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Eros

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_A_Young_Girl_Defending_Herself_Against_Eros_(1880)

Jovem defendendo-se de Eros (1880), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἒρως (Éros), Eros, do verbo ἒρασθαι (érasthai), estar inflamado de amor, significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.C. ao século VI d.C.

Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Gaia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um daimon, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens e, como o deus do Amor está a meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se, assim, o elo que une o Todo a si mesmo. Foi contra a tendência generalizada de considerar Eros como um grande deus que o filósofo da Academia lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (Expediente) e de Penía (Pobreza), no Jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e “carência”, sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, “a plenitude”. Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ἐνέργεια (enérgueia), uma “energia”, perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca do objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam ser o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite vulgar, da Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Ártemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência dos poetas, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sob a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incompatível com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

Uma das Odes atribuídas ao grande poeta lírico grego do século VI a.C, Anacreonte, nos dá um retrato de corpo inteiro desse incendiário de corações. Vamos transcrevê-la, para que se tenha uma ideia da concepção sobretudo alexandrina de Eros:

Winged youth (Eros) flying to an altar. Side A of a Lucanian red-figure nestoris, terracotta, ~350-325BC, at Metropolitan Museum of Art

Eros alado, terracota em figtura vermelha (ca 350-325 a.C.), Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta.
“Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?”
Respondeu Eros: “Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua”.
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
“Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo”.
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão.
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro, acrescentou, alegra-te,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido”.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina na consciência, onde poderá tornar-se uma força espiritual de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades. Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontra-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sido total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação.

Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo.

Relativamente a TânatosHipno, Eros é acentuadamente mágico e o mais flexível dos três, com um papel mais definido na cosmogonia e fertilidade. Tem, por sua própria natureza, uma capacidade bem maior de cooperar com os mortais dia e noite nas conquistas e no amor. Promotor de uniões e despedidas, recebido sempre com mais simpatia que Hipno e Tânatos, possui um público muito mais entusiasta na poesia e na arte. Nos poemas homéricos, ainda não antropomorfizado, o substantivo Eros compartilha efetivamente os poderes das duas divindades anteriores: derrama uma caligem sobre a cabeça dos homens, apodera-se dos corações, como fez com Páris em relação a Helena; relaxa os membros, domina as criaturas humanas como se fossem corcéis, convertendo-se num déspota e é difícil combatê-lo, quanto mais vencê-lo.

Era companheiro e solidário a Hipno, mas por vezes se tornava inimigo do mesmo. Quando o Sono atrai ou Eros, este pode desencadear aparições de pessoas amadas ou um sono agitado com riscos e despedidas. A mente pode viajar para longe, perturba-se a identidade e a psiqué se afasta para além dos limites da experiência em vigília. Portador, como Hermes, de uma varinha mágica para seguir as pistas de Hipno, tem o poder de encantar, fechando ou despertando os olhos adormecidos dos mortais. Se a θέλξις (thélksis), o encantamento, é um elemento perigoso na magia e no encanto, Eros com frequência se identifica como cantor e músico. É o Eros da lira, capaz de transtornar inteligência e coração. Apresenta-se igualmente como depredador que captura veados e lebres.  Era o caçador clássico com o arco, ἀμήϰανος (amékhanos), difícil de combater, ἀνίκατος μάϰαν (aníkatos mákhan), invencível numa batalha, como se expressa Sófocles na Antígona sublinhando a antiga associação entre τόξα (tóksa) “as armas” e τοξικόν (toksikón), “a flecha envenenada”.

erosExiste, no entanto, um Eros bem mais arcaico, adolescente musculoso, de asas poderosas, um convite falaz para o sexo. Participa, como tal, de um grupo tradicional de violadores alados, que transportam suas vítimas à força para locais inacessíveis, como Bóreas, o vento do norte, Hipno, Tânatos, as Harpias, a Esfinge. É o Eros de que nos fala o poema Íbico (séc. VI a.C.), um Eros atrevido e sombrio, que se manifesta entre relâmpagos e loucuras desenfreadas, como o vento do norte flamejante com seus raios, o qual enlouquece nossas mentes da cabeça aos pés.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Helena

Έλένη (Heléne), Helena, proveio da raiz indo-europeia suel “brilhar”, como se poderia ver pelo grego σέλας (sélas), “brilho, luz”. Helena teria sido, a princípio, “uma deusa luminosa”, irmã dos Dióscuros Castor e Pólux, acompanhantes de Aurora, tendo-se convertido depois numa deusa da vegetação. Há os que tentam explicar Έλένη (Heléne) com o forma latina uenenum, cujo sentido primeiro é “filtro”. Pretendeu-se ainda ligar-lhe o nome a ἑλενίον (helénion), planta que a filha de Zeus manipulava como anestésico. Contudo, esta são apenas especulações, não se conhece a etimologia do no Helena.

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510)

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510).

Na epopeia Homérica Helena é filha de Zeus e de Leda, tendo por pai “humano” a Tíndaro, por irmãos os Dióscuros Castor e Pólux e por irmã a Clitemnestra. Segundo os Cantos Cíprios Zeus apaixonara-se por Nêmesis. Esta, para fugir-lhe à perseguição, percorreu terras, mares e céus, assumindo todas as formas possíveis, inclusive a de peixe. Já cansada, metamorfoseou-se em gansa. Zeus transformando-se em cisne, uniu-se a ela. Por força dessa conjunção sagrada, Nêmesis pôs um ovo, que, encontrado por um pastor, foi entregue a Leda. A esposa de Tíndaro o guardou num cesto e um tempo depois nasceu Helena.

A tradição que faz de Leda mãe de Helena, metamorfoseada também em gansa, acrescenta que Zeus,igualmente sob a forma de cisne, fê-la pôr um ovo, do qual nasceu Helena. Segundo outra versão, foram dois ovos (um formado pelo sêmen de Tíndaro e outro pelo de Zeus), nascendo, em consequência, do primeiro Castor e Clitemnestra, mortais; do segundo, Pólux e Helena, imortais. Mitógrafos de épocas mais tardias fazem-na filha de Oceano ou ainda de Afrodite e dão-lhe por irmãs, além de Clitemnestra, a Timandra e Filônoe.

Helena não foi raptada apenas uma vez, mas duas. O mito da esposa de Menelau é deveras confuso e complexo. Inúmeras variantes posteriores a Homero parecem encobrir o sentido primitivo do mitologema. Pois bem, essa personagem mítica especial, Helena, foi raptada, uma primeira vez, pelo herói ateniense Teseu, que a conduziu a Afidna, na Ática, e a confiou à sua mãe Etra. Mas quando Teseu e seu amigo inseparável, Pirítoo, desceram ao Hades para raptar Perséfone, deusa essencialmente da vegetação, os Dioscuros atacaram Afidna, levando de volta sua irmã e como cativa a mãe de Teseu, Etra, que, como já se viu, foi conduzida para Tróia por Helena, quando de seu segundo rapto por Páris.

Ora, todos os fatos acima narrados acerca do nascimento da rainha de Esparta, sempre tendo, de um lado, por pai um deus da fecundação e por matriz um ovo, e, de outro, as fugas constantes de “suas mães”, Nêmesis e Leda e “seus raptos” por Teseu e Páris, parecem levar a uma só conclusão: Helena teria sido primitivamente uma deusa ctônia e, por conseguinte, uma deusa da vegetação, uma guardiã dos ovos, das sementes depositadas no seio da terra. Como tal, uma vítima destinada ao rapto. Com o tempo, “a deusa Helena”, suplantada por outras divindades da vegetação mais importantes, teria caído no esquecimento e passado à classe das heroínas, fato comum e bem atestado na mitologia.

Voltando ao primeiro rapto de Helena. Com a morte de sua segunda esposa Fedra, Teseu associou-se a Pirítoo, igualmente viúvo de Hipodâmia. Os dois heróis, filhos respectivamente de Posídon e Zeus, resolveram que só se casariam dali em diante com filhas do pai dos deuses e dos homens e, para tanto, decidiram raptar Perséfone, esposa de Plutão, e Helena. Dirigiram-se primeiramente à Esparta, quando então se apoderaram à força da menina, Castor e Pólux, saíram-lhes ao encalço, mas detiveram-se em Tegeia. Uma vez em segurança, Teseu e Pirítoo tiraram a sorte para ver que ficaria com a princesa espartana, comprometendo-se o vencedor ajudar no rapto de Perséfone. A sorte favoreceu o herói ateniense, mas como Helena fosse ainda impúbere, Teseu a levou secretamente para Afidna, demo da Ática, e colocou-a sob proteção e guarde de sua mãe Etra. Isso feito, desceram ao Hades para conquistar Perséfone.

Durante a prolongada ausência do rei ateniense, Castor e Pólux invadiram a Ática e souberam por um certo Academo onde a irmã havia sido escondida. Imediatamente os dois herói de Esparta marcharam contra Afidna, recuperaram a jovem princesa e levaram Etra, mãe de Teseu, como escrava.

Algumas tradições, certamente tardias, insistem que Helena, já era inúbil e teve com Teseu uma filha chamada Ifigênia. Como quer que seja, tão logo retornou a Esparta, Tíndaro acho melhor dá-la em casamento. A “mais bela das mulheres” foi logo cercada por um verdadeiro enxame de pretendentes. Os mitógrafos conservaram-lhes os nomes e seu número varia de vinte a noventa e novo. Dos mais famosos heróis da Hélade só não consta, por óbvio, Aquiles, que é afinal, como se mostrou em Helena, o eterno infinito, o outro lado de Helena. Tíndaro, não sabendo como proceder, ouviu o conselho do solerte Ulisses, exigindo dos pretendentes dois juramentos: que respeitassem a decisão de Helena na escolha do noivo e que socorresse o eleito, se este fosse atacado ou sofresse afronta grave.

Este juramento será invocado por Menelau algum tempo depois e obrigará todos os grandes heróis gregos a participarem da Guerra de Troia.

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816)

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816).

Tíndaro, para compensar o conselho salutar de Ulisses, conseguiu-lhe junto ao irmão Icário a mão de Penélope, prima, por conseguinte, de seus filhos Castor e Pólux, Helena e Clitemnestra.

Helena escolheu Menelau e dessa união nasceu logo uma menina, Hermione, mas os mitógrafos acrescentam que Helena deu à luz também à um menino, Nicóstrato, após ter o casal retornado de Troia. Uma variante dá à criança o nome de Megapentes, que teria nascido, com pleno assentimento de Helena, da união de Menelau com uma escrava, a fim de que o reino de Esparta tivesse um sucessor e o culto familiar não fosse interrompido.

Sendo a rainha espartana a mulher mais bela do mundo, Afrodite, para ganhar o pomo da discórdia, que lhe outorgava o título de “a mais bela entre as deusas”, prometeu-a a Páris. Foi assim que Páris e Eneias, guiados pela bússola de Afrodite, vão ter ao Peloponeso, onde os tindáridas (dióscuros) Castor e Pólux os acolhem com todas as honras devidas.  Após alguns dias em Amiclas, foram conduzidos a Esparta. O rei Menelau os recebeu segundo as normas da sagrada hospitalidade e lhes apresentou Helena. Dias depois, tendo sido chamado, às pressas, à ilha de Creta, para assistir aos funerais de seu padrasto Catreu, deixou os príncipes troianos entregues à solicitude de Helena.

The Love of Helen and Paris, by Jacques-Louis David (1788), Louvre

O amor de Helena e Páris, por Jacques-Louis David (1788), Museu do Louvre.

Bem mais rápido do que se esperava, a rainha cedeu aos reclamos de Alexandre: era jovem, formoso, cercava-o o fausto oriental e tinha a indispensável ajuda de Afrodite. Apaixonada, a vítima da deusa do amor reuniu todos os tesouros que pôde e fugiu com o amante, levando vários escravos, inclusive a cativa Etra, mãe de Teseu, a qual fora feita prisioneira pelos Dioscuros, quando do resgate de Helena, raptada por Teseu e Pirítoo. Em Esparta, porém, ficou Hermione, que então contava apenas nove anos.

Recebendo de Íris, a mensageira dos imortais, a notícia de tão grande desgraça, voltou o rei apressadamente a Esparta. Por duas vezes, sem desprezar a companhia do sagaz Ulisses, Menelau visitou em embaixada a fortaleza de Troia, buscando resolver pacificamente o grave problema. Por isso mesmo, apenas pleiteou Helena, os tesouros e os escravos levados pelo casal. Páris, além de se recusar a entregar a amante e os tesouros, tentou secretamente convencer os troianos a matarem o rei de Esparta. Com a negatividade de Alexandre e a traição de Menelau, a luta se tornou inevitável: era a guerra, planejada por Zeus a conselho de Têmis-Momo, pelo equilíbrio demográfico da terra, uma carnificina para purgar tantas e tantas misérias dos homens, uma catástrofe em que tantos pereceriam “por causa de Helena”.

Embora a maioria dos autores concorde em que rainha espartana seguiu espontaneamente o príncipe troiano, porque se apaixonara por ele, outro julgam que ela foi levada à força ou que Afrodite travestira Páris de Menelau, para facilitar-lhe o rapto.

Acerca da viagem do casal de amantes para a Tróada, as tradições variam muito. A versão mais antiga e certamente a mais singela narra que a nau de Alexandre chegou a seu destino em três dias. Uma variante, no entanto, dá conta de que uma tempestade, desencadeada por Hera, protetora dos amores legítimos e inimiga de Afrodite, por causa da escolha de Páris no célebre concurso de beleza, lançou o barco troiano nas costas da Fenícia ou, mais precisamente, em Sídon. Apesar da fidalga acolhida que lhe foi dada, Páris, usando de astúcia, saqueou o palácio real e fugiu com seus companheiros. Perseguido pelos fenícios, vence-os em sangrenta batalha e navegou em direção à pátria. Uma outra versão relata que, temendo ser seguido por Menelau, o herói troiano fez demoradas escalas a Fenícia e na ilha de Chipre e, que só quando se certificou de que não estava sendo perseguido, se fez novamente no mar. Uma tradição meio estranha e narrada minuciosamente em Helena, o eterno infinito, conta que a deusa Hera, magoada e irritada com ter sido Helena preterida por Afrodite no concurso de beleza arbitrado por Páris, resolveu arrancar Helena dos braços do raptor. Confeccionou em nuvens um eídolon da esposa de Menelau e mandou que Hermes conduzisse para a corte do rei Proteu, no Egito, a verdadeira Helena.

Heródoto (Histórias, 2, 113-115) racionaliza a tradição e, em resumo, diz o seguinte: Páris, tendo raptado Helena, navegou célere em direção a Troia, mas os ventos contrários fizeram-no aportar no Egito. Acusado por seus próprios servidores de haver injuriado Menelau, raptando-lhe a esposa e muitos tesouros, o rei Proteu reteve Helena no Egito, para devolvê-la posteriormente a seu legítimo consorte. A Páris foram concedidos três dias para que deixasse o país, sob pena de ser considerado inimigo. Desse modo, Alexandre chegou sozinho em Ílion e fez-se uma guerra de dez anos, com seu cortejo de morte e destruição, por uma mulher que jamais pisaram em Troia.

Todas essas digressões míticas têm por objetivo inocentar a princesa espartana e mostra que ela foi vítima e instrumento de um destino que lhe ultrapassava a vontade. Tais relatos remontam claramente à tão destacada “palinódia” de Estesícoro. Com efeito, o poeta Estesícoro (séc. VII-VI a.C.), tendo injuriado Helena, em uma poema homônimo, ficara cego. Mas um certo Leônimo de Crotona, no sul da Itália, tento visitado a Ilha Branca, no Ponto Euxino, onde Helena vivia feliz ao lado de Aquiles, ouviu vozes estranhas. Essa lhe ordenavam navegar até Hímera, na Sicília, cidade do “poeta caluniador” e dizer-lhe que a cegueira se devia à cólera de Hera e que sua cura dependia de uma retratação. O poeta, de imediato, compôs uma palinódia, afirmando que Páris levara para Troia apenas um eídolon, um espectro, de Helena e não a verdadeira esposa de Menelau, e recuperou imediatamente a visão.

Nos poemas homéricos, todavia, a rainha de Esparta viveu realmente em Troia como esposa de Alexandre e depois de Deífobo, enquanto durou a guerra. Era condenada por quase todos, menos por Príamo e Heitor, que viam na amante de Páris uma vítima de Afrodite. Os outros membros da família real e o povo, entretanto, detestavam-na, julgando-a culpada pela catástrofe que ameaçava Ílion.

Often she would stand upon the walls of Troy, por Walter Crane

“Muitas vezes ela ficava em cima das muralhas de Troia”, por Walter Crane.

Os troianos estavam cobertos de razão quando desconfiavam da fidelidade da bela espartana à causa de Ílion. Se no canto terceiro Helena aparece as muralhas de Troia, e a pedido de Príamo aponta os heróis aqueus, nomeando a cada um e a saudade da pátria provoca-lhe as lágrimas, bem mais tarde ela se aproxima do cavalo de madeira e imita as vozes das esposas dos guerreiros que se encontravam no bojo da máquina fatal. O objetivo era incentivá-lo e encorajá-los para que destruíssem o mais depressa possível a cidadela asiática e pudessem retornar ao lar.

Uma versão posterior a Homero insiste numa rápida entrevista entre Aquiles e Helena, negociada por Tétis e Afrodite. O herói ficou muito impressionado com a beleza de Helena, mas teria que esperar ainda um pouco até um novo e definitivo encontro na Ilha dos Bem-Aventurados.

Com a morte de Páris, três filhos de Príamo, Idomeneu, Heleno e Deífobo, disputaram a mais bela das mulheres. O rei prometeu-a ao que fosse mais bravo na luta contra os aqueus e Deífobo teve a honra de recebê-la como esposa. Heleno, magoado, refugiou-se no monte Ida. Preso pelos helenos, fez-lhes uma grande revelação: Ílion não poderia ser tomada, enquanto lá estivesse o Paládio, a pequena estátua de madeira de Atena, guardiã das acrópoles.

Helena já arrependida de haver seguido a Páris, era a grande combatente aqueia dentro as muralhas de Troia. Por duas vezes salvou a vida de Odisseu e ainda o ajudou a furtar o Paládio.

Desejando penetra como espião em Ílion, Odisseu, para não ser reconhecido, fez-se chicotear até o sangue por Troas. Ensanguentado e coberto de andrajos, apresentou-se na cidadela como trânsfuga. Conseguiu furtivamente chegar até Helena e a teria convencido a trair os troianos. Relata-se igualmente que a esposa de Deífobo denunciara a Hécuba a presença do herói aqueu, mas este, com suas lágrimas, suas manhãs e palavras artificiosas, teria convencido a rainha a prometer que guardaria segredo a seu respeito. Desse modo foi-lhe possível retirar-se ileso, matando antes as sentinelas que guardavam a entrada da fortaleza.

Mais tarde, o mesmo herói, igualmente disfarçado, mas agora acompanhado de Diomedes, penetrou de novo em Ílion. Dessa vez, Helena não apenas se calou, mas cooperou para o furto do precioso Paládio e concertou com o esposo de Penélope a tática final para a entrega de Ílion aos aqueus.

Foi ela que agitou os fachos acesos, sinal combinado para que as naus gregas, escondida em Tênedos, regressassem e os helenos, sem perda de tempo, pudessem invadir Ílion, que dormia tranquila, após arrastar o cavalo de madeira, com o interior cheio de heróis gregos, para dentro de seus muros.

Agindo com presteza, escondeu as armas de Deífobo, para que o marido não pudesse defender-se. Com tantos serviços prestados a seus compatriotas, aguardou despreocupada o reencontro com o primeiro esposo.

Hllen of Troy, by Evelyn de Morgan (1898)

Helena de Troia, por Evelyn de Morgan (1898).

Tão logo entrou em Ílion, Menelau dirigiu-se ao palácio real e matou o derradeiro amante da esposa. Quando ergueu a espada para golpeá-la também, esta se lhe mostrou seminua, fazendo com que a arma lhe tombasse das mãos. Conta-se ainda que, temendo a ira de Menelau, ela se teria refugiado no templo de Afrodite e de lá, após muitas súplicas e explicações, conseguira reconciliar-se com ele. Há, porém, mitógrafos que insistem na tentativa de lapidação da filha de Tíndaro pelos aqueus, inconformados com a sobrevivência de uma adúltera consumada. Salvou-a mais uma vez a beleza: no confronto com Helena, as pedras caíram das mãos dos amotinados.

Outra versão, talvez mais antiga, atesta que, após a destruição da fortaleza dos priâmidas, Ájax pediu a morte de Helena como pena de seu adultério. Tal proposta provocou a ira dos atridas Agamêmnon e Menelau. Odisseu, com sua astúcia, salvou a rainha de Esparta e devolveu-a a Menelau.

O retorno do rei e da rainha de Esparta, agora reconciliados, foi um odisseia. Os grandes heróis, como Héracles, Perseu, Jasão, Teseu, e Odisseu passam sempre por uma purgação no sal de Posídon. Foi assim que os reis de Esparta, após dois anos de peregrinação pelo Mediterrâneo oriental, foram lançados por um naufrágio no Egito.

Canobo ou Canopo, piloto da nau do rei espartano, morrera picado por uma serpente. Após os solenes funerais do fiel servidor, tornando herói epônimo da cidade de Canopo, Helena matou o réptil e extraiu-lhe o veneno. Hospitaleiramente recebidos pelo faraó Ton ou Tônis, não durou muito a cortesia. Numa curta ausência do marido, Helena passa a ser cortejada pelo soberano, que acaba por tentar violentá-la. Menelau, ao retornar, mata-o. Uma outra versão atesta que o rei de Esparta, tento partido para a Etiópia, confiou a Tônis a esposa, mas Polidamna, mulher do rei egípcio, percebendo o assédio do rei a Helena, enviou-a a ilha de Faros, fornecendo-lhe, porém, uma erva maravilhosa que a protegeria das inúmeras serpentes que infestavam a ilha. Tal erva, por causa de Helena, teria recebido o nome de έλένιον (helénion).

As passagens dos reis lacônicos pelo Egito explica-se ainda por uma outra versão; saudosa de Menelau, Helena teria convencido o piloto de Faros a conduzi-la de Troia para Lacedemônia, mas uma grande tempestade a faz desviar-se para o Egito, onde o piloto perece, picado por uma serpente. Helena, após sepultá-lo, deu-lhe o nome à ilha de Faros, na embocadura do Nilo. Mas tarde, terminada a Guerra de Troia, Menelau encontrou-a no Egito.

Segundo o relato de Eurípides na tragédia Orestes, Menelau e Helena, antes de chegar a Esparta, passam por Argos, no exato dia em que Orestes matara sua mãe Clitemnestra. Ao ver Helena, investiu contra ela, acusando-a de responsável por todas as calamidades acontecidas. A rainha foi salva, pela intervenção de Apolo, que lhe antecipa a apoteose e a imortalidade, como filha de Zeus. Ao cabo de oito anos de padecimentos, em terra e mar, lograram chegar a Esparta, onde Helena se tornou exemplo de todas as virtudes domésticas.

Uma versão tardia, talvez oriunda da Ilha de Rodes, atribui à vida de Helena um fecho integralmente diverso do relado acima. Com a morte de Menelau, conta Pausânias, seus dois filhos Nicóstrato e Megapentes resolveram banir a mãe e madrasta como punição por seus “inúmeros adultérios”. Helena se refugiara na ilha de Rodes, na casa de sua grande amiga Pólixo, cujo marido perecera em Troia, lutando ao lado dos aqueus. Pólixo, que culpava a rainha de Esparta pela morte do esposo, fingiu recebê-la hospitaleiramente, a fim de ganhar tempo para a vingança planejada. Após exercitar bem suas escravas, disfarçou-as em Erínias e ordenou-lhes apavorar e castigar fisicamente Helena, enquanto esta estivesse no banho. O plano foi tão bem executado, que a hóspede se enforcou.

Bust of Helen of Troy by Antonio Canova at Victoria and Albert Museum

Busto de Helena de Troia, por Antonio Canova.

Tradições ainda recentes asseveram que Helena fora sacrificada por Ifigênia, que servia como sacerdotisa de Ártemis, em Táurida, o que traduziria uma “vingança poética” pelo sacrifício a Ártemis de Ifigênia, em Áulis.

Outros mitógrafos asseguram que Tétis, inconformada e inconsolável com a morte de Aquiles “por causa de Helena”, a teria assassinado, quando do tumultuado retorno da tindárida a Esparta.

Helena, consoante poetas e mitógrafos gregos e latinos, teria sido mãe de nove filhos: três mulheres e seis homens. Com Menelau tivera Hermione e Nicóstrato; com Teseu, Ifigênia; com Alexandre ou Páris dera à luz Helena, Búnico, Córito, Ágano, Ideu; e finalmente com Aquiles deu ao mundo o herói Eufórion.

Dos filhos que tiveram com Páris nenhum sobreviveu: Helena foi assassinada por Hécuba e os quatro jovens morreram soterrados por um teto que desabou durante o saque e incêndio de Troia pelos aqueus.

Referências:
BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.
BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.
MOSSÉ, C. Dicionário da Civilização Grega. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O pomo da discórdia

Nas núpcias de Peleu e Tétis, Éris, a deusa que personifica a discórdia, fora a única divindade não convidada. Para vingar-se, a divindade malfazeja lançou um pomo de ouro entre as deusas Hera, Atena e Afrodite, com a seguinte inscrição: “à mais bela”. Cada uma das deusas considerava que a maçã lhe pertencia e aferraram-se numa discussão. Para não se envolver na questão, Zeus determinou que o pastor Páris, filho de Príamo, julgaria qual das três deveria ficar com o pomo.

Pomo da discórdia

Éris lançando o pomo

As deusas, conduzidas por Hermes, apresentaram-se diante de Páris e cada uma lhe prometeu algum dom. Hera prometeu torná-lo o soberano da Europa e da Ásia. Atena prometeu torná-lo invencível nos combates, e Afrodite prometeu-lhe Helena, a mais bela de todas as mulheres. Páris, então, entregou o pomo a Afrodite. Essa escolha está na origem da Guerra de Troia, pois, para cumprir a promessa, Afrodite despertou uma paixão irresistível em Helena e esta, na ausência de seu esposo Menelau, acabou partindo com Páris para Troia. Quando Menelau retornou, convocou todos os chefes gregos a uma expedição contra Páris e os troianos.

Julgamento de Páris (1904) Enrique Simonet.

Julgamento de Páris, Enrique Simonet (1904)

Referências:

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix, 1974.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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