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A loucura de Héracles

Héracles teve três filhos com sua primeira esposa, Mégara. O casal era muito feliz, porém a felicidade do herói e suas vitórias cada vez mais gloriosas provocaram um amargo ressentimento em Hera, que resolveu causar-lhe mal outra vez.

Certa feita, quando Héracles, cheio de alegria, observava seus filhos brincando, Ate – a deusa do engano –  surgiu silenciosamente atrás dele, jogando-lhe sobre os olhos um véu invisível que tinha o poder mágico de turvar o raciocínio. A visão do herói perturbou-se e, em vez de sues filhos, viu três dragões colossais prontos a atacar. Agarrando cadeiras, mesas e tudo o mais a seu alcance, Héracles quebrou-os sobre o que pensava serem as cabeças dos monstros enormes e assim matou sua prole.

Depois, tomado de uma raiva demoníaca, destroçou tudo quanto havia no palácio, enquanto os que estavam lá dentro empurravam-se pelas portas ou atiravam-se das janelas, procurando escapar à agitação selvagem do homem mais forte do mundo, até que o palácio de Creonte foi reduzido a um monte de pedras.

Ate voltou e retirou o véu invisível. Então, o desafortunado pai viu, entre os destroços, não dragões, mas mortos os seus três filhos. Seus olhos não podiam acreditar na verdade terrível que os outros lhe contavam. Como pudera matar com as próprias mãos os filhos que tanto amava?

 

A loucurade de Héracles

Um desenho de linha 1889 do herói grego Héracles (aflito com algo parecido com transtorno de estresse pós-traumático provocado pela violência que causou contra seus filhos), pelo artista August Baumeister. Origina-se em uma pintura de vasos gregos-siciliano assinado por Asteas (350-320 a.C.), que descreve uma peça de teatro do dramaturgo Eurípides em que o Héracles está prestes a imolar o primeiro de seus três filhos, enquanto sua esposa tenta escapar de sua ira psicótica.

Por causa dessa ação horrenda, Creonte ordenou que Héracles abandonasse Tebas imediatamente, e sua esposa que mandou informá-lo de que nunca mais queria vê-lo. Antes, porém, que lhe dissessem algo, o triste herói tomara o caminho do exílio por sua própria vontade e, vagando sem destino, foi dar nas terras de Téspio.

Lá, numa voz rouca e angustiada, contou a seu amigo, o rei Téspio, o vil crime que cometera; depois disso, apesar de sua força e coragem, não resistiu e chorou como uma criança, implorando ajuda.

Téspio teve pena de Héracles e recebeu-o como convidado, fazendo tudo o que estava a seu alcance, procurando ajudar o herói a esquecer o ocorrido. Tudo em vão; nada podia apagar de sua memória aquele cenário terrível.

E assim o tempo passou, até que um dia chegaram mensageiros de Micenas, informando a Téspio que o rei Estênelo morrera e seu filho, Euristeu, reinava em seu lugar. Traziam, também, uma mensagem  do novo rei destinada a Héracles. O herói estava sentado ali perto, silencioso, perdido em tristes pensamentos: mas, ao ouvir seu nome, levantou-se, pegou a carta e leu-a:

“Eu, o grande rei de Micenas”, dizia a carta, “a quem Zeus deu o direito de governar todas as pessoas da Hélade, agora ordeno a Héracles, filho de Anfítrion, que passe a me servir para realizar grandes trabalhos que trarão glórias para meu nome e meu reinado. Assim eu, Euristeu, filho de Estênelo e descendente de Zeus pelo herói Perseu, decreto.”

Quando Héracles acabou de ler aquela convocação, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Téspio, que viu a presunção ridícula da ordem de Euristeu, aconselhou-o a não ir. Mas os deuses não eram da mesma opinião. O grande Zeus estava amarrado pelo juramento de há tantos anos e nada podia fazer. Agora Hera tinha a palavra, e seu ódio pelo filho de Alcmena era mortal. Fazendo com que um fanfarrão digno de dó como Euristeu desse uma ordem a Héracles, ela poderia, além de humilhar o herói, provocar seu fim.

Contudo, os perigos da incumbência não assustavam Héracles, e, quanto a humilhação, isso era exatamente o que ele buscava para se redimir do crime contra seus próprios filhos.

A única coisa que o fazia hesitar era a ideia de servir a um homem indigno e desprezível. Será que não faria mais mal do que bem à raça humana? Em sua confusão, decidiu consultar o oráculo de Delfos. A resposta foi a seguinte:

– Vá a Micenas e fique a serviço de Euristeu. Ele ordenará que realize doze grandes trabalhos. Só quando tiver completado o último deles é que os deuses perdoarão seu crime contra seus filhos.

Héracles sentiu-se aliviado com as palavras do oráculo e, afinal, sabia que caminho seguir.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Perseu: cumpre-se o oráculo

Ao retornar a Argos, seu avô, Acrísio, havia desaparecido. Por medo de que o antigo oráculo se tornasse realidade, abandonou o trono e fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Perseu tornou-se rei da cidade.

Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Perseu retornou a Argos extremamente triste. Não queria reinar no trono do avô que, sem querer, havia matado. Na vizinha Tirinto, o rei era Megapentes, filho de Preto, e a imensa inimizade entre Preto e Acrísio não fora herdada por Perseu e Megapentes. Sendo grandes amigos, concordaram em trocar seus reinos.

Perseu também é conhecido por ser o fundador e primeiro rei de Micenas, a mais rica, brilhante e poderosa cidade dos tempos míticos. Quando certa vez encontrou um bom sítio, um pouco além de Tirinto, resolveu fortificá-lo com um castelo e transferir para lá a sua capital. Os ciclopes o ajudaram muito na construção da cidade: eram os únicos, dizem, que poderiam erguer rochas colossais como aquelas que vemos nas muralhas de Micenas, as muralhas ciclópicas, como são chamadas desde então.

Perseu e Andrômeda viveram muitos anos e tiveram sete filhos. O mais velho deles, Perses, se tornou o primeiro rei dos persas e fundador desse grande povo. O segundo filho, Eléctrion, tornou-se mais tarde rei de Micenas. Sua filha, Alcmena, gerou Héracles, o grande herói da Grécia.

Todos esses fundadores, reis e heróis, descendem da linhagem do deus-rio Ínaco, o fundador e primeiro rei de Argos. Se colocarmos essas grande linhagem em ordem, para ver como chegamos a Perseu e Héracles, teremos: primeiro Ínaco, em seguida Io, depois Épafo, e então Líbia, Belo, Dânao, Hipermnestra, Abas, Acrísio, Dânae e Perseu. Depois virão Eléctrion, Alcmena e, finalmente, Héracles.

Sidney_Hall,_Perseus_and_Caput_Medusæ,_1825

Constelação de Perseu (1825) por Sidney Hall.

Perseu e Andrômeda reinaram em Micenas pacificamente e, quando morreram, não foram para o escuríssimo Hades, mas subiram ao céu, pois assim quis o pai de Perseu, o grande Zeus. Ainda hoje, qualquer um pode achar a constelação de Perseu, ao lado da constelação de Andrômeda. Um pouco mais além, encontram-se as de Cefeu e Cassiopeia, porque Andrômeda, quando morreu, ficou amargurada por não haver revisto os pais desde que se casara e, então, Zeus, o grande soberano do céu e da Terra, colocou Cefeu e Cassiopeia nas estrelas, ao lado da filha.

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Constelação de Andrômeda por Sidney Hall.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O nascimento de Héracles parte III: nascem os gêmeos

Passaram-se nove meses, até que, uma noite, quando os deuses estavam comendo e bebendo nos brilhantes salões do Olimpo, Zeus levantou-se da mesa e anunciou que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite era seu filho, que esta se transformará no maior herói jamais visto antes, e todas as pessoas da Grécia se curvarão diante de sua vontade. Disse que seu nome será Héracles.

Quando ouviu essas palavras, Hera ficou doida de ciúme. Mais uma vez seu marido tinha gerado uma criança com outra mulher! Não se conteve e sussurrou algo no ouvido da ardilosa deusa Ate, que estava sentada a seu lado, depois virou-se para Zeus e retrucou exigindo que o esposo jurasse diante de todos os deuses que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite seria realmente o herói do qual falou, e que todas as pessoas da Grécia se curvariam diante de sua vontade.

Sem hesitar um só momento, sem suspeitar de nada, Zeus fez um juramento que nunca poderia ser quebrado. Ele jurou pelas águas sagradas do Estige que seria conforme havia dito.

Quando Hera ouviu o juramento do marido, sorriu maliciosamente. Acontece que, em Micenas, Nicipe, mulher de Estênelo, esperava um filho, e seu marido, assim como o pai de Alcmena, era filho de Perseu. Nicipe estava grávida havia apenas sete meses, mas isso não se afigurou um problema para Hera. Ela ordenou a Ilítia, deusa dos parto, que corresse a Tebas, prolongasse o trabalho de parto e as dores de Alcmena e, depois, fosse diretamente a Micenas, para trazer o filho de Nicipe a este mundo antes do tempo.

Birth of Heracles by Jean Jacques Francois Le Barbier

Nascimento de Héracles, por Jean Jacques Francois Le Barbier

As ordens de Hera foram cumpridas ao pé da letra e, assim, a despeito dos bem engendrados planos de Zeus, a primeira criança da linhagem de Perseu a nascer naquela noite foi Euristeu de Micenas, uma criatura tímida, fraca, empurrada para o mundo dois meses antes do tempo. Uma hora depois, nasceu Héracles, seguido imediatamente por outro menino, Íficles, gerado por Anfítrion.

Logo depois do nascimento de Héracles, Hera apresentou-se diante de Zeus e disse cheia de sarcasmo que a primeira criança da linhagem de Perseu que veio a nascer foi Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e que, de acordo com o juramento, Euristeu mandará e Héracles o obedecerá.

Zeus ficou mudo, de tão furioso. Todos os seus maravilhosos planos haviam malogrado. Era essa a terrível verdade – Euristeu mandaria e Héracles o obedeceria. Zeus mesmo jurara isso, pelas sagradas águas do Estige.

Desse modo, Hera burlou o grande senhor dos deuses e dos homens, e o anseio de gerações continuaria sendo um mero sonho, porque Euristeu não parecia de fato capaz de se tornar o verdadeiro líder de toda a Grécia.

A raiva de Zeus era imensa. Ele nem podia imaginar como caíra em tal armadilha. Mas, quando pôs os olhos em Ate, compreendeu tudo: ela turvara seu raciocínio e o pegara desprevenido; sem dúvida pagaria por isso! Agarrando a deusa pelos cabelos trançados, Zeus arremessou-a para fora do Olimpo com uma força tremenda. Desde aquele dia, a ardilosa Ate passou a viver na Terra, entre os homens e as mulheres. E todas as ações desleais dos mortais são atribuídas a sua insidiosa influência. Até hoje, na língua grega, a palavra para fraude significa “aquilo que vem de Ate”, já que a deusa é a personificação do erro.

Depois disso, Zeus dirigiu-se aos outros deuses e disse que havia feito um juramento sagrado e que não podia voltar atrás. Héracles não se tornaria o grande líder que a Grécia há tanto tempo necessita. Em vez disso, ele passará por tanta dor e sofrimento como nenhum outro jamais passara. Mas ele também realizará doze grandes trabalhos e muitos outros feitos maravilhosos e será exaltado e admirado como nenhum outro deus ou mortal jamais foi. E, quando sua vida na Terra chegar ao fim, será recebido no Olimpo. Tornará-se imortal e a própria Hera o aceitará como seu igual, fazendo as pazes com ele.

Hera ao ouvir isso disse a si mesma que aquilo nunca aconteceria, pela simples razão de que Héracles não viverá. Ela tomaria providências para que ele morresse enquanto ainda era um bebê. Mas, diferentemente do que previa, Hera dificultou seus próprios planos.

Num certo anoitecer, Zeus implantou na mente de Alcmena o temor de que Hera, sua esposa, viesse fazer algum mal ao infante Héracles naquela mesma noite. Para proteger seu filho da cólera da deusa, Alcmena tirou o pequeno Héracles do palácio e deixou-o num local isolado, fora dos muros de Tebas, pedindo que Atena o protegesse.

Agindo sob as ordens de Zeus, Atena levou Hero para passear nos arredores da cidade e, fazendo parecer uma mera coincidência, conduziu-a exatamente ao lugar onde Héracles fora deixado.

Hera viu a criança e pegou-a no colo. Atena que observava a cena, sugeriu que a deusa amamentasse o bebê. Hera, com boa vontade, ofereceu seu seio à criança, mas Héracles sugou-o com tal força e machucou-a tanto, que ela o afastou bruscamente, deixando esguichar seu leite no céu escuro. E assim foi criada a via láctea, o “caminho do leite”. Mas não foi só isso que aconteceu. Quando Héracles tomou o leite de Hera, tornou-se muito forte: em vez de destruí-lo como planejara, a deusa o fizera indestrutível.

The Origin of the Milky Way (~1575) by Tintoretto, in National Gallery, London

A origem da Via Láctea (1575), por Tintoretto, National Gallery, Londres.

Depois que as duas deusas saíram de cena, apareceu Alcmena, apressada para pegar seu filho. Hera mordeu os lábios, pálida de raiva. Agora compreendia o acontecido. Assim como enganara Zeus, via-se por ele ludibriada. Ela não podia fazer nada, mas sua determinação de destruir Héracles redobrou-se. A partir daí, Zeus confiou a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte I: Anfítrion e Alcmena

Naqueles tempos, os homens atribuíam os rumos de todas as questões importantes aos desígnios dos deuses do Olimpo. Sentiam, por exemplo, que o próprio Zeus queria ver os Estados helênicos unidos e, em nome disso, teria decidido gerar um filho – Héracles – que cresceria para ser um herói munido dos poderes necessários à realização desse desejo.

A cidade em que deveria reinar não era outra senão a dourada Micenas, a mais rica e poderosa de todas, fundada por um grande herói também nascido de Zeus: Perseu.

Depois da morte de seu fundador, Micenas viu subir ao trono Eléctrion, filho de Perseu e pai de nove homens e uma mulher, chamada Alcmena. Alta e imponente, ela era a mais formosa e mais sábia do mundo. Suas tranças grossas e sedosas emolduravam um rosto encantador, seus longos cílios escuros adornavam olhos grandes e expressivos. A filha de Eléctrion tinha todas as graças naturais que predestinavam uma mulher a ser mãe de heróis. E se Zeus fosse o pai da criança, ela certamente daria à luz o maior deles. Assim, dentre todas as mulheres, mortais e imortais, Alcmena foi escolhida para ser a mãe de Hércules.

Zeus já estava casado com Hera. Mas aos homens importava muito que os heróis e grandes líderes fossem filhos de algum deus e, além disso, certos reis gostavam de se vangloriar de sua origem divina. Então, para os gregos antigos, parecia natural que os deuses gerassem filhos em toda mulher que lhes agradasse. Em todo caso, diz-se que depois do nascimento de Héracles nunca mais uma mortal concebeu um filho de Zeus.

Eléctrion tinha prometido a mão de sua filha, Alcmena, a Anfítrion, rei de Tirinto. Porém, uma tragédia se abateu sobre Micenas, e as bodas foram adiadas. Os nove irmãos de Alcmena morreram na batalha contra os temíveis teléboas (uma raça de homens com voz de trovão), que tinham tomado todos os rebanhos de Eléctrion e planejavam colocar seu próprio rei no trono da cidade. Sem êxito em seus planos, os teléboas se viram obrigados a dar o gado para Polixeno, rei da Élida, que se encarregaria de escondê-lo. Mas Anfítrion o descobriu e, querendo ajudar seu futuro sogro, comprou os animais e reconduziu-os a Micenas.

O rei Eléctrion ficou furioso com tal atitude, e, após discussão entre eles, Anfítrion arremessou sua clava no meio dos animais. Apenas um momento de fúria, e o resultado afigurou-se uma tragédia que jamais pôde ser desfeita. Ao dar nos chifres de um touro, a clava ricocheteou, bateu na cabeça de Eléctrion e jogou-o ao chão, morto.

Depois desse infortúnio, Estênelo, irmão de Eléctrion, sucedeu-o no trono de Micenas; e Anfítrion, abalado pela dor do mal que causara involuntariamente, renunciou a tudo que possuía, inclusive ao reinado de Tirinto (que acabou tomado por Estênelo), e partiu para Tebas, onde reinava Creonte.

Nem por um momento Anfítrion deixou de amar Alcmena e, por fim, enviou um homem a Micenas com a missão de implorar que ela o perdoasse e perguntar-lhe se, apesar de tudo, ainda desejava o casamento.

Foi aí que Zeus pôs na mente de Alcmena a resposta que serviria a seu propósito.

– Concordo em me casar com Anfítrion – disse Alcmena ao mensageiro – mas com a condição de que, terminados os ritos nupciais, ele trave guerra contra os teléboas e vingue a morte de todos os meus irmãos. Esse desejo não é apenas meu; estou certa de que assim o quer meu falecido pai.

Anfítrion estava disposto a fazer qualquer coisa por Alcmena e não vacilou em atender a exigência. Mas, com que exército? Ele não tinha mais suas tropas… Apelou, então, a Creonte, rei de Tebas, mas este respondeu que daria o exército somente se ele livrasse Tebas da raposa de Têumesso.


Sobre a Raposa de Têumesso:
A raposa era um animal sanguinário, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.


Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Laelaps and Cadmean vixenAnfítrion pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Finalmente, o próprio Zeus encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátua de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Portanto, Anfítrion não pôde devolver o cão sagrado a Céfalo; mas compensou-o por isso, doando-lhe uma das ilhas que mais tarde tomou dos teléboas – agora, conhecida como Cefalônia, nome originário de seu novo rei, Céfalo.

O que mais importava era Tebas ter se livrado de seu sacrifício de sangue e, com isso, Anfítrion obteve o que precisava – não apenas um exército, mas um grupo de soldados dispostos a servir e a oferecer suas vidas ao salvador das crianças de Tebas. Só então Anfítrion pôde cumprir a promessa feita a Alcmena.

As bodas foram celebradas, mas logo Anfítrion teve que se despedir de sua noiva para assumir o comando da luta contra os teléboas. Alcmena voltou ao palácio, trancou-se no em seu quarto e esperou pela volta do marido, a quem ela mesma mandaram para a guerra, embora o amasse de todo o coração.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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VIII. Os Cavalos de Diomedes

Depois da jornada de Creta, seguindo outro conselho de Hera, Euristeu enviou Hércules à Trácia para trazer os cavalos do rei Diomedes.

Esse perigosos animais ficavam trancados nos estábulos reais, presos a pesadas correntes. Dizia-se que suas mandíbulas eram de bronze e que só se alimentavam de carne humana.

Contudo, ainda mais temível que os cavalos era o próprio Diomedes, rei dos selvagens bistones. Filho de Ares, deus da guerra, sua paixão pelas batalhas estava no sangue. Todas as vezes que saía de sua belicosa tribo para combater, a ruína e a destruição espalhavam-se entre seus infelizes vizinhos.

Maior que a paixão pela destruição era seu orgulho pelos cavalos antropófagos. Todo prisioneiro que caía em suas era jogado, ainda vivo, para alimentá-lo. E não só os capturados nas guerras tinhas esse destino horrendo, isso acontecia a todo estrangeiro desavisado que passasse pela Trácia, acreditando nas usuais regras de hospitalidade estabelecidas pelo próprio Zeus. Nenhum estrangeiro caído nas mãos de Diomedes jamais lhe escapou: seus cavalos devoravam todos.

Quando Héracles foi para a terra dos ferozes bistones e de seu rei sanguinário, levou consigo amigos que estavam prontos para lutar a seu lado, se fosse necessário. Entre eles estava Abdero, um jovem ousado da Lócrida.

O herói e seus companheiros chegaram à Trácia pelo mar. Héracles logo descobriu o estábulo e, enquanto seus companheiros desabavam sobre os guardas para amarrá-los, ele desacorrentou os animais de suas baias e, segurando-os pelas rédeas, conduziu o tropel até o navio.

– Fiquem aqui enquanto ponho os cavalos a bordo. Avisem-me se Diomedes vier! – Héracles disse para os outros.

Apesar dessa ordem, Abdero seguiu o herói, achando que ele poderia precisar de ajuda. Antes mesmo de chegarem ao navio, ouviram gritos:

– Diomedes! Diomedes vem vindo com seus soldados!

Héracles hesitou por um momento e Abdero, percebendo o motivo, disse que tomaria conta dos cavalos. O herói não ficou muito satisfeito com a ideia, mas não tinha outra escolha. Deixando os animais com Abdero, voltou correndo para enfrentar o perigo. Ainda longe, avisto uma horda imensa de bistones liderados por Diomedes, que montava um corcel preto. Conforme avançavam, gritavam ferozmente e brandiam suas compridas lanças.

Héracles e seus companheiros estavam diante de um perigo fatal. Como eles, que eram tão poucos, poderiam resistir a tantos? Afinal, o herói encontrou uma resposta.

Notou que a planície onde estava ficava abaixo do nível do mar, que se mantinha recuado por causa de uma parede de dunas, formadas pela areia que as ondas lançavam. Com a ajuda de seus companheiros, abriu um canal para inundar a planície. Rapidamente o canal foi alargado pela enxurrada de água do mar. Em pouco tempo, uma imensa massa d’água invadiu a planície, formando um grande lago, o Bistônide. Muitos bistones que atacavam foram levados pelas águas espumantes da inundação; outros fugiram. Diomedes e seu acompanhante, que estava bem à frente, escaparam da invasão de águas, porém tiveram bloqueada qualquer outra saída e agora tinham de enfrentar Héracles e seu companheiros.

Como animais numa armadilha, logo se viram dominados. Diomedes foi derrubado de seu cavalo por um golpe de clava de Héracles. Não morreu, mas imediatamente o amarraram – por uma boa razão: o cruel rei merecia pagar por seus crimes e, assim, foi jogado vivo para ser devorado por seus próprios cavalos.

Cavalos de Diomedes

Após derrotarem o inimigo, Héracles e seus amigos verificaram que tinham sofrido uma triste perda. Os cavalos selvagens haviam estraçalhado Abdero… Não havia palavras que pudessem descrever a dor de todos eles diante da morte de um jovem tão bravo e corajoso. Héracles ficou inconsolável, e se achava culpado pelo que aconteceu a Abdero. Mas todos sabiam que o herói não tivera escolha.

Héracles pediu a seus companheiros que dessem um funeral esplêndido para Abdero. Sacrificaram os melhores animais que puderam encontrar e honraram seu companheiro morto com competições atléticas. Para que o seu nome nunca fosse esquecido, construíram uma cidade naquele lugar e deram-lhe o nome de Abdera.

Quando os heróis por fim tinham pago sua dívida para com a memória do jovem, subiram a bordo de seu navio e velejaram para Micenas com os cavalos.

Iam desembarcar no porto de Argos. Entretanto, Euristeu proibiu Héracles de levar os animais para Micenas. Disse para que o herói os levasse para qualquer lugar, desde que ficasse longe dele e de seu palácio.

Para impedir que os cavalos fizessem algum mal aos homens, Héracles levou-os para bem longe, perto de uma encosta remota do monte Olimpo, onde acabaram sendo devorados por animais ainda mais selvagens.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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