acalmar. Então, o herói pegou uma pedra e jogou-a por sobre o dorso do cavalo para dentro e um arbusto. Ao escutar o barulho no arbusto, Pégaso virou a cabeça naquela direção e, de orelhas em pé, tentou descobrir o que era, ficando quase imóvel. Como um raio, Belerofonte saltou de seu esconderijo e, antes que Pégaso pudesse fazer o menos movimento, passou-lhe as rédeas.

O cavalo, pego de surpresa, virou-se e viu que Belerofonte, naquele momento, o acariciava no pescoço enquanto segurava-o firme pelas rédeas. Ao compreender o que havia acontecido, o cavalo sequer procurou fugir; em vez disso, relinchou amigavelmente, demonstrando submissão. O selvagem Pégaso havia sido domado.

Jan Boeckhorst , Pegaso (1675-1680)

Pégaso, por Jan Boeckhorst (1675-1680), Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: preliminares

Após receber a carta de seu genro Preto dizendo que Belerofonte tentara violar a sua filha, Iobates teve uma ideia para se livrar do herói e disse-lhe:

– Há por aqui uma fera abominável que nos faz estragos terríveis, a Quimera, a qual ninguém ousa enfrentar. Se fosse jovem como você, iria eu mesmo! Mas agora já não tenho a força da juventude e, por isso, pensei em você, que é forte e audacioso. Acredito que poderá fazer o que lhe peço.

Belerofonte aceitou diligentemente e Iobates ficou satisfeito em achar um modo de executar o pedido de seu genro. Afinal, tinha certeza de que o jovem encontraria a morte lá onde o enviara.


Sobre a Quimera:
ChimereEra um monstro invencível e assustador. Filha de Tífon e Equidna tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Cérbero e os criaturas terríveis. Tinha três cabeças diferentes: na frente, um leão; atrás, um dragão e, no meio, uma cabra selvagem. A cabeça da cabra era a mais perigosa, pois cuspia fogo pela boca. Por toda a redondeza, a Quimera espalhava a catástrofe e a morte. E não eram só os homens e os animais que ela matava e fazia em pedaços; de sua fúria destruidora não se salvavam nem as lavouras, nem os frondosos bosques. Tudo se queimava com as chamas que ela lançava de sua boca caprina.


Como derrotar tal monstro só com entusiasmo e força?! Belerofonte, que compreendia a dificuldade da tarefa, foi encontrar-se com o sábio adivinho Polieido, para pedir seu conselho. Polieido disse que a Quimera só seria derrotada por aquele que cavalgasse Pégaso, filho de Posídon, o cavalo alado e imortal que brotou do pescoço da górgona Medusa quando foi morta pelo herói Perseu. Porém, o adivinho não sabia dizer a exata localização do cavalo alado, só sabia que ele circulava pelas montanhas e céus da Grécia e que evitava os homens.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu contra Medusa

A proeza que Perseu deveria realizar não era apenas inatingível: era morte certa. Assim que ele fitasse a terrível górgona, prontamente se faria estátua pétrea, sem vida.

Medusa 18


Sobre a Medusa:
Medusa vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de ser uma figura terrível, ainda podia petrificar que olhasse em seus olhos.


Perseu era filho de Zeus, o grande soberano dos deuses e dos homens. E Zeus não deixaria que seu filho morresse. Assim, designou dois deuses para ajudá-lo: Hermes presenteou Perseu com a única espada que poderia cortar de uma só vez a cabeça da terrível Medusa: feita de diamante, a arma era capaz de cortar até ferro; Atena, por sua vez, deu-lhe um escudo tão reluzente que podia servir de espelho e disse: “Como você não pode fitar o rosto de Medusa, olhará para o seu reflexo no espelho e, assim, terá como lhe cortar a cabeça sem virar pedra”.

Em seguida, a deusa conduziu Perseu a Samos, onde havia três imagens de corpo inteiro das górgonas.

– Veja qual delas é Medusa. Estou lhe dizendo isso para que não cometa um engano e tente matar umas das outras duas, pois são imortais! Mas saiba que o perigo não será menor quando quiser cortar a cabeça da Medusa. Vá ao encontro das ninfas do Estige, e elas lhe concederão o aparato necessário à tarefa. Não sei dizer onde encontrá-las; nem eu nem homem ou deus algum, somente as três greias, que você poderá encontrar perto da terra das hespérides. Elas, porém,são irmãs da Medusa e só revelarão onde vivem as ninfas à força.

A deusa então mostrou a Perseu o caminho para a morada das três greias e lhe garantiu que ele as reconheceria facilmente. Afinal, eram muito velhas. E o mais estranho: as três tinham somente um olho e um dente, que partilhavam.

GreiasDepois de um longo caminho, Perseu as encontrou. Chegou bem na hora que uma delas tirava o olho e o passava à irmã. Quando o braço de uma se estendeu para entregar o olho à outra, Perseu interpôs-se, e o objeto foi colocado bem na palma de sua mão. Imediatamente ela agarrou o olho e disse: “Lá se vai o olho de vocês! Não o terão de volta se não me disserem onde encontrar as ninfas estígias!”.

O golpe foi inesperado para as greias. Ficaram contrariadas e não sabiam o que fazer. Moviam seus braços às cegas, tentando apanhar Perseu. Não queriam dizer de jeito nenhum onde moravam as ninfas, porque elas tinham as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica. E as greias sabiam que quem tivesse esses apetrechos em seu poder estaria em busca de matar Medusa, e poderia fazê-lo. Quando se deram conta que não reaveriam o olho, começaram a implorar Perseu, mas ele se manteve firme. As três velhas ficaram em pânico e, aterrorizadas, gritaram a uma só voz onde as ninfas poderiam ser encontradas.

Perseus and the Sea Nymphs, by Edward Burne Jones (1877)

Perseu e as Ninfas, por Edward Burne Jones (1877).

Perseu devolveu o olho e foi ao encontro das ninfas. Ao dizer-lhes o que se encarregara de fazer, obteve delas, prontamente, o que fora buscar. Uma lhe trouxe as sandálias aladas, com as quais poderia voar; outra, o capacete de Hades, que o tornaria invisível; a terceira lhe deu um saco mágico, que aumentava e diminuía, envolvendo coisas de qualquer tamanho.

– É para colocar aí dentro a cabeça da Medusa: mesmo decepada, ela tem o poder de transformar em pedra quem olhar para ela.

Perseu apanhou os apetrechos e seguiu. Com as sandálias aladas, voava veloz e graciosamente pelo céu. Não tardou a chegar à ilha das górgonas, quando então colocou o capacete e se tornou invisível. Lá do alto avistou as três. Em volta delas, e por toda a ilha, viam-se imagens humanas de pedra, fustigadas pela chuva e pelo vendo.

Agora Perseu olhava somente pelo reflexo de seu escudo. Àquela hora, as três estavam dormindo, e o herói se aproximou rapidamente. Logo distinguiu Medusa, e,  nessa hora difícil, Atena estava a seu lado. Dava-lhe ânimo e estava pronta para lhe guiar a mão. Com cuidado, Perseu olhou no espelho, calculou corretamente e, com um golpe certeiro da espada, decepou a horrorosa cabeça. Do pescoço cortado de Medusa, saltou primeiro um cavalo alado, Pégaso, e em seguida um gigante, Crisaor, ambos filhos de Posídon. O destino escrevera que eles nasceriam do pescoço de Medusa quando um certo herói lhe cortasse a cabeça.

Perseu enfiou a cabeça na sacola e voou para o céu, enquanto o corpo da górgona despencava para o mar. Mas o barulho acordou as duas irmãs do monstro. Vendo Medusa morta, saíram de imediato à procura do assassino, mas nada viram. Então, abriram as asas e voaram em direção ao céu. Perseu, todavia, já estava totalmente invisível e elas voltaram, desoladas.

The Birth of Pegasus and Chrysaor (1876-1885) by Edward Burne-Jones, gouache, Southampton City Art Gallery.

O nascimento de Pégaso e Crisaor, por Edward Burne-Jones (1876-1885).

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Bestiário

Anteu (gigante)
Argos
Aves do Estínfalo
Cavalos de Diomedes
Centauros
Cérbero
Ceto
Ciclopes
Corsa Cerinita
Coto (hecatônquiro)
Dragão da Cólquida
Egéon/Briareu (hecatônquiro)
Equidna
Esfinge
Fênix
Folos (centauro)
Gérion (gigante)
Giges (hecatônquiro)
Górgonas
Grifo
Hecatônquiros/Centimanos
Hidra de Lerna
Hipocampo
Javali de Erimanto
Javali do Cálidon
Ládon
Leão de Nemeia
Lélape
Mantícora
Medusa (górgona)
Minotauro
Nesso (centauro)
Ortro
Pégaso
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Pensamentos Flutuantes

Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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