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Dânae

Δανάη (Danáē), Dânae, o nome está relacionado com a raiz indo-europeia dānu, “água”, pelo fato de a heroína ter sido lançada ao mar com o filho Perseu.

Dânae é filha do rei de Argos, Acrísio e de Eurídice, esta, filha de Lacedêmon e de Esparto. Há outra tradição que faz de Dânae filha de Aganipe.

Desejando, além de Dânae, um filho homem, preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o Oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

A fecundação de Dânae, por Klimt. 1907

A fecundação de Dânae (1907), por Gustav Klimt.

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá enclausurou sua filha, em companhia de sua ama. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura e “inviolável” prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

No dia em que o rei tomou conhecimento da existência do neto, encerrou-o juntamente com a mãe num cofre e mandou expô-los ao mar. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae (1892), por Waterhouse.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los. Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então arquitetou um plano e mandou o jovem herói buscar a cabeça de Medusa, missão de que o herói jamais regressaria, segundo pensava o rei tirano.

Uma variante atesta que foi Díctis quem levou a princesa à corte de Polidectes, que a ela se uniu e cuidou da educação do menino.

A seguir a primeira versão, mais difundida por sinal, o rei, na ausência de Perseu, tentou violentar-lhe a mãe. Em seu retorno glorioso, o herói encontrou Dânae e Díctis abraçados à lareira do palácio, tentando escapar das ameaças violentas do tirano. Perseu mostrou-lhe a cabeça de Medusa e o petrificou, bem como a seus cortesãos. Entregou, em seguida, o trono de Sérifos a Díctis e deixou a ilha em companhia de Dânae, que voltou a Argos para viver em companhia de sua mãe Eurídice.

Perseu, no entanto, seguiu à procura de Acrísio. Este, sabedor de que o neto desejava conhecê-lo, e com a sentença do Oráculo a perturbar-lhe a paz, fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Léon-François Comerre's Danaë and the Shower of Gold, 1908.

Dânae e a chuva de ouro (1908), por Léon-François Comerre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Polidectes

Perseus Delivering Medusa's Head (1892) by Walter Crane

Perseu mostrando a cabeça da Medusa a Polidectes, por Walter Crane.

Após muito feitos, era hora de Perseu retornar à Grécia com a recém desposada Andrômeda. Quando chegaram na ilha Sérifos, o herói foi primeiro à modesta casa de Díctis procurar sua mãe. Abriu a porta e entrou. Díctis ficou surpreso ao vê-lo outra vez e ajoelhou-se beijando-lhe as mãos. Perseu disse que trazia consigo a cabeça da górgona Medusa, como havia prometido, e quis logo saber onde estava sua mãe, Dânae. Díctis informou-lhe que seu irmão Polidectes a mantinha como prisioneira.

Perseu não perdeu um só instante e foi encontrá-lo. Avistou-o em um terraço ao lado do palácio, a beber, comer e farrear com os amigos. Mas surgiu Perseu, todos ficaram embasbacados. Ninguém esperava rever o herói, muito menos Polidectes, que, ao reconhecê-lo, gritou: – Como ousa pôr os pés aqui novamente? Eu o mandei buscar a cabeça de Medusa!

Perseu disse que estava com a cabeça da górgona. Polidectes ouvindo essa resposta deu uma gargalhada. Imediatamente seus amigos o imitaram e todos juntos caçoavam do herói. E eram gargalhadas e zombarias, uma atrás da outra. Então, Perseu enfiou a mão na sacola e tirou a horrenda cabeça e disse: – Eis aqui, já que não acreditam em mim!

Num instante, assim rindo e caçoando, todos ficaram petrificados, enchendo o lugar de estátuas. E dizem que, se hoje Sérifos tem muitas pedras, é porque vieram dessas estátuas, que pouco a pouco se fragmentaram.

Perseu, após libertar sua mãe, fez de Díctis rei da ilha e, em seguida, juntamente com Dânae e Andrômeda, voltou para Argos. Lá chegando, agradeceu à deusa Atena, que tanto o havia ajudado, e ofereceu-lhe a cabeça da Medusa. A deusa pôs a oferenda em sua égide. Depois, o herói tomou o rumo das ninfas estígias. Ao encontrá-las, devolveu-lhes as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica.

Athene receives the head of Medousa from Perseus. The hero is depicted as a young man, wearing the winged boots of Hermes and the cap of darkness on his head. Athene holds the Gorgoneion (Gorgon head) by its snaky locks

Perseu entregando a cabeça de Medusa a Atena. Cratera atribuída ao pintor Tarporley de Apúlia (400-385a.C.). Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, EUA.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Medusa

Medusa (1595-96), by Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Medusa (1595-96), por Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Μέδουσα (Médusa), Medusa, é um particípio presente feminino do verbo μέδειν (médein), “comandar, reinar sobre”, donde Medusa é “a que comanda, a que reina”. Etimologicamente, Médusa, está presa à raiz indo-europeia med-, que, em outras línguas aparece com significações diversas: latim modus, “medida, moderação”, meditari, “refletir, meditar”. No irlandês antigo midiur é “eu penso, eu julgo”. Esta noção de pensamento que “regula, modera” está presente no osco mediss, “aquele que julga”, umbro mers, “direito”. Por vezes, o radical med- forneceu termos relativos à medicina, “o médico que regula, domina a doença”, daí o latim mederi, “cuidar de”, medicus, “o que cuida de”. No germânico a raiz se especializou no sentido de “medir, avaliar”, gótico mitan, anglo-saxão metan, antigo alemão messen. Em síntese, o sentido geral da raiz med-, que originou Medusa, “é assumir com autoridade as medidas apropriadas”

Das três Górgonas só Medusa era mortal. Filha de Fórcis e Ceto, vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano, junto ao país das Hespérides. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de serem figuras terríveis, seus olhos eram flamejantes e o olhar tão penetrante, que transformavam em pedra quem as fixasse. Eram espantosas e temidas não só pelos homens, mas também pelos deuses.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Apenas Posídon ousou aproximar-se de Medusa e fazê-la mãe de Crisaor e Pégaso. Encarregado por Polidectes de lhe trazer a cabeça da górgona, Perseu viajou para o Ocidente. Utilizando determinados objetos mágicos, que pegou emprestado com as ninfas estígias, e sobretudo o seu escudo de bronze, o filho de Dânae pairou acima dos três monstros, graças às sandálias aladas. As górgonas dormiam profundamente. Sem poder olhar diretamente para Medusa, o herói refletiu-lhe a cabeça no escudo e, com a espada que lhe dera Hermes, decapitou o monstro.

Do pescoço ensanguentado de Medusa saíram dois seres engendrados pelo deus Posídon: Crisaor e Pégaso.

Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano
os confins da noite (onde as Hespérides cantoras):
Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto,
era mortal, as outras imortais e sem velhice
ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta
no macio prado entre flores de primavera.
Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
Teogonia, vv. 274-281.

Perseu utilizou a cabeça recém decepada como arma. Em sua viagem de retorno, num ato descuidado, petrificou o titã Atlas. Posteriormente cabeça de Medusa foi colocada por Atena em seu escudo ou no centro da égide. Assim os inimigos da deus eram transformados em pedra, se olhassem para ela. O sangue que escorreu do pescoço da górgona foi recolhido por Perseu, uma vez que este era detentor de propriedades mágicas: o que flui na veia esquerda era um veneno mortal, instantâneo; o da veia direita era uma remédio salutar, capaz até mesmo de ressuscitar os mortos.

Cabeza de Medusa, por Peter Paul Rubens (1617-18)

Cabeça da Medusa (1617-18), por Peter Paul Rubens, Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de suas madeixas. Tendo, porém, ousado competir em beleza com Atena, esta eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em górgona.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu

Περσεύς (Perseús), Perseu, o nome era aproximado etimologicamente pelos lexicógrafos antigos do verbo πέρθειν (pérthein), “devastar, destruir”. A hipótese mais provável é de que o antropônimo seja Περσέπολις (Persépolis), “o destruidor de cidades”, ou um termo de substrato, um nome pré-helênico, que significaria simplesmente “a terra”.

Linceu e Hipermnestra

O destino das danaides

Acrísio e Preto: a inimizade entre irmãos

O nascimento de Perseu

Perseu contra Medusa: preliminares

Perseu contra Medusa

Perseu e Atlas

Perseu e Andrômeda

Perseu e Polidectes

Perseu: cumpre-se o oráculo

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Perseu contra Medusa

A proeza que Perseu deveria realizar não era apenas inatingível: era morte certa. Assim que ele fitasse a terrível górgona, prontamente se faria estátua pétrea, sem vida.

Medusa 18


Sobre a Medusa:
Medusa vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de ser uma figura terrível, ainda podia petrificar que olhasse em seus olhos.


Perseu era filho de Zeus, o grande soberano dos deuses e dos homens. E Zeus não deixaria que seu filho morresse. Assim, designou dois deuses para ajudá-lo: Hermes presenteou Perseu com a única espada que poderia cortar de uma só vez a cabeça da terrível Medusa: feita de diamante, a arma era capaz de cortar até ferro; Atena, por sua vez, deu-lhe um escudo tão reluzente que podia servir de espelho e disse: “Como você não pode fitar o rosto de Medusa, olhará para o seu reflexo no espelho e, assim, terá como lhe cortar a cabeça sem virar pedra”.

Em seguida, a deusa conduziu Perseu a Samos, onde havia três imagens de corpo inteiro das górgonas.

– Veja qual delas é Medusa. Estou lhe dizendo isso para que não cometa um engano e tente matar umas das outras duas, pois são imortais! Mas saiba que o perigo não será menor quando quiser cortar a cabeça da Medusa. Vá ao encontro das ninfas do Estige, e elas lhe concederão o aparato necessário à tarefa. Não sei dizer onde encontrá-las; nem eu nem homem ou deus algum, somente as três greias, que você poderá encontrar perto da terra das hespérides. Elas, porém,são irmãs da Medusa e só revelarão onde vivem as ninfas à força.

A deusa então mostrou a Perseu o caminho para a morada das três greias e lhe garantiu que ele as reconheceria facilmente. Afinal, eram muito velhas. E o mais estranho: as três tinham somente um olho e um dente, que partilhavam.

GreiasDepois de um longo caminho, Perseu as encontrou. Chegou bem na hora que uma delas tirava o olho e o passava à irmã. Quando o braço de uma se estendeu para entregar o olho à outra, Perseu interpôs-se, e o objeto foi colocado bem na palma de sua mão. Imediatamente ela agarrou o olho e disse: “Lá se vai o olho de vocês! Não o terão de volta se não me disserem onde encontrar as ninfas estígias!”.

O golpe foi inesperado para as greias. Ficaram contrariadas e não sabiam o que fazer. Moviam seus braços às cegas, tentando apanhar Perseu. Não queriam dizer de jeito nenhum onde moravam as ninfas, porque elas tinham as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica. E as greias sabiam que quem tivesse esses apetrechos em seu poder estaria em busca de matar Medusa, e poderia fazê-lo. Quando se deram conta que não reaveriam o olho, começaram a implorar Perseu, mas ele se manteve firme. As três velhas ficaram em pânico e, aterrorizadas, gritaram a uma só voz onde as ninfas poderiam ser encontradas.

Perseus and the Sea Nymphs, by Edward Burne Jones (1877)

Perseu e as Ninfas, por Edward Burne Jones (1877).

Perseu devolveu o olho e foi ao encontro das ninfas. Ao dizer-lhes o que se encarregara de fazer, obteve delas, prontamente, o que fora buscar. Uma lhe trouxe as sandálias aladas, com as quais poderia voar; outra, o capacete de Hades, que o tornaria invisível; a terceira lhe deu um saco mágico, que aumentava e diminuía, envolvendo coisas de qualquer tamanho.

– É para colocar aí dentro a cabeça da Medusa: mesmo decepada, ela tem o poder de transformar em pedra quem olhar para ela.

Perseu apanhou os apetrechos e seguiu. Com as sandálias aladas, voava veloz e graciosamente pelo céu. Não tardou a chegar à ilha das górgonas, quando então colocou o capacete e se tornou invisível. Lá do alto avistou as três. Em volta delas, e por toda a ilha, viam-se imagens humanas de pedra, fustigadas pela chuva e pelo vendo.

Agora Perseu olhava somente pelo reflexo de seu escudo. Àquela hora, as três estavam dormindo, e o herói se aproximou rapidamente. Logo distinguiu Medusa, e,  nessa hora difícil, Atena estava a seu lado. Dava-lhe ânimo e estava pronta para lhe guiar a mão. Com cuidado, Perseu olhou no espelho, calculou corretamente e, com um golpe certeiro da espada, decepou a horrorosa cabeça. Do pescoço cortado de Medusa, saltou primeiro um cavalo alado, Pégaso, e em seguida um gigante, Crisaor, ambos filhos de Posídon. O destino escrevera que eles nasceriam do pescoço de Medusa quando um certo herói lhe cortasse a cabeça.

Perseu enfiou a cabeça na sacola e voou para o céu, enquanto o corpo da górgona despencava para o mar. Mas o barulho acordou as duas irmãs do monstro. Vendo Medusa morta, saíram de imediato à procura do assassino, mas nada viram. Então, abriram as asas e voaram em direção ao céu. Perseu, todavia, já estava totalmente invisível e elas voltaram, desoladas.

The Birth of Pegasus and Chrysaor (1876-1885) by Edward Burne-Jones, gouache, Southampton City Art Gallery.

O nascimento de Pégaso e Crisaor, por Edward Burne-Jones (1876-1885).

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu contra Medusa: preliminares

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então, Polidectes pôs em prática um plano terrível. Chamou ao palácio todos os nobres da ilha, inclusive Perseu, e disse-lhes:

– Finalmente desisti de me casar com Dânae. Pedirei a Enomeu, rei de Pisa, a mão de sua filha Hipodâmia. Entretanto, como eu, sendo rei de uma pequena ilha, parecerei muito humilde ao rei da poderosa Pisa, imaginei que só lograrei impressioná-lo se lhe oferecer ricos presentes. Por essas, razão, venho lhes pedir que cada um me dê um cavalo, para que eu os ossa oferecer a Enomeu.

Todos aceitaram, mas Perseu ficou preocupado e disse:

– Não tenho cavalo, nem ouro ara comprar um. Ordene-me, porém, que lhe traga qualquer outra coisa. Fiquei tão feliz em saber que você não pensa mais em se casar com a minha mãe, que estou disposto até mesmo a lhe trazer a cabeça da Medusa, se essa for a sua vontade.

Todos sabiam que Medusa era uma temível górgona, cuja cabeça tinha o poder de transformar em pedra que a olhasse. Portanto, era consenso que ninguém podia decepá-la. Perseu apenas se utilizara de uma expressão muito comum quando alguém queria enfatizar o quanto se dispunha a levar a cabo uma ordem ou pedido. Polidectes, todavia, imediatamente gritou:

– Isso mesmo! Exatamente o tipo de presente que desejo! Vá buscar para mim a cabeça da Medusa e eu, fique seguro, jamais voltarei a incomodar sua mãe!

Perseu não esperava aquela réplica, tomou-se de surpresa, mas não fraquejou. Lançou um olhar de ódio para o rei e disse que traria o que lhe foi pedido. O jovem herói saiu do palácio rumo ao desconhecido, enquanto Polidectes, com um sorriso irônico nos lábios, dizia a seus amigos:

– Não preciso  dos cavalos de que lhes falei. Meu plano funcionou. Consegui mandar Perseu exatamente para onde eu queria. Agora que Dânae ficou só, certamente se tornará minha esposa.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O nascimento de Perseu

Acrísio se casou com Aganipe e teve uma única filha, a Dânae. Preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá trancou sua filha. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

Danae and the Shower of Gold, by Adolf Ulrik Wertmüller 1787

Dânae e a chuva de ouro, por Adolf Ulrik Wertmüller (1787)

Poucos dias depois, Acrísio, passando por perto da prisão, escutou um choro de bebê. Embora pensasse que seus ouvidos o enganavam, abriu a porta e ficou espantado ao ver sua filha com uma criança nos braços. Aterrorizado e sem poder acreditar que aquela criança era filha de Zeus, desconfiou de seu irmão Preto. Sua suspeita logo se tornou certeza, e a cólera imediatamente se adensou em seu peito. Para vingar-se do irmão, mas também para se desvincilhar daquele neto tão perigoso, decidiu matar Dânae e a criança. Contudo, na última hora, teve medo da ria dos deuses e se conteve.

Então teve uma ideia e disse: – Que as ondas espumantes os engulam! Que os peixes os devorem! Não serei eu a lamentar e sim Preto! Ele mesmo não pôde me matar todos esses anos, e não ficarei esperando que seu filho me mate agora!

Logo pôs em curso o que havia planejado. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. que por isso tomaram seu nome.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae, por Waterhouse (1892)

Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Vendo-o assim tão bem-feito, estranhou ainda mais e perguntou-se que tipo de coisa poderia conter e de onde teria vindo. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los.

Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Odiava todas as mulheres e havia jurado nunca se casar. Porém, assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la. Tudo isso, porém, teve um efeito contrário, pois a jovem mãe tinha horror ao rei, mais nada.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

Perseus and Danae, Museum of Fine Arts, Boston, USA, 490BC

Perseu e Dânae ~490a.C, Museu de Belas Artes, Boston.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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