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O simbolismo do cinto de Hipólita

Foi a pedido de Admeta, filha de Euristeu e sacerdotisa de Hera argiva, que Héracles, acompanhado por alguns voluntários, inclusive Teseu, seguiu para o fabuloso país das Amazonas, a fim de trazer para Admeta o famoso Cinturão de Hipólita, rainha dessas guerreiras indomáveis, e cumprir seu nono trabalho. Tal Cinturão havia sido dado a Hipólita pelo deus Ares, como símbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo.

O herói prosseguiu viagem chegando ao porto de Temíscira, pátria das Amazonas. Hipólita concordou em entregar-lhe o Cinturão, mas Hera, disfarçada de uma amazona, incitou grave querela entre as partes. Após cruenta batalha, a rainha entregou o cinto a Héracles.

O cinturão ou simplesmente o cinto, atado em torno dos rins, por ocasião do nascimento, religa o um ao todo, ao mesmo tempo que liga o indivíduo. Toda a ambivalência de sua simbólica está resumida nestes dois verbos, ligar e religar.

Religando, o cinto dá maior segurança e tranqüilidade, reanima, transmite força e poder; ligando, acarreta, ao revés, a submissão, a dependência e, por conseguinte, a restrição, escolhida ou imposta, da liberdade. Materialização de um engajamento, de um juramento, de um voto feito, o cinto assume um valor iniciático, sacralizante e, materialmente falando, torna-se uma insígnia visível, as mais das vezes honrosa, que traduz a força e o poder de que está investido seu portador. Para não multiplicar os exemplos, é bastante observar as “faixas” dos judocas, de cores variadas e significativas, os cinturões, em que se penduram as armas e os inumeráveis cintos votivos, iniciáticos e de aparato, mencionados pelas tradições e ritos de todas as culturas.

Na Bíblia, o cinto é símbolo de uma união estreita, de um vínculo permanente, no duplo sentido de união na bênção e de tenacidade na maldição:

Vestiu-se de maldição como de veste,
e ela penetrou como água nas suas entranhas,
e como azeite nos seus ossos.
Que ela seja para ele o vestido com que se cobre,
e como o cinto com que se cinge.

Os Judeus celebravam a Páscoa, consoante a ordem de Javé, com um cinto em torno dos rins, pois que o cinto é um elo precioso que une Javé a seu povo.

A composição simbólica do cinturão espelha a vocação de seu portador, configura a humildade ou o poder, designando sempre uma escolha e um exercício concreto dessa escolha. Quando Cristo diz a Pedro que, jovem, ele se cingia, mas um tempo viria em que outro o haveria de cingir (Jo 21,18), isto significa também que Pedro podia outrora escolher seu destino, mas que, depois, ele compreenderia o apelo da vocação:

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço,
cingias-te e ias aonde desejavas; mas quando fores velho,
estenderás as tuas mãos, outro te cingirá e te levará para onde tu não queres.

O cinto é igualmente apotropaico: protege contra os maus espíritos, como os “cinturões” de proteção em torno das cidades as defendem dos inimigos.

Para Auber, citado por Chevalier e Gheerbrant, “cingir os rins nas caminhadas ou em toda e qualquer ação viva e espontânea significava para os antigos uma prova de energia e, por conseguinte, de desprezo pela frouxidão e indolência; era ainda um sinal de continência nos hábitos e de pureza no coração (…). Para S. Gregório, cingir os rins era um símbolo de castidade”. É nesse sentido que, ligado à continência, pode-se interpretar o cinto de couro ou corda, usado em certas ordens e congregações religiosas. Mas o símbolo não pára por aí, pois que os rins, consoante a Bíblia, configuram também não só o poder e a força, mas igualmente a justiça, como diz Isaías 11,5:

A justiça será o cinto dos seus lombos e a fé o talabarte de seus rins.

Símbolo de ligar e religar, símbolo de humildade e submissão, símbolo do poder e da justiça, mas igualmente do “poder castrador”, símbolo da continência, o Cinturão de Hipólita passou do “poder castrador”, para o poder de continência: deixou de ser visado por uma Amazona, para guarnecer os rins de Admeta, sacerdotisa de Hera.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.3. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Amazonas

Head of a Wounded Amazon of the Capitol-Mattei type. Marble. Copy after original by Phidias. Head is a copy from Polyclitus' original. At Museus Capitolinos.

Amazona Ferida, cópia em mármore da obra de Fídias, Museus Capitolinos, Roma.

Ἀμαζών (Amadzón), Amazona, vocábulo usado mais comumente no plural Ἀμαζόνες (Amadzónes), Amazonas, sempre foi interpretado pela etimologia popular como formado por um ἀ- (a- privativo), não, e μαζός (madzós), seio, uma vez que essas guerreiras, dizia-se, amputavam o seio direito para melhor manejar o arco, deixando, as mais das vezes, o seio esquerdo descoberto. Fato, aliás, não confirmado pela iconografia, em que as Amazonas aparecem belas e de seios intactos. Ainda não se possui etimologia segurar para a palavra.  Uma das hipóteses propostas com bastante fundamento é de que Amadzónes proviria do nome de uma tribo iraniana ha-mazan, propriamente “guerreiro”.

As Amazonas eram filhas de Ares, o cruento deus da guerra, e da ninfa Harmonia. Fundaram, sob a inspiração do pai e da deusa Ártemis, um reino belicoso, composto quase que exclusivamente por mulheres, que habitavam os píncaros do Cáucaso ou a Trácia, o Ponto Euxino ou ainda a Cítia ou a Lídia. Os homens, que porventura existissem em seu território, eram empregados em trabalhos servis. Para perpetuar e ampliar a comunidade, mantinham relações sexuais apenas com adventícios. Os filhos homens eram emasculados, mutilados, cegados, e empregados, quando não eliminados, em serviços inferiores.

Há vários mitos que relatam duros combates travados por heróis contra as temíveis filhas de Ares. Uma das provas impostas por Iobates a Belerofonte foi a de combatê-las, empresa de que se saiu aliás muito bem, causando uma verdadeira devastação nas fileiras das comandadas pela rainha Hipólita.

O nono trabalho de Héracles, imposto por Euristeu, foi o de buscar o cinturão da rainha das amazonas. Tendo chegado ao porto de Temíscira, em cujo arredores residiam as guerreiras, a rainha concordou em entregar-lhe o cinto, mas a deusa Hera, disfarçada de amazona,  suscitou grave querela entre os companheiros do herói, entre os quais estava Teseu, e as habitantes de Temíscira. Pensando ter sido traído por Hipólita, Héracles a matou. Foi no decorrer dessa luta, relata uma variante, que Teseu, por seu valor e desempenho, recebeu do herói argivo, como recompensa, a amazona Antíope.

Riding Amazone. Side B of an Attic red-figure neck-amphora, ca. 420 BC.

Amazona cavalgando, lado B de uma ânfora ática (~420 a.C.), Staatliche Antikensammlungen, Munique.

Segundo outra versão, Héracles fez Melanipe de refém e exigiu da rainha Hipólita o seu cinturão, enquanto Teseu raptou Antíope e fez dela sua esposa. As amazonas invadiram Atenas para resgatar Antíope. A batalha decisiva foi travada nos sopés da Acrópole e, apesar da vantagem inicial, as guerreiras não resistiram e foram vencidas por Teseu. Antíope, por amor, pereceu lutando ao lado do marido contra suas próprias irmãs.

Existe ainda uma terceira variante. A invasão da Ática pelas amazonas não se deveu ao rapto de Antíope, mas ao abandono desta por Teseu, que a repudiara, para se casar com a irmã de Ariadne, Fedra. A própria Antíope comandara a expedição e tentara, à base da força, penetrar na sala do festim, no dia mesmo das novas núpcias do rei de Atenas. Como fora repelida e morta, as amazonas se retiraram. Conta-se ainda que estas, comandadas por sua então rainha Pentesileia, enviaram a Troia um contingente de guerreiras em auxílio dos troianos. Pentesileia, todavia, caiu sob os golpes de Aquiles e ficou tão bela na morte, que o herói se comoveu até as lágrimas. O deformado e contestador Tersites ridicularizou-lhe a ternura e ameaçou furar à ponta de lança os olhos da rainha. Aquiles, num acesso de raiva, matou-o a murros.

A deusa protetora das amazonas era naturalmente Ártemis, a arqueira virgem, com quem as filhas do deus da guerra têm muito em comum, não só por seu desdém pelos homens, mas sobretudo por sua vocação de guerreiras e caçadoras. A elas se atribuía, por isso mesmo, a fundação da cidade de Éfeso e a construção do templo gigantesco e riquíssimo consagrado à irmã de Apolo.

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860), National Gallery of Art, Washington D.C.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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XI. Os pomos das Hespérides

Hera disse a Euristeu que mandasse o herói trazer três maçãs de ouro, que ele deveria pegar da árvore que Gaia deu a ela como presente de casamento.  Hera estava certa de que Héracles jamais encontraria a macieira e que, caso a encontrasse, perderia a vida na mera tentativa de se aproximar da árvore, pois o imortal dragão Ládon era o guardião da mesma.

O herói teve que partir para seu trabalho seguinte sem ter a menor ideia de seu destino. Por mais que perguntasse, não conseguia obter nenhuma informação importante. Suas andanças sem rumo o levaram à Tessália, onde se defrontou com Cicno, o sanguinário filho de Ares, e depois com o próprio deus da guerra. Derrotou os dois em combate, matando Cicno e ferindo Ares, que caiu de joelhos uivando de dor.

Depois disso, Héracles continuou seu caminho, cruzando a Ilíria e a região norte da península Itálica, até chegar ao rio Pó. Ali, nas margens do rio, encontrou um grupo de ninfas e, como tantas vezes antes, perguntou se elas sabiam do paradeiro da macieira de Hera. Como esperado, elas não sabiam dizer onde achar a árvore, mas disseram-lhe que o único que conhecia o seu paradeiro era o grande vidente, um velho deus marinho, Nereu e que ele nunca revelaria a localização da mesma. Agora o problema de Héracles era arrancar o segredo de Nereu.

O herói despediu-se das ninfas do rio e partiu em busca de Nereu – não que ele tivesse esperança de obter alguma coisa, mas parecia não haver mais nada a fazer. Encontrou-o dormindo em sua caverna e aproveitou a oportunidade para amarrar o velho vidente, no começo com suavidade, para não acordá-lo, mas depois tão apertado que ele despertou de seu sono.

Nereu tentou levantar-se, mas não conseguiu mover-se nem um centímetro. Olhando para seu corpo, viu-se enrolado da cabeça aos pés. Então, perguntou o que estava acontecendo e que era aquele que ousara amarrar-lhe.

– Meu nome é Héracles, e quero que me diga onde está a árvore com os pomos de ouro, o presente que a Mãe Gaia deu à deusa Hera, quando esta se casou com Zeus.
– Isso eu nunca lhe direi!
– Então eu nunca o soltarei.

De fato, Nereu estava tão fortemente amarrado que não conseguia mover nem um músculo. Ele tentou escapar, mas foi impossível, e desamarrar a si mesmo estava fora de questão. Durante algum tempo, ficou sem dizer nada, enraivecido. Depois, começou a considerar sua situação. Perguntou novamente ao herói o que ele queria, obteve a mesma resposta e mais uma vez se negou a falar.

– Então fique aí amarrado! Eu vou bloquear a entrada de sua caverna com pedras e fechar você aí dentro!

Dizendo isso, o herói começou a rolar uma enorme pedra para a entrada da caverna. O que mais Nereu podia fazer? Ele não teve outra escolha senão falar.

– Você encontrará a árvore que procura no Jardim das Hespérides, nos confins do mundo, onde Atlas, irmão de Prometeu, sustenta a abóboda celeste sobre os ombros. Mas pegar os três pomos de outro é impossível, porque a macieira é guardada por Ládon, um horrendo dragão de cem cabeças. E você não conseguirá pegá-lo dormindo, como fez comigo, pois ele nunca adormece com suas cem cabeças ao mesmo tempo, só metade delas de cada vez. Assim, há sempre cinquenta cabeças bem erguidas e com olhos chamejantes bem abertos, vigiando para que nenhum estranho ponha os pés no jardim das Hespérides. Você não pode se aproximar sem ser percebido e, se o fizer, não sairá com vida, pois Ládon é incrivelmente forte e absolutamente invencível. Mesmo que os deuses lhe dessem o dobro da sua força atual, de nada adiantaria, pois Ládon é imortal.

Isso era tudo que Nereu tinha a dizer. Héracles desamarrou-o e saiu deprimido. Ficara sabendo onde estava a árvore, mas não sabia como pegar os pomos, se eram guardados por um monstro tão terrível. Que fazer? Pela primeira vez, não tinha vontade de seguir ao cumprimento do dever. Muito desanimado, deixou que seus passos o guiassem e, lá pelas tantas, viu-se no Cáucaso rochoso e agreste.

Vagando pelas montanhas, Héracles ouviu gemidos terríveis que vinham de longe. Parou a escutá-los atentamente. Não havia dúvida, alguém sofria a mais dolorosa tortura e precisava de ajuda. Depois, mais estranho ainda, o herói ouviu vozes femininas chamando seu nome.

Héracles correu na direção das vozes e subiu num pedra para ter uma visão melhor. Viu um grupo de mulheres com os braços estendidos para ele, pedindo sua ajuda. Então o herói reconheceu-as, eram as Oceânides: as filhas do Oceano, que tinha barba e cabelos prateados. Caminhou em direção a elas, mas dera poucos passos e algo terrível se colocou na sua frente: o titã Prometeu, o mais fiel amigo dos homens, suspenso por corrente pregadas numa rocha, experimentava torturas horrendas e infinitas: uma enorme água mergulhava do céu e, com seu cruel bico escancarado, arremetia-se contra o corpo de Prometeu.

O herói matou a águia e libertou o paciente titã de seus grilhões. Foi a ação mais nobre e bela de sua vida. Héracles contou ao titã para onde ia e o que devia fazer e prometeu preparou seu conselhos para o herói:

– Escute bem, Héracles. Sou vidente e sei todas as coisas. Como Nereu disse, o dragão que guarda os pomos não pode ser derrotado, ele é realmente imortal. Não tente, porque, se o fizer, perderá a vida. Mas se você for capaz de sustentar o céu sobre os ombros, coisa que só Atlas foi capaz de fazer até hoje, poderá ter os pomos. Segure o globo para Atlas e deixe que ele vá buscar os pomos por você. Ele não é estranho ao dragão e não sofrerá mal algum. Mas fique atento! Atlas é esperto – sei disso porque ele é meu irmão. Tome cuidado para que não o deixe suportando o céu para sempre!

O conselho de Prometeu devolveu o ímpeto ao herói. De ânimo recuperado, tomou o longo percurso – atravessar o mundo do leste para oeste. Como de costume, muitos perigos o esperavam no caminho. Em certo lugar do Egito, quando, exausto, deitara-se sob uma árvore, foi surpreendido por soldados que o amarraram e o levaram até seu rei, Busíris.

Depois de inspecionar o herói da cabeça aos pés, Busíris ordenou que o amarrassem com mais força, pois amanhã ele seria sacrificado no altar de Zeus Amon.

Nove anos antes, uma grande desgraça se abatera sobre o Egito. O solo não dava mais colheitas, e uma fome medonha ameaçava matar as pessoas. Vindo de Chipre, chegou um vidente chamado Frásio que disse que para se livrarem daquela praga deveriam sacrificar anualmente um forasteiro a Zeus Amon. Assim, o pobre vidente foi o primeiro a ser sacrificado.

No dia seguinte, os ritos sacrificiais foram feitos. Héracles, cheio de raiva, se livrou das cordas e golpeou primeiro o sacerdote, depois Busíris e, por fim, seu filho. Os três caíram mortos. Todos ficaram aterrorizados com a força do herói e ninguém ousou enfrentá-lo.

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Livre outra vez, Héracles rumou para oeste, em direção às regiões onde o Sol se põe todas as noites. Ao atravessar a Líbia, ele encontrou um gigante vigoroso cujo nome era Anteu. Era incrivelmente forte e obrigava todos os forasteiros a lutar com ele até a morte. Filho de Gaia, era ajudado por ela durante as batalhas. Quanto mais o corpo de Anteu tocava a Terra, mais ela renovava seus poderes; assim nunca ficava cansado e o resultado era que nunca perdia uma luta.

Héracles foi desafiado. Sem saber que Anteu tirava sua força da Mãe Gaia, lutou bravamente com ele durante muito tempo, mas em vão. Vezes e mais vezes o herói lançou-o contra o chão, e ficava cada vez pior, pois o gigante punha-se de pé num salto. Héracles estava intrigado com isso: como era o gigante capaz daquelas súbitas explosões de força quando, um momento antes, tinha estado perto ser derrotado, rastejando na poeira? Então o herói se lembrou de que seu oponente era filho de Gaia. Agarrou o gigante, levantou-o bem alto no ar e não o deixou tocar na terra. Na luta desesperada para escapar, todas as suas forças se esgotaram, e o medonho gigante encontrou seu destino.

Depois de vencer Anteu, Héracles retomou seu rumo ao oeste, até os limites mais afastados do mundo. Lá, durante era incontáveis, o titã Atlas suportava o peso esmagador do céu. Suas únicas companheiras eram as Hespérides, filhas de Héspero e de Nix. Ali perto, em seu jardim, estava a árvore de Hera com os pomos de ouro.

11th-laborO herói se encontrou com Atlas e disse a que vinha. Então Héracles se ofereceu para suster o céu no lugar do titã enquanto o mesmo buscava os três pomos. Atlas sentiu que o peso saía de cima dele e ficou livre. Pela primeira vez em incontáveis eras, Atlas podia respirar livremente. Sentindo-se leve como um pássaro, disparou para o jardim das Hespérides, pisando no ar. Em pouco tempo estava de volta com as três maçãs de ouro, que brilhavam ao sol.  Mas não estava com pressa para retornar a seu posto. Tinha outro plano em mente…

– Ouça, Héracles – disse ele. – Por que eu mesmo não levo os pomo para Euristeu? Isso não vai tomar muito tempo e, assim que eu voltar, o aliviarei de sua carga.

Sem esperar a resposta, virou-se para partir. Héracles lembrou-se imediatamente do aviso de Prometeu e compreendeu que, se não encontrasse um modo de passar a tarefa de volta a Atlas e pegar seus pomo, ficaria ali para sempre, sustentando o céu. E assim disse ele:

– Leve os pomos, de qualquer modo. Eu até gosto de segurar este peso, mas não quero machucar os meus ombros. Você se incomodaria em segurar o céu por um momento enquanto eu ponho uma almofada sobre eles?

Sem desconfiar de nada, Atlas pôs os pomos no chão e levando a abóboda celeste, colocando-o de volta sobre os ombros. Héracles pegou os pomos e prosseguiu em seu caminho, deixando Atlas com sua eterna carga.

Satisfeito por ter, finalmente, os pomos de ouro das Hespérides em suas mãos com segurança, o herói pegou o caminho de volta para a Grécia. Embora a viagem de retorno fosse longa, ela pareceu passar rápido como um raio.

O herói entrou no palácio sem esperar ser convidado. Carregando os frutos de ouro, apresentou-se ao rei. Euristeu ficou estupefato e colérico.

– Eu sei que você não quer estes pomos – disse o herói. Você esperava outra coisa, como em todas as outras vezes. Eu só quero saber qual é a tarefa seguinte que maquinou para mim.

– Vou mandá-lo para o reino das profundezas, de onde ninguém jamais volta. É para lá que você vai!

11th labor of Hercules - The-apples of Hesperides, by Pierre Salsiccia

O pomo das Hespérides, por Pierre Salsiccia

 Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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IX. O cinto de Hipólita

Em Micenas, uma nova ordem aguardava o herói: ele devia trazer o cinto de Hipólita, rainha das amazonas. Mais uma vez, tratava-se de uma ideia de Hera.

A deusa estava mais irritada que Euristeu por ver que Héracles lograva êxito em todos os trabalhos que lhe imputava. Alguma coisa mais difícil tinha de ser encontrada. Foi por isso que ela pensou nas amazonas, e o cinto de Hipólita lhe veio à mente. Hera se lembrou de que Admete, a filha do rei, era sacerdotisa de seu templo. Assim, podia facilmente incutir na moça o desejo de possuir o cinto da rainha das amazonas. Na primeira vez que a princesa foi ao templo de Hera em Argos, a deusa apareceu diante dela e disse:

– Admete, filha de Euristeu, existe um cinto mágico que é usado por Hipólita, a famosa rainha das amazonas. Ela o ganhou de Ares, rei da guerra, e ele é o símbolo da autoridade e do poder. Você mesma poderia usá-lo, se pedisse a seu pai que mandasse Héracles buscá-lo.

Admete ficou encantada com a ideia de ter aquele cinto, e Euristeu ficou mais encantado ainda quando a filha pediu-lhe aquele favor. Sem perder um minuto, ele chamou Copreu e transmitiu sua ordem.

Quando Héracles recebeu a ordem de executar essa tarefa, soube quão difícil seria. Novamente decidiu fazer a viagem por mar, com um grupo de bravos companheiros, e uma vez mais famosos heróis da Grécia mostraram-se dispostos a arriscar suas vidas ao lado de Héracles. Entre eles estava Teseu, o grande herói de Atenas, Iolau, sobrinho de Héracles, o valente jovem Télamon de Salamina e Peleu, que mais tarde se tornaria pai de Aquiles.

 Seu navio a vela pôs-se ao mar com um vento bom e fez sua primeira escala na ilha de Paros, onde eles também enfrentariam o primeiro perigo.

Naquela ocasião, o rei da ilha, que fica nas Cíclades, era um certo Alceu e, no dia em que o navio de Héracles aportou, os três filhos do rei Minos estavam lá como seus hóspedes, homens orgulhosos, rudes e nada hospitaleiros. Como não havia mais água a bordo, Héracles enviou dois de seus companheiros à terra para encher os potes. Lá, a despeito das leis sagradas que protegiam os estrangeiros carentes de alimentos ou água, foram atacados e mortos traiçoeiramente pelos filhos de Minos.

Héracles testemunhou a cena do convés e, numa explosão de ira e indignação, saltou para a terra, seguido pelos companheiros. Os filhos de Minos pagaram pelo crime com suas vidas, mas a luta logo se transformou  numa batalha com os habitantes da ilha, que foram obrigados a recuar. Quando os habitantes de Paros perceberam que tinham começado uma guerra contra o poderoso Héracles, logo admitiram o erro. Dois arautos subiram nas muralhas e tocaram as trombetas indicando que queriam falar. Depois, um deles disse bem alto:

– Héracles, filho de Anfítrion, nosso rei Alceu não desejou esta guerra. Ele ficou muito sentido quando soube que havia eclodido um conflito entre nós e que os filhos de Minos tinham matado seus dois homens. Propõe agora que você escolha dois habitantes da ilha, os mais valentes que encontrar, e leve-os com você em sua expedição.

A resposta de Héracles surpreendeu a todos:

– Escolho o rei Alceu e seu irmão Estênelo. Esses dois são, eu creio, os homens mais corajosos dentre vocês.

Um silêncio sepulcral seguiu-se a essas palavras. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Mas logo o grande portão do castelo se abriu e Alceu e Estênelo saíram num passo decidido, postando-se atenciosamente diante de Héracles. Em vez de ordens, o herói abraçou os dois, companheiros jovens e valentes tomavam o lugar dos que haviam morrido e logo o navio largou velas para a terra das amazonas.

Viajando para o norte, passaram pelo Helesponto e pelo Bósforo e saíram no mar Negro. Seguindo a costa da Ásia Menos, aportaram em Mísia, onde o rei Lico os recebeu calorosamente. Um banquete foi oferecido no grande salão do palácio. Eles comiam e bebiam, fazendo brindes uns aos outros, quando um soldado esbaforido entrou no salão e informou ao rei que os bébrices haviam invadido o país. Todo os companheiro puseram-se de pé. Lico olhou consternado para seus nobres, que tinham ficado pálidos. Todos entraram em pânico, mas Héracles interrompeu os gritos de desespero, encorajou-os e preparou-se para lutar junto deles.

Héracles e seus companheiros foram para fora do palácio, de encontro ao inimigo. Logo estavam no meio da batalha. Com seu aparecimento, os eventos tomaram outro rumo. O vigor do ataque dos heróis espalhou o pânico entre os bébrices e reanimou a coragem dos homens de Lico. O inimigo foi derrotado, seu rei morto, e uma grande parte do país foi cedido a Mísia. Em gratidão, Lico chamou a região de Heracleia. Chegando o momento de retornarem a missão, Lico deu aos corajosos aventureiros tantas provisões quantas couberam em seu navio, e uma grande multidão se postou no porto, oferecendo-lhes uma despedida digna de deuses.

O navio de Héracles zarpou e, depois de longa jornada, chegou à foz do rio Térmodon. Logo que o adentraram, os heróis avistaram Temíscira, capital das amazonas. Héracles inclinou-se sobre a cana do leme e estudou a cidade, enquanto o navio chegava mais perto. Ele tinha ouvido muitas histórias sobre as amazonas.


Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Sobre as amazonas:
Dizia-se que a primeira delas era filha do deus da guerra, Ares. Elas herdaram suas habilidades marciais e ensinaram-nas a seus filhos, ou melhor, filhas. Porque elas deixavam seus filhos do sexo masculino exclusivamente para as tarefas domésticas, enquanto usavam o seu tempo para aprender a lutar com a espada, lança e arco, montadas em cavalos velozes. Tornaram-se famosas em todo o mundo. Nenhum exército lhes podia resistir. Fizeram expedições em toda a Ásia Menor e no Cáucaso. Aventuraram-se pelo sul, chegando até a Síria e, pelo oeste, chegaram à Trácia e às ilhas do mar Egeu. Diz-se até que atingiram a Líbia. Os habitantes de muitas cidades, dentre as quais Éfeso, Esmirna, Cirene, Mirina e Sinope, proclamam com orgulho que suas cidades foram fundadas pelas amazonas. Naquela ocasião, essas mulheres belicosas viviam na região que circundava o rio Térmodon. Estavam distribuídas em três tribos e tinham três cidades, sendo Temíscira sua capital, governada por Hipólita. As outras duas eram governadas por Melanipe e Antíope.


O navio de Héracles já margeava as terras onde uma multidão de amazonas se formara. Talvez fosse a mera curiosidade que as levara até lá, talvez fosse um pressentimento…

Aquela expedição desde o começo não agradava Héracles. Ele não desejava guerrear contras as amazonas para arrebatar-lhes algo que lhes pertencia legitimamente, ou melhor, à sua rainha.

O navio ancorou. Héracles foi o primeiro a chegar em terra firme. Hipólita estava no meio da multidão, e o herói distinguiu-a de pronto. Ela também sabia quem era o austero forasteiro que saíra do navio resolutamente, porque as peripécias de Héracles tinham tornado seu nome famoso em todo o mundo. Para mostrar sua grande consideração por ele, Hipólita desceu de seu cavalo, saudando o herói.

Quando Héracles viu a rainha de perto, ficou atônito pois a pele de Hipólita, queimada pelo sol, tinha um tom de bronze intenso, e suas pernas e braços eram musculosos. Era difícil encontrar até mesmo homens de uma estrutura forte como aquela! Todas as amazonas também se mostravam robustas. Os companheiros do herói ficaram de olhos arregalados, estarrecidos.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão e Herácles explicou a que vinha. Hipólita ficou espantada quando ouviu toda a história. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Todos aguardavam a réplica da rainha. Por fim, Hipólita concordou em entregar o cinto para que o herói levasse a Euristeu.

Nesse momento Hera impediu que Hipólita renunciasse a seu cinto. Ela se transformou numa amazona e, justamente quando a rainha estendia o cinto para Héracles, gritou: “Não devemos entregar o cinto. Este homem veio para levar nossa rainha e deve morrer!”.

Hipólita puxou sua mão para trás, enquanto gritos de guerra explodiam entre as amazonas. A luta foi inevitável, pois as amazonas começaram a atacar o herói e seus companheiros.

Enfrentadas pelos heróis unidos, aquelas mulheres beligerantes finalmente experimentaram a derrota e tombaram. Mas não antes que Héracles fizesse Melanipe sua prisioneira e Antíope fosse capturada por Teseu. Vencidas, afinal, as amazonas imploraram paz. Hipólita adiantou-se para falar com Héracles, mas estava tão arrasada que não conseguiu dizer nenhuma palavra. Então o herói impôs seus termos:

– Você me dará seu cinto e Melanipe será solta. Isso eu garanto porque ela é prisioneira só minha. Quanto a Antíope, foi Teseu que a capturou e não tenho direito de ordenar sua libertação. Ele a levará para Atenas.

Hipólita aceitou, Héracles pegou o cinto, Melanipe foi solta e Antíope foi levada pelo herói ateniense.

Os sobreviventes subiram a bordo e tomaram o longo percurso de volta. Herácles e os outros camaradas içaram velas rumo a Micenas. Quando chegaram ao porto, os outros heróis se despediram e cada um se dirigiu para a sua terra natal; ao passo que Héracles, com o cinto nas mãos, seguiu para o palácio de Euristeu.

Apesar do medíocre rei ter proibido os herói de aparecer em sua presença, Héracles entrou sem que ninguém o impedisse. Marchou diretamente para o grande salão, abriu sozinho o portão duplo e entrou, levando o cinto de Hipólita. A primeira pessoa que pôs os olhos nele foi Admete e, quando viu o que o herói tinha nas mãos, deixou exclamar-se a agradável surpresa que a tomara. O rei Euristeu voltou-se para saber a razão da alegria da filha e quase desfaleceu. O nono trabalho estava cumprido.

9th labor of Hercules - the belt of hippolyte by Pierre Salsiccia

O cinto de Hipólita, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Pensamentos Flutuantes

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