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Crono

Κρόνος (Krónos), Crono, sem etimologia certa até o momento. Por um simples jogo de palavras, por uma espécie de homonímia forçada, Crono foi identificado muitas vezes com o Tempo personificado, já que, em grego Χρόνος (Khrónos) é o tempo. Se, na realidade, Krónos, Crono, nada tem a ver etimologicamente com Khrónos, o Tempo, semanticamente a identificação, de certa forma, é válida: Crono devora, ao mesmo tempo que gera; mutilando a Urano, estanca as fontes da vida, mas torna-se ele próprio uma fonte, fecundando Reia.

Crono é o mais jovem filho de Gaia e Urano na linhagem dos titãs. Pertence, por conseguinte, à primeira geração divina, anterior a Zeus e aos restantes deuses olímpicos.

O fato é que Urano, tão logo nasciam os filhos, devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia então resolveu libertá-los e pediu aos filhos que a vingassem e libertassem do esposo. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe Gaia uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos.

Rápida [Gaia] criou o gênero do grisalho aço,
forjou grande podão e indicou aos filhos.
Disse com ousadia, ofendida no coração:
“Filhos meus e do pai estólido, se quiserdes
ter-me fé, puniremos o maligno ultraje de vosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou e a todos reteve o terror, ninguém
vozeou. Ousado o grande Crono de curvo pensar
devolveu logo as palavras à mãe cuidadosa:
“Mãe, isto eu prometo e cumprirei
a obra, porque nefando não me importa o nosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou. Exultou nas entranhas Terra prodigiosa,
colocou-o oculto em tocaia, pôs-lhe nas mãos
a foice dentada e inculcou-lhe todo o ardil.
Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra
desejando amor sobrepairou e estendeu-se
a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão
esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice
longa e dentada. E do pai o pênis
ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás.
Teogonia – Hesíodo

O sangue do ferimento de Urano, no entanto, caiu todo sobre Gaia, concebendo esta, por isso mesmo, tempos depois, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram, com a espuma, que saía do membro divino, uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite. Com isto, o caçula dos Titãs vingou a mãe e libertou os irmãos.

Com a façanha de Crono, Urano (Céu) separou-se de Gaia (Terra). O Titã, após expulsar o pai, tomou seu lugar, casando-se com sua irmã Reia. Senhor do mundo, converteu-se num déspota pior que o pai. Temendo os Ciclopes que Urano lançara no Tártaro e que ele havia libertado, a pedido da mãe, novamente os aprisionou nas trevas inferiores e desta vez lhes deu por companhia dos Hecatonquiros.

Dois pontos básicos devem ser ressaltados no episódio de Crono e Urano: a castração do rei e, em consequência, sua separação da rainha. A castração de Urano põe fim a uma longa e ininterrupta procriação, de resto inútil, uma vez que o pai devolvia os recém-nascidos ao ventre materno.

Saturno devorando a un hijo, por Francisco de Goya (1819–1823). Museu do Prado, Madri, Espanha 2.jpg

Saturno (Crono) devorando seu filho (1819-23), por Goya, Museu do Prado, Madri, Espanha.

Como Urano e Gaia, depositário da mântica, vale dizer, do conhecimento do futuro, lhe houveram predito que seria destronado por um dos filhos, que teria de Teia, passou a engoli-los, à medida que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades ou Plutão e Posídon. Escapou somente Zeus. Grávida deste último, Reia fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz o caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança, e o deus, de imediato, a engoliu.

Uma vez nascido, Zeus, ajudado por Métis ou pela própria Gaia, fez que Crono ingerisse uma poção mágica que o forçou a devolver todos os filhos anteriormente devorados. Comandados por Zeus, os deuses olímpicos iniciaram uma luta de dez anos contra os Titãs. Por fim venceu o caçula de Reia. Os Titãs, expulsos do céu, foram lançados ao Tártaro. Para obter tão retumbante triunfo, o futuro pai dos deuses e dos homens, a conselho de Gaia, libertou das trevas os Ciclopes e os Hecatonquiros. Estes últimos tornaram-se, desde então, os guardiães dos inimigos destronados.

Além dos filhos que teve com Reia, algumas tradições atribuem à união de Crono com Fílira a paternidade sobre Quíron, o grande pacífico Centauro. Outros mitógrafos dão-lhe ainda como filhos Hefesto e Afrodite.

Na tradição religiosa órfica, Zeus, tão logo sentiu consolidado seu poder, libertou o pai Crono da prisão subterrânea, recompôs-se com ele e o enviou para a lha dos Bem-Aventurados. Esta reconciliação do senhor do Olimpo com o pai, considerado como um príncipe justo e bom, o primeiro a reinar no céu e na terra, é que gerou o mito da Idade de Ouro.

Na Hélade, sobretudo entre os Órficos, se dizia que em priscas eras o deus pacífico e generoso teria reinado em Olímpia.

Diga-se, de caminho, que essa ideia de o deus ter reinado em “priscas eras” fez de Crono sinônimo de um passado incomensurável. Asim é que o derivado κρονεῖον (kroneîon) significa “no tempo de Crono”.

Dizia-se igualmente que o rei bom justo teria reinado na África, na Sicília e em todo o ocidente mediterrâneo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

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Folos

Φόλος (Phólos), Folos, talvez os antropônimo se relacione com φελλεύς (phelleús), “região perigosa”, mas a hipótese não é segura.

Heracles and Pholus, black-figured hydria, 520–510 BC, Louvre

Héracles e Folos, 520-510 a.C., Louvre

Filho de Sileno e de uma ninfa Melíade (o que contraria a genealogia dos Centauros, que descendiam do criminoso Íxion), Folos era um centauro pacífico. Quando Héracles caminhava em direção à Arcádia, para a caça ao Javali de Erimanto, em seu quarto trabalho, passou pela região de Fóloe, onde vivia Folos. Dioniso o presenteara com uma jarra de vinho hermeticamente fechada, recomendando-lhe, todavia, que não a abrisse, enquanto o filho de Alcmena não lhe viesse pedir hospitalidade. Segundo outra versão, a grande jarra era propriedade de todos os centauros. De qualquer forma, acolheu hospitaleiramente o herói, mas tendo este, após a refeição, pedido vinho, Folos se desculpou, argumentando que o único vinho que possuía só podia ser consumido em comum pelos centauros. Héracles lhe respondeu que não tivesse receio de abrir a jarra. O filho de Sileno, lembrando-se da recomendação de Dioniso, o atendeu.

Os centauros, sentindo o odor no néctar báquico, armados de rochedos, árvores e troncos, avançaram contra Folos e seu hóspede. Na refrega, Héracles matou dez filhos de Íxion e perseguiu os demais até o cabo Mália. Quando se ocupava em sepultar seus companheiros mortos, Folos, ao retirar uma flecha envenenada com o sangue da Hidra de Lerna do corpo de um centauro, deixou-a cair acidentalmente no pé e, mortalmente ferido, sucumbiu logo depois. Héracles organizou em sua honra funerais magníficos e lamentou a perda do bom centauro.

Musée du Louvre, Paris, France Artist-Maker Rider Painter Heracles and Pholus. Laconian black-figured dinos, ca. 560–40 BC

Héracles e Folos, 560-40 a.C, Louvre

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Quíron

Quíron e Aquiles, ânfora ática ~520a.C, Museu do Louvre, França.

Quíron e Aquiles, ânfora ática (~520a.C.), Museu do Louvre, França.

Quíron, em grego Χείρων (Kheíron), nome que é, possivelmente, uma abreviatura de χειρουργός (kheirourgós), “que trabalha ou age com as mãos”, cirurgião, pois esse centauro foi um grande médico, que sabia muito bem compreender seus pacientes, por ser um médico ferido.

Filho de Chronos e Fílira, pertencia à geração divina dos Olímpicos. Pelo fato de Chronos ter-se unido a Fílira sob a forma de um cavalo, o Centauro possuía dupla natureza: equina e humana. Fílira era filha do Oceano e fora seduzida por Chronos. Um dia, estavam ambos terminando o ato amoroso, quando foram surpreendidos por Reia, esposa do mesmo. Este, imediatamente, fugiu sobre a forma de cavalo. Fílira, cheia de vergonha, escondeu-se nas florestas da montanha, onde, passado o tempo, deu à luz um Centauro, o famoso Quíron. À vista do monstro que dela nascera, metade homem, metade cavalo, experimentou a mãe tamanha dor, que suplicou aos deuses que dela se apiedassem e a metamorfosearam. Os imortais atenderam-na e foi transformada em tília, árvore em Grego chamada φιλύρα.

Quíron passou a sua primeira juventude nas florestas e nas montanhas. Vivia numa gruta, situada ao pé do monte Pélion, e era um gênio benfazejo, amigo dos homens. Tornou-se amigo de Ártemis e com ela costumava caçar, indicando-lhe os lugares onde se acolhiam os animais que a deusa desejava matar. Ao contrário dos demais Centauros, possuía uma inteligência brilhante, e o convício com Ártemis trouxe-lhe grandes vantagens. Com ela aprendeu o conhecimentos dos símplices e das estrelas. Sábio, ensinava música, a arte da guerra e da caça, a moral, a astronomia, mas sobretudo medicina. Foi o grande educador de heróis, entre outros, de Jasão, Héracles, Peleu, Teseu, Aquiles e Asclépio.

Centaur. The cenataur Chiron with the goddess Diana-Artmeis holding twoe plants of the genus Artemisia. Bodleian Library, MS. Ashmole 1462, Folio 18r.

Quíron e Ártemis

Na guerra que Héracles moveu contra os centauros, Quíron, que estava do lado do herói e era seu amigo, foi acidentalmente ferido, na perna, por uma flecha envenenada, a qual o filho de Alcmena, ao realizar o segundo trabalho, embebera no veneno da Hidra de Lerna. O Centauro aplicou unguentos sobre o ferimento, mas era incurável. Recolhido à sua gruta, Quíron desejou morrer, mas nem isso conseguiu, porque era imortal. O infeliz, passou anos de agonia sofrendo dores intoleráveis, pediu a Zeus que desse término ao suplício abreviando-lhe os dias. Zeus atendeu a súplica do centauro, mas não deixou que o deus da morte o levasse para as profundezas do inferno. Conta-se que Quíron subiu ao Céu sob a forma da constelação de Sagitário, uma vez que a flecha, em latim sagitta, a que se assimila o Sagitário, estabelece a síntese dinâmica do homem, voando através do conhecimento para sua transformação, de ser animal em ser espiritual. Quíron passou à posterioridade com a alcunha de “o Sábio”.

Conforme outra versão, quando o Centauro examinava as flechas de Héracles, por acaso uma escapou-lhe das mãos e veio a feri-lo no pé. Todos os remédios foram impotentes para acalmar-lhe a dor. Dotado pelos deuses com o dom da imortalidade, não podia morrer; pediu e obteve que sua imortalidade fosse dada a Prometeu.

Há ainda outra versão. Segundo Plínio, o centauro Quíron curou-se da ferida com a planta depois chamada de centáurea.

Bronze Kheiron, the immortal son of the Titan Kronos and a half-brother of Zeus. Kheiron mentored many of the great heroes, including Jason and Akhilleus - Constellation Sagittarius.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.2. Petrópolis: Vozes, 2009.

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix,1974.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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IV. O Javali de Erimanto

Desta vez, Hera aconselhou Euristeu a mandar Héracles trazer o Javali de Erimanto vivo e contou-lhe sobre os perigos que o herói encontraria pelo caminho. O rei mesquinho esfregou as mãos de satisfação.


Sobre o Javali de Erimanto:
O javali era um animal feroz que sempre descia a montanha arruinando as plantações, aterrorizando e destruindo tudo que encontrava pelo seu caminho. Tinha esse nome porque viveu na famosa Erimanto, uma montanha de Arcádia. Ele era um monstro antropófago, podia causar abalos sísmicos e, com suas presas, era capaz de arrancar pela raiz uma árvore corpulenta e dilacerar homens ou animais que se interpusessem em seu caminho. 


Quando Héracles recebeu as novas ordens, logo ficou desconfiado. Ele sabia bem como se proteger. O problema era descobrir um modo de agarrar o animal vivo. Ainda remoendo o porquê daquele trabalho, o herói partiu para Erimanto. Em alguns dias, chegou ao sopé da montanha. Era noite, ele tinha parado numa fonte para beber água e descansar, quando ouviu algo se aproximando. Por estar escuro, ele pensou que se tratava de um cavaleiro. No entanto, quanto estava próximo, percebeu que não era um homem sobre um cavalo, mas sim um centauro – meio homem, meio cavalo. Seu nome era Folos.

Quando viu Héracles, Folos aproximou-se trotando, saudou o herói amistosamente e perguntou o que o mesmo fazia ali, naquele lugar selvagem. Héracles explicou por que estava ali. O centauro, contente em conhecer o herói, o convidou para ir à sua caverna cear e descansar um pouco.

Chegaram à caverna e Folos mostrou-se um bom anfitrião. Acomodou Héracles e servi-lhe uma boa refeição. O problema é que ele não ofereceu nada para o herói beber. Folos logo tratou de explicar que os centauros possuíam o mais fino vinho do mundo, e que não o ofereciam nem aos deuses. Porém, Folos decidiu fazer uma exceção e serviu duas taças de vinho: uma para si e outra para o herói. O vinho tinha um aroma adocicado único.

Enquanto bebiam, Hera fez com que uma leve brisa soprasse, e os vapores fortes flutuaram para fora da caverna indo até as narinas dos outros centauros. “Estão roubando o nosso vinho”, todos disseram em uníssono e disparam para a caverna a galopes. Folos ouviu o tropel dos irmãos se aproximando e entrou em desespero. Folos e Héracles dispararam para fora da caverna. Contudo os centauros já estavam lá e, ao verem um homem do lado de fora, ficaram ainda mais furiosos. Imediatamente se armaram com tudo que estava a seu alcance, alguns com pedras enormes, outros com troncos inteiros de ciprestes, arrancados na hora. Então, avançaram para a caverna e Héracles viu-se em perigo mortal.

Só um centauro, o sábio Quíron, tentou detê-los, mas foi em vão. Um instante depois, eles começaram a  arremessar grandes pedras, mas devido à distância, as mesma não atingiram o herói. Héracles puxou o seu arco e começou a atirar com força e precisão. Cada flecha derrubava um centauro como se fosse um raio. Quíron gritou que parassem, mas ninguém ouviu, e um após outro, foram caindo mortos. Quando os últimos sobreviventes viram o resultado inacreditável da rápida batalha, deram meia volta e se espalharam por todas as direções. Por fim, alguns se refugiaram-se em Maleia, enquanto outros, como o centauro Nesso, fixaram-se na região do rio Eveno.

Centauros

Embora todos os centauros ferozes tivessem sido mortos ou fugido do monte Erimanto, Héracles não estava feliz com a batalha, sentia um grande pesar. Porque uma das flechas do herói trespassara o braço de um centauro e atingira o velho Quíron no pé. Dentre todos os centauros, apenas Quíron era imortal; por isso o veneno da Hidra abriu-lhe uma ferida tão horrível, cuja a dor era insuportável e que jamais seria curada.

Como se não bastasse isso, o centauro Folos, intrigado, pegou uma das flechas para tentar entender como aquelas flechinhas mataram seus irmãos com tanta facilidade. Héracles gritou desesperado para que Folos largasse a flecha, e quando o fez, sofreu um arranhão na perna e caiu morto. Com grande pesar, o herói enterrou seu amigo centauro. Depois deixou aquele lugar funesto e, com o coração partido, seguiu seu caminho para o alto do Erimanto, em busca do javali selvagem. Agora ele compreendia por que Euristeu o tinha enviado para aquele lugar.

Depois de muito procurar, Héracles finalmente encontrou o rastro do animal. Era muito fácil matá-lo; o problema era pegá-lo vivo. O herói perseguiu o javali durante muitos dias e noites. Inúmeras vezes, perdeu o animal, esgotou-se procurando por ele e saiu de novo em seu encalço, tudo sem proveito algum.

Por fim, Héracles sentou-se e pensou. Força e velocidade nem sempre eram a resposta; a esperteza se fazia necessária. Subindo numa pedra alta, o herói examinou toda a área e percebeu que os picos da montanha estava cobertos de neve. Sua tarefa agora era conduzir o animal até lá. Assim, recomeçou a perseguir o javali, forçando-o a subir. Sempre que o animal tentava mudar de direção, Héracles atirava uma pedras em seu caminho. Finalmente, forçou o javali a entrar numa cavidade cheia de neve. As pernas pequenas e flexíveis do animal, enterradas na massa branca e foca, não puderam mais levá-lo adiante. Seu pesado corpo afundou na neve até o peito e ali ficou imerso, incapaz de mover-se.

Heracles vs. Erymanthian Boar

Assim, finalmente, Héracles pegou o javali, amarrou suas pernas juntas, colocou sobre os ombros de modo que o animal não o ferisse e levou-o para Micenas.

Com passos largos, Héracles passou pelos guardas nos portões do palácio e, por acaso, entrou direto até Euristeu. Quando os olhos do rei viram o herói com o javali selvagem nos ombros, ele deu um grito e suas pernas estremeceram. Então, desenrolou-se uma cena que se tornou o tema favorito dos antigos pintores de vasos da Grécia. Aterrorizado, o poderoso rei de Micenas deu um salto e jogou-se dentro de um grande vaso de barro. Como se nada estranho tivesse acontecido, Héracles continuou andando até que ele se curvou sobre a borda do recipiente, para que Euristeu pudesse ver o javali bem de perto, tão perto que o focinho do animal, com seus dentes afiados, quase tocou o rosto do rei mesquinho. Com medo, suou frio e tremeu feito vara verde. Se Euristeu tivesse avistado o Hades, não teria ficado tão amedrontado.

Javali de Erimanto

Euristeu aterrorizado dentro do vaso de barro

Referência:

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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