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A loucura de Héracles

Héracles teve três filhos com sua primeira esposa, Mégara. O casal era muito feliz, porém a felicidade do herói e suas vitórias cada vez mais gloriosas provocaram um amargo ressentimento em Hera, que resolveu causar-lhe mal outra vez.

Certa feita, quando Héracles, cheio de alegria, observava seus filhos brincando, Ate – a deusa do engano –  surgiu silenciosamente atrás dele, jogando-lhe sobre os olhos um véu invisível que tinha o poder mágico de turvar o raciocínio. A visão do herói perturbou-se e, em vez de sues filhos, viu três dragões colossais prontos a atacar. Agarrando cadeiras, mesas e tudo o mais a seu alcance, Héracles quebrou-os sobre o que pensava serem as cabeças dos monstros enormes e assim matou sua prole.

Depois, tomado de uma raiva demoníaca, destroçou tudo quanto havia no palácio, enquanto os que estavam lá dentro empurravam-se pelas portas ou atiravam-se das janelas, procurando escapar à agitação selvagem do homem mais forte do mundo, até que o palácio de Creonte foi reduzido a um monte de pedras.

Ate voltou e retirou o véu invisível. Então, o desafortunado pai viu, entre os destroços, não dragões, mas mortos os seus três filhos. Seus olhos não podiam acreditar na verdade terrível que os outros lhe contavam. Como pudera matar com as próprias mãos os filhos que tanto amava?

 

A loucurade de Héracles

Um desenho de linha 1889 do herói grego Héracles (aflito com algo parecido com transtorno de estresse pós-traumático provocado pela violência que causou contra seus filhos), pelo artista August Baumeister. Origina-se em uma pintura de vasos gregos-siciliano assinado por Asteas (350-320 a.C.), que descreve uma peça de teatro do dramaturgo Eurípides em que o Héracles está prestes a imolar o primeiro de seus três filhos, enquanto sua esposa tenta escapar de sua ira psicótica.

Por causa dessa ação horrenda, Creonte ordenou que Héracles abandonasse Tebas imediatamente, e sua esposa que mandou informá-lo de que nunca mais queria vê-lo. Antes, porém, que lhe dissessem algo, o triste herói tomara o caminho do exílio por sua própria vontade e, vagando sem destino, foi dar nas terras de Téspio.

Lá, numa voz rouca e angustiada, contou a seu amigo, o rei Téspio, o vil crime que cometera; depois disso, apesar de sua força e coragem, não resistiu e chorou como uma criança, implorando ajuda.

Téspio teve pena de Héracles e recebeu-o como convidado, fazendo tudo o que estava a seu alcance, procurando ajudar o herói a esquecer o ocorrido. Tudo em vão; nada podia apagar de sua memória aquele cenário terrível.

E assim o tempo passou, até que um dia chegaram mensageiros de Micenas, informando a Téspio que o rei Estênelo morrera e seu filho, Euristeu, reinava em seu lugar. Traziam, também, uma mensagem  do novo rei destinada a Héracles. O herói estava sentado ali perto, silencioso, perdido em tristes pensamentos: mas, ao ouvir seu nome, levantou-se, pegou a carta e leu-a:

“Eu, o grande rei de Micenas”, dizia a carta, “a quem Zeus deu o direito de governar todas as pessoas da Hélade, agora ordeno a Héracles, filho de Anfítrion, que passe a me servir para realizar grandes trabalhos que trarão glórias para meu nome e meu reinado. Assim eu, Euristeu, filho de Estênelo e descendente de Zeus pelo herói Perseu, decreto.”

Quando Héracles acabou de ler aquela convocação, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Téspio, que viu a presunção ridícula da ordem de Euristeu, aconselhou-o a não ir. Mas os deuses não eram da mesma opinião. O grande Zeus estava amarrado pelo juramento de há tantos anos e nada podia fazer. Agora Hera tinha a palavra, e seu ódio pelo filho de Alcmena era mortal. Fazendo com que um fanfarrão digno de dó como Euristeu desse uma ordem a Héracles, ela poderia, além de humilhar o herói, provocar seu fim.

Contudo, os perigos da incumbência não assustavam Héracles, e, quanto a humilhação, isso era exatamente o que ele buscava para se redimir do crime contra seus próprios filhos.

A única coisa que o fazia hesitar era a ideia de servir a um homem indigno e desprezível. Será que não faria mais mal do que bem à raça humana? Em sua confusão, decidiu consultar o oráculo de Delfos. A resposta foi a seguinte:

– Vá a Micenas e fique a serviço de Euristeu. Ele ordenará que realize doze grandes trabalhos. Só quando tiver completado o último deles é que os deuses perdoarão seu crime contra seus filhos.

Héracles sentiu-se aliviado com as palavras do oráculo e, afinal, sabia que caminho seguir.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Lélape

Laelaps and Cadmean vixen

Minos possuía um cão de caça de força prodigiosa, chamado Lélape (em grego Λαιλαψ, Lailaps, “tempestade”), que jamais deixava escapar uma presa, e uma flecha que nunca errava o alvo. Zeus, anteriormente, ofertara à Europa muitos presentes valiosos, entre eles estava Lélape. Este foi transmitido de para um dos filhos de Europa, Minos. Por ter inúmeras amantes, o rei Minos tornou-se vítima de uma maldição de sua esposa, Pasífae: a cada vez que ele se unia a uma mulher, nasciam de seu corpo serpentes e escorpiões que a matavam imediatamente. Prócris, para libertá-lo de tal encantamento, deu-lhe uma erva que obtivera da feiticeira Circe, mas exigiu em troca o cão e a flecha. Mais tarde, ela os deu de presente a Céfalo, seu marido.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta que assolava a região, a Raposa de Têumesso – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

The Teumessian Fox and Laelaps

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

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Raposa de Têumesso

Laelaps and Cadmean vixenΑλωπεξ Τευμησιος (Alopex Teumesios), Raposa de Têumesso, era um animal gigantesco que fora enviado pelos deuses para o campo de Tebas como castigo por algum crime. A raposa era uma besta sanguinária, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Teumessian Fox And LaelapsSe Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

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O nascimento de Héracles parte I: Anfítrion e Alcmena

Naqueles tempos, os homens atribuíam os rumos de todas as questões importantes aos desígnios dos deuses do Olimpo. Sentiam, por exemplo, que o próprio Zeus queria ver os Estados helênicos unidos e, em nome disso, teria decidido gerar um filho – Héracles – que cresceria para ser um herói munido dos poderes necessários à realização desse desejo.

A cidade em que deveria reinar não era outra senão a dourada Micenas, a mais rica e poderosa de todas, fundada por um grande herói também nascido de Zeus: Perseu.

Depois da morte de seu fundador, Micenas viu subir ao trono Eléctrion, filho de Perseu e pai de nove homens e uma mulher, chamada Alcmena. Alta e imponente, ela era a mais formosa e mais sábia do mundo. Suas tranças grossas e sedosas emolduravam um rosto encantador, seus longos cílios escuros adornavam olhos grandes e expressivos. A filha de Eléctrion tinha todas as graças naturais que predestinavam uma mulher a ser mãe de heróis. E se Zeus fosse o pai da criança, ela certamente daria à luz o maior deles. Assim, dentre todas as mulheres, mortais e imortais, Alcmena foi escolhida para ser a mãe de Hércules.

Zeus já estava casado com Hera. Mas aos homens importava muito que os heróis e grandes líderes fossem filhos de algum deus e, além disso, certos reis gostavam de se vangloriar de sua origem divina. Então, para os gregos antigos, parecia natural que os deuses gerassem filhos em toda mulher que lhes agradasse. Em todo caso, diz-se que depois do nascimento de Héracles nunca mais uma mortal concebeu um filho de Zeus.

Eléctrion tinha prometido a mão de sua filha, Alcmena, a Anfítrion, rei de Tirinto. Porém, uma tragédia se abateu sobre Micenas, e as bodas foram adiadas. Os nove irmãos de Alcmena morreram na batalha contra os temíveis teléboas (uma raça de homens com voz de trovão), que tinham tomado todos os rebanhos de Eléctrion e planejavam colocar seu próprio rei no trono da cidade. Sem êxito em seus planos, os teléboas se viram obrigados a dar o gado para Polixeno, rei da Élida, que se encarregaria de escondê-lo. Mas Anfítrion o descobriu e, querendo ajudar seu futuro sogro, comprou os animais e reconduziu-os a Micenas.

O rei Eléctrion ficou furioso com tal atitude, e, após discussão entre eles, Anfítrion arremessou sua clava no meio dos animais. Apenas um momento de fúria, e o resultado afigurou-se uma tragédia que jamais pôde ser desfeita. Ao dar nos chifres de um touro, a clava ricocheteou, bateu na cabeça de Eléctrion e jogou-o ao chão, morto.

Depois desse infortúnio, Estênelo, irmão de Eléctrion, sucedeu-o no trono de Micenas; e Anfítrion, abalado pela dor do mal que causara involuntariamente, renunciou a tudo que possuía, inclusive ao reinado de Tirinto (que acabou tomado por Estênelo), e partiu para Tebas, onde reinava Creonte.

Nem por um momento Anfítrion deixou de amar Alcmena e, por fim, enviou um homem a Micenas com a missão de implorar que ela o perdoasse e perguntar-lhe se, apesar de tudo, ainda desejava o casamento.

Foi aí que Zeus pôs na mente de Alcmena a resposta que serviria a seu propósito.

– Concordo em me casar com Anfítrion – disse Alcmena ao mensageiro – mas com a condição de que, terminados os ritos nupciais, ele trave guerra contra os teléboas e vingue a morte de todos os meus irmãos. Esse desejo não é apenas meu; estou certa de que assim o quer meu falecido pai.

Anfítrion estava disposto a fazer qualquer coisa por Alcmena e não vacilou em atender a exigência. Mas, com que exército? Ele não tinha mais suas tropas… Apelou, então, a Creonte, rei de Tebas, mas este respondeu que daria o exército somente se ele livrasse Tebas da raposa de Têumesso.


Sobre a Raposa de Têumesso:
A raposa era um animal sanguinário, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.


Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Laelaps and Cadmean vixenAnfítrion pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Finalmente, o próprio Zeus encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátua de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Portanto, Anfítrion não pôde devolver o cão sagrado a Céfalo; mas compensou-o por isso, doando-lhe uma das ilhas que mais tarde tomou dos teléboas – agora, conhecida como Cefalônia, nome originário de seu novo rei, Céfalo.

O que mais importava era Tebas ter se livrado de seu sacrifício de sangue e, com isso, Anfítrion obteve o que precisava – não apenas um exército, mas um grupo de soldados dispostos a servir e a oferecer suas vidas ao salvador das crianças de Tebas. Só então Anfítrion pôde cumprir a promessa feita a Alcmena.

As bodas foram celebradas, mas logo Anfítrion teve que se despedir de sua noiva para assumir o comando da luta contra os teléboas. Alcmena voltou ao palácio, trancou-se no em seu quarto e esperou pela volta do marido, a quem ela mesma mandaram para a guerra, embora o amasse de todo o coração.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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