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A loucura de Héracles

Héracles teve três filhos com sua primeira esposa, Mégara. O casal era muito feliz, porém a felicidade do herói e suas vitórias cada vez mais gloriosas provocaram um amargo ressentimento em Hera, que resolveu causar-lhe mal outra vez.

Certa feita, quando Héracles, cheio de alegria, observava seus filhos brincando, Ate – a deusa do engano –  surgiu silenciosamente atrás dele, jogando-lhe sobre os olhos um véu invisível que tinha o poder mágico de turvar o raciocínio. A visão do herói perturbou-se e, em vez de sues filhos, viu três dragões colossais prontos a atacar. Agarrando cadeiras, mesas e tudo o mais a seu alcance, Héracles quebrou-os sobre o que pensava serem as cabeças dos monstros enormes e assim matou sua prole.

Depois, tomado de uma raiva demoníaca, destroçou tudo quanto havia no palácio, enquanto os que estavam lá dentro empurravam-se pelas portas ou atiravam-se das janelas, procurando escapar à agitação selvagem do homem mais forte do mundo, até que o palácio de Creonte foi reduzido a um monte de pedras.

Ate voltou e retirou o véu invisível. Então, o desafortunado pai viu, entre os destroços, não dragões, mas mortos os seus três filhos. Seus olhos não podiam acreditar na verdade terrível que os outros lhe contavam. Como pudera matar com as próprias mãos os filhos que tanto amava?

 

A loucurade de Héracles

Um desenho de linha 1889 do herói grego Héracles (aflito com algo parecido com transtorno de estresse pós-traumático provocado pela violência que causou contra seus filhos), pelo artista August Baumeister. Origina-se em uma pintura de vasos gregos-siciliano assinado por Asteas (350-320 a.C.), que descreve uma peça de teatro do dramaturgo Eurípides em que o Héracles está prestes a imolar o primeiro de seus três filhos, enquanto sua esposa tenta escapar de sua ira psicótica.

Por causa dessa ação horrenda, Creonte ordenou que Héracles abandonasse Tebas imediatamente, e sua esposa que mandou informá-lo de que nunca mais queria vê-lo. Antes, porém, que lhe dissessem algo, o triste herói tomara o caminho do exílio por sua própria vontade e, vagando sem destino, foi dar nas terras de Téspio.

Lá, numa voz rouca e angustiada, contou a seu amigo, o rei Téspio, o vil crime que cometera; depois disso, apesar de sua força e coragem, não resistiu e chorou como uma criança, implorando ajuda.

Téspio teve pena de Héracles e recebeu-o como convidado, fazendo tudo o que estava a seu alcance, procurando ajudar o herói a esquecer o ocorrido. Tudo em vão; nada podia apagar de sua memória aquele cenário terrível.

E assim o tempo passou, até que um dia chegaram mensageiros de Micenas, informando a Téspio que o rei Estênelo morrera e seu filho, Euristeu, reinava em seu lugar. Traziam, também, uma mensagem  do novo rei destinada a Héracles. O herói estava sentado ali perto, silencioso, perdido em tristes pensamentos: mas, ao ouvir seu nome, levantou-se, pegou a carta e leu-a:

“Eu, o grande rei de Micenas”, dizia a carta, “a quem Zeus deu o direito de governar todas as pessoas da Hélade, agora ordeno a Héracles, filho de Anfítrion, que passe a me servir para realizar grandes trabalhos que trarão glórias para meu nome e meu reinado. Assim eu, Euristeu, filho de Estênelo e descendente de Zeus pelo herói Perseu, decreto.”

Quando Héracles acabou de ler aquela convocação, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Téspio, que viu a presunção ridícula da ordem de Euristeu, aconselhou-o a não ir. Mas os deuses não eram da mesma opinião. O grande Zeus estava amarrado pelo juramento de há tantos anos e nada podia fazer. Agora Hera tinha a palavra, e seu ódio pelo filho de Alcmena era mortal. Fazendo com que um fanfarrão digno de dó como Euristeu desse uma ordem a Héracles, ela poderia, além de humilhar o herói, provocar seu fim.

Contudo, os perigos da incumbência não assustavam Héracles, e, quanto a humilhação, isso era exatamente o que ele buscava para se redimir do crime contra seus próprios filhos.

A única coisa que o fazia hesitar era a ideia de servir a um homem indigno e desprezível. Será que não faria mais mal do que bem à raça humana? Em sua confusão, decidiu consultar o oráculo de Delfos. A resposta foi a seguinte:

– Vá a Micenas e fique a serviço de Euristeu. Ele ordenará que realize doze grandes trabalhos. Só quando tiver completado o último deles é que os deuses perdoarão seu crime contra seus filhos.

Héracles sentiu-se aliviado com as palavras do oráculo e, afinal, sabia que caminho seguir.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Javali de Erimanto

Herakles brings Eurytheus the Erymanthian boar. Attic black-figured amphora, ca. 550 BC. From Vulci. At British Museum, London.

Héracles, Euristeu e o Javali de Erimanto. Ânfora ática (~550a.C.), Museu Britânico, Londres.

Ὑς Ερυμανθιος (Hus Erymanthios), Javali de Erimanto, era um animal feroz que sempre descia a montanha arruinando as plantações, aterrorizando e destruindo tudo que encontrava pelo seu caminho. Tinha esse nome porque viveu na famosa Erimanto, uma escura montanha na Arcádia.

Ele era um monstro antropófago, podia causar abalos sísmicos e, com suas presas, era capaz de arrancar pela raiz uma árvore corpulenta e dilacerar homens ou animais que se interpusessem em seu caminho.

Héracles foi enviado para capturá-lo como um de seus Doze Trabalhos. Designado pelo mesquinho rei Euristeu, o herói, em seu quarto trabalho, deveria levar o javali vivo para Micenas. Depois de perseguir o javali através da neve espessa que encobria o monte Erimanto no inverno, o animal fatigado foi capturado e levado até Euristeu. O rei, aterrorizado com a visão do javali mortal, pulou dentro de um jarro para manter-se seguro.

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Euristeu aterrorizado dentro do vaso de barro

O simbolismo do javali está diretamente relacionado com a tradição hiperbórea, com aquele nostálgico paraíso perdido, onde se localizaria a Ilha dos Bem-Aventurados. Nesse enfoque o javali configuraria o poder espiritual, em contraposição com o urso, símbolo de poder temporal. Assim concebida, a simbólica do javali estaria relacionada com o retiro solitário do druida nas florestas: nutre-se da glande do carvalho, árvore sagrada, e a javalina com seus nove filhotes escava a terra em torno da macieira, a árvore da imortalidade.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte III: nascem os gêmeos

Passaram-se nove meses, até que, uma noite, quando os deuses estavam comendo e bebendo nos brilhantes salões do Olimpo, Zeus levantou-se da mesa e anunciou que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite era seu filho, que esta se transformará no maior herói jamais visto antes, e todas as pessoas da Grécia se curvarão diante de sua vontade. Disse que seu nome será Héracles.

Quando ouviu essas palavras, Hera ficou doida de ciúme. Mais uma vez seu marido tinha gerado uma criança com outra mulher! Não se conteve e sussurrou algo no ouvido da ardilosa deusa Ate, que estava sentada a seu lado, depois virou-se para Zeus e retrucou exigindo que o esposo jurasse diante de todos os deuses que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite seria realmente o herói do qual falou, e que todas as pessoas da Grécia se curvariam diante de sua vontade.

Sem hesitar um só momento, sem suspeitar de nada, Zeus fez um juramento que nunca poderia ser quebrado. Ele jurou pelas águas sagradas do Estige que seria conforme havia dito.

Quando Hera ouviu o juramento do marido, sorriu maliciosamente. Acontece que, em Micenas, Nicipe, mulher de Estênelo, esperava um filho, e seu marido, assim como o pai de Alcmena, era filho de Perseu. Nicipe estava grávida havia apenas sete meses, mas isso não se afigurou um problema para Hera. Ela ordenou a Ilítia, deusa dos parto, que corresse a Tebas, prolongasse o trabalho de parto e as dores de Alcmena e, depois, fosse diretamente a Micenas, para trazer o filho de Nicipe a este mundo antes do tempo.

Birth of Heracles by Jean Jacques Francois Le Barbier

Nascimento de Héracles, por Jean Jacques Francois Le Barbier

As ordens de Hera foram cumpridas ao pé da letra e, assim, a despeito dos bem engendrados planos de Zeus, a primeira criança da linhagem de Perseu a nascer naquela noite foi Euristeu de Micenas, uma criatura tímida, fraca, empurrada para o mundo dois meses antes do tempo. Uma hora depois, nasceu Héracles, seguido imediatamente por outro menino, Íficles, gerado por Anfítrion.

Logo depois do nascimento de Héracles, Hera apresentou-se diante de Zeus e disse cheia de sarcasmo que a primeira criança da linhagem de Perseu que veio a nascer foi Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e que, de acordo com o juramento, Euristeu mandará e Héracles o obedecerá.

Zeus ficou mudo, de tão furioso. Todos os seus maravilhosos planos haviam malogrado. Era essa a terrível verdade – Euristeu mandaria e Héracles o obedeceria. Zeus mesmo jurara isso, pelas sagradas águas do Estige.

Desse modo, Hera burlou o grande senhor dos deuses e dos homens, e o anseio de gerações continuaria sendo um mero sonho, porque Euristeu não parecia de fato capaz de se tornar o verdadeiro líder de toda a Grécia.

A raiva de Zeus era imensa. Ele nem podia imaginar como caíra em tal armadilha. Mas, quando pôs os olhos em Ate, compreendeu tudo: ela turvara seu raciocínio e o pegara desprevenido; sem dúvida pagaria por isso! Agarrando a deusa pelos cabelos trançados, Zeus arremessou-a para fora do Olimpo com uma força tremenda. Desde aquele dia, a ardilosa Ate passou a viver na Terra, entre os homens e as mulheres. E todas as ações desleais dos mortais são atribuídas a sua insidiosa influência. Até hoje, na língua grega, a palavra para fraude significa “aquilo que vem de Ate”, já que a deusa é a personificação do erro.

Depois disso, Zeus dirigiu-se aos outros deuses e disse que havia feito um juramento sagrado e que não podia voltar atrás. Héracles não se tornaria o grande líder que a Grécia há tanto tempo necessita. Em vez disso, ele passará por tanta dor e sofrimento como nenhum outro jamais passara. Mas ele também realizará doze grandes trabalhos e muitos outros feitos maravilhosos e será exaltado e admirado como nenhum outro deus ou mortal jamais foi. E, quando sua vida na Terra chegar ao fim, será recebido no Olimpo. Tornará-se imortal e a própria Hera o aceitará como seu igual, fazendo as pazes com ele.

Hera ao ouvir isso disse a si mesma que aquilo nunca aconteceria, pela simples razão de que Héracles não viverá. Ela tomaria providências para que ele morresse enquanto ainda era um bebê. Mas, diferentemente do que previa, Hera dificultou seus próprios planos.

Num certo anoitecer, Zeus implantou na mente de Alcmena o temor de que Hera, sua esposa, viesse fazer algum mal ao infante Héracles naquela mesma noite. Para proteger seu filho da cólera da deusa, Alcmena tirou o pequeno Héracles do palácio e deixou-o num local isolado, fora dos muros de Tebas, pedindo que Atena o protegesse.

Agindo sob as ordens de Zeus, Atena levou Hero para passear nos arredores da cidade e, fazendo parecer uma mera coincidência, conduziu-a exatamente ao lugar onde Héracles fora deixado.

Hera viu a criança e pegou-a no colo. Atena que observava a cena, sugeriu que a deusa amamentasse o bebê. Hera, com boa vontade, ofereceu seu seio à criança, mas Héracles sugou-o com tal força e machucou-a tanto, que ela o afastou bruscamente, deixando esguichar seu leite no céu escuro. E assim foi criada a via láctea, o “caminho do leite”. Mas não foi só isso que aconteceu. Quando Héracles tomou o leite de Hera, tornou-se muito forte: em vez de destruí-lo como planejara, a deusa o fizera indestrutível.

The Origin of the Milky Way (~1575) by Tintoretto, in National Gallery, London

A origem da Via Láctea (1575), por Tintoretto, National Gallery, Londres.

Depois que as duas deusas saíram de cena, apareceu Alcmena, apressada para pegar seu filho. Hera mordeu os lábios, pálida de raiva. Agora compreendia o acontecido. Assim como enganara Zeus, via-se por ele ludibriada. Ela não podia fazer nada, mas sua determinação de destruir Héracles redobrou-se. A partir daí, Zeus confiou a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Cérbero

Κέρβερος (Kérberos), Cérbero, apesar de várias hipóteses formuladas, não possui etimologia segura. A aproximação com o sânscrito karbará-sárvara- “pintado, marchetado” tem sido posta em dúvida. O caráter monstruoso do animal e o fato de aparecer a partir de Hesíodo levam a pensar nu empréstimo oriental.

Héraclès, Cerbère et Eurysthée, hydrie à figures noires, v. 525 av. J.-C., musée du Louvre

Héracles, Cérbero e Euristeu, vaso etrusco (~525a.C.), Museu do Louvre.

Filho de Tífon e Equidna, tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Cérbero era imortal, Cão do Hades, um dos monstros que guardava o império dos mortos com uma vigilância permanente e lhe interditava a entrada dos vivos, mas, acima de tudo, se entrassem, impedia-lhes a saída. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.

Segundo Hesíodo, o espantoso animal possuía cinquenta cabeças e voz de bronze. A imagem clássica, porém, o apresenta como dotado de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes sibilantes. O último dos trabalhos imposto por Euristeu a Héracles foi o de ir ao Hades e de lá trazer o monstro. Após iniciar-se nos Mistério de Elêusis, o herói desceu à outra vida. Plutão permitiu-lhe cumprir a tarefa, desde que dominasse Cérbero sem usar de armas. Numa luta corpo-a-corpo o filho de Alcmena o venceu e o trouxe meio sufocado até o palácio de Euristeu, que, apavorado, ordenou a Héracles que o levasse de volta ao Hades.

Cerberus

O cão do Hades representa o terror da morte, simboliza o próprio Hades e o inferno interior de cada um. É de se observar que Héracles o levou de vencida, usando apenas a força de seus braços e que Orfeu “por uma ação espiritual”, com os sons irresistíveis de sua lira mágica o adormeceu por instantes. Estes dois índices militam em favor da interpretação dos neoplatônicos que viam em Cérbero o próprio gênio do demônio interior, o espírito do mal. O guardião dos mortos só pode ser dominado sobre a terra, quer dizer, por uma violenta mudança de nível e pelas forças pessoais da natureza espiritual. Para vencê-lo cada um só pode contar consigo mesmo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Doze trabalhos: epílogo

Enfim despreocupado, Héracles pegou a estrada novamente; agora não para Micenas, mas rumo a Tirinto. Dez anos haviam se passado desde que ele ficara a servido de Euristeu. Dez anos terríveis de sofrimento, mas cheios de feitos gloriosos. Como um simples soldado que recebe ordens do mais imprestável comandante, Héracles obteve mais glória que o mais vigoroso rei ou o melhor estrategista já haviam conquistado até então.

Agora sua submissão a Euristeu havia terminado. O herói cumprira todas as ordens dos deuses e ganharam o perdão que merecia, suportando firmemente o pior para apagar o horrível crime que cometera ao matar seus próprios filhos, quando tomado pela loucura.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XII. Cérbero

Esse foi o único trabalho que Euristeu escolheu por si mesmo e foi o mais maligno: mandar o herói ir para o reino das profundezas e trazer o temível cão de guarda infernal, Cérbero.

Enquanto o mesquinhos rei fazia planos para aniquilar o herói, Héracles foi entregar os pomos de ouro para Atena. Ela os levou de volta para o jardim das Hespérides, pois lá era o seu lugar.

Após devolver os pomos, o arauto Copreu veio para lhe transmitir as ordens do rei para seu último trabalho: descer ao Hades e traze-lhe Cérbero.


Sobre Cérbero:
Cérbero era outro filho de Tífon e Equidna; portanto, irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna, de Ortro, de Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Era um cão com três cabeças circundadas por uma massa de serpentes sibilantes, e no fim de sua cauda havia uma cabeça de dragão. Cérbero era imortal e guardava os portões do Hades com uma vigilância permanente, para que nenhum morto escapasse à superfície. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.


Héracles partiu para esse trabalho envolvido em sua pele de leão e armado do arco-e-flecha e da clava. Descer vivo ao reino dos mortos já era algo inacreditável, mas voltar de lá com Cérbero como prisioneiro soava além dos limites da imaginação. Quando Zeus soube dessa tarefa imposta a seu filho, ficou preocupado e mandou Hermes e Atena para guiarem-no.

Entrando por um caverna nas encostas do monte Taígeto, os três mergulharam profundamente na Terra e, depois de horas andando por trilhas subterrâneas que jamais haviam sido pisadas, chegaram às margens do sagrado rio Estige.

Lá encontraram com Caronte, que transportava as almas dos mortos em seu barco. Embora ele não quisesse que Héracles subisse a bordo porque estava vivo, quando Hermes e Atena ordenaram, o barqueiro não teve outra escolha senão obedecer.

CerberusQuando chegaram ao outro lado, Cérbero farejou imediatamente o cheiro de carne humana viva e foi correndo para o portão. Normalmente ele não se incomodava com quem entrava, mas, quando viu Héracles, alto como um gigante e, além disso, armado, começou a rosnar e a mostrar os dentes. Porém não tentou atacar o herói e nem Héracles fez qualquer movimento contra ele. Atena o aconselhara que primeiro obtivesse o consentimento de Plutão, rei do Hades, pois, se não o fizesse, encontraria obstáculos insuperáveis.

Os três passaram pelos portões do reino dos mortos. Atena e Hermes eram imortais. Eles conheciam bem o reino de Plutão e não ficaram abalados com o que viam. Mas Héracles, que não era um deus, não pôde deixar de ficar impressionado. Mesmo sendo corajoso, sentiu o medo apertando seu peito. O reino dos infernos se estendia diante dele, escuro e sem limites. Em vez de céu, era coberto por altos arcos de pedra e sombrias abóbodas escavadas na rocha. Ouviam-se choros e gemidos por todos os lados, ecoando sem parar, e toda aquela vastidão se revestia de sons de sofrimento.

Héracles só tinha dado mais alguns passos quando as almas dos mortos o enxergaram e fugiram. Todas, menos a temível Medusa, a górgona alada, cujos cabelos eram uma massa de serpentes retorcidas. O herói se sentiu intimidado, mas como Medusa estava morta, não podia mais causar mal algum.

Outro morto que não fugiu foi o herói Meléagro. Ele vestia uma armadura brilhante e, assim que avistou Héracles, correu em sua direção. E falou para o herói que ele havia sofrido o pior dos infortúnios que um homem pode sofrer. Dizendo isso, sentou-se e contou sua trágica história: de como sua mãe, que o tinha amado como jamais outra mãe amou o filho, havia sido, no fim, o motivo de sua destruição, levando-o a lutar contra o próprio deus Apolo, o arqueiro mortal cujas flechas nunca erram o alvo. Só um confronto como aquele poderia tê-lo levado para o Hades, porque entre seus amigos ou inimigos nunca houvera um guerreiro como Meléagro.

Héracles nunca tinha ouvido uma história tão triste, e ela o comoveu tanto, que as lágrimas brotaram em seus olhos.

Mas Meléagro ainda não havia terminado e disse: “Ainda há algo que me preocupa. Eu deixei a minha irmã Dejanira na casa de meu pai, solteira e sem ninguém para protegê-la. Ela é encantadora como uma deusa. Torne-se seu guardião, Héracles, ou case-se com ela”. O herói tranquilizou Meléagro e disse que faria o melhor por sua irmã.

Finalmente, após outros encontros inesperados, Héracles apresentou-se diante de Plutão, rei do inferno. Plutão ficou perplexo ao vê-lo e perguntou asperamente o que ele pretendia, aparecendo vivo e armado diante dele. Mas sua mulher, Perséfone, que estava a seu lado, olhou para o herói com simpatia, porque ela também era filha de Zeus e isso fazia de Héracles seu irmão.

– Poderoso soberano do mundo dos mortos – o herói explicou -, eu não vim aqui por minha própria vontade. Fui enviado por Euristeu, a quem os grandes deuses deram o direito de me mandar fazer o que bem entendesse e de exigir de mim uma obediência cega. Eu me sujeitei à vontade desse soberano covarde para lavar a mancha de um crime terrível, e ele me enviou até aqui para realizar a mais impossível das tarefas, com um único objetivo: ocasionar a minha destruição, pois o simples fato de eu existir enche seu coração de medo. Até agora, todos os seus esforços falharam, e ele me mandou ao seu escuro reino, porque, segundo diz, quer ver Cérbero, apesar de eu crer que, se ele pôr os olhos nessa criatura, ficará tão aterrorizado, que não saberá onde se esconder. Seja como for, para mim não há escolha: tenho que levar Cérbero a Micenas.

Plutão parecia cheio de dúvidas. Como poderia permitir que o guardião do inferno fosse à superfície? Jamais ouvira uma coisa dessas. Mas Perséfone olhou para o marido com um ar suplicante que, depois de muito pensar, Plutão disse finalmente:

– Muito bem, pode levar o animal, mas só se puder dominá-lo sem usar suas armas.

Dominar o Cérbero sem nada nas mãos! O herói aceitou a oferta de certo modo aliviado e seguiu direto para os portões. Quando viu Cérbero, largou sua clava e seu arco, mas puxou a pele de leão com que se protegia para perto de seu corpo. Mais uma vez a pele do Leão de Nemeia, que ele conseguiu em seu primeiro trabalho, salvaria o herói.

Assim que Cérbero viu Héracles se aproximando dos portões do inferno, atacou-o. Ele deixara o herói entrar, mas isso não significava que o deixaria sair. Entretanto, nem as presas afiadas de Cérbero eram capazes de perfurar a espessa pele do leão, e Héracles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço, bem no ponto onde suas três cabeças brotavam. Ele apertou com toda sua força, e os esforços de Cérbero para soltar-se foram inúteis; este chegou a morder a perna do herói com os dentes de dragão da ponta da sua cuada, mas, apesar da dor, Héracles não afrouxou seu aperto. No fim, Cérbero não pôde resistir à pressão do estrangulamento e desistiu de lutar, assinalando para seu oponente que admitia a derrota.

Héracles pôs uma forte corrente em volta do pescoço de Cérbero. Subjugado, ele uivava humildemente, com as três cabeças baixas.

Para voltar, Héracles escolheu outra rota, que passava c%C3%A9rberos+o+c%C3%A3o+do+infernopelos Campos Elísios, um lugar muito diferente do escuro mundo do Hades. Lá ficavam os mortos que, por suas nobres ações, tinham ganho o favor dos deuses. Depois, seguindo o curso do rio Aqueronte ao longo de uma caverna, saíram para o mundo superior, através de Tirinto.

Assim que emergiram, Cérbero voltou a ficar selvagem. As serpentes que rodeavam seu pescoço sibilavam perversamente e suas bocas espumaram de raiva. Deu um puxão na corrente com toda a força e, latindo freneticamente, tento escapar de volta para a profundeza escura e fugir da intolerável luz do dia.

Héracles lançou-se sobre ele como um raio, com as mãos abertas para agarrar seu pescoço, e Cérbero viu que não podia fazer nada para se salvar. Curvando suas cabeças outra vez, seguiu o herói, submisso.

Micenas já não estava muito longe, e Héracles devorava a distância com passos largos. O último trabalho estava chegando ao fim.

Agora, ele estava no pátio do palácio! Quando os guardas viram o monstro que o seguia de perto, recuaram e se mantiveram a uma distância segura. Ninguém tentou se opou à sua entrada. Euristeu teria de ver Cérbero, querendo ou não.

Um gemido de terror foi tudo que o rei conseguiu emitir como boas-vindas. Tão grande foi seu medo, que saltou para dentro de uma ânfora de barro – a mesma na qual se escondera quando viu o Javali de Erimanto, o quarto trabalho de Héracles. Desta vez, também puxou a tampa por cima de sua cabeça e ficou ali dentro fechado por três dias e três noites, sem nem mesmo querer sabre o que acontecia do lado de fora.

Héracles riu de desprezo quando viu Euristeu pular no cântaro como uma lebre assustada. Depois, levou Cérbero de volta à caverna pela qual o tinha trazido para luz do dia e soltou a corrente que lhe envolvia o pescoço. Rápido como um raio, o terrível cão desapareceu na escuridão subterrânea.

12th labor of Hercules - Cerberus, by Pierre Salsiccia

Cérbero, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XI. Os pomos das Hespérides

Hera disse a Euristeu que mandasse o herói trazer três maçãs de ouro, que ele deveria pegar da árvore que Gaia deu a ela como presente de casamento.  Hera estava certa de que Héracles jamais encontraria a macieira e que, caso a encontrasse, perderia a vida na mera tentativa de se aproximar da árvore, pois o imortal dragão Ládon era o guardião da mesma.

O herói teve que partir para seu trabalho seguinte sem ter a menor ideia de seu destino. Por mais que perguntasse, não conseguia obter nenhuma informação importante. Suas andanças sem rumo o levaram à Tessália, onde se defrontou com Cicno, o sanguinário filho de Ares, e depois com o próprio deus da guerra. Derrotou os dois em combate, matando Cicno e ferindo Ares, que caiu de joelhos uivando de dor.

Depois disso, Héracles continuou seu caminho, cruzando a Ilíria e a região norte da península Itálica, até chegar ao rio Pó. Ali, nas margens do rio, encontrou um grupo de ninfas e, como tantas vezes antes, perguntou se elas sabiam do paradeiro da macieira de Hera. Como esperado, elas não sabiam dizer onde achar a árvore, mas disseram-lhe que o único que conhecia o seu paradeiro era o grande vidente, um velho deus marinho, Nereu e que ele nunca revelaria a localização da mesma. Agora o problema de Héracles era arrancar o segredo de Nereu.

O herói despediu-se das ninfas do rio e partiu em busca de Nereu – não que ele tivesse esperança de obter alguma coisa, mas parecia não haver mais nada a fazer. Encontrou-o dormindo em sua caverna e aproveitou a oportunidade para amarrar o velho vidente, no começo com suavidade, para não acordá-lo, mas depois tão apertado que ele despertou de seu sono.

Nereu tentou levantar-se, mas não conseguiu mover-se nem um centímetro. Olhando para seu corpo, viu-se enrolado da cabeça aos pés. Então, perguntou o que estava acontecendo e que era aquele que ousara amarrar-lhe.

– Meu nome é Héracles, e quero que me diga onde está a árvore com os pomos de ouro, o presente que a Mãe Gaia deu à deusa Hera, quando esta se casou com Zeus.
– Isso eu nunca lhe direi!
– Então eu nunca o soltarei.

De fato, Nereu estava tão fortemente amarrado que não conseguia mover nem um músculo. Ele tentou escapar, mas foi impossível, e desamarrar a si mesmo estava fora de questão. Durante algum tempo, ficou sem dizer nada, enraivecido. Depois, começou a considerar sua situação. Perguntou novamente ao herói o que ele queria, obteve a mesma resposta e mais uma vez se negou a falar.

– Então fique aí amarrado! Eu vou bloquear a entrada de sua caverna com pedras e fechar você aí dentro!

Dizendo isso, o herói começou a rolar uma enorme pedra para a entrada da caverna. O que mais Nereu podia fazer? Ele não teve outra escolha senão falar.

– Você encontrará a árvore que procura no Jardim das Hespérides, nos confins do mundo, onde Atlas, irmão de Prometeu, sustenta a abóboda celeste sobre os ombros. Mas pegar os três pomos de outro é impossível, porque a macieira é guardada por Ládon, um horrendo dragão de cem cabeças. E você não conseguirá pegá-lo dormindo, como fez comigo, pois ele nunca adormece com suas cem cabeças ao mesmo tempo, só metade delas de cada vez. Assim, há sempre cinquenta cabeças bem erguidas e com olhos chamejantes bem abertos, vigiando para que nenhum estranho ponha os pés no jardim das Hespérides. Você não pode se aproximar sem ser percebido e, se o fizer, não sairá com vida, pois Ládon é incrivelmente forte e absolutamente invencível. Mesmo que os deuses lhe dessem o dobro da sua força atual, de nada adiantaria, pois Ládon é imortal.

Isso era tudo que Nereu tinha a dizer. Héracles desamarrou-o e saiu deprimido. Ficara sabendo onde estava a árvore, mas não sabia como pegar os pomos, se eram guardados por um monstro tão terrível. Que fazer? Pela primeira vez, não tinha vontade de seguir ao cumprimento do dever. Muito desanimado, deixou que seus passos o guiassem e, lá pelas tantas, viu-se no Cáucaso rochoso e agreste.

Vagando pelas montanhas, Héracles ouviu gemidos terríveis que vinham de longe. Parou a escutá-los atentamente. Não havia dúvida, alguém sofria a mais dolorosa tortura e precisava de ajuda. Depois, mais estranho ainda, o herói ouviu vozes femininas chamando seu nome.

Héracles correu na direção das vozes e subiu num pedra para ter uma visão melhor. Viu um grupo de mulheres com os braços estendidos para ele, pedindo sua ajuda. Então o herói reconheceu-as, eram as Oceânides: as filhas do Oceano, que tinha barba e cabelos prateados. Caminhou em direção a elas, mas dera poucos passos e algo terrível se colocou na sua frente: o titã Prometeu, o mais fiel amigo dos homens, suspenso por corrente pregadas numa rocha, experimentava torturas horrendas e infinitas: uma enorme água mergulhava do céu e, com seu cruel bico escancarado, arremetia-se contra o corpo de Prometeu.

O herói matou a águia e libertou o paciente titã de seus grilhões. Foi a ação mais nobre e bela de sua vida. Héracles contou ao titã para onde ia e o que devia fazer e prometeu preparou seu conselhos para o herói:

– Escute bem, Héracles. Sou vidente e sei todas as coisas. Como Nereu disse, o dragão que guarda os pomos não pode ser derrotado, ele é realmente imortal. Não tente, porque, se o fizer, perderá a vida. Mas se você for capaz de sustentar o céu sobre os ombros, coisa que só Atlas foi capaz de fazer até hoje, poderá ter os pomos. Segure o globo para Atlas e deixe que ele vá buscar os pomos por você. Ele não é estranho ao dragão e não sofrerá mal algum. Mas fique atento! Atlas é esperto – sei disso porque ele é meu irmão. Tome cuidado para que não o deixe suportando o céu para sempre!

O conselho de Prometeu devolveu o ímpeto ao herói. De ânimo recuperado, tomou o longo percurso – atravessar o mundo do leste para oeste. Como de costume, muitos perigos o esperavam no caminho. Em certo lugar do Egito, quando, exausto, deitara-se sob uma árvore, foi surpreendido por soldados que o amarraram e o levaram até seu rei, Busíris.

Depois de inspecionar o herói da cabeça aos pés, Busíris ordenou que o amarrassem com mais força, pois amanhã ele seria sacrificado no altar de Zeus Amon.

Nove anos antes, uma grande desgraça se abatera sobre o Egito. O solo não dava mais colheitas, e uma fome medonha ameaçava matar as pessoas. Vindo de Chipre, chegou um vidente chamado Frásio que disse que para se livrarem daquela praga deveriam sacrificar anualmente um forasteiro a Zeus Amon. Assim, o pobre vidente foi o primeiro a ser sacrificado.

No dia seguinte, os ritos sacrificiais foram feitos. Héracles, cheio de raiva, se livrou das cordas e golpeou primeiro o sacerdote, depois Busíris e, por fim, seu filho. Os três caíram mortos. Todos ficaram aterrorizados com a força do herói e ninguém ousou enfrentá-lo.

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Livre outra vez, Héracles rumou para oeste, em direção às regiões onde o Sol se põe todas as noites. Ao atravessar a Líbia, ele encontrou um gigante vigoroso cujo nome era Anteu. Era incrivelmente forte e obrigava todos os forasteiros a lutar com ele até a morte. Filho de Gaia, era ajudado por ela durante as batalhas. Quanto mais o corpo de Anteu tocava a Terra, mais ela renovava seus poderes; assim nunca ficava cansado e o resultado era que nunca perdia uma luta.

Héracles foi desafiado. Sem saber que Anteu tirava sua força da Mãe Gaia, lutou bravamente com ele durante muito tempo, mas em vão. Vezes e mais vezes o herói lançou-o contra o chão, e ficava cada vez pior, pois o gigante punha-se de pé num salto. Héracles estava intrigado com isso: como era o gigante capaz daquelas súbitas explosões de força quando, um momento antes, tinha estado perto ser derrotado, rastejando na poeira? Então o herói se lembrou de que seu oponente era filho de Gaia. Agarrou o gigante, levantou-o bem alto no ar e não o deixou tocar na terra. Na luta desesperada para escapar, todas as suas forças se esgotaram, e o medonho gigante encontrou seu destino.

Depois de vencer Anteu, Héracles retomou seu rumo ao oeste, até os limites mais afastados do mundo. Lá, durante era incontáveis, o titã Atlas suportava o peso esmagador do céu. Suas únicas companheiras eram as Hespérides, filhas de Héspero e de Nix. Ali perto, em seu jardim, estava a árvore de Hera com os pomos de ouro.

11th-laborO herói se encontrou com Atlas e disse a que vinha. Então Héracles se ofereceu para suster o céu no lugar do titã enquanto o mesmo buscava os três pomos. Atlas sentiu que o peso saía de cima dele e ficou livre. Pela primeira vez em incontáveis eras, Atlas podia respirar livremente. Sentindo-se leve como um pássaro, disparou para o jardim das Hespérides, pisando no ar. Em pouco tempo estava de volta com as três maçãs de ouro, que brilhavam ao sol.  Mas não estava com pressa para retornar a seu posto. Tinha outro plano em mente…

– Ouça, Héracles – disse ele. – Por que eu mesmo não levo os pomo para Euristeu? Isso não vai tomar muito tempo e, assim que eu voltar, o aliviarei de sua carga.

Sem esperar a resposta, virou-se para partir. Héracles lembrou-se imediatamente do aviso de Prometeu e compreendeu que, se não encontrasse um modo de passar a tarefa de volta a Atlas e pegar seus pomo, ficaria ali para sempre, sustentando o céu. E assim disse ele:

– Leve os pomos, de qualquer modo. Eu até gosto de segurar este peso, mas não quero machucar os meus ombros. Você se incomodaria em segurar o céu por um momento enquanto eu ponho uma almofada sobre eles?

Sem desconfiar de nada, Atlas pôs os pomos no chão e levando a abóboda celeste, colocando-o de volta sobre os ombros. Héracles pegou os pomos e prosseguiu em seu caminho, deixando Atlas com sua eterna carga.

Satisfeito por ter, finalmente, os pomos de ouro das Hespérides em suas mãos com segurança, o herói pegou o caminho de volta para a Grécia. Embora a viagem de retorno fosse longa, ela pareceu passar rápido como um raio.

O herói entrou no palácio sem esperar ser convidado. Carregando os frutos de ouro, apresentou-se ao rei. Euristeu ficou estupefato e colérico.

– Eu sei que você não quer estes pomos – disse o herói. Você esperava outra coisa, como em todas as outras vezes. Eu só quero saber qual é a tarefa seguinte que maquinou para mim.

– Vou mandá-lo para o reino das profundezas, de onde ninguém jamais volta. É para lá que você vai!

11th labor of Hercules - The-apples of Hesperides, by Pierre Salsiccia

O pomo das Hespérides, por Pierre Salsiccia

 Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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X. O gado de Gérion

Desta vez, Euristeu despacharia o herói para os mais remotos limites do mundo, para além do grande Oceano, à ilha de Erítia. Lá pastava o gado do gigante Gérion, e Héracles deveria trazê-los a Micenas. Gérion tinha um tipo de gado muito peculiar: de um tom avermelhado profundo, seus bois tinham cabeças nobres, testas largas e pernas esguias e graciosas.


GeryonSobre Gérion:
Γηρυών (Geryón) é um derivado do verbo γηρύειν (gerýein), “gritar, fazer ressoar, entoar”, donde “o que faz ouvir sua voz”, ou por ele ter sido um pastor ou porque o nome designava primitivamente o cão que lhe guardava os rebanhos. Gérion tinha uma voz de potência inacreditável. Contava-se que ela tinha a mesma intensidade do grito que Ares dera quando ferido na guerra de Troia – um urro tão estridente quanto o de dez mil guerreiros juntos. Filho de Criasaor e Calírroe, era uma criatura monstruosa, composta por três corpos unidos na cintura. Tinha três cabeças, seis braços e andava tão pesadamente armado quanto três guerreiros, usando três elmos e protegendo-se com três escudos resistentes à mais afiada das lanças. 


Esse era o adversário inominável que Héracles teria de enfrentar desta vez.

Sozinho, o herói partiu. Após cruzar as terras que hoje fazem parte da Itália, França e Espanha, chegou a Gibraltar. Nessa longa jornada, defronta-se com vário tipos de perigo – ladrões, monstros, animais selvagens – quase que a cada passo, e a todos enfrentaria, aniquilando seus males. Embora árdua, a viagem foi proveitosa, porque agora as regiões pelas quais ele passara tinham se tornado seguras para os viajantes.

 Naquela época não havia, em Gibraltar, ligação do mar Mediterrâneo com o grande Oceano, a oeste. Héracles decidiu abrir um largo canal para a passagem de navios e trabalhou firmemente nessa tarefa. Quem passa pelo estreito hoje pode ver dois grandes rochedos, um de cada lado. Diz-se que se formaram com as pedras que Héracles empilhou nas duas margens. Por esta razão, tais pedras imensas foram nomeadas Colunas de Héracles.

Terminou o serviço pingando suor, pois o sol estivera insuportável durante todo o dia. Enfurecido com o deus Sol, Hélios, empunhou seu arco para amedrontá-lo, e o deus do dia, que estava terminando sua caminhada pelo céu e subindo em seu barco de ouro, se pronunciou:

– Abaixe seu arco, Héracles – disse Hélios sem rancor, ao contrário, admirando o herói por sua coragem. Com voz bondosa, prosseguiu: – Diga-me em que direção você está indo e, se quiser minha ajuda, a terá.

Héracles contou ao deus para onde ele estava indo, o que tinha de fazer e pediu o barco emprestado. Hélios sorriu e emprestou o barco de boa vontade.

O barco de Hélios transportou o herói rapidamente até Erítia, onde Héracles amarrou-o a um rochedo e saltou para a terra. Nem deu dois passos e um latido feroz o surpreendeu. Era o temível Ortro, cão bicéfalo.


OrtroSobre Ortro:
Ὄρθρος (Órthros), “o que está vigilante, alerta ao nascer do dia”, era o cão que ajudava a guardar o rebanho de Gérion. Filho de Tífon e Equidna, era irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna e de Cérbero. Ortro tinha duas cabeças em cujas mandíbulas pronunciavam-se dentes pontiagudos e uma cuada que terminava numa cabeça de dragão.


O monstruoso cão de duas cabeças lançou-se contra o herói com a intenção de estraçalhá-lo. Héracles esquivou-se com um giro; quase não teve tempo de ver o que acontecia, e Ortro já pulara em cima dele. Se não fosse pela pele do leão, aqueles dentes terríveis teriam penetrado sua carne. Contudo, Héracles não perdeu a calma. Levantou sua clava e, quando o horrendo animal pulou outra vez, desferiu-lhe um golpe com tamanha força, que não foi necessário mais nenhum.

Eliminara-se a primeira ameaça. Em seguida, Êurito chegou correndo.


Sobre Êurito:
Εὔρυτος (Eúrutos), talvez provenha de εὐ (eû), “bom, bem” e do verbo ἐρύειν (erýein), “puxar, esticar”, donde “o que atira bem com o arco”. Um gigante, pastoreava do gado de Gérion junto de Ortro.


Esse pastor de Gérion era um gigante com o dobro do tamanho de Héracles e com uma força semelhante a dele. Tendo visto Ortro tombar, preparou-se para arremessar contra o herói uma pedra enorme. Um único instante de hesitação e teria sido o seu fim. Mas uma flecha certeira atingiu m cheio o peito do pastor, e a pedra que ele erguera escorregou, esmagando-o.

Héracles arrebanhou o gado apressadamente e o conduziu ao barco. Posto que Gérion não aparecera, o melhor seria partir sem dar com ele. Entretanto, um dos pastores de Plutão testemunhara o ocorrido e avisou o gigante, que correu para recuperar seu gado e punir o homem que ousara pegá-lo sem primeiro lutar com o dono.

 Quando Héracles pôs os olhos em Gérion, ficou estático. Era uma visão de fazer temer os mais valentes. Numa das mãos, uma espada; na segunda e na terceira, lanças. Em seus outros braços prendiam três escudos. Conforme o gigante corria, suas armas se entrechocavam provocando o alarido de um exército em batalha. Quanto mais perto se via, mais terríveis pareciam seus gritos! Parecia que o céu desmoronava. Qualquer um, exceto Héracles, teria fugido.

Até mesmo a coragem do herói oscilou naquele momento. Mas, resoluto, empunhou seu arco, apontou com cuidado e disparou. Aquela flecha foi o começo do fim do temível gigante: uma de suas cabeças e o grande peito que a suportava tombaram sem vida para um lado; dois braços caíram hesitantes, enquanto uma lança e um escudo batiam ruidosamente no chão. Então Gérion tentou arremessar a segunda lança contra Héracles, mas seus braços mortos estavam no caminho e o lançamento foi fraco. A chance do herói se configurou: erguendo a clava, desferiu um golpe esmagador numa das cabeças do monstro. Gérion tombou morto em meio ao ruidoso choque de armas e armaduras contra o chão.

Tratava-se, sem dúvida, de uma vitória maior do que Hércules esperava obter. Agradecendo à deusa Atena, que se mantivera firme a seu lado, o herói levou o gado de Gérion a bordo e zarpou de volta para leste, através do Oceano. Quando chegou à outra costa, devolveu o barco a Hélios, agradeceu-lhe e iniciou a dificultosa viagem de volta a Micenas.

Quando atravessava as terras das atuais Espanha e França pelo sul, dois bandidos roubaram e fugiram com seu gado. Héracles caçou-os, matou-os e reouve os animais. Mais adiante na estrada, o irmão deles, Lígis, rei da Ligúria, atacou-o com um exército inteiro. Ele não só queria o gado, como também vingar a morte dos irmãos. Que luta desigual! Héracles lutava sozinho, seu estoque de flechas acabou logo e, o pior de tudo, no solo em volta não havia uma única pedra. Jamais estivera tão vulnerável. Ferido em vários lugares, sua morte afigurava-se iminente, mas o herói resistia por conta de uma esperança.

– Pai Zeus! – ele invocou. – Até agora eu não pedi sua ajuda, mas neste momento preciso dela mais do que nunca. Ajude-me a derrotar meu inimigos!

O poderoso Zeus, com grande amor pelo filho, enviou do céu uma chuva de pedras. Héracles pôs-se a arremessá-las sofregamente contra seus inimigos, salvando a si e ao gado. De fato, em Marselha e a desembocadura do rio Ródano, há hoje uma faixa de terra chamada Planície Pedregosa, que se parece com o lugar da batalha.

Deixando a região da França para trás, Héracles entrou com seu gado na península Itálica, seguindo para o leste. Quando passava pela região na qual mais tarde Roma seria construída, topou com o gigante Caco, que lhe roubou oito dos melhores touros e novilhas e, para sumir com a marca de seus cascos, puxou-os pela cuada, escondendo-os numa caverna.

Não muito tempo depois, um dos animais mugiu e Héracles encontrou o esconderijo. Caco havia bloqueado a entrada da caverna com pedras que pareciam irremovíveis. O herói conseguiu desalojar o sustentáculo do teto da caverna, que ficou, então, descoberta. Mas, quando acabou de fazer isso, Caco saiu da escuridão. Era um gigante horrivelmente disforme, com línguas de fogo saindo pela boca. A despeito de seu horror, Héracles atacou-o imediatamente, enquanto Caco tentava queimá-lo. Um golpe de espada rápido e mortal furou o pescoço do gigante, apagando-lhe as chamas instantaneamente e afogando-o em seu próprio sangue. Reouve, ainda uma vez o gado que lhe fora roubado e seguiu com o rebanho.

As dificuldades, porém, não tinham terminado. Adiante, um dos animais desgarrou-se, pulou no mar e nadou até a Sicília. Teria sido impossível para Héracles ir em busca do animal perdido, se Hefesto não aparecesse oferecendo-se para tomar conta do rebanho até seu regresso.

Assim, Héracles atravessou para a Sicília, onde encontrou o animal desgarrado no rebanho do rei Érix, contra quem deveria se bater, se quisesse ter de volta o que fora buscar. Como jamais fora derrotado, Érix estava certo de que ficaria com o animal.

Héracles lutou com o rei e o imobilizou. Mas Érix se recusou a admitir que tinha perdido e negou-se a devolver o animal. Então, Héracles lutou com ela pela segunda vez, tornou a vencê-lo e ainda assim não obteve o cumprimento da promessa. Na terceira luta, Érix morreu. Héracles pôde, enfim, recuperar o animal.

Depois de tantos confrontos, o herói finalmente aportou na Grécia e já bem próximo de Micenas. Mas, justamente quando as dificuldades pareciam ter chegado ao fim, Hera enviou moscardos para atacar o rebanho. Suas picadas venenosas fizeram os animais se dispersarem em todas as direções. O incansável herói perseguiu-os pelas montanha da Trácia e para além do Helesponto. A perseguição foi longa e tremendamente penosa, entretanto Héracles logrou reunir o rebanho, retomando seu objetivo. Mas… chegando ao rio Estrímon, viu-se de novo em maus lençóis: o rio era tão largo e fundo que os animais não poderiam atravessá-lo. Héracles ficou indignado com o deus do rio e lançou tantos seixos em seu leito que ele deixou de ser navegável.

Transpunha-se o obstáculo final do trajeto, embora, diga-se, faltasse muito para chegar a Micenas. A distância não era nada, comparado ao que enfrentara até ali. Héracles seguiu solenemente ao longo do último grande trecho do caminho para casa.

Agora Euristeu era o dono de um maravilhoso rebanho, e isso não lhe deu prazer algum. Ele se sentiu tão miserável com mais esse retorno de Héracles que sacrificou todo o gado em nome da deusa Hera. Pensar que ele enviara Héracles para os confins da Terra, em meio aos piores perigos e enfrentando os mais terríveis monstros, para depois vê-lo voltar vitorioso, era algo insuportável. E agora, aonde enviá-lo?

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O gado de Gérion, por Pierre Salsiccia

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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IX. O cinto de Hipólita

Em Micenas, uma nova ordem aguardava o herói: ele devia trazer o cinto de Hipólita, rainha das amazonas. Mais uma vez, tratava-se de uma ideia de Hera.

A deusa estava mais irritada que Euristeu por ver que Héracles lograva êxito em todos os trabalhos que lhe imputava. Alguma coisa mais difícil tinha de ser encontrada. Foi por isso que ela pensou nas amazonas, e o cinto de Hipólita lhe veio à mente. Hera se lembrou de que Admete, a filha do rei, era sacerdotisa de seu templo. Assim, podia facilmente incutir na moça o desejo de possuir o cinto da rainha das amazonas. Na primeira vez que a princesa foi ao templo de Hera em Argos, a deusa apareceu diante dela e disse:

– Admete, filha de Euristeu, existe um cinto mágico que é usado por Hipólita, a famosa rainha das amazonas. Ela o ganhou de Ares, rei da guerra, e ele é o símbolo da autoridade e do poder. Você mesma poderia usá-lo, se pedisse a seu pai que mandasse Héracles buscá-lo.

Admete ficou encantada com a ideia de ter aquele cinto, e Euristeu ficou mais encantado ainda quando a filha pediu-lhe aquele favor. Sem perder um minuto, ele chamou Copreu e transmitiu sua ordem.

Quando Héracles recebeu a ordem de executar essa tarefa, soube quão difícil seria. Novamente decidiu fazer a viagem por mar, com um grupo de bravos companheiros, e uma vez mais famosos heróis da Grécia mostraram-se dispostos a arriscar suas vidas ao lado de Héracles. Entre eles estava Teseu, o grande herói de Atenas, Iolau, sobrinho de Héracles, o valente jovem Télamon de Salamina e Peleu, que mais tarde se tornaria pai de Aquiles.

 Seu navio a vela pôs-se ao mar com um vento bom e fez sua primeira escala na ilha de Paros, onde eles também enfrentariam o primeiro perigo.

Naquela ocasião, o rei da ilha, que fica nas Cíclades, era um certo Alceu e, no dia em que o navio de Héracles aportou, os três filhos do rei Minos estavam lá como seus hóspedes, homens orgulhosos, rudes e nada hospitaleiros. Como não havia mais água a bordo, Héracles enviou dois de seus companheiros à terra para encher os potes. Lá, a despeito das leis sagradas que protegiam os estrangeiros carentes de alimentos ou água, foram atacados e mortos traiçoeiramente pelos filhos de Minos.

Héracles testemunhou a cena do convés e, numa explosão de ira e indignação, saltou para a terra, seguido pelos companheiros. Os filhos de Minos pagaram pelo crime com suas vidas, mas a luta logo se transformou  numa batalha com os habitantes da ilha, que foram obrigados a recuar. Quando os habitantes de Paros perceberam que tinham começado uma guerra contra o poderoso Héracles, logo admitiram o erro. Dois arautos subiram nas muralhas e tocaram as trombetas indicando que queriam falar. Depois, um deles disse bem alto:

– Héracles, filho de Anfítrion, nosso rei Alceu não desejou esta guerra. Ele ficou muito sentido quando soube que havia eclodido um conflito entre nós e que os filhos de Minos tinham matado seus dois homens. Propõe agora que você escolha dois habitantes da ilha, os mais valentes que encontrar, e leve-os com você em sua expedição.

A resposta de Héracles surpreendeu a todos:

– Escolho o rei Alceu e seu irmão Estênelo. Esses dois são, eu creio, os homens mais corajosos dentre vocês.

Um silêncio sepulcral seguiu-se a essas palavras. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Mas logo o grande portão do castelo se abriu e Alceu e Estênelo saíram num passo decidido, postando-se atenciosamente diante de Héracles. Em vez de ordens, o herói abraçou os dois, companheiros jovens e valentes tomavam o lugar dos que haviam morrido e logo o navio largou velas para a terra das amazonas.

Viajando para o norte, passaram pelo Helesponto e pelo Bósforo e saíram no mar Negro. Seguindo a costa da Ásia Menos, aportaram em Mísia, onde o rei Lico os recebeu calorosamente. Um banquete foi oferecido no grande salão do palácio. Eles comiam e bebiam, fazendo brindes uns aos outros, quando um soldado esbaforido entrou no salão e informou ao rei que os bébrices haviam invadido o país. Todo os companheiro puseram-se de pé. Lico olhou consternado para seus nobres, que tinham ficado pálidos. Todos entraram em pânico, mas Héracles interrompeu os gritos de desespero, encorajou-os e preparou-se para lutar junto deles.

Héracles e seus companheiros foram para fora do palácio, de encontro ao inimigo. Logo estavam no meio da batalha. Com seu aparecimento, os eventos tomaram outro rumo. O vigor do ataque dos heróis espalhou o pânico entre os bébrices e reanimou a coragem dos homens de Lico. O inimigo foi derrotado, seu rei morto, e uma grande parte do país foi cedido a Mísia. Em gratidão, Lico chamou a região de Heracleia. Chegando o momento de retornarem a missão, Lico deu aos corajosos aventureiros tantas provisões quantas couberam em seu navio, e uma grande multidão se postou no porto, oferecendo-lhes uma despedida digna de deuses.

O navio de Héracles zarpou e, depois de longa jornada, chegou à foz do rio Térmodon. Logo que o adentraram, os heróis avistaram Temíscira, capital das amazonas. Héracles inclinou-se sobre a cana do leme e estudou a cidade, enquanto o navio chegava mais perto. Ele tinha ouvido muitas histórias sobre as amazonas.


Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Sobre as amazonas:
Dizia-se que a primeira delas era filha do deus da guerra, Ares. Elas herdaram suas habilidades marciais e ensinaram-nas a seus filhos, ou melhor, filhas. Porque elas deixavam seus filhos do sexo masculino exclusivamente para as tarefas domésticas, enquanto usavam o seu tempo para aprender a lutar com a espada, lança e arco, montadas em cavalos velozes. Tornaram-se famosas em todo o mundo. Nenhum exército lhes podia resistir. Fizeram expedições em toda a Ásia Menor e no Cáucaso. Aventuraram-se pelo sul, chegando até a Síria e, pelo oeste, chegaram à Trácia e às ilhas do mar Egeu. Diz-se até que atingiram a Líbia. Os habitantes de muitas cidades, dentre as quais Éfeso, Esmirna, Cirene, Mirina e Sinope, proclamam com orgulho que suas cidades foram fundadas pelas amazonas. Naquela ocasião, essas mulheres belicosas viviam na região que circundava o rio Térmodon. Estavam distribuídas em três tribos e tinham três cidades, sendo Temíscira sua capital, governada por Hipólita. As outras duas eram governadas por Melanipe e Antíope.


O navio de Héracles já margeava as terras onde uma multidão de amazonas se formara. Talvez fosse a mera curiosidade que as levara até lá, talvez fosse um pressentimento…

Aquela expedição desde o começo não agradava Héracles. Ele não desejava guerrear contras as amazonas para arrebatar-lhes algo que lhes pertencia legitimamente, ou melhor, à sua rainha.

O navio ancorou. Héracles foi o primeiro a chegar em terra firme. Hipólita estava no meio da multidão, e o herói distinguiu-a de pronto. Ela também sabia quem era o austero forasteiro que saíra do navio resolutamente, porque as peripécias de Héracles tinham tornado seu nome famoso em todo o mundo. Para mostrar sua grande consideração por ele, Hipólita desceu de seu cavalo, saudando o herói.

Quando Héracles viu a rainha de perto, ficou atônito pois a pele de Hipólita, queimada pelo sol, tinha um tom de bronze intenso, e suas pernas e braços eram musculosos. Era difícil encontrar até mesmo homens de uma estrutura forte como aquela! Todas as amazonas também se mostravam robustas. Os companheiros do herói ficaram de olhos arregalados, estarrecidos.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão e Herácles explicou a que vinha. Hipólita ficou espantada quando ouviu toda a história. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Todos aguardavam a réplica da rainha. Por fim, Hipólita concordou em entregar o cinto para que o herói levasse a Euristeu.

Nesse momento Hera impediu que Hipólita renunciasse a seu cinto. Ela se transformou numa amazona e, justamente quando a rainha estendia o cinto para Héracles, gritou: “Não devemos entregar o cinto. Este homem veio para levar nossa rainha e deve morrer!”.

Hipólita puxou sua mão para trás, enquanto gritos de guerra explodiam entre as amazonas. A luta foi inevitável, pois as amazonas começaram a atacar o herói e seus companheiros.

Enfrentadas pelos heróis unidos, aquelas mulheres beligerantes finalmente experimentaram a derrota e tombaram. Mas não antes que Héracles fizesse Melanipe sua prisioneira e Antíope fosse capturada por Teseu. Vencidas, afinal, as amazonas imploraram paz. Hipólita adiantou-se para falar com Héracles, mas estava tão arrasada que não conseguiu dizer nenhuma palavra. Então o herói impôs seus termos:

– Você me dará seu cinto e Melanipe será solta. Isso eu garanto porque ela é prisioneira só minha. Quanto a Antíope, foi Teseu que a capturou e não tenho direito de ordenar sua libertação. Ele a levará para Atenas.

Hipólita aceitou, Héracles pegou o cinto, Melanipe foi solta e Antíope foi levada pelo herói ateniense.

Os sobreviventes subiram a bordo e tomaram o longo percurso de volta. Herácles e os outros camaradas içaram velas rumo a Micenas. Quando chegaram ao porto, os outros heróis se despediram e cada um se dirigiu para a sua terra natal; ao passo que Héracles, com o cinto nas mãos, seguiu para o palácio de Euristeu.

Apesar do medíocre rei ter proibido os herói de aparecer em sua presença, Héracles entrou sem que ninguém o impedisse. Marchou diretamente para o grande salão, abriu sozinho o portão duplo e entrou, levando o cinto de Hipólita. A primeira pessoa que pôs os olhos nele foi Admete e, quando viu o que o herói tinha nas mãos, deixou exclamar-se a agradável surpresa que a tomara. O rei Euristeu voltou-se para saber a razão da alegria da filha e quase desfaleceu. O nono trabalho estava cumprido.

9th labor of Hercules - the belt of hippolyte by Pierre Salsiccia

O cinto de Hipólita, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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VIII. Os Cavalos de Diomedes

Depois da jornada de Creta, seguindo outro conselho de Hera, Euristeu enviou Hércules à Trácia para trazer os cavalos do rei Diomedes.

Esse perigosos animais ficavam trancados nos estábulos reais, presos a pesadas correntes. Dizia-se que suas mandíbulas eram de bronze e que só se alimentavam de carne humana.

Contudo, ainda mais temível que os cavalos era o próprio Diomedes, rei dos selvagens bistones. Filho de Ares, deus da guerra, sua paixão pelas batalhas estava no sangue. Todas as vezes que saía de sua belicosa tribo para combater, a ruína e a destruição espalhavam-se entre seus infelizes vizinhos.

Maior que a paixão pela destruição era seu orgulho pelos cavalos antropófagos. Todo prisioneiro que caía em suas era jogado, ainda vivo, para alimentá-lo. E não só os capturados nas guerras tinhas esse destino horrendo, isso acontecia a todo estrangeiro desavisado que passasse pela Trácia, acreditando nas usuais regras de hospitalidade estabelecidas pelo próprio Zeus. Nenhum estrangeiro caído nas mãos de Diomedes jamais lhe escapou: seus cavalos devoravam todos.

Quando Héracles foi para a terra dos ferozes bistones e de seu rei sanguinário, levou consigo amigos que estavam prontos para lutar a seu lado, se fosse necessário. Entre eles estava Abdero, um jovem ousado da Lócrida.

O herói e seus companheiros chegaram à Trácia pelo mar. Héracles logo descobriu o estábulo e, enquanto seus companheiros desabavam sobre os guardas para amarrá-los, ele desacorrentou os animais de suas baias e, segurando-os pelas rédeas, conduziu o tropel até o navio.

– Fiquem aqui enquanto ponho os cavalos a bordo. Avisem-me se Diomedes vier! – Héracles disse para os outros.

Apesar dessa ordem, Abdero seguiu o herói, achando que ele poderia precisar de ajuda. Antes mesmo de chegarem ao navio, ouviram gritos:

– Diomedes! Diomedes vem vindo com seus soldados!

Héracles hesitou por um momento e Abdero, percebendo o motivo, disse que tomaria conta dos cavalos. O herói não ficou muito satisfeito com a ideia, mas não tinha outra escolha. Deixando os animais com Abdero, voltou correndo para enfrentar o perigo. Ainda longe, avisto uma horda imensa de bistones liderados por Diomedes, que montava um corcel preto. Conforme avançavam, gritavam ferozmente e brandiam suas compridas lanças.

Héracles e seus companheiros estavam diante de um perigo fatal. Como eles, que eram tão poucos, poderiam resistir a tantos? Afinal, o herói encontrou uma resposta.

Notou que a planície onde estava ficava abaixo do nível do mar, que se mantinha recuado por causa de uma parede de dunas, formadas pela areia que as ondas lançavam. Com a ajuda de seus companheiros, abriu um canal para inundar a planície. Rapidamente o canal foi alargado pela enxurrada de água do mar. Em pouco tempo, uma imensa massa d’água invadiu a planície, formando um grande lago, o Bistônide. Muitos bistones que atacavam foram levados pelas águas espumantes da inundação; outros fugiram. Diomedes e seu acompanhante, que estava bem à frente, escaparam da invasão de águas, porém tiveram bloqueada qualquer outra saída e agora tinham de enfrentar Héracles e seu companheiros.

Como animais numa armadilha, logo se viram dominados. Diomedes foi derrubado de seu cavalo por um golpe de clava de Héracles. Não morreu, mas imediatamente o amarraram – por uma boa razão: o cruel rei merecia pagar por seus crimes e, assim, foi jogado vivo para ser devorado por seus próprios cavalos.

Cavalos de Diomedes

Após derrotarem o inimigo, Héracles e seus amigos verificaram que tinham sofrido uma triste perda. Os cavalos selvagens haviam estraçalhado Abdero… Não havia palavras que pudessem descrever a dor de todos eles diante da morte de um jovem tão bravo e corajoso. Héracles ficou inconsolável, e se achava culpado pelo que aconteceu a Abdero. Mas todos sabiam que o herói não tivera escolha.

Héracles pediu a seus companheiros que dessem um funeral esplêndido para Abdero. Sacrificaram os melhores animais que puderam encontrar e honraram seu companheiro morto com competições atléticas. Para que o seu nome nunca fosse esquecido, construíram uma cidade naquele lugar e deram-lhe o nome de Abdera.

Quando os heróis por fim tinham pago sua dívida para com a memória do jovem, subiram a bordo de seu navio e velejaram para Micenas com os cavalos.

Iam desembarcar no porto de Argos. Entretanto, Euristeu proibiu Héracles de levar os animais para Micenas. Disse para que o herói os levasse para qualquer lugar, desde que ficasse longe dele e de seu palácio.

Para impedir que os cavalos fizessem algum mal aos homens, Héracles levou-os para bem longe, perto de uma encosta remota do monte Olimpo, onde acabaram sendo devorados por animais ainda mais selvagens.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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