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Dânae

Δανάη (Danáē), Dânae, o nome está relacionado com a raiz indo-europeia dānu, “água”, pelo fato de a heroína ter sido lançada ao mar com o filho Perseu.

Dânae é filha do rei de Argos, Acrísio e de Eurídice, esta, filha de Lacedêmon e de Esparto. Há outra tradição que faz de Dânae filha de Aganipe.

Desejando, além de Dânae, um filho homem, preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o Oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

A fecundação de Dânae, por Klimt. 1907

A fecundação de Dânae (1907), por Gustav Klimt.

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá enclausurou sua filha, em companhia de sua ama. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura e “inviolável” prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

No dia em que o rei tomou conhecimento da existência do neto, encerrou-o juntamente com a mãe num cofre e mandou expô-los ao mar. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae (1892), por Waterhouse.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los. Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então arquitetou um plano e mandou o jovem herói buscar a cabeça de Medusa, missão de que o herói jamais regressaria, segundo pensava o rei tirano.

Uma variante atesta que foi Díctis quem levou a princesa à corte de Polidectes, que a ela se uniu e cuidou da educação do menino.

A seguir a primeira versão, mais difundida por sinal, o rei, na ausência de Perseu, tentou violentar-lhe a mãe. Em seu retorno glorioso, o herói encontrou Dânae e Díctis abraçados à lareira do palácio, tentando escapar das ameaças violentas do tirano. Perseu mostrou-lhe a cabeça de Medusa e o petrificou, bem como a seus cortesãos. Entregou, em seguida, o trono de Sérifos a Díctis e deixou a ilha em companhia de Dânae, que voltou a Argos para viver em companhia de sua mãe Eurídice.

Perseu, no entanto, seguiu à procura de Acrísio. Este, sabedor de que o neto desejava conhecê-lo, e com a sentença do Oráculo a perturbar-lhe a paz, fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Léon-François Comerre's Danaë and the Shower of Gold, 1908.

Dânae e a chuva de ouro (1908), por Léon-François Comerre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Pégaso

Pegasus at the spring, Apulian red-figure vase C4th B.C., Tampa Museum of Art

Pégaso na primavera, vaso apúlio em pintura vermalha séc. IV a.C, Tampa Museum of Art, Flórida, EUA.

Πήγασος (Pégasos), Pégaso, deriva de πηγή (pégue), “fonte”, pelo fato de Pégaso ter feito nascer a fonte Hipocrene (fonte do cavalo), ferindo violentamente o monte Hélicon com uma patada. Talvez o nome do famoso cavalo prenda-se a πηγóς (pegós), “forte, sólido”.

Pégaso passa por ser filho de Posídon e de Medusa, ou da própria terra, fecundada pelo sangue da górgona. Conta-se que Perseu, a mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, grávida de Posídon, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso, ou, segundo uma variante, conforme se viu, este teria nascido de Gaia, “a terra”, fecundada pelo sangue da górgona.

Após relevantes serviços prestados a Perseu, o ginete divino voou para o Olimpo, onde se colocou a serviço de Zeus.

Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
tem este nome porque ao pé das águas do Oceano
nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos,
voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos
e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus,
portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio.
Teogonia, vv. 280-286.

A respeito da maneira como Pégaso desceu para ajudar Belerofonte, as tradições variam: Atena e Posídon o teriam levado ao herói ou este, por inspiração de Atena, o encontrara junto à fonte Pirene. Foi graças o ginete divino que Belerofonte pôde executar duas das grandes tarefas que lhe impusera Iobates: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Após a morte trágica do herói, Pégaso retornou para junto dos deuses.

BellerophonFightsChimera

Belerofonte cavalgando Pégaso e enfrentando a Quimera. Medalhão central de um mosaico romano restaurado encontrado em 1830, Museu Rodin, Paris.

No grande concurso de cantos entre as Piérides e as Musas, o monte Hélicon, sede do certame, se envaideceu e se enfunou tanto de prazer, que ameaçou atingir o Olimpo. Posídon ordenou a Pégaso que desse uma patada no monte, a fim de que ele voltasse às dimensões normais e guardasse “seus limites”. Hélicon obedeceu, mas, no local atingido por Pégaso, brotou uma fonte, Hipocrene, a Fonte do cavalo.

Pégaso, cavalo alado, está sempre relacionado com  a água, daí sua etimologia popular, como proveniente de pegué, fonte. Filho de Posídon e Medusa, teria nascido junto às fontes do Oceano. Belerofonte o encontrou bebendo na fonte Pirene. Com uma só patada fez brotar a Hipocrene, fonte do cavalo. Está também ligado às tempestades, por isso que é o “portador do trovão e do raio por conta do prudente Zeus”. Pégaso é, por conseguinte, uma fonte alada: fecundidade e elevação. O simples cavalo figura tradicionalmente a impetuosidade dos desejos. Quando o ser humano faz corpo com o cavalo, torna-se um monstro, como o Centauro, imaginação criadora sublimada e sua elevação real.

Birth_Of_Pegasus_by_LindaLisa

O nascimento de Pégaso por LindaLisa via Deviantart.

Com efeito, foi cavalgando Pégaso que Belerofonte matou a Quimera. Temos aí os dois sentidos da fonte e das asas: a fecundidade e a criatividade espiritual. É que, como dizia o poeta latino, alis grave nil, para os que têm ideal, as dificuldades não pesam tanto: nada é pesado quando se tem asas… Não é em vão que Pégaso se tornou o símbolo da inspiração poética.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Polidectes

Perseus Delivering Medusa's Head (1892) by Walter Crane

Perseu mostrando a cabeça da Medusa a Polidectes, por Walter Crane.

Após muito feitos, era hora de Perseu retornar à Grécia com a recém desposada Andrômeda. Quando chegaram na ilha Sérifos, o herói foi primeiro à modesta casa de Díctis procurar sua mãe. Abriu a porta e entrou. Díctis ficou surpreso ao vê-lo outra vez e ajoelhou-se beijando-lhe as mãos. Perseu disse que trazia consigo a cabeça da górgona Medusa, como havia prometido, e quis logo saber onde estava sua mãe, Dânae. Díctis informou-lhe que seu irmão Polidectes a mantinha como prisioneira.

Perseu não perdeu um só instante e foi encontrá-lo. Avistou-o em um terraço ao lado do palácio, a beber, comer e farrear com os amigos. Mas surgiu Perseu, todos ficaram embasbacados. Ninguém esperava rever o herói, muito menos Polidectes, que, ao reconhecê-lo, gritou: – Como ousa pôr os pés aqui novamente? Eu o mandei buscar a cabeça de Medusa!

Perseu disse que estava com a cabeça da górgona. Polidectes ouvindo essa resposta deu uma gargalhada. Imediatamente seus amigos o imitaram e todos juntos caçoavam do herói. E eram gargalhadas e zombarias, uma atrás da outra. Então, Perseu enfiou a mão na sacola e tirou a horrenda cabeça e disse: – Eis aqui, já que não acreditam em mim!

Num instante, assim rindo e caçoando, todos ficaram petrificados, enchendo o lugar de estátuas. E dizem que, se hoje Sérifos tem muitas pedras, é porque vieram dessas estátuas, que pouco a pouco se fragmentaram.

Perseu, após libertar sua mãe, fez de Díctis rei da ilha e, em seguida, juntamente com Dânae e Andrômeda, voltou para Argos. Lá chegando, agradeceu à deusa Atena, que tanto o havia ajudado, e ofereceu-lhe a cabeça da Medusa. A deusa pôs a oferenda em sua égide. Depois, o herói tomou o rumo das ninfas estígias. Ao encontrá-las, devolveu-lhes as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica.

Athene receives the head of Medousa from Perseus. The hero is depicted as a young man, wearing the winged boots of Hermes and the cap of darkness on his head. Athene holds the Gorgoneion (Gorgon head) by its snaky locks

Perseu entregando a cabeça de Medusa a Atena. Cratera atribuída ao pintor Tarporley de Apúlia (400-385a.C.). Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, EUA.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Medusa

Medusa (1595-96), by Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Medusa (1595-96), por Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Μέδουσα (Médusa), Medusa, é um particípio presente feminino do verbo μέδειν (médein), “comandar, reinar sobre”, donde Medusa é “a que comanda, a que reina”. Etimologicamente, Médusa, está presa à raiz indo-europeia med-, que, em outras línguas aparece com significações diversas: latim modus, “medida, moderação”, meditari, “refletir, meditar”. No irlandês antigo midiur é “eu penso, eu julgo”. Esta noção de pensamento que “regula, modera” está presente no osco mediss, “aquele que julga”, umbro mers, “direito”. Por vezes, o radical med- forneceu termos relativos à medicina, “o médico que regula, domina a doença”, daí o latim mederi, “cuidar de”, medicus, “o que cuida de”. No germânico a raiz se especializou no sentido de “medir, avaliar”, gótico mitan, anglo-saxão metan, antigo alemão messen. Em síntese, o sentido geral da raiz med-, que originou Medusa, “é assumir com autoridade as medidas apropriadas”

Das três Górgonas só Medusa era mortal. Filha de Fórcis e Ceto, vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano, junto ao país das Hespérides. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de serem figuras terríveis, seus olhos eram flamejantes e o olhar tão penetrante, que transformavam em pedra quem as fixasse. Eram espantosas e temidas não só pelos homens, mas também pelos deuses.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Apenas Posídon ousou aproximar-se de Medusa e fazê-la mãe de Crisaor e Pégaso. Encarregado por Polidectes de lhe trazer a cabeça da górgona, Perseu viajou para o Ocidente. Utilizando determinados objetos mágicos, que pegou emprestado com as ninfas estígias, e sobretudo o seu escudo de bronze, o filho de Dânae pairou acima dos três monstros, graças às sandálias aladas. As górgonas dormiam profundamente. Sem poder olhar diretamente para Medusa, o herói refletiu-lhe a cabeça no escudo e, com a espada que lhe dera Hermes, decapitou o monstro.

Do pescoço ensanguentado de Medusa saíram dois seres engendrados pelo deus Posídon: Crisaor e Pégaso.

Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano
os confins da noite (onde as Hespérides cantoras):
Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto,
era mortal, as outras imortais e sem velhice
ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta
no macio prado entre flores de primavera.
Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
Teogonia, vv. 274-281.

Perseu utilizou a cabeça recém decepada como arma. Em sua viagem de retorno, num ato descuidado, petrificou o titã Atlas. Posteriormente cabeça de Medusa foi colocada por Atena em seu escudo ou no centro da égide. Assim os inimigos da deus eram transformados em pedra, se olhassem para ela. O sangue que escorreu do pescoço da górgona foi recolhido por Perseu, uma vez que este era detentor de propriedades mágicas: o que flui na veia esquerda era um veneno mortal, instantâneo; o da veia direita era uma remédio salutar, capaz até mesmo de ressuscitar os mortos.

Cabeza de Medusa, por Peter Paul Rubens (1617-18)

Cabeça da Medusa (1617-18), por Peter Paul Rubens, Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de suas madeixas. Tendo, porém, ousado competir em beleza com Atena, esta eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em górgona.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: Pégaso é domado

O filho de Glauco, porém, não ficou desencorajado e rumou para a Grécia. Ao chegar, perguntou por toda parte onde vivia Pégaso, mas as pessoas o olhavam com estranheza, pois nenhum jamais vira o cavalo alado com os próprios olhos.

Pegasus 11


Sobre Pégaso:
Belíssimo cavalo alado, com asas grandes, que voava graciosamente pelos céus. Filho de Posídon e Medusa, nasceu, juntamente com o irmão gigante Crisaor, quando a górgona teve sua cabeça decapitada por Perseu. Pégaso era uma cavalo arisco e selvagem, pois gostava de voar livremente e não admitia ser montado por ninguém, fosse mortal ou imortal. 


“Se os homens não sabem”, pensou Belerofonte, “talvez o saibam as ninfas, as nereidas, as Musas!”. Com esse pensamento se pôs a caminho do Hélicon, a montanha de muitas fontes e densas florestas, onde se dizia que viviam várias dessas divindades. O herói subiu as encostas arborizadas, prosseguiu entre os vales frondosos e, depois de caminhar por bastante tempo, chegou a uma fonte. Milhares de plátanos ocultavam o céu e as encostas escarpadas; rochas rodeavam aquele lugar encantador, que parecia inexplorado… Mas eis que, em meio ao murmúrio da água e o gorjeio dos passarinhos, ouviram-se de repente alegres vozes femininas e canções. Vieram à mente do herói as Musas do Hélicon. Realmente, três moas lindíssimas, iguais a deusas, logo surgiram diante dele e ofereceram sua ajuda. Quando Belerofonte disse que queria encontrar Pégaso, as Musas ficaram surpresas:

– O que você pede não é nada fácil! Você não tem sorte. Se tivesse vindo um pouco mais cedo, o encontraria aqui! Esta fonte que está vendo foi ele próprio quem fez e, por isso, se chama Hipocrene. Ao bater sua pata na rocha, a água jorrou. Pégaso se encontra agora em Acrocotrinto, onde há uma outra fonte sua, criada da mesma maneira, chamada Pirene. Vá para lá e pode ser que o encontre. Apenas mantenha-se  a distância, porque Pégaso não deixa que ninguém se aproxime dele. Ainda que consiga chegar perto, não tente montá-lo! Ele é muito selvagem e, se quiser fazer isso, perderá a vida nessa vã tentativa!

Contudo. Belerofonte não desanimou. Satisfeito com as informações, despediu-se das Musas e tomou o rumo de Acrocorinto. A ideia  de libertar a terra de Iobates da fúria destruidora da Quimera lhe dava coragem, e o pensamento de cavalgar Pégaso o encantara tanto, que de modo algum lhe passou pela cabeça recuar diante do perigo.

Marchando para Acrocorinto, Belerofonte avistou um templo dedicado à deusa Atena. Entrou, pôs-se de pé em frente à estátua da deusa, reverenciou-a humildemente e pediu-lhe que o ajudasse a encontrar e domar Pégaso. Em seguida, como era tarde e o Sol já tinha se posto, esticou-se em um canto do lado de fora do templo. Cansado, logo pegou no sono. Em sonho, viu a própria deusa Atena, que segurava entre as mãos uma rédea dourada:

– Belerofonte, filho de Posídon! – disse ela – Saiba que Pégaso é seu irmão, uma vez que também é filho do deus do mar. Porém, não é por isso que vai deixar você montá-lo. Tome estas rédeas; são mágicas. Se as colocar em Pégaso, ele se tornará tão obediente a você quanto o mais calmo dos cavalos.

Belerofonte logo estava voando pelo céu montado em Pégaso. Era incrível. Era mágica, mas uma mágica que não era real, nem durou muito, pois logo o herói acordou e se viu deitado sobre a terra.

Desapontado por tudo não passar de um sonho, decidiu levantar-se, quando enxergou uma rédea ao seu lado. Era a mesma rédea dourada que a deusa lhe dera em sonho. Tomou-a nas mãos. Desta vez não era sonho! Ele realmente tinha em suas mãos rédeas mágicas, com as quais poderia domar Pégaso!

Imediatamente Belerofonte retomou seu caminho para Acrocorinto. Logo encontrou a fonte Pirene, escondeu-se atrás de um arbusto e esperou. A cada farfalhar das folhas, virava a cabeça, pensando ser o cavalo que procurava. De repente, um estranho barulho de bater de asas o fez olhar para o céu e lá estava Pégaso!

Bellerophon on Pegasus, Walter Crane (1892)

Belerofonte montando Pégaso, por Walter Crane (1892).

Belerofonte olhava encantado para ele. Percebeu que precisava se esconder melhor e abaixou-se atrás do arbusto. Em pouco tempo Pégaso desceu até a fonte, bem em frente ao esconderijo do herói.

Apesar de não ter visto Belerofonte, o cavalo percebeu que havia alguém por perto e ficou arisco. Olhando para a esquerda e para a direita, relincho alto, enquanto movia as asas de modo ameaçador. O herói não se acovardou, e ficou esperando que surgisse a oportunidade. Entretanto, não havia jeito de Pégaso se acalmar. Então, o herói pegou uma pedra e jogou-a por sobre o dorso do cavalo para dentro e um arbusto. Ao escutar o barulho no arbusto, Pégaso virou a cabeça naquela direção e, de orelhas em pé, tentou descobrir o que era, ficando quase imóvel. Como um raio, Belerofonte saltou de seu esconderijo e, antes que Pégaso pudesse fazer o menos movimento, passou-lhe as rédeas.

O cavalo, pego de surpresa, virou-se e viu que Belerofonte, naquele momento, o acariciava no pescoço enquanto segurava-o firme pelas rédeas. Ao compreender o que havia acontecido, o cavalo sequer procurou fugir; em vez disso, relinchou amigavelmente, demonstrando submissão. O selvagem Pégaso havia sido domado.

Jan Boeckhorst , Pegaso (1675-1680)

Pégaso, por Jan Boeckhorst (1675-1680), Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: preliminares

Após receber a carta de seu genro Preto dizendo que Belerofonte tentara violar a sua filha, Iobates teve uma ideia para se livrar do herói e disse-lhe:

– Há por aqui uma fera abominável que nos faz estragos terríveis, a Quimera, a qual ninguém ousa enfrentar. Se fosse jovem como você, iria eu mesmo! Mas agora já não tenho a força da juventude e, por isso, pensei em você, que é forte e audacioso. Acredito que poderá fazer o que lhe peço.

Belerofonte aceitou diligentemente e Iobates ficou satisfeito em achar um modo de executar o pedido de seu genro. Afinal, tinha certeza de que o jovem encontraria a morte lá onde o enviara.


Sobre a Quimera:
ChimereEra um monstro invencível e assustador. Filha de Tífon e Equidna tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Cérbero e os criaturas terríveis. Tinha três cabeças diferentes: na frente, um leão; atrás, um dragão e, no meio, uma cabra selvagem. A cabeça da cabra era a mais perigosa, pois cuspia fogo pela boca. Por toda a redondeza, a Quimera espalhava a catástrofe e a morte. E não eram só os homens e os animais que ela matava e fazia em pedaços; de sua fúria destruidora não se salvavam nem as lavouras, nem os frondosos bosques. Tudo se queimava com as chamas que ela lançava de sua boca caprina.


Como derrotar tal monstro só com entusiasmo e força?! Belerofonte, que compreendia a dificuldade da tarefa, foi encontrar-se com o sábio adivinho Polieido, para pedir seu conselho. Polieido disse que a Quimera só seria derrotada por aquele que cavalgasse Pégaso, filho de Posídon, o cavalo alado e imortal que brotou do pescoço da górgona Medusa quando foi morta pelo herói Perseu. Porém, o adivinho não sabia dizer a exata localização do cavalo alado, só sabia que ele circulava pelas montanhas e céus da Grécia e que evitava os homens.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Andrômeda

Depois de decapitar Medusa e petrificar Atlas, Perseu continuou sua jornada e alcançou a costa da Etiópia. Voando no céu, viu do alto alguma coisa branca entre as escuras rochas da praia. Desceu por curiosidade. A primeira vista pensou se tratar de uma estátua, porém, ao se aproximar um pouco mais, reparou que era uma moça. Estava atada à rocha e chorava desesperadamente. Perseu firmou o pé em terra e se aproximou da jovem. Perguntou-lhe por que a haviam amarrado. Aos soluços, ela se pôs a relatar sua trágica história:

– Meu nome é Andrômeda e sou filha de Cefeu, rei da Etiópia. Fui amarrada à rocha porque preciso pagar por um delito que não cometi! Minha mãe, a rainha Cassiopeia, cometeu um erro inconcebível: quis medir-se em beleza com as formosas nereidas, filhas de Nereu, o adivinho do mar. E ainda brigou com elas no final, insistindo ser a mais bela. As deusas marinhas ficaram muito ofendidas e foram fazer suas queixas não a seu pai, que é calmo e jamais se zanga, mas ao poderoso deus do mar Posídon, o abalador da Terra. A fúria do deus foi irrefreável. Para nos castigar, enviou à nossa terra uma inundação catastrófica! Assim que essa desgraça passou, fez surgir um monstro marinho que devasta nossos campos. Como o mal parecia não ter fim, meu pai foi perguntar ao oráculo o que devia fazer. O adivinho respondeu que o mal só terá fim quando o monstro devorar a filha do rei. O povo não suportando mais a desgraça que se abatera sobre ele, se amotinou. Assim, amarraram-me a esta rocha, e agora estou prestes a ser despedaçada pela fera.

Perseu ficou imensamente comovido. Já estava apaixonado pela linda moça e queria muito salvá-la, para fazê-la sua esposa, mas não sabia com que palavras se dirigir a ela. Então Andrômeda acrescentou:

– Solte-me, caro estrangeiro! E faça de mim sua escrava, se não quiser se casar comigo! Salve-me e lhe serei grata para sempre.

Mal disse isso, a jovem começou a chorar, lamentando seu destino tão impiedoso. Perseu então se apresentou a Andrômeda, dizendo que era filho de Zeus e que podia derrotar o monstro para libertá-la. No momento em que a esperança iluminou o rosto da bela princesa surgiram seus pais, que haviam escutado as palavras de Perseu. Atiraram-se aos seus pés e imploraram para que o herói salvasse sua filha. Eles prometeram dar todas as suas riquezas e o reino inteiro, caso Perseu o quisesse.

Perseus e Andromeda, por Pablo Veronese (1576-78)

Perseu e Andrômeda, por Pablo Veronese (1576-78), Museu de Belas Artes de Rennes, França.

Perseu queria apenas desposar Andrômeda. Então, Cefeu e Cassiopeia juraram em nome da deusa Afrodite que lhe dariam a mão da filha em casamento, se ele derrotasse o abominável monstro. Eis que, num instante, o mar começou a espumar e a revolver-se. Um dorso negro surgiu dentre a espuma, mas desapareceu para ressurgir logo em seguida, até que, em pouco tempo, se podia distinguir um dragão marinho tenebroso sobre as ondas.

O momento era crítico. O monstro rasgava as ondas e se aproximava rapidamente. Perseu voou para o céu. Andrômeda e seus pais olharam-no surpresos, quando, subitamente, o herói colocou o elmo de Hades e ficou invisível, deixando todos perplexos. Arremessou-se, invisível, sobre o dragão e de repente desferiu-lhe um golpe de espada no pescoço, mas este era tão grosso, que a criatura não sofreu grande dano, apenas ficou ainda mais enraivecida. O imenso dragão começou a saltar, formando ondas do tamanho de montanhas, e Perseu não via oportunidade de golpeá-loo novamente. O monstro procurava o inimigo, mas não via nada, nem na terra nem no mar; até que enxergou a sombra de Perseu sobre as ondas espumantes. Enganado, lançou-se em direção a ela. Então, o herói viu a chance que esperava e enterrou a espada até o cabo na cabeça da fera. Enfim, como que por magia, o monstro se acalmou; virou-se de barriga para cima no mar e ficou ali, arrastado pelas ondas. Andando agora sobre ele, Perseu tirou o capacete de Hades,  Andrômeda e seus pais, vendo-o de pé sobre o dragão, choraram de alegria. Após assegurar-se de que a fera estava mesmo morta, Perseu voou até Andrômeda. Depressa soltou as correntes que a prendiam.

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13)

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.

No dia seguinte, prepararam-se as núpcias. No grande salão do palácio reuniram-se todos os nobres da região. Tudo era rico e majestoso. Logo, um cantor, belo como um deus, começou a tocar sua harpa, e a festa teve início. De repente, a canção foi interrompida e todos ficaram mudos e surpresos, pois a porta, escancarando-se, fez um estrondo: Fineu, irmão de Cefeu, entrou acompanhado de vários guerreiros dizendo que Andrômeda pertencia a ele. Cefeu e Cassiopeia ficaram sem palavras.

– Ouçam todos! – gritou um respeitável nobre. – Andrômeda está viva porque Perseu a salvou, arriscando a própria vida! E agora vem Fineu reivindicar seus direitos. Que direitos, Fineu? Onde você andava quando Andrômeda estava presa à rocha? Por que não foi matar o monstro? Por que, em vez disso, você se foi, deixando-a para a morte, sem nem mesmo ir confortá-la em sua desgraça? Quem desfez o noivado? Os pais dela ou você mesmo? E com que direito vem tomá-la agora, ainda por cima à força? Andrômeda pertence a Perseu. Para aquele que discordar disso, há uma solução muito simples: perguntar a ela.

Cefeu, então, perguntou a filha com quem ela se casaria. Andrômeda respondeu que sua vida pertencia a seu salvador e que tomaria o mesmo como esposo.

Fineu irritadíssimo, sem perder tempo, arremessou sua lança em direção a Perseu, que estava parado e pulou para o canto, salvando-se. Mas a arma atingiu mortalmente o peito do cantor. Perseu sacou sua espada para se defender, enquanto, dentre os convidados, vários jovens destemidos e valorosos puseram-se a seu lado. A batalha teve início imediato. Um após outro, os homens de Fineu caíam mortos pelo chão, mas, como eram muitos e pereciam também diversos companheiros de Perseu, a luta continuava desigual.

A própria Atena, vendo o herói em perigo, veio ajudá-lo, protegendo-lhe o corpo com seu escudo. Porém, choviam flechas e lanças, e todos os guerreiros de Perseu já estavam mortos. O valente filho de Zeus guerreava sozinho. Apoiado em um pilar, travava uma luta que não tinha  menor chance de vencer. A não ser que… Então Perseu gritou para que fosse seu amigo, virasse os olhos para o outro lado. Dizendo isso, tirou da sacola a cabeça de Medusa e exibiu-a aos inimigos. De repente, o palácio de Cefeu ficou repleto de estátuas. Eram os guerreiros de Fineu, que haviam se transformado em pedra.

Por último restou o próprio Fineu, que, ao ver o mal que se abatera sobre seus companheiros, caiu apavorado aos pés de Perseu e implorou compaixão. O herói, no entanto, mostrou-lhe a cabeça da górgona e o transformou em pedra. Assim, Fineu ficou petrificado na posição mais humilhante, a do guerreiro suplicante.

Perseu desposou Andrômeda, mas não quis prolongar sua permanência no  palácio de Cefeu, pois precisava voltar à Grécia. Com lágrimas nos olhos, Andrômeda se despediu dos pais e acompanhou o marido.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Atlas

Após decepar Medusa, Perseu continuou sua viagem até chegar a um lugar onde se defrontou com um espetáculo incrível: um enorme gigante sustentando nos ombros a abóbada celeste! Era Atlas, o titã castigado pelo grande Zeus com o suplício de segurar para sempre essa carga insuportável, por haver lutado contra os deuses na terrível titanomaquia.

Cheio de admiração pela força inacreditável de Atlas, Perseu desceu ao solo e se apresentou ao gigante. Queria muito conhecer de perto o deus mais forte do mundo, mas o titã não o recebeu bem. Havia uma profecia segundo a qual um filho de Zeus viria àquelas paragens para pegar os pomos de ouro do jardim das Hespérides (o filho de Zeus em questão era Héracles, que buscou os pomos em seu décimo primeiro trabalho). Embora Ládon, um dragão cruel, vigiasse o jardim, Atlas muito se preocupava com o possível desaparecimento dos pomos de ouro. Por isso, mal viu Perseu, espantou-se e perguntou-lhe quem era e o que buscava naquele lugar tão remoto, onde homem algum jamais havia pisado.

– Sou Perseu, filho de Zeus. Venho de…

Atlas não o deixou terminar a frase. Ao ouvir que i estranho era filho de Zeus, pensou nos pomos de ouro e gritou:

– Ladrão! Veio aqui buscar o mais precioso tesouro que guardamos nesse lugar! Suma depressa de minha vista antes que eu chama Ládon, que o fará em pedaços!

– Não sou ladrão nem vim tomar nada de você. Estava passando por aqui porque fui matar a górgona Medusa. Veja, dentro desta sacola trago a cabeça do monstro.

– Você não só é ladrão como também mentiroso, pois ousa me dizer que traz consigo a cabeça da Medusa. Como se alguém pudesse decepar aquelar criatura!

– Pois eu consegui! Veja por si mesmo!

Perseu tirou da sacola a medonha cabeça e a exibiu ao titã. Então aconteceu um espetáculo estarrecedor: ao olhar nos olhos de Medusa, Atlas se petrificou. Todo o seu corpo se transformou numa imensa montanha; seus cabelos e barba viraram florestas e sua cabeça, o cume. Sobre esse cume, desde então, se apóia a abóboda celeste. Até hoje esse montanha chama-se Atlas.

Atlas Turned to Stone, by Edward Burne-Jones (1878)

Atlas transformado em pedra, por Edward Burne-Jones (1878).

O jovem herói ficou aterrorizado. Jamais imaginou que aquela cabeça decepada teria o poder de transformar em pedra um titã como Atlas, que além do mais era imortal. Extremamente penalizado, colocou novamente a cabeça da Medusa na sacola e voou.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu

Περσεύς (Perseús), Perseu, o nome era aproximado etimologicamente pelos lexicógrafos antigos do verbo πέρθειν (pérthein), “devastar, destruir”. A hipótese mais provável é de que o antropônimo seja Περσέπολις (Persépolis), “o destruidor de cidades”, ou um termo de substrato, um nome pré-helênico, que significaria simplesmente “a terra”.

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Perseu contra Medusa

A proeza que Perseu deveria realizar não era apenas inatingível: era morte certa. Assim que ele fitasse a terrível górgona, prontamente se faria estátua pétrea, sem vida.

Medusa 18


Sobre a Medusa:
Medusa vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de ser uma figura terrível, ainda podia petrificar que olhasse em seus olhos.


Perseu era filho de Zeus, o grande soberano dos deuses e dos homens. E Zeus não deixaria que seu filho morresse. Assim, designou dois deuses para ajudá-lo: Hermes presenteou Perseu com a única espada que poderia cortar de uma só vez a cabeça da terrível Medusa: feita de diamante, a arma era capaz de cortar até ferro; Atena, por sua vez, deu-lhe um escudo tão reluzente que podia servir de espelho e disse: “Como você não pode fitar o rosto de Medusa, olhará para o seu reflexo no espelho e, assim, terá como lhe cortar a cabeça sem virar pedra”.

Em seguida, a deusa conduziu Perseu a Samos, onde havia três imagens de corpo inteiro das górgonas.

– Veja qual delas é Medusa. Estou lhe dizendo isso para que não cometa um engano e tente matar umas das outras duas, pois são imortais! Mas saiba que o perigo não será menor quando quiser cortar a cabeça da Medusa. Vá ao encontro das ninfas do Estige, e elas lhe concederão o aparato necessário à tarefa. Não sei dizer onde encontrá-las; nem eu nem homem ou deus algum, somente as três greias, que você poderá encontrar perto da terra das hespérides. Elas, porém,são irmãs da Medusa e só revelarão onde vivem as ninfas à força.

A deusa então mostrou a Perseu o caminho para a morada das três greias e lhe garantiu que ele as reconheceria facilmente. Afinal, eram muito velhas. E o mais estranho: as três tinham somente um olho e um dente, que partilhavam.

GreiasDepois de um longo caminho, Perseu as encontrou. Chegou bem na hora que uma delas tirava o olho e o passava à irmã. Quando o braço de uma se estendeu para entregar o olho à outra, Perseu interpôs-se, e o objeto foi colocado bem na palma de sua mão. Imediatamente ela agarrou o olho e disse: “Lá se vai o olho de vocês! Não o terão de volta se não me disserem onde encontrar as ninfas estígias!”.

O golpe foi inesperado para as greias. Ficaram contrariadas e não sabiam o que fazer. Moviam seus braços às cegas, tentando apanhar Perseu. Não queriam dizer de jeito nenhum onde moravam as ninfas, porque elas tinham as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica. E as greias sabiam que quem tivesse esses apetrechos em seu poder estaria em busca de matar Medusa, e poderia fazê-lo. Quando se deram conta que não reaveriam o olho, começaram a implorar Perseu, mas ele se manteve firme. As três velhas ficaram em pânico e, aterrorizadas, gritaram a uma só voz onde as ninfas poderiam ser encontradas.

Perseus and the Sea Nymphs, by Edward Burne Jones (1877)

Perseu e as Ninfas, por Edward Burne Jones (1877).

Perseu devolveu o olho e foi ao encontro das ninfas. Ao dizer-lhes o que se encarregara de fazer, obteve delas, prontamente, o que fora buscar. Uma lhe trouxe as sandálias aladas, com as quais poderia voar; outra, o capacete de Hades, que o tornaria invisível; a terceira lhe deu um saco mágico, que aumentava e diminuía, envolvendo coisas de qualquer tamanho.

– É para colocar aí dentro a cabeça da Medusa: mesmo decepada, ela tem o poder de transformar em pedra quem olhar para ela.

Perseu apanhou os apetrechos e seguiu. Com as sandálias aladas, voava veloz e graciosamente pelo céu. Não tardou a chegar à ilha das górgonas, quando então colocou o capacete e se tornou invisível. Lá do alto avistou as três. Em volta delas, e por toda a ilha, viam-se imagens humanas de pedra, fustigadas pela chuva e pelo vendo.

Agora Perseu olhava somente pelo reflexo de seu escudo. Àquela hora, as três estavam dormindo, e o herói se aproximou rapidamente. Logo distinguiu Medusa, e,  nessa hora difícil, Atena estava a seu lado. Dava-lhe ânimo e estava pronta para lhe guiar a mão. Com cuidado, Perseu olhou no espelho, calculou corretamente e, com um golpe certeiro da espada, decepou a horrorosa cabeça. Do pescoço cortado de Medusa, saltou primeiro um cavalo alado, Pégaso, e em seguida um gigante, Crisaor, ambos filhos de Posídon. O destino escrevera que eles nasceriam do pescoço de Medusa quando um certo herói lhe cortasse a cabeça.

Perseu enfiou a cabeça na sacola e voou para o céu, enquanto o corpo da górgona despencava para o mar. Mas o barulho acordou as duas irmãs do monstro. Vendo Medusa morta, saíram de imediato à procura do assassino, mas nada viram. Então, abriram as asas e voaram em direção ao céu. Perseu, todavia, já estava totalmente invisível e elas voltaram, desoladas.

The Birth of Pegasus and Chrysaor (1876-1885) by Edward Burne-Jones, gouache, Southampton City Art Gallery.

O nascimento de Pégaso e Crisaor, por Edward Burne-Jones (1876-1885).

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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