Posts Marcados Com: Doze trabalhos

Javali de Erimanto

Herakles brings Eurytheus the Erymanthian boar. Attic black-figured amphora, ca. 550 BC. From Vulci. At British Museum, London.

Héracles, Euristeu e o Javali de Erimanto. Ânfora ática (~550a.C.), Museu Britânico, Londres.

Ὑς Ερυμανθιος (Hus Erymanthios), Javali de Erimanto, era um animal feroz que sempre descia a montanha arruinando as plantações, aterrorizando e destruindo tudo que encontrava pelo seu caminho. Tinha esse nome porque viveu na famosa Erimanto, uma escura montanha na Arcádia.

Ele era um monstro antropófago, podia causar abalos sísmicos e, com suas presas, era capaz de arrancar pela raiz uma árvore corpulenta e dilacerar homens ou animais que se interpusessem em seu caminho.

Héracles foi enviado para capturá-lo como um de seus Doze Trabalhos. Designado pelo mesquinho rei Euristeu, o herói, em seu quarto trabalho, deveria levar o javali vivo para Micenas. Depois de perseguir o javali através da neve espessa que encobria o monte Erimanto no inverno, o animal fatigado foi capturado e levado até Euristeu. O rei, aterrorizado com a visão do javali mortal, pulou dentro de um jarro para manter-se seguro.

Javali1.1

Euristeu aterrorizado dentro do vaso de barro

O simbolismo do javali está diretamente relacionado com a tradição hiperbórea, com aquele nostálgico paraíso perdido, onde se localizaria a Ilha dos Bem-Aventurados. Nesse enfoque o javali configuraria o poder espiritual, em contraposição com o urso, símbolo de poder temporal. Assim concebida, a simbólica do javali estaria relacionada com o retiro solitário do druida nas florestas: nutre-se da glande do carvalho, árvore sagrada, e a javalina com seus nove filhotes escava a terra em torno da macieira, a árvore da imortalidade.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Corsa Cerinita

Ελαφος Κερυνιτις (Elaphos Kerynitis), Corsa Cerinita, era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente da ninfa Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.

Héracles foi enviado para buscá-la em seu quinto trabalho. O herói de perseguiu o rápido animal por um ano inteiro. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. O herói aproveitou a chance para capturar o animal e, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas da corsa. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

Nesse momento, Ártemis apareceu furiosa apontando suas flechas certeiras para Héracles. O herói explicou o motivo de suas ações e a deusa permitiu que ele levasse o animal sagrado para Micenas. Segundo algumas tradições, Héracles matou a corsa.

Hercules and the hind, with Athena and Artemis looking on (Attic amphora, 540–530 BC)

Hérakles capturando a corsa, quebrando um de seus chifres de ouro, enquanto Atena (à esquerda) e Ártemis (à direita) observam. Ânfora ática (~540-530 a.C.), Museu Britânico, Londres.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Leão de Nemeia

Herakles and the Nemean Lion. Attic white-ground black-figured oinochoe, ca. 520-500 BC. From Vulci

Héracles e o Leão de Nemeia, vaso ático ~520-500 a.C

Leão enorme e aterrorizante que viva nas florestas de Nemeia, nome de uma cidade e de um bosque na Argólida e foi o cenário do primeiro trabalho de Héracles. Seu tamanho era inacreditável, seus rugidos eram tão estrondosos quantos os raios de Zeus, sua força equivalia à força de dez leões comuns e sua pele era tão dura que nenhuma flecha, lança ou espada, por mais afiada que fosse, podia perfurá-la. O animal era filho de Tífon, o monstro que lutara contra o próprio Zeus, e da igualmente temível, Equidna, metade mulher, metade serpente. Esse leão possuía irmãos célebres e terríveis: Hidra de Lerna, Cérbero, Quimera, a Esfinge de Tebas e outros monstros horrendos, temidos até pelos deuses.

Criado pela deusa Hera ou à mesma emprestado pela deusa-Lua “Selene”, para provar Héracles, era uma temeridade dar-lhe caça. O monstro passava parte do dia escondido num bosque, perto de Nemeia. Quando deixava os esconderijo, o fazia para devastar toda a região, devorando-lhe os habitantes e os rebanhos. Entocado numa caverna, com duas saídas, era quase impossível aproximar-se dele.

Héracles atacou-o a flechadas, mas em Mighty_Herculesvão, pois o couro do leão era impenetrável. Astutamente, fechando uma das saídas, o filho de Alcmena o tonteou a golpes de clava e, agarrando-o com seus braços forte, o sufocou. Com o couro da criatura o herói cobriu os próprios ombros.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Doze trabalhos: epílogo

Enfim despreocupado, Héracles pegou a estrada novamente; agora não para Micenas, mas rumo a Tirinto. Dez anos haviam se passado desde que ele ficara a servido de Euristeu. Dez anos terríveis de sofrimento, mas cheios de feitos gloriosos. Como um simples soldado que recebe ordens do mais imprestável comandante, Héracles obteve mais glória que o mais vigoroso rei ou o melhor estrategista já haviam conquistado até então.

Agora sua submissão a Euristeu havia terminado. O herói cumprira todas as ordens dos deuses e ganharam o perdão que merecia, suportando firmemente o pior para apagar o horrível crime que cometera ao matar seus próprios filhos, quando tomado pela loucura.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XII. Cérbero

Esse foi o único trabalho que Euristeu escolheu por si mesmo e foi o mais maligno: mandar o herói ir para o reino das profundezas e trazer o temível cão de guarda infernal, Cérbero.

Enquanto o mesquinhos rei fazia planos para aniquilar o herói, Héracles foi entregar os pomos de ouro para Atena. Ela os levou de volta para o jardim das Hespérides, pois lá era o seu lugar.

Após devolver os pomos, o arauto Copreu veio para lhe transmitir as ordens do rei para seu último trabalho: descer ao Hades e traze-lhe Cérbero.


Sobre Cérbero:
Cérbero era outro filho de Tífon e Equidna; portanto, irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna, de Ortro, de Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Era um cão com três cabeças circundadas por uma massa de serpentes sibilantes, e no fim de sua cauda havia uma cabeça de dragão. Cérbero era imortal e guardava os portões do Hades com uma vigilância permanente, para que nenhum morto escapasse à superfície. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.


Héracles partiu para esse trabalho envolvido em sua pele de leão e armado do arco-e-flecha e da clava. Descer vivo ao reino dos mortos já era algo inacreditável, mas voltar de lá com Cérbero como prisioneiro soava além dos limites da imaginação. Quando Zeus soube dessa tarefa imposta a seu filho, ficou preocupado e mandou Hermes e Atena para guiarem-no.

Entrando por um caverna nas encostas do monte Taígeto, os três mergulharam profundamente na Terra e, depois de horas andando por trilhas subterrâneas que jamais haviam sido pisadas, chegaram às margens do sagrado rio Estige.

Lá encontraram com Caronte, que transportava as almas dos mortos em seu barco. Embora ele não quisesse que Héracles subisse a bordo porque estava vivo, quando Hermes e Atena ordenaram, o barqueiro não teve outra escolha senão obedecer.

CerberusQuando chegaram ao outro lado, Cérbero farejou imediatamente o cheiro de carne humana viva e foi correndo para o portão. Normalmente ele não se incomodava com quem entrava, mas, quando viu Héracles, alto como um gigante e, além disso, armado, começou a rosnar e a mostrar os dentes. Porém não tentou atacar o herói e nem Héracles fez qualquer movimento contra ele. Atena o aconselhara que primeiro obtivesse o consentimento de Plutão, rei do Hades, pois, se não o fizesse, encontraria obstáculos insuperáveis.

Os três passaram pelos portões do reino dos mortos. Atena e Hermes eram imortais. Eles conheciam bem o reino de Plutão e não ficaram abalados com o que viam. Mas Héracles, que não era um deus, não pôde deixar de ficar impressionado. Mesmo sendo corajoso, sentiu o medo apertando seu peito. O reino dos infernos se estendia diante dele, escuro e sem limites. Em vez de céu, era coberto por altos arcos de pedra e sombrias abóbodas escavadas na rocha. Ouviam-se choros e gemidos por todos os lados, ecoando sem parar, e toda aquela vastidão se revestia de sons de sofrimento.

Héracles só tinha dado mais alguns passos quando as almas dos mortos o enxergaram e fugiram. Todas, menos a temível Medusa, a górgona alada, cujos cabelos eram uma massa de serpentes retorcidas. O herói se sentiu intimidado, mas como Medusa estava morta, não podia mais causar mal algum.

Outro morto que não fugiu foi o herói Meléagro. Ele vestia uma armadura brilhante e, assim que avistou Héracles, correu em sua direção. E falou para o herói que ele havia sofrido o pior dos infortúnios que um homem pode sofrer. Dizendo isso, sentou-se e contou sua trágica história: de como sua mãe, que o tinha amado como jamais outra mãe amou o filho, havia sido, no fim, o motivo de sua destruição, levando-o a lutar contra o próprio deus Apolo, o arqueiro mortal cujas flechas nunca erram o alvo. Só um confronto como aquele poderia tê-lo levado para o Hades, porque entre seus amigos ou inimigos nunca houvera um guerreiro como Meléagro.

Héracles nunca tinha ouvido uma história tão triste, e ela o comoveu tanto, que as lágrimas brotaram em seus olhos.

Mas Meléagro ainda não havia terminado e disse: “Ainda há algo que me preocupa. Eu deixei a minha irmã Dejanira na casa de meu pai, solteira e sem ninguém para protegê-la. Ela é encantadora como uma deusa. Torne-se seu guardião, Héracles, ou case-se com ela”. O herói tranquilizou Meléagro e disse que faria o melhor por sua irmã.

Finalmente, após outros encontros inesperados, Héracles apresentou-se diante de Plutão, rei do inferno. Plutão ficou perplexo ao vê-lo e perguntou asperamente o que ele pretendia, aparecendo vivo e armado diante dele. Mas sua mulher, Perséfone, que estava a seu lado, olhou para o herói com simpatia, porque ela também era filha de Zeus e isso fazia de Héracles seu irmão.

– Poderoso soberano do mundo dos mortos – o herói explicou -, eu não vim aqui por minha própria vontade. Fui enviado por Euristeu, a quem os grandes deuses deram o direito de me mandar fazer o que bem entendesse e de exigir de mim uma obediência cega. Eu me sujeitei à vontade desse soberano covarde para lavar a mancha de um crime terrível, e ele me enviou até aqui para realizar a mais impossível das tarefas, com um único objetivo: ocasionar a minha destruição, pois o simples fato de eu existir enche seu coração de medo. Até agora, todos os seus esforços falharam, e ele me mandou ao seu escuro reino, porque, segundo diz, quer ver Cérbero, apesar de eu crer que, se ele pôr os olhos nessa criatura, ficará tão aterrorizado, que não saberá onde se esconder. Seja como for, para mim não há escolha: tenho que levar Cérbero a Micenas.

Plutão parecia cheio de dúvidas. Como poderia permitir que o guardião do inferno fosse à superfície? Jamais ouvira uma coisa dessas. Mas Perséfone olhou para o marido com um ar suplicante que, depois de muito pensar, Plutão disse finalmente:

– Muito bem, pode levar o animal, mas só se puder dominá-lo sem usar suas armas.

Dominar o Cérbero sem nada nas mãos! O herói aceitou a oferta de certo modo aliviado e seguiu direto para os portões. Quando viu Cérbero, largou sua clava e seu arco, mas puxou a pele de leão com que se protegia para perto de seu corpo. Mais uma vez a pele do Leão de Nemeia, que ele conseguiu em seu primeiro trabalho, salvaria o herói.

Assim que Cérbero viu Héracles se aproximando dos portões do inferno, atacou-o. Ele deixara o herói entrar, mas isso não significava que o deixaria sair. Entretanto, nem as presas afiadas de Cérbero eram capazes de perfurar a espessa pele do leão, e Héracles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço, bem no ponto onde suas três cabeças brotavam. Ele apertou com toda sua força, e os esforços de Cérbero para soltar-se foram inúteis; este chegou a morder a perna do herói com os dentes de dragão da ponta da sua cuada, mas, apesar da dor, Héracles não afrouxou seu aperto. No fim, Cérbero não pôde resistir à pressão do estrangulamento e desistiu de lutar, assinalando para seu oponente que admitia a derrota.

Héracles pôs uma forte corrente em volta do pescoço de Cérbero. Subjugado, ele uivava humildemente, com as três cabeças baixas.

Para voltar, Héracles escolheu outra rota, que passava c%C3%A9rberos+o+c%C3%A3o+do+infernopelos Campos Elísios, um lugar muito diferente do escuro mundo do Hades. Lá ficavam os mortos que, por suas nobres ações, tinham ganho o favor dos deuses. Depois, seguindo o curso do rio Aqueronte ao longo de uma caverna, saíram para o mundo superior, através de Tirinto.

Assim que emergiram, Cérbero voltou a ficar selvagem. As serpentes que rodeavam seu pescoço sibilavam perversamente e suas bocas espumaram de raiva. Deu um puxão na corrente com toda a força e, latindo freneticamente, tento escapar de volta para a profundeza escura e fugir da intolerável luz do dia.

Héracles lançou-se sobre ele como um raio, com as mãos abertas para agarrar seu pescoço, e Cérbero viu que não podia fazer nada para se salvar. Curvando suas cabeças outra vez, seguiu o herói, submisso.

Micenas já não estava muito longe, e Héracles devorava a distância com passos largos. O último trabalho estava chegando ao fim.

Agora, ele estava no pátio do palácio! Quando os guardas viram o monstro que o seguia de perto, recuaram e se mantiveram a uma distância segura. Ninguém tentou se opou à sua entrada. Euristeu teria de ver Cérbero, querendo ou não.

Um gemido de terror foi tudo que o rei conseguiu emitir como boas-vindas. Tão grande foi seu medo, que saltou para dentro de uma ânfora de barro – a mesma na qual se escondera quando viu o Javali de Erimanto, o quarto trabalho de Héracles. Desta vez, também puxou a tampa por cima de sua cabeça e ficou ali dentro fechado por três dias e três noites, sem nem mesmo querer sabre o que acontecia do lado de fora.

Héracles riu de desprezo quando viu Euristeu pular no cântaro como uma lebre assustada. Depois, levou Cérbero de volta à caverna pela qual o tinha trazido para luz do dia e soltou a corrente que lhe envolvia o pescoço. Rápido como um raio, o terrível cão desapareceu na escuridão subterrânea.

12th labor of Hercules - Cerberus, by Pierre Salsiccia

Cérbero, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XI. Os pomos das Hespérides

Hera disse a Euristeu que mandasse o herói trazer três maçãs de ouro, que ele deveria pegar da árvore que Gaia deu a ela como presente de casamento.  Hera estava certa de que Héracles jamais encontraria a macieira e que, caso a encontrasse, perderia a vida na mera tentativa de se aproximar da árvore, pois o imortal dragão Ládon era o guardião da mesma.

O herói teve que partir para seu trabalho seguinte sem ter a menor ideia de seu destino. Por mais que perguntasse, não conseguia obter nenhuma informação importante. Suas andanças sem rumo o levaram à Tessália, onde se defrontou com Cicno, o sanguinário filho de Ares, e depois com o próprio deus da guerra. Derrotou os dois em combate, matando Cicno e ferindo Ares, que caiu de joelhos uivando de dor.

Depois disso, Héracles continuou seu caminho, cruzando a Ilíria e a região norte da península Itálica, até chegar ao rio Pó. Ali, nas margens do rio, encontrou um grupo de ninfas e, como tantas vezes antes, perguntou se elas sabiam do paradeiro da macieira de Hera. Como esperado, elas não sabiam dizer onde achar a árvore, mas disseram-lhe que o único que conhecia o seu paradeiro era o grande vidente, um velho deus marinho, Nereu e que ele nunca revelaria a localização da mesma. Agora o problema de Héracles era arrancar o segredo de Nereu.

O herói despediu-se das ninfas do rio e partiu em busca de Nereu – não que ele tivesse esperança de obter alguma coisa, mas parecia não haver mais nada a fazer. Encontrou-o dormindo em sua caverna e aproveitou a oportunidade para amarrar o velho vidente, no começo com suavidade, para não acordá-lo, mas depois tão apertado que ele despertou de seu sono.

Nereu tentou levantar-se, mas não conseguiu mover-se nem um centímetro. Olhando para seu corpo, viu-se enrolado da cabeça aos pés. Então, perguntou o que estava acontecendo e que era aquele que ousara amarrar-lhe.

– Meu nome é Héracles, e quero que me diga onde está a árvore com os pomos de ouro, o presente que a Mãe Gaia deu à deusa Hera, quando esta se casou com Zeus.
– Isso eu nunca lhe direi!
– Então eu nunca o soltarei.

De fato, Nereu estava tão fortemente amarrado que não conseguia mover nem um músculo. Ele tentou escapar, mas foi impossível, e desamarrar a si mesmo estava fora de questão. Durante algum tempo, ficou sem dizer nada, enraivecido. Depois, começou a considerar sua situação. Perguntou novamente ao herói o que ele queria, obteve a mesma resposta e mais uma vez se negou a falar.

– Então fique aí amarrado! Eu vou bloquear a entrada de sua caverna com pedras e fechar você aí dentro!

Dizendo isso, o herói começou a rolar uma enorme pedra para a entrada da caverna. O que mais Nereu podia fazer? Ele não teve outra escolha senão falar.

– Você encontrará a árvore que procura no Jardim das Hespérides, nos confins do mundo, onde Atlas, irmão de Prometeu, sustenta a abóboda celeste sobre os ombros. Mas pegar os três pomos de outro é impossível, porque a macieira é guardada por Ládon, um horrendo dragão de cem cabeças. E você não conseguirá pegá-lo dormindo, como fez comigo, pois ele nunca adormece com suas cem cabeças ao mesmo tempo, só metade delas de cada vez. Assim, há sempre cinquenta cabeças bem erguidas e com olhos chamejantes bem abertos, vigiando para que nenhum estranho ponha os pés no jardim das Hespérides. Você não pode se aproximar sem ser percebido e, se o fizer, não sairá com vida, pois Ládon é incrivelmente forte e absolutamente invencível. Mesmo que os deuses lhe dessem o dobro da sua força atual, de nada adiantaria, pois Ládon é imortal.

Isso era tudo que Nereu tinha a dizer. Héracles desamarrou-o e saiu deprimido. Ficara sabendo onde estava a árvore, mas não sabia como pegar os pomos, se eram guardados por um monstro tão terrível. Que fazer? Pela primeira vez, não tinha vontade de seguir ao cumprimento do dever. Muito desanimado, deixou que seus passos o guiassem e, lá pelas tantas, viu-se no Cáucaso rochoso e agreste.

Vagando pelas montanhas, Héracles ouviu gemidos terríveis que vinham de longe. Parou a escutá-los atentamente. Não havia dúvida, alguém sofria a mais dolorosa tortura e precisava de ajuda. Depois, mais estranho ainda, o herói ouviu vozes femininas chamando seu nome.

Héracles correu na direção das vozes e subiu num pedra para ter uma visão melhor. Viu um grupo de mulheres com os braços estendidos para ele, pedindo sua ajuda. Então o herói reconheceu-as, eram as Oceânides: as filhas do Oceano, que tinha barba e cabelos prateados. Caminhou em direção a elas, mas dera poucos passos e algo terrível se colocou na sua frente: o titã Prometeu, o mais fiel amigo dos homens, suspenso por corrente pregadas numa rocha, experimentava torturas horrendas e infinitas: uma enorme água mergulhava do céu e, com seu cruel bico escancarado, arremetia-se contra o corpo de Prometeu.

O herói matou a águia e libertou o paciente titã de seus grilhões. Foi a ação mais nobre e bela de sua vida. Héracles contou ao titã para onde ia e o que devia fazer e prometeu preparou seu conselhos para o herói:

– Escute bem, Héracles. Sou vidente e sei todas as coisas. Como Nereu disse, o dragão que guarda os pomos não pode ser derrotado, ele é realmente imortal. Não tente, porque, se o fizer, perderá a vida. Mas se você for capaz de sustentar o céu sobre os ombros, coisa que só Atlas foi capaz de fazer até hoje, poderá ter os pomos. Segure o globo para Atlas e deixe que ele vá buscar os pomos por você. Ele não é estranho ao dragão e não sofrerá mal algum. Mas fique atento! Atlas é esperto – sei disso porque ele é meu irmão. Tome cuidado para que não o deixe suportando o céu para sempre!

O conselho de Prometeu devolveu o ímpeto ao herói. De ânimo recuperado, tomou o longo percurso – atravessar o mundo do leste para oeste. Como de costume, muitos perigos o esperavam no caminho. Em certo lugar do Egito, quando, exausto, deitara-se sob uma árvore, foi surpreendido por soldados que o amarraram e o levaram até seu rei, Busíris.

Depois de inspecionar o herói da cabeça aos pés, Busíris ordenou que o amarrassem com mais força, pois amanhã ele seria sacrificado no altar de Zeus Amon.

Nove anos antes, uma grande desgraça se abatera sobre o Egito. O solo não dava mais colheitas, e uma fome medonha ameaçava matar as pessoas. Vindo de Chipre, chegou um vidente chamado Frásio que disse que para se livrarem daquela praga deveriam sacrificar anualmente um forasteiro a Zeus Amon. Assim, o pobre vidente foi o primeiro a ser sacrificado.

No dia seguinte, os ritos sacrificiais foram feitos. Héracles, cheio de raiva, se livrou das cordas e golpeou primeiro o sacerdote, depois Busíris e, por fim, seu filho. Os três caíram mortos. Todos ficaram aterrorizados com a força do herói e ninguém ousou enfrentá-lo.

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Livre outra vez, Héracles rumou para oeste, em direção às regiões onde o Sol se põe todas as noites. Ao atravessar a Líbia, ele encontrou um gigante vigoroso cujo nome era Anteu. Era incrivelmente forte e obrigava todos os forasteiros a lutar com ele até a morte. Filho de Gaia, era ajudado por ela durante as batalhas. Quanto mais o corpo de Anteu tocava a Terra, mais ela renovava seus poderes; assim nunca ficava cansado e o resultado era que nunca perdia uma luta.

Héracles foi desafiado. Sem saber que Anteu tirava sua força da Mãe Gaia, lutou bravamente com ele durante muito tempo, mas em vão. Vezes e mais vezes o herói lançou-o contra o chão, e ficava cada vez pior, pois o gigante punha-se de pé num salto. Héracles estava intrigado com isso: como era o gigante capaz daquelas súbitas explosões de força quando, um momento antes, tinha estado perto ser derrotado, rastejando na poeira? Então o herói se lembrou de que seu oponente era filho de Gaia. Agarrou o gigante, levantou-o bem alto no ar e não o deixou tocar na terra. Na luta desesperada para escapar, todas as suas forças se esgotaram, e o medonho gigante encontrou seu destino.

Depois de vencer Anteu, Héracles retomou seu rumo ao oeste, até os limites mais afastados do mundo. Lá, durante era incontáveis, o titã Atlas suportava o peso esmagador do céu. Suas únicas companheiras eram as Hespérides, filhas de Héspero e de Nix. Ali perto, em seu jardim, estava a árvore de Hera com os pomos de ouro.

11th-laborO herói se encontrou com Atlas e disse a que vinha. Então Héracles se ofereceu para suster o céu no lugar do titã enquanto o mesmo buscava os três pomos. Atlas sentiu que o peso saía de cima dele e ficou livre. Pela primeira vez em incontáveis eras, Atlas podia respirar livremente. Sentindo-se leve como um pássaro, disparou para o jardim das Hespérides, pisando no ar. Em pouco tempo estava de volta com as três maçãs de ouro, que brilhavam ao sol.  Mas não estava com pressa para retornar a seu posto. Tinha outro plano em mente…

– Ouça, Héracles – disse ele. – Por que eu mesmo não levo os pomo para Euristeu? Isso não vai tomar muito tempo e, assim que eu voltar, o aliviarei de sua carga.

Sem esperar a resposta, virou-se para partir. Héracles lembrou-se imediatamente do aviso de Prometeu e compreendeu que, se não encontrasse um modo de passar a tarefa de volta a Atlas e pegar seus pomo, ficaria ali para sempre, sustentando o céu. E assim disse ele:

– Leve os pomos, de qualquer modo. Eu até gosto de segurar este peso, mas não quero machucar os meus ombros. Você se incomodaria em segurar o céu por um momento enquanto eu ponho uma almofada sobre eles?

Sem desconfiar de nada, Atlas pôs os pomos no chão e levando a abóboda celeste, colocando-o de volta sobre os ombros. Héracles pegou os pomos e prosseguiu em seu caminho, deixando Atlas com sua eterna carga.

Satisfeito por ter, finalmente, os pomos de ouro das Hespérides em suas mãos com segurança, o herói pegou o caminho de volta para a Grécia. Embora a viagem de retorno fosse longa, ela pareceu passar rápido como um raio.

O herói entrou no palácio sem esperar ser convidado. Carregando os frutos de ouro, apresentou-se ao rei. Euristeu ficou estupefato e colérico.

– Eu sei que você não quer estes pomos – disse o herói. Você esperava outra coisa, como em todas as outras vezes. Eu só quero saber qual é a tarefa seguinte que maquinou para mim.

– Vou mandá-lo para o reino das profundezas, de onde ninguém jamais volta. É para lá que você vai!

11th labor of Hercules - The-apples of Hesperides, by Pierre Salsiccia

O pomo das Hespérides, por Pierre Salsiccia

 Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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X. O gado de Gérion

Desta vez, Euristeu despacharia o herói para os mais remotos limites do mundo, para além do grande Oceano, à ilha de Erítia. Lá pastava o gado do gigante Gérion, e Héracles deveria trazê-los a Micenas. Gérion tinha um tipo de gado muito peculiar: de um tom avermelhado profundo, seus bois tinham cabeças nobres, testas largas e pernas esguias e graciosas.


GeryonSobre Gérion:
Γηρυών (Geryón) é um derivado do verbo γηρύειν (gerýein), “gritar, fazer ressoar, entoar”, donde “o que faz ouvir sua voz”, ou por ele ter sido um pastor ou porque o nome designava primitivamente o cão que lhe guardava os rebanhos. Gérion tinha uma voz de potência inacreditável. Contava-se que ela tinha a mesma intensidade do grito que Ares dera quando ferido na guerra de Troia – um urro tão estridente quanto o de dez mil guerreiros juntos. Filho de Criasaor e Calírroe, era uma criatura monstruosa, composta por três corpos unidos na cintura. Tinha três cabeças, seis braços e andava tão pesadamente armado quanto três guerreiros, usando três elmos e protegendo-se com três escudos resistentes à mais afiada das lanças. 


Esse era o adversário inominável que Héracles teria de enfrentar desta vez.

Sozinho, o herói partiu. Após cruzar as terras que hoje fazem parte da Itália, França e Espanha, chegou a Gibraltar. Nessa longa jornada, defronta-se com vário tipos de perigo – ladrões, monstros, animais selvagens – quase que a cada passo, e a todos enfrentaria, aniquilando seus males. Embora árdua, a viagem foi proveitosa, porque agora as regiões pelas quais ele passara tinham se tornado seguras para os viajantes.

 Naquela época não havia, em Gibraltar, ligação do mar Mediterrâneo com o grande Oceano, a oeste. Héracles decidiu abrir um largo canal para a passagem de navios e trabalhou firmemente nessa tarefa. Quem passa pelo estreito hoje pode ver dois grandes rochedos, um de cada lado. Diz-se que se formaram com as pedras que Héracles empilhou nas duas margens. Por esta razão, tais pedras imensas foram nomeadas Colunas de Héracles.

Terminou o serviço pingando suor, pois o sol estivera insuportável durante todo o dia. Enfurecido com o deus Sol, Hélios, empunhou seu arco para amedrontá-lo, e o deus do dia, que estava terminando sua caminhada pelo céu e subindo em seu barco de ouro, se pronunciou:

– Abaixe seu arco, Héracles – disse Hélios sem rancor, ao contrário, admirando o herói por sua coragem. Com voz bondosa, prosseguiu: – Diga-me em que direção você está indo e, se quiser minha ajuda, a terá.

Héracles contou ao deus para onde ele estava indo, o que tinha de fazer e pediu o barco emprestado. Hélios sorriu e emprestou o barco de boa vontade.

O barco de Hélios transportou o herói rapidamente até Erítia, onde Héracles amarrou-o a um rochedo e saltou para a terra. Nem deu dois passos e um latido feroz o surpreendeu. Era o temível Ortro, cão bicéfalo.


OrtroSobre Ortro:
Ὄρθρος (Órthros), “o que está vigilante, alerta ao nascer do dia”, era o cão que ajudava a guardar o rebanho de Gérion. Filho de Tífon e Equidna, era irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna e de Cérbero. Ortro tinha duas cabeças em cujas mandíbulas pronunciavam-se dentes pontiagudos e uma cuada que terminava numa cabeça de dragão.


O monstruoso cão de duas cabeças lançou-se contra o herói com a intenção de estraçalhá-lo. Héracles esquivou-se com um giro; quase não teve tempo de ver o que acontecia, e Ortro já pulara em cima dele. Se não fosse pela pele do leão, aqueles dentes terríveis teriam penetrado sua carne. Contudo, Héracles não perdeu a calma. Levantou sua clava e, quando o horrendo animal pulou outra vez, desferiu-lhe um golpe com tamanha força, que não foi necessário mais nenhum.

Eliminara-se a primeira ameaça. Em seguida, Êurito chegou correndo.


Sobre Êurito:
Εὔρυτος (Eúrutos), talvez provenha de εὐ (eû), “bom, bem” e do verbo ἐρύειν (erýein), “puxar, esticar”, donde “o que atira bem com o arco”. Um gigante, pastoreava do gado de Gérion junto de Ortro.


Esse pastor de Gérion era um gigante com o dobro do tamanho de Héracles e com uma força semelhante a dele. Tendo visto Ortro tombar, preparou-se para arremessar contra o herói uma pedra enorme. Um único instante de hesitação e teria sido o seu fim. Mas uma flecha certeira atingiu m cheio o peito do pastor, e a pedra que ele erguera escorregou, esmagando-o.

Héracles arrebanhou o gado apressadamente e o conduziu ao barco. Posto que Gérion não aparecera, o melhor seria partir sem dar com ele. Entretanto, um dos pastores de Plutão testemunhara o ocorrido e avisou o gigante, que correu para recuperar seu gado e punir o homem que ousara pegá-lo sem primeiro lutar com o dono.

 Quando Héracles pôs os olhos em Gérion, ficou estático. Era uma visão de fazer temer os mais valentes. Numa das mãos, uma espada; na segunda e na terceira, lanças. Em seus outros braços prendiam três escudos. Conforme o gigante corria, suas armas se entrechocavam provocando o alarido de um exército em batalha. Quanto mais perto se via, mais terríveis pareciam seus gritos! Parecia que o céu desmoronava. Qualquer um, exceto Héracles, teria fugido.

Até mesmo a coragem do herói oscilou naquele momento. Mas, resoluto, empunhou seu arco, apontou com cuidado e disparou. Aquela flecha foi o começo do fim do temível gigante: uma de suas cabeças e o grande peito que a suportava tombaram sem vida para um lado; dois braços caíram hesitantes, enquanto uma lança e um escudo batiam ruidosamente no chão. Então Gérion tentou arremessar a segunda lança contra Héracles, mas seus braços mortos estavam no caminho e o lançamento foi fraco. A chance do herói se configurou: erguendo a clava, desferiu um golpe esmagador numa das cabeças do monstro. Gérion tombou morto em meio ao ruidoso choque de armas e armaduras contra o chão.

Tratava-se, sem dúvida, de uma vitória maior do que Hércules esperava obter. Agradecendo à deusa Atena, que se mantivera firme a seu lado, o herói levou o gado de Gérion a bordo e zarpou de volta para leste, através do Oceano. Quando chegou à outra costa, devolveu o barco a Hélios, agradeceu-lhe e iniciou a dificultosa viagem de volta a Micenas.

Quando atravessava as terras das atuais Espanha e França pelo sul, dois bandidos roubaram e fugiram com seu gado. Héracles caçou-os, matou-os e reouve os animais. Mais adiante na estrada, o irmão deles, Lígis, rei da Ligúria, atacou-o com um exército inteiro. Ele não só queria o gado, como também vingar a morte dos irmãos. Que luta desigual! Héracles lutava sozinho, seu estoque de flechas acabou logo e, o pior de tudo, no solo em volta não havia uma única pedra. Jamais estivera tão vulnerável. Ferido em vários lugares, sua morte afigurava-se iminente, mas o herói resistia por conta de uma esperança.

– Pai Zeus! – ele invocou. – Até agora eu não pedi sua ajuda, mas neste momento preciso dela mais do que nunca. Ajude-me a derrotar meu inimigos!

O poderoso Zeus, com grande amor pelo filho, enviou do céu uma chuva de pedras. Héracles pôs-se a arremessá-las sofregamente contra seus inimigos, salvando a si e ao gado. De fato, em Marselha e a desembocadura do rio Ródano, há hoje uma faixa de terra chamada Planície Pedregosa, que se parece com o lugar da batalha.

Deixando a região da França para trás, Héracles entrou com seu gado na península Itálica, seguindo para o leste. Quando passava pela região na qual mais tarde Roma seria construída, topou com o gigante Caco, que lhe roubou oito dos melhores touros e novilhas e, para sumir com a marca de seus cascos, puxou-os pela cuada, escondendo-os numa caverna.

Não muito tempo depois, um dos animais mugiu e Héracles encontrou o esconderijo. Caco havia bloqueado a entrada da caverna com pedras que pareciam irremovíveis. O herói conseguiu desalojar o sustentáculo do teto da caverna, que ficou, então, descoberta. Mas, quando acabou de fazer isso, Caco saiu da escuridão. Era um gigante horrivelmente disforme, com línguas de fogo saindo pela boca. A despeito de seu horror, Héracles atacou-o imediatamente, enquanto Caco tentava queimá-lo. Um golpe de espada rápido e mortal furou o pescoço do gigante, apagando-lhe as chamas instantaneamente e afogando-o em seu próprio sangue. Reouve, ainda uma vez o gado que lhe fora roubado e seguiu com o rebanho.

As dificuldades, porém, não tinham terminado. Adiante, um dos animais desgarrou-se, pulou no mar e nadou até a Sicília. Teria sido impossível para Héracles ir em busca do animal perdido, se Hefesto não aparecesse oferecendo-se para tomar conta do rebanho até seu regresso.

Assim, Héracles atravessou para a Sicília, onde encontrou o animal desgarrado no rebanho do rei Érix, contra quem deveria se bater, se quisesse ter de volta o que fora buscar. Como jamais fora derrotado, Érix estava certo de que ficaria com o animal.

Héracles lutou com o rei e o imobilizou. Mas Érix se recusou a admitir que tinha perdido e negou-se a devolver o animal. Então, Héracles lutou com ela pela segunda vez, tornou a vencê-lo e ainda assim não obteve o cumprimento da promessa. Na terceira luta, Érix morreu. Héracles pôde, enfim, recuperar o animal.

Depois de tantos confrontos, o herói finalmente aportou na Grécia e já bem próximo de Micenas. Mas, justamente quando as dificuldades pareciam ter chegado ao fim, Hera enviou moscardos para atacar o rebanho. Suas picadas venenosas fizeram os animais se dispersarem em todas as direções. O incansável herói perseguiu-os pelas montanha da Trácia e para além do Helesponto. A perseguição foi longa e tremendamente penosa, entretanto Héracles logrou reunir o rebanho, retomando seu objetivo. Mas… chegando ao rio Estrímon, viu-se de novo em maus lençóis: o rio era tão largo e fundo que os animais não poderiam atravessá-lo. Héracles ficou indignado com o deus do rio e lançou tantos seixos em seu leito que ele deixou de ser navegável.

Transpunha-se o obstáculo final do trajeto, embora, diga-se, faltasse muito para chegar a Micenas. A distância não era nada, comparado ao que enfrentara até ali. Héracles seguiu solenemente ao longo do último grande trecho do caminho para casa.

Agora Euristeu era o dono de um maravilhoso rebanho, e isso não lhe deu prazer algum. Ele se sentiu tão miserável com mais esse retorno de Héracles que sacrificou todo o gado em nome da deusa Hera. Pensar que ele enviara Héracles para os confins da Terra, em meio aos piores perigos e enfrentando os mais terríveis monstros, para depois vê-lo voltar vitorioso, era algo insuportável. E agora, aonde enviá-lo?

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O gado de Gérion, por Pierre Salsiccia

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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IX. O cinto de Hipólita

Em Micenas, uma nova ordem aguardava o herói: ele devia trazer o cinto de Hipólita, rainha das amazonas. Mais uma vez, tratava-se de uma ideia de Hera.

A deusa estava mais irritada que Euristeu por ver que Héracles lograva êxito em todos os trabalhos que lhe imputava. Alguma coisa mais difícil tinha de ser encontrada. Foi por isso que ela pensou nas amazonas, e o cinto de Hipólita lhe veio à mente. Hera se lembrou de que Admete, a filha do rei, era sacerdotisa de seu templo. Assim, podia facilmente incutir na moça o desejo de possuir o cinto da rainha das amazonas. Na primeira vez que a princesa foi ao templo de Hera em Argos, a deusa apareceu diante dela e disse:

– Admete, filha de Euristeu, existe um cinto mágico que é usado por Hipólita, a famosa rainha das amazonas. Ela o ganhou de Ares, rei da guerra, e ele é o símbolo da autoridade e do poder. Você mesma poderia usá-lo, se pedisse a seu pai que mandasse Héracles buscá-lo.

Admete ficou encantada com a ideia de ter aquele cinto, e Euristeu ficou mais encantado ainda quando a filha pediu-lhe aquele favor. Sem perder um minuto, ele chamou Copreu e transmitiu sua ordem.

Quando Héracles recebeu a ordem de executar essa tarefa, soube quão difícil seria. Novamente decidiu fazer a viagem por mar, com um grupo de bravos companheiros, e uma vez mais famosos heróis da Grécia mostraram-se dispostos a arriscar suas vidas ao lado de Héracles. Entre eles estava Teseu, o grande herói de Atenas, Iolau, sobrinho de Héracles, o valente jovem Télamon de Salamina e Peleu, que mais tarde se tornaria pai de Aquiles.

 Seu navio a vela pôs-se ao mar com um vento bom e fez sua primeira escala na ilha de Paros, onde eles também enfrentariam o primeiro perigo.

Naquela ocasião, o rei da ilha, que fica nas Cíclades, era um certo Alceu e, no dia em que o navio de Héracles aportou, os três filhos do rei Minos estavam lá como seus hóspedes, homens orgulhosos, rudes e nada hospitaleiros. Como não havia mais água a bordo, Héracles enviou dois de seus companheiros à terra para encher os potes. Lá, a despeito das leis sagradas que protegiam os estrangeiros carentes de alimentos ou água, foram atacados e mortos traiçoeiramente pelos filhos de Minos.

Héracles testemunhou a cena do convés e, numa explosão de ira e indignação, saltou para a terra, seguido pelos companheiros. Os filhos de Minos pagaram pelo crime com suas vidas, mas a luta logo se transformou  numa batalha com os habitantes da ilha, que foram obrigados a recuar. Quando os habitantes de Paros perceberam que tinham começado uma guerra contra o poderoso Héracles, logo admitiram o erro. Dois arautos subiram nas muralhas e tocaram as trombetas indicando que queriam falar. Depois, um deles disse bem alto:

– Héracles, filho de Anfítrion, nosso rei Alceu não desejou esta guerra. Ele ficou muito sentido quando soube que havia eclodido um conflito entre nós e que os filhos de Minos tinham matado seus dois homens. Propõe agora que você escolha dois habitantes da ilha, os mais valentes que encontrar, e leve-os com você em sua expedição.

A resposta de Héracles surpreendeu a todos:

– Escolho o rei Alceu e seu irmão Estênelo. Esses dois são, eu creio, os homens mais corajosos dentre vocês.

Um silêncio sepulcral seguiu-se a essas palavras. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Mas logo o grande portão do castelo se abriu e Alceu e Estênelo saíram num passo decidido, postando-se atenciosamente diante de Héracles. Em vez de ordens, o herói abraçou os dois, companheiros jovens e valentes tomavam o lugar dos que haviam morrido e logo o navio largou velas para a terra das amazonas.

Viajando para o norte, passaram pelo Helesponto e pelo Bósforo e saíram no mar Negro. Seguindo a costa da Ásia Menos, aportaram em Mísia, onde o rei Lico os recebeu calorosamente. Um banquete foi oferecido no grande salão do palácio. Eles comiam e bebiam, fazendo brindes uns aos outros, quando um soldado esbaforido entrou no salão e informou ao rei que os bébrices haviam invadido o país. Todo os companheiro puseram-se de pé. Lico olhou consternado para seus nobres, que tinham ficado pálidos. Todos entraram em pânico, mas Héracles interrompeu os gritos de desespero, encorajou-os e preparou-se para lutar junto deles.

Héracles e seus companheiros foram para fora do palácio, de encontro ao inimigo. Logo estavam no meio da batalha. Com seu aparecimento, os eventos tomaram outro rumo. O vigor do ataque dos heróis espalhou o pânico entre os bébrices e reanimou a coragem dos homens de Lico. O inimigo foi derrotado, seu rei morto, e uma grande parte do país foi cedido a Mísia. Em gratidão, Lico chamou a região de Heracleia. Chegando o momento de retornarem a missão, Lico deu aos corajosos aventureiros tantas provisões quantas couberam em seu navio, e uma grande multidão se postou no porto, oferecendo-lhes uma despedida digna de deuses.

O navio de Héracles zarpou e, depois de longa jornada, chegou à foz do rio Térmodon. Logo que o adentraram, os heróis avistaram Temíscira, capital das amazonas. Héracles inclinou-se sobre a cana do leme e estudou a cidade, enquanto o navio chegava mais perto. Ele tinha ouvido muitas histórias sobre as amazonas.


Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Sobre as amazonas:
Dizia-se que a primeira delas era filha do deus da guerra, Ares. Elas herdaram suas habilidades marciais e ensinaram-nas a seus filhos, ou melhor, filhas. Porque elas deixavam seus filhos do sexo masculino exclusivamente para as tarefas domésticas, enquanto usavam o seu tempo para aprender a lutar com a espada, lança e arco, montadas em cavalos velozes. Tornaram-se famosas em todo o mundo. Nenhum exército lhes podia resistir. Fizeram expedições em toda a Ásia Menor e no Cáucaso. Aventuraram-se pelo sul, chegando até a Síria e, pelo oeste, chegaram à Trácia e às ilhas do mar Egeu. Diz-se até que atingiram a Líbia. Os habitantes de muitas cidades, dentre as quais Éfeso, Esmirna, Cirene, Mirina e Sinope, proclamam com orgulho que suas cidades foram fundadas pelas amazonas. Naquela ocasião, essas mulheres belicosas viviam na região que circundava o rio Térmodon. Estavam distribuídas em três tribos e tinham três cidades, sendo Temíscira sua capital, governada por Hipólita. As outras duas eram governadas por Melanipe e Antíope.


O navio de Héracles já margeava as terras onde uma multidão de amazonas se formara. Talvez fosse a mera curiosidade que as levara até lá, talvez fosse um pressentimento…

Aquela expedição desde o começo não agradava Héracles. Ele não desejava guerrear contras as amazonas para arrebatar-lhes algo que lhes pertencia legitimamente, ou melhor, à sua rainha.

O navio ancorou. Héracles foi o primeiro a chegar em terra firme. Hipólita estava no meio da multidão, e o herói distinguiu-a de pronto. Ela também sabia quem era o austero forasteiro que saíra do navio resolutamente, porque as peripécias de Héracles tinham tornado seu nome famoso em todo o mundo. Para mostrar sua grande consideração por ele, Hipólita desceu de seu cavalo, saudando o herói.

Quando Héracles viu a rainha de perto, ficou atônito pois a pele de Hipólita, queimada pelo sol, tinha um tom de bronze intenso, e suas pernas e braços eram musculosos. Era difícil encontrar até mesmo homens de uma estrutura forte como aquela! Todas as amazonas também se mostravam robustas. Os companheiros do herói ficaram de olhos arregalados, estarrecidos.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão e Herácles explicou a que vinha. Hipólita ficou espantada quando ouviu toda a história. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Todos aguardavam a réplica da rainha. Por fim, Hipólita concordou em entregar o cinto para que o herói levasse a Euristeu.

Nesse momento Hera impediu que Hipólita renunciasse a seu cinto. Ela se transformou numa amazona e, justamente quando a rainha estendia o cinto para Héracles, gritou: “Não devemos entregar o cinto. Este homem veio para levar nossa rainha e deve morrer!”.

Hipólita puxou sua mão para trás, enquanto gritos de guerra explodiam entre as amazonas. A luta foi inevitável, pois as amazonas começaram a atacar o herói e seus companheiros.

Enfrentadas pelos heróis unidos, aquelas mulheres beligerantes finalmente experimentaram a derrota e tombaram. Mas não antes que Héracles fizesse Melanipe sua prisioneira e Antíope fosse capturada por Teseu. Vencidas, afinal, as amazonas imploraram paz. Hipólita adiantou-se para falar com Héracles, mas estava tão arrasada que não conseguiu dizer nenhuma palavra. Então o herói impôs seus termos:

– Você me dará seu cinto e Melanipe será solta. Isso eu garanto porque ela é prisioneira só minha. Quanto a Antíope, foi Teseu que a capturou e não tenho direito de ordenar sua libertação. Ele a levará para Atenas.

Hipólita aceitou, Héracles pegou o cinto, Melanipe foi solta e Antíope foi levada pelo herói ateniense.

Os sobreviventes subiram a bordo e tomaram o longo percurso de volta. Herácles e os outros camaradas içaram velas rumo a Micenas. Quando chegaram ao porto, os outros heróis se despediram e cada um se dirigiu para a sua terra natal; ao passo que Héracles, com o cinto nas mãos, seguiu para o palácio de Euristeu.

Apesar do medíocre rei ter proibido os herói de aparecer em sua presença, Héracles entrou sem que ninguém o impedisse. Marchou diretamente para o grande salão, abriu sozinho o portão duplo e entrou, levando o cinto de Hipólita. A primeira pessoa que pôs os olhos nele foi Admete e, quando viu o que o herói tinha nas mãos, deixou exclamar-se a agradável surpresa que a tomara. O rei Euristeu voltou-se para saber a razão da alegria da filha e quase desfaleceu. O nono trabalho estava cumprido.

9th labor of Hercules - the belt of hippolyte by Pierre Salsiccia

O cinto de Hipólita, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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VII. O Touro de Creta

Herácles havia concluído metade dos trabalhos e Euristeu torturava-se pensando em uma tarefa que o herói não pudesse realizar. Outra vez, Hera veio em seu auxílio e aconselhou-o a mandar Héracles a regiões distantes, para trabalhos colossais. Todas as primeiras seis tarefas haviam sido no Peloponeso. As seis seguintes exigiriam longas e perigosas jornadas. E, de fato, o sétimo trabalho foi duplamente perigoso. Euristeu ordenou que Héracles fosse capturar o terrível touro que assolava a região de Creta e trazê-lo vivo para Micenas, pelo mar.


Sobre o Touro de Creta:
Este era um magnífico touro com chifres de ouro e cascos de bronze enviado por Poseidon à ilha de Creta, uma vez que o rei Minos prometera sacrificar um animal ao deus. Contudo, quando o rei viu  a portentosa criatura, não resistiu à tentação de possuir o animal para si e quebrou sua promessa, guardando-o em seus estábulos. Em lugar do touro de Poseidon, sacrificou um touro comum. O deus ficou profundamente ofendido. De repente, o magnífico touro, que até então fora manso, transformou-se num monstro ensandecido. Possuído pela vontade de destruir, atacava homens e animais, deixando um rastro de carnificina por onde passava.


O herói estava incumbido da tarefa de capturar a cruenta fera e levá-la vida para Micenas, através do amplo mar Egeu. Héracles navegou até Creta e foi pedir autorização ao rei Minos para realizar seu trabalho.

– Estou em pleno acordo – respondeu o rei -, mas duvido que o touro também esteja! E você está dizendo que quer levá-lo para Micenas pelo mar? Deve estar fora de seu juízo! Bem, espero que seja bem sucedido. De todo moto, não derramarei minhas lágrimas por você: um herói a menos não é uma grande perda para o mundo.

“Como todos esses reis me odeiam”, pensou Héracles, Euristeu, Áugias e agora Minos. Como sua tarefa era capturar o touro e levá-lo a Micenas, logo foi em busca do animal.

Não foi preciso muito tempo para encontrá-lo, e a luta começou na mesma hora, pois, assim que o touro avistou o herói, arremeteu-se com os chifres baixos. O estrondo dos seus cascos aproximando era suficiente para aterrorizar qualquer homem, porém Héracles continuou firme, jogando-se para o lado só no último momento, quando o touro finalizava a estocada. Em vez do alvo esperado, seus chifres encontraram apenas o ar e, como um raio, o horrendo animal se pôs de pé e, bramindo, tornou a investir contra o herói. Quando a cabeça do touro estava quase atingindo o alvo, Héracles segurou seus chifres e apertou-os como um torniquete de aço, impedindo subitamente o seu curso. Um tremor percorreu o corpo da fera, como se tivesse colidido contra um muro de pedra.

O-Touro-de-Creta

Com toda a sua força, Héracles empurrou a cabeça do touro para baixo até suas narinas rasparem no chão. O animal lutava raivoso, mas em vão. Por mais que tentasse, não conseguia erguer sua cabeça de novo. Seus cascos traseiros arranhavam desesperadamente a terra, tentando encontrar um ponto de apoio, mas nada podia desalojar o filho de Zeus ou fazê-lo perder o equilíbrio. Uma espuma borbulhava na boca do touro, cheio de raiva impotente, não havia nada que pudesse fazer. Em pouco tempo suas últimas forças esgotaram-se, e ele se entregou a seu oponente.

Héracles amarrou uma corda nos chifres do touro, que não pôde mais se libertar ou investir contra o herói. O temível Touro de Creta finalmente fora domado.

Assim, Héracles levou o touro para o mar. Agora, a tarefa que parecia impossível tinha se tornada subitamente fácil: em lugar de nadar para o Peloponeso com o furioso animal, Héracles fez justamente o oposto, sentou-se confortavelmente nas costas e deixou-se levar até lá.

Chegaram à costas e Héracles logo arrumou o touro no estábulo de Euristeu. Quando o rei soube que o terror de toda Creta estava em seu curral, gritou de desespero e mandou que seus homens o levassem para as montanhas, para tão longe de Micenas quanto pudessem. Héracles tinha vencido o touro e o trazido amarrado, e Euristeu o libertava novamente por pura covardia, pouco se incomodando com os prejuízos que isso pudesse trazer a seu povo.

Outra vez em liberdade, o touro tornou-se o terror do Peloponeso. Por fim, atravessou o istmo de Corinto e foi dar em Maratona, onde passou a assolar todos os campos da região. Conhecido a partir daí como o Touro de Maratona, estava destinado a ser morto por Teseu, o grande herói de Atenas.

B. Picart - The Cretan Bull, seventh labour of Heracles.

Héracles domando o Touro de Creta, por B. Picart (1731)

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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VI. Os estábulos de Áugias

O rei, cheio de vilania, logo pensou em algo para manter Héracles longe dos portões do palácio.  Estava certo de que, dessa vez, o herói seria humilhado. Imediatamente chamou seu arauto e transmitiu-lhe a seguinte mensagem: “Mande Héracles limpar os estábulos de Áugias!”

Naquela ocasião, os estábulos de Áugias, rei de Élis, estavam repletos de esterco fétido, jamais removido. Áugias era filho de Hélios, o Sol, e possuía inúmeros animais. Entre eles, estavam trezentos touros negros com pernas brancas, presente do próprio Hélios, outros duzentos tão vermelhos quanto o pôr-do-sol e mais doze tão brancos como cisnes. Sobressaía-se dentre todos um touro que brilhava como se fosse o deus luminoso.

Além de seus rebanhos, Áugias também possuía as terras mais férteis. A planície de Élis era extremamente rica. Os campos eram tão férteis, que não podiam mais ser adubados e, desse modo, o esterco nunca era retirado dos pários do estábulo, onde se amontoava, ano após ano, até formar montes imensos, que nenhum homem podia deslocar. Se todas as pessoas de Élis, inclusive as mulheres e crianças, trabalhassem dia e noite nos estábulos durante anos, ainda assim não seriam capazes de remover a imundície.

A montanha de excrementos pestilentos tinha que ser removida de alguma maneira e, mais ainda, Héracles tinha de fazê-lo sozinho. Assim que chegou a Élis, o herói se deu conta da tarefa que o esperava. Começou a pensar num modo de solucionar o problema. Depois de um tempo, as noções de uma plano formaram-se na mente de Héracles. Subindo ao topo do terreno que circundava os campos, descobriu que dois rios cruzavam a planície, à esquerda e à direita. Os estábulos ficavam entre o Alfeu e o Peneu, os maiores rios de Élis e de todo o Peloponeso. O herói examinou-os cuidadosamente, depois desceu a colina, sorrindo, e foi procurar o rei Áugias.

Héracles se apresentou ao rei e disse a que vinha. Áugias riu e respondeu escarnecendo: “E quantos anos você pensa em viver? Milhares?” O herói sem perder a seriedade respondeu que realizaria a tarefa num único dia. O rei, com olhar cético e sorriso sarcástico, então prometeu que, se Héracles fizesse o que havia dito, daria-lhe um décimo de todos os seus rebanhos. Dito isso, chamou seu filho Fileu para testemunhar o acordo.

Então, Fileu mandou Héracles jurar que os estábulos estariam limpos antes do anoitecer e, embora o herói nunca tivesse feito um juramento antes, consentiu em fazê-lo. Em seguida, pediu para que seu pai jurasse que, caso Héracles fizesse o prometido, lhe daria um décimo de seus rebanhos. Áugias jurou e, no dia seguinte, Héracles começou a trabalhar quando raiou a Aurora.

Quando o Sol já estava alto, Áugias foi até os seus estábulos para ver como andava o trabalho, contudo não havia sinal de Héracles, nem indícios de que algo tivesse sido feito por ali.

Héracles estava nas margens dos rios jogando terra e pedras na água, pedras enormes. “Ele tem mais músculo que um titã” comentou um pastor que o observava. O filho de Alcmena estava construindo dois diques. Por volta do meio-dia, o trabalho havia terminado e massas de água começaram a subir atrás deles. O herói correu para os estábulos, onde fez duas grandes aberturas nos muros que o cercavam. Assim que terminou, subiu até o ponto mais alto, ali perto, para ver o que aconteceria.

Pouco tempo depois, as águas dos dois rios, Alfeu e Peneu, foram entrando nos estábulos pelos buracos feitos nos muros, e fizeram seu trabalho tão rapidamente e tão bem, que Héracles não cabia em si de alegria. Não só tinha limpados os estábulos, como também os lavara. Jamais poderia ter feito um trabalho melhor. O herói voltou aos rios e demoliu os dique, voltou aos estábulos e consertou os buracos nos muros. Sua tarefa estava terminada.

Estábulos de Áugias

Quando o Sol desapareceu atrás das colinas do oeste, Héracles foi ver Áugias. Nesse momento, o rei já sabia do ocorrido, mas em vez de contente, estava furioso, pois não queria entregar os animais que prometera.

Não foi você que limpou os estábulos!! – vociferou Áugias. – Foram os rios. O trabalho foi feito pelos deuses dos rios, Alfeu e Peneu. Eles são os únicos a quem devo agradecer! Não fizemos acordo nem juramento algum! – Áugias gritou enraivecido. – Agora saia daqui, seu ladrão de gado!

Héracles não podia acreditar no que ouvia. A insolência do homem não tinha limites. Não era a perda dos animais prometidos que o perturbava, mas o fato de Áugias tê-lo ludibriado. Aquilo era insuportável. O herói decidiu não deixar que o assunto terminasse assim e levou o rei ao tribunal. Os juízes chamaram Fileu como testemunha e o jovem, corajosamente, contou-lhes toda a verdade sobre o que tinha se passado entre Héracles e o seu pai. Héracles ganhou a causa, mas Áugias teve uma explosão de raiva e não só se recusou a acatar o veredicto dos juízes, como também exilou ambos, ele e seu filho, proibindo Héracles de pôr os pés em Élis para sempre. O herói prometeu voltar e fazê-lo pagar.

Quando Héracles voltou para Micenas, Euristeu ficou totalmente surpreso, pois não esperava vê-lo outra vez. Tremendo de medo, chamou Copreu e mandou-o descobrir como Héracles lograra voltar, uma vez que fora enviado para uma tarefa que tomaria milhares de anos. Copreu então explicou ao mesquinhos rei como o herói havia feito. As palavras do arauto deixaram Euristeu com um pânico ainda maior, pois naquele momento ficara claro para ele que Héracles, além de forte e corajoso, era extremamente inteligente. O rei de Micenas, com seu raciocínio falho e lento, sentiu que não era absolutamente nada em comparação ao herói e, por isso, desejou com todas as forças que ele de fato sucumbisse.

Héracles sempre conseguia sair vitorioso. Estrangulara o Leão de Nemeia, matara a Hidra de Lerna e libertara o lago Estínfalo das aves de rapina. Trouxe o Javali de Erimanto para Micenas, capturou a Corsa cerinita e, agora, dera cabo da sujeira dos estábulos de Áugias. Metade dos trabalhos haviam sido cumpridos, e cada um deles parecia uma tarefa além da capacidade humana.

Os estábulos de Áugias, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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