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Reia

Rhea and Cronus, ca 475 - 425 BC, at Metropolitan Museum, New York City, USA.

Reia e Crono, pélica de figuras vermelhas (ca. 475-425 a.C), Museu Metropolitano de Nova York, EUA.

Ῥέα (Rhéa), Reia, talvez seu nome seja um epíteto da terra: ampla, larga, cheia, da raiz ureia, com o mesmo sentido. Seu nome também pode significar fluxo ou facilidade. Como esposa de Crono, ela representou o eterno fluxo do tempo e de gerações; como a Grande Mãe (Meter Megale), o “fluxo” era sangue menstrual, águas de nascimento, e leite.

Trata-se, em todo caso, de uma divindade minóica, de uma Grande Mãe cretense, que, no sincretismo creto-micênico, decaiu de posto, tornando-se não apenas esposa de Crono, mas sobretudo “atriz de um drama mitológico”, cuja encenação já se começou a ver com a fuga da deusa para a ilha de Creta e o estratagema da pedra.

Reia, uma das titânides, filha de Gaia e Urano, uniu-se ao irmão Crono, era a Rainha dos Céus, e foi mãe, segundo a Teogonia de Hesíodo, de seis filhos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus.

Instruído por um presságio de Gaia, Crono devorava todos os filhos, tão logo nasciam, porque sabia que um deles o destronaria. Grávida de Zeus, a deusa fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz ao caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança e o deus, de imediato, a engoliu. Mais tarde, Crono foi obrigado a devolver todos os filhos à luz. Estes, comandados por Zeus, destronaram o pai.

Reia submetida a Crono pariu brilhantes filhos:
Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,
o forte Hades que sob o chão habita um palácio
com impiedoso coração, o troante Treme-terra
e o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,
sob cujo trovão até a ampla terra se abala.
E engolia-os o grande Crono tão logo cada um
do ventre sagrado da mãe descia aos joelhos,
tramando-o para que outro dos magníficos Uranidas
não tivesse entre os imortais a honra de rei.
Pois soube da Terra e do Céu constelado
que lhe era destino por um filho ser submetido
apesar de poderoso, por desígnios do grande Zeus.
E não mantinha vigilância de cego, mas à espreita
engolia os filhos. Reia agarrou-a longa aflição.
Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens
ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos,
aos seus, à Terra e ao Céu constelado,
comporem um ardil para que oculta parisse
o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai
e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar.
Eles escutaram e atenderam à filha querida
e indicaram quanto era destino ocorrer
ao rei Crono e ao filho de violento ânimo.
Enviaram-na a Licto, gorda região de Creta,
quando ela devia parir o filho de ótimas armas,
o grande Zeus, e recebeu-o Terra prodigiosa
na vasta Creta para nutri-lo e criá-lo.
Aí levando-o através da veloz noite negra atingiu
primeiro Licto, e com ele nas mãos escondeu-o
em gruta íngreme sob o covil da terra divina
no monte das Cabras denso de árvores.
Encueirou grande pedra e entregou-a
ao soberano Uranida rei dos antigos Deuses.
Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.
Teogonia – Hesíodo

Na época romana, Reia, antiga divindade da Terra, acabou fundindo-se com Cibele. Reia simboliza a energia escondida no seio da Terra. Gerou os deuses dos quatro elementos. É a fonte primordial ctônia de toda a fecundidade.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

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Érebo

Ἒρεβος (Érebos), Érebo, é “a obscuridade do mundo subterrâneo, o inferno”. Trata-se de um vocábulo antigo, cuja raiz indo-europeia é *regw-os, “cobrir de trevas, escurecer”, presente no sânscrito rájas– “região obscura do ar, vapor, poeira”, no armênio erek, –oy, “tarde” e no gótico riqiz, “obscuridade, crepúsculo”.

Símbolo das trevas inferiores, mas, uma vez personificado, tornou-se filho do Caos e irmão de Nix, a Noite. Caos gerou sozinho as trevas profundas, Érebo e Nix, enquanto de Nix nasceu a luz radiante, Éter e Hemera. Assim, a matéria informe, confusa e opaca, o Caos, gera primeiramente as trevas.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

O nome Érebo também foi utilizado para o reino sombrio, submundo de Hades. Bem mais tarde, isto é, a partir dos fins do séc. VI a.C., quando o Hades, o mundo infernal, foi “geograficamente” dividido em três compartimentos, Campos Elísios, local onde ficavam por algum tempo os que pouco tinham a purgar, Érebo, residência também temporária dos que muito tinham a sofrer e Tártaro, local de suplício permanente e eterno dos grandes criminosos, mortais e imortais. Érebo ocupou o centro, à igual distância entre os Campos Elísios e o Tártaro.

Érebo foi um Protogenos (deus primordial) da escuridão, consorte de Nix, cuja névoas escuras envolvia as bordas do mundo, e encheu as cavidades profundas da terra. Sua esposa Nix levou estas névoas pelos céus para trazer noite ao mundo, enquanto sua filha Hemera as dispersou trazendo dia: um bloqueando a luz de Éter e outro revelando-na. O ar superior brilhante (éter) foi considerado como a fonte do dia nas cosmogonias antigas, em vez do sol.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Erebos.html

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Tártaro

Mundo-gregoΤάρταρος (Tártaros), Tártaro, abismo insondável, que se encontra sob a terra, não possui etimologia em grego. Trata-se possivelmente de um empréstimo oriental.

Na Teogonia de Hesíodo, 116-132, Tártaro, personificado pelo poeta, é, ao lado de Caos, Gaia e Eros, um dos elementos primordiais do cosmo. Unindo-se a Gaia, foi pai dos monstros Tífon e Equidna, as quais se acrescentaram por vezes a Águia de Zeus e Tânatos, o Gênio da Morte.

Nos poemas homéricos e na Teogonia, o Tártaro é o local mais profundo das entranhas da terra, localizado muito abaixo do próprio Hades, isto é, dos próprios Infernos. Na Ilíada, VIII, 5-29, Zeus reúne a assembleia dos deuses e ameaça lançar “no Tártaro escuro, a voragem profunda de soleira de bronze e portas de ferro” qualquer dos imortais que se atravesse a lutar ao lado dos aqueus ou troianos. E acrescenta que a distância que separa o Hades do Tártaro é a mesma que existe entre Gaia, a Terra, e Urano, o Céu.

Era nesta vasta e horrenda prisão que as diferentes gerações divinas lançavam seus inimigos. Os primeiros a visitá-la foram os Ciclopes Arges, Estérope e Brontes, que lá foram aprisionados por Urano. Após a vitória de Crono sobre o pai, os Ciclopes foram libertados, a pedido de Gaia, mas por pouco tempo. Crono, que os temia, mandou-os de volta às trevas, em companhia dos Hecatônquiros, de onde só foram arrancados em definitivo por Zeus, que a eles se aliou na luta contra os Titãs, chefiados por Crono, e contra os terríveis Gigantes. Derrotados por Zeus foi a vez dos Titãs descerem ao mais tenebroso dos cárceres e tiveram por guardiões seus inimigos, os Hecatônquiros Coto, Giges e Briareu.

Na Ilíada, VIII, quando Zeus proíbe os Imortais de se imiscuírem nas batalhas entre Aqueus e Troianos, e ameaça lançar os recalcitrantes nas profundezas do Tártaro, observa-se que este é perfeito sinônimo de Hades, aonde iam ter, para todo o sempre, sem prêmio nem castigo, todas as almas.

Em Hesíodo a ideia de permanência eterna na outra vida já parece também existir, pelo menos para alguns deuses e mortais: lá foram lançados os Titãs e as almas dos homens da Idade de Bronze. Os Ciclopes tiveram mais sorte: duas vezes lançados no Tártaro, duas vezes de lá foram libertados, o que demonstra que para algumas divindades o Tártaro podia funcionar apenas como prisão temporária, ao menos até Hesíodo. Seja como for, é no Tártaro que as diferentes gerações divinas lançam sucessivamente seus inimigos, como os Ciclopes e depois os Titãs.

Local temido pelos próprios deuses, Zeus se aproveitava do fato para frear-lhes qualquer oposição ou simples ameaça a seu poder. Quando Apolo com suas flechas certeiras matou os Ciclopes, o pai dos deuses e dos homens ameaçou lançá-lo no Tártaro. De imediato, Leto suplicou ao antigo amante que poupasse o filho comum e Zeus fez que Apolo fosse exilado por um ano e servisse como pastor ao rei Admeto.

Um pouco mais tarde, quando o Hades foi dividido em três compartimentos, Campos Elísios, local onde ficavam por algum tempo os que pouco tinham a purgar, Érebo, residência também temporária dos que muito tinham a sofrer, o Tártaro se tornou o local de suplício permanente e eterno dos grandes criminosos, mortais e imortais. Lá se encontram Ixíon, Tântalo, Sísifo, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros…

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Cérbero

Κέρβερος (Kérberos), Cérbero, apesar de várias hipóteses formuladas, não possui etimologia segura. A aproximação com o sânscrito karbará-sárvara- “pintado, marchetado” tem sido posta em dúvida. O caráter monstruoso do animal e o fato de aparecer a partir de Hesíodo levam a pensar nu empréstimo oriental.

Héraclès, Cerbère et Eurysthée, hydrie à figures noires, v. 525 av. J.-C., musée du Louvre

Héracles, Cérbero e Euristeu, vaso etrusco (~525a.C.), Museu do Louvre.

Filho de Tífon e Equidna, tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Cérbero era imortal, Cão do Hades, um dos monstros que guardava o império dos mortos com uma vigilância permanente e lhe interditava a entrada dos vivos, mas, acima de tudo, se entrassem, impedia-lhes a saída. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.

Segundo Hesíodo, o espantoso animal possuía cinquenta cabeças e voz de bronze. A imagem clássica, porém, o apresenta como dotado de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes sibilantes. O último dos trabalhos imposto por Euristeu a Héracles foi o de ir ao Hades e de lá trazer o monstro. Após iniciar-se nos Mistério de Elêusis, o herói desceu à outra vida. Plutão permitiu-lhe cumprir a tarefa, desde que dominasse Cérbero sem usar de armas. Numa luta corpo-a-corpo o filho de Alcmena o venceu e o trouxe meio sufocado até o palácio de Euristeu, que, apavorado, ordenou a Héracles que o levasse de volta ao Hades.

Cerberus

O cão do Hades representa o terror da morte, simboliza o próprio Hades e o inferno interior de cada um. É de se observar que Héracles o levou de vencida, usando apenas a força de seus braços e que Orfeu “por uma ação espiritual”, com os sons irresistíveis de sua lira mágica o adormeceu por instantes. Estes dois índices militam em favor da interpretação dos neoplatônicos que viam em Cérbero o próprio gênio do demônio interior, o espírito do mal. O guardião dos mortos só pode ser dominado sobre a terra, quer dizer, por uma violenta mudança de nível e pelas forças pessoais da natureza espiritual. Para vencê-lo cada um só pode contar consigo mesmo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XII. Cérbero

Esse foi o único trabalho que Euristeu escolheu por si mesmo e foi o mais maligno: mandar o herói ir para o reino das profundezas e trazer o temível cão de guarda infernal, Cérbero.

Enquanto o mesquinhos rei fazia planos para aniquilar o herói, Héracles foi entregar os pomos de ouro para Atena. Ela os levou de volta para o jardim das Hespérides, pois lá era o seu lugar.

Após devolver os pomos, o arauto Copreu veio para lhe transmitir as ordens do rei para seu último trabalho: descer ao Hades e traze-lhe Cérbero.


Sobre Cérbero:
Cérbero era outro filho de Tífon e Equidna; portanto, irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna, de Ortro, de Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Era um cão com três cabeças circundadas por uma massa de serpentes sibilantes, e no fim de sua cauda havia uma cabeça de dragão. Cérbero era imortal e guardava os portões do Hades com uma vigilância permanente, para que nenhum morto escapasse à superfície. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.


Héracles partiu para esse trabalho envolvido em sua pele de leão e armado do arco-e-flecha e da clava. Descer vivo ao reino dos mortos já era algo inacreditável, mas voltar de lá com Cérbero como prisioneiro soava além dos limites da imaginação. Quando Zeus soube dessa tarefa imposta a seu filho, ficou preocupado e mandou Hermes e Atena para guiarem-no.

Entrando por um caverna nas encostas do monte Taígeto, os três mergulharam profundamente na Terra e, depois de horas andando por trilhas subterrâneas que jamais haviam sido pisadas, chegaram às margens do sagrado rio Estige.

Lá encontraram com Caronte, que transportava as almas dos mortos em seu barco. Embora ele não quisesse que Héracles subisse a bordo porque estava vivo, quando Hermes e Atena ordenaram, o barqueiro não teve outra escolha senão obedecer.

CerberusQuando chegaram ao outro lado, Cérbero farejou imediatamente o cheiro de carne humana viva e foi correndo para o portão. Normalmente ele não se incomodava com quem entrava, mas, quando viu Héracles, alto como um gigante e, além disso, armado, começou a rosnar e a mostrar os dentes. Porém não tentou atacar o herói e nem Héracles fez qualquer movimento contra ele. Atena o aconselhara que primeiro obtivesse o consentimento de Plutão, rei do Hades, pois, se não o fizesse, encontraria obstáculos insuperáveis.

Os três passaram pelos portões do reino dos mortos. Atena e Hermes eram imortais. Eles conheciam bem o reino de Plutão e não ficaram abalados com o que viam. Mas Héracles, que não era um deus, não pôde deixar de ficar impressionado. Mesmo sendo corajoso, sentiu o medo apertando seu peito. O reino dos infernos se estendia diante dele, escuro e sem limites. Em vez de céu, era coberto por altos arcos de pedra e sombrias abóbodas escavadas na rocha. Ouviam-se choros e gemidos por todos os lados, ecoando sem parar, e toda aquela vastidão se revestia de sons de sofrimento.

Héracles só tinha dado mais alguns passos quando as almas dos mortos o enxergaram e fugiram. Todas, menos a temível Medusa, a górgona alada, cujos cabelos eram uma massa de serpentes retorcidas. O herói se sentiu intimidado, mas como Medusa estava morta, não podia mais causar mal algum.

Outro morto que não fugiu foi o herói Meléagro. Ele vestia uma armadura brilhante e, assim que avistou Héracles, correu em sua direção. E falou para o herói que ele havia sofrido o pior dos infortúnios que um homem pode sofrer. Dizendo isso, sentou-se e contou sua trágica história: de como sua mãe, que o tinha amado como jamais outra mãe amou o filho, havia sido, no fim, o motivo de sua destruição, levando-o a lutar contra o próprio deus Apolo, o arqueiro mortal cujas flechas nunca erram o alvo. Só um confronto como aquele poderia tê-lo levado para o Hades, porque entre seus amigos ou inimigos nunca houvera um guerreiro como Meléagro.

Héracles nunca tinha ouvido uma história tão triste, e ela o comoveu tanto, que as lágrimas brotaram em seus olhos.

Mas Meléagro ainda não havia terminado e disse: “Ainda há algo que me preocupa. Eu deixei a minha irmã Dejanira na casa de meu pai, solteira e sem ninguém para protegê-la. Ela é encantadora como uma deusa. Torne-se seu guardião, Héracles, ou case-se com ela”. O herói tranquilizou Meléagro e disse que faria o melhor por sua irmã.

Finalmente, após outros encontros inesperados, Héracles apresentou-se diante de Plutão, rei do inferno. Plutão ficou perplexo ao vê-lo e perguntou asperamente o que ele pretendia, aparecendo vivo e armado diante dele. Mas sua mulher, Perséfone, que estava a seu lado, olhou para o herói com simpatia, porque ela também era filha de Zeus e isso fazia de Héracles seu irmão.

– Poderoso soberano do mundo dos mortos – o herói explicou -, eu não vim aqui por minha própria vontade. Fui enviado por Euristeu, a quem os grandes deuses deram o direito de me mandar fazer o que bem entendesse e de exigir de mim uma obediência cega. Eu me sujeitei à vontade desse soberano covarde para lavar a mancha de um crime terrível, e ele me enviou até aqui para realizar a mais impossível das tarefas, com um único objetivo: ocasionar a minha destruição, pois o simples fato de eu existir enche seu coração de medo. Até agora, todos os seus esforços falharam, e ele me mandou ao seu escuro reino, porque, segundo diz, quer ver Cérbero, apesar de eu crer que, se ele pôr os olhos nessa criatura, ficará tão aterrorizado, que não saberá onde se esconder. Seja como for, para mim não há escolha: tenho que levar Cérbero a Micenas.

Plutão parecia cheio de dúvidas. Como poderia permitir que o guardião do inferno fosse à superfície? Jamais ouvira uma coisa dessas. Mas Perséfone olhou para o marido com um ar suplicante que, depois de muito pensar, Plutão disse finalmente:

– Muito bem, pode levar o animal, mas só se puder dominá-lo sem usar suas armas.

Dominar o Cérbero sem nada nas mãos! O herói aceitou a oferta de certo modo aliviado e seguiu direto para os portões. Quando viu Cérbero, largou sua clava e seu arco, mas puxou a pele de leão com que se protegia para perto de seu corpo. Mais uma vez a pele do Leão de Nemeia, que ele conseguiu em seu primeiro trabalho, salvaria o herói.

Assim que Cérbero viu Héracles se aproximando dos portões do inferno, atacou-o. Ele deixara o herói entrar, mas isso não significava que o deixaria sair. Entretanto, nem as presas afiadas de Cérbero eram capazes de perfurar a espessa pele do leão, e Héracles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço, bem no ponto onde suas três cabeças brotavam. Ele apertou com toda sua força, e os esforços de Cérbero para soltar-se foram inúteis; este chegou a morder a perna do herói com os dentes de dragão da ponta da sua cuada, mas, apesar da dor, Héracles não afrouxou seu aperto. No fim, Cérbero não pôde resistir à pressão do estrangulamento e desistiu de lutar, assinalando para seu oponente que admitia a derrota.

Héracles pôs uma forte corrente em volta do pescoço de Cérbero. Subjugado, ele uivava humildemente, com as três cabeças baixas.

Para voltar, Héracles escolheu outra rota, que passava c%C3%A9rberos+o+c%C3%A3o+do+infernopelos Campos Elísios, um lugar muito diferente do escuro mundo do Hades. Lá ficavam os mortos que, por suas nobres ações, tinham ganho o favor dos deuses. Depois, seguindo o curso do rio Aqueronte ao longo de uma caverna, saíram para o mundo superior, através de Tirinto.

Assim que emergiram, Cérbero voltou a ficar selvagem. As serpentes que rodeavam seu pescoço sibilavam perversamente e suas bocas espumaram de raiva. Deu um puxão na corrente com toda a força e, latindo freneticamente, tento escapar de volta para a profundeza escura e fugir da intolerável luz do dia.

Héracles lançou-se sobre ele como um raio, com as mãos abertas para agarrar seu pescoço, e Cérbero viu que não podia fazer nada para se salvar. Curvando suas cabeças outra vez, seguiu o herói, submisso.

Micenas já não estava muito longe, e Héracles devorava a distância com passos largos. O último trabalho estava chegando ao fim.

Agora, ele estava no pátio do palácio! Quando os guardas viram o monstro que o seguia de perto, recuaram e se mantiveram a uma distância segura. Ninguém tentou se opou à sua entrada. Euristeu teria de ver Cérbero, querendo ou não.

Um gemido de terror foi tudo que o rei conseguiu emitir como boas-vindas. Tão grande foi seu medo, que saltou para dentro de uma ânfora de barro – a mesma na qual se escondera quando viu o Javali de Erimanto, o quarto trabalho de Héracles. Desta vez, também puxou a tampa por cima de sua cabeça e ficou ali dentro fechado por três dias e três noites, sem nem mesmo querer sabre o que acontecia do lado de fora.

Héracles riu de desprezo quando viu Euristeu pular no cântaro como uma lebre assustada. Depois, levou Cérbero de volta à caverna pela qual o tinha trazido para luz do dia e soltou a corrente que lhe envolvia o pescoço. Rápido como um raio, o terrível cão desapareceu na escuridão subterrânea.

12th labor of Hercules - Cerberus, by Pierre Salsiccia

Cérbero, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Sísifo: a sagacidade, o castigo

Sísifo foi um nome que ficou para sempre na memória dos mortais: era o homem mais astuto que já viveu neste mundo. Filho de Éolo e Enarete, foi o primeiro rei e fundador de Corinto. Apesar de malicioso, não era injusto. No entanto, após a sua morte, foi duramente penalizado porque, com muita astúcia, enganara até os próprios deuses.

Quando Sísifo decidiu construir Corinto, muito lhe agradou a localização próxima ao istmo, pois a cidade teria dois portos: um no golfo coríntio e outro no golfo sarônico. Havia ainda, lá perto, um monte grande e alto para se construir um castelo inexpugnável, que protegeria os habitantes caso houvesse guerra. O lugar, porém, não tinha água, e por isso Sísifo pediu ao deus-rio Asopo que lhe concedesse uma fonte. Asopo quis saber o que ganharia em troca, e, com astúcia, respondeu que podia contar com ele quando precisasse, pois lhe daria a amizade.

Satisfeito com a resposta de Sísifo, Asopo bateu seu bastão na terra e uma fonte de água abundante e cristalina brotou ao pé do monte. Dessa forma, Corinto foi construída e, sobre o monte, Acrocorinto, ou seja, a acrópole de Corinto.

Após um tempo, Zeus passou por ali arrastando uma jovem consigo. Era Egina, filha de Asopo, que ele acabara de roubar do pai. Sísifo os recebeu com humildade, e Zeus e Egina passaram a noite inteira no castelo. Mal partiram, veio Asopo, que procurava aflito pela filha, e perguntou se Sísifo sabia de algo que pudesse lhe ajudar a encontrar Egina. O rei de Corinto se encontrava numa situação difícil: a Asopo devia grandes favores, pois com a fonte por ele concedida tornou-se possível a fundação de Corinto; todavia, como poderia ir contra a vontade do rei dos deuses? Era um impasse. Entretanto, depois de tanto pensar, a obrigação com Asopo falou mais alto e, assim revelou, que havia sequestrado a filha do deus-rio. Asopo, agradecido e admirado, perguntou se o rei não temia o castigo de Zeus. Sísifo disse que daria um jeito de escapar.

Zeus, furioso com a traição de Sísifo, imediatamente ordenou a Caronte que tomasse a alma do rei e a levasse para o escuríssimo Hades. O astuto Sísifo, contudo, já pressentira qual seria o seu castigo. Assim, armou uma emboscada para Caronte e se pôs a esperá-lo com uma corda na mão, que escondeu atrás de si. Quando chegou o temível deus da morte, Sísifo não teve medo. Caiu de repente sobre ele. Antes que Caronte tivesse tempo de fazer o menor movimento, viu-se amarrado.

Um tempo depois, Plutão, o rei do Hades, chegou ao Olimpo e perguntou a Zeus:
– O que acontecerá com Sísifo?
– Eu me ocupo dos vivos, e não dos mortos – respondeu o soberano dos deuses.
– Sim, mas Sísifo está vivo, reinando e rindo à nossa custa! Ainda se fosse só isso… Ele mantém Caronte amarrado e, por isso, nenhum homem morre sobre a Terra, e ninguém vem ao meu reino!

Zeus trovejou e relampejou de cólera. De imediato, chamou Ares, o temível deus da guerra para que o mesmo libertasse Caronte e desse fim à vida de Sísifo. Assim, o pobre Sísifo, que não podia com Ares e Caronte juntos, logo estava nas profundezas do Hades.

Como já esperava que isso acontecesse, instruíra a mulher, Mérope, a não fazer nenhum sacrifício fúnebre a Plutão por ocasião de sua morte. Em vão, Plutão esperou os sacrifícios consagrados pelo rei de Corinto, até que o próprio espírito de Sísifo se colocou diante dele com sua astúcia, e disse:
– Grande rei do Hades, sinto que minha mulher não lhe tenha oferecido sacrifícios fúnebres por minha morte. Deixe-me subir à Terra para castigá-la e ordenar-lhe que cumpra sua obrigação. Retornarei ao seu reino imediatamente depois.

Plutão fora enganado ao deixar que Sísifo subisse à terra. Este, em vez de castigar a mulher conforme prometera, caiu nos braços delas e os dois passaram juntos uma vida feliz até a velhice. Contudo, como todos os homens morrem um dia, Sísifo também morreu. E então os deuses se vingaram.

Plutão fez o fundador de Corinto carregar no mundo ínfero uma rocha maior que ele. Deveria levar essa pedra até o alto de uma montanha. Sísifo se afligia, esgotava suas forças para carregar o peso insustentável até lá em cima, mas antes de chegar ao topo, a pedra escapava e se precipitava novamente para o sopé da montanha. Sísifo corria para alcançá-la e recomeçava seu árduo trabalho, empurrando com as mãos, os ombros e os joelhos a rocha impossível de levantar. O infeliz se angustiava para levá-la ao cume e dar fim ao seu martírio, mas no último instante a pedra novamente escapava e despencava pela encosta. Assim acontecia continuamente, e o tormento de Sísifo era infindável. Este foi seu castigo por ludibriar os deuses.

Punishment_sisyph

Sísifo, por Titian (1549)

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Héracles – os doze trabalhos

Após cometer o terrível crime contra a sua prole, Héracles é incumbido de realizar doze grandes trabalhos a serviço do rei de Micenas, Euristeu, como meio de obter sua redenção e conseguir o perdão dos deuses.
São eles:

I. Leão de Nemeia
II. Hidra de Lerna
III. As aves do Estínfalo
IV. O Javali de Erimanto
V. A Corsa Cerinita
VI. Os estábulos de Áugias
VII. O Touro de Creta
VIII. Os cavalos de Diomedes
IX. O cinto de Hipólita
X. O gado de Gérion
XI. Os pomos das Hespérides
XII. Cérbero

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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