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Eros

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_A_Young_Girl_Defending_Herself_Against_Eros_(1880)

Jovem defendendo-se de Eros (1880), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἒρως (Éros), Eros, do verbo ἒρασθαι (érasthai), estar inflamado de amor, significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.C. ao século VI d.C.

Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Gaia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um daimon, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens e, como o deus do Amor está a meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se, assim, o elo que une o Todo a si mesmo. Foi contra a tendência generalizada de considerar Eros como um grande deus que o filósofo da Academia lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (Expediente) e de Penía (Pobreza), no Jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e “carência”, sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, “a plenitude”. Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ἐνέργεια (enérgueia), uma “energia”, perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca do objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam ser o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite vulgar, da Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Ártemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência dos poetas, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sob a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incompatível com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

Uma das Odes atribuídas ao grande poeta lírico grego do século VI a.C, Anacreonte, nos dá um retrato de corpo inteiro desse incendiário de corações. Vamos transcrevê-la, para que se tenha uma ideia da concepção sobretudo alexandrina de Eros:

Winged youth (Eros) flying to an altar. Side A of a Lucanian red-figure nestoris, terracotta, ~350-325BC, at Metropolitan Museum of Art

Eros alado, terracota em figtura vermelha (ca 350-325 a.C.), Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta.
“Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?”
Respondeu Eros: “Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua”.
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
“Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo”.
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão.
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro, acrescentou, alegra-te,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido”.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina na consciência, onde poderá tornar-se uma força espiritual de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades. Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontra-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sido total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação.

Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo.

Relativamente a TânatosHipno, Eros é acentuadamente mágico e o mais flexível dos três, com um papel mais definido na cosmogonia e fertilidade. Tem, por sua própria natureza, uma capacidade bem maior de cooperar com os mortais dia e noite nas conquistas e no amor. Promotor de uniões e despedidas, recebido sempre com mais simpatia que Hipno e Tânatos, possui um público muito mais entusiasta na poesia e na arte. Nos poemas homéricos, ainda não antropomorfizado, o substantivo Eros compartilha efetivamente os poderes das duas divindades anteriores: derrama uma caligem sobre a cabeça dos homens, apodera-se dos corações, como fez com Páris em relação a Helena; relaxa os membros, domina as criaturas humanas como se fossem corcéis, convertendo-se num déspota e é difícil combatê-lo, quanto mais vencê-lo.

Era companheiro e solidário a Hipno, mas por vezes se tornava inimigo do mesmo. Quando o Sono atrai ou Eros, este pode desencadear aparições de pessoas amadas ou um sono agitado com riscos e despedidas. A mente pode viajar para longe, perturba-se a identidade e a psiqué se afasta para além dos limites da experiência em vigília. Portador, como Hermes, de uma varinha mágica para seguir as pistas de Hipno, tem o poder de encantar, fechando ou despertando os olhos adormecidos dos mortais. Se a θέλξις (thélksis), o encantamento, é um elemento perigoso na magia e no encanto, Eros com frequência se identifica como cantor e músico. É o Eros da lira, capaz de transtornar inteligência e coração. Apresenta-se igualmente como depredador que captura veados e lebres.  Era o caçador clássico com o arco, ἀμήϰανος (amékhanos), difícil de combater, ἀνίκατος μάϰαν (aníkatos mákhan), invencível numa batalha, como se expressa Sófocles na Antígona sublinhando a antiga associação entre τόξα (tóksa) “as armas” e τοξικόν (toksikón), “a flecha envenenada”.

erosExiste, no entanto, um Eros bem mais arcaico, adolescente musculoso, de asas poderosas, um convite falaz para o sexo. Participa, como tal, de um grupo tradicional de violadores alados, que transportam suas vítimas à força para locais inacessíveis, como Bóreas, o vento do norte, Hipno, Tânatos, as Harpias, a Esfinge. É o Eros de que nos fala o poema Íbico (séc. VI a.C.), um Eros atrevido e sombrio, que se manifesta entre relâmpagos e loucuras desenfreadas, como o vento do norte flamejante com seus raios, o qual enlouquece nossas mentes da cabeça aos pés.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Urano

UranusΟὐρανός (Uranós), Urano, “abóboda do céu, céu, firmamento”. A antiga etimologia que aproximava Uranós de Varuna foi descartada. O Varuna é, no panteão hindu, o patrono da realeza. É a personificação do Céu, enquanto elemento fecundador de Gaia.

Filho de Gaia na Teogonia de Hesíodo e, em outros poemas, de Éter e certamente de Hemera, o dia, na teogonia órfica Urano e Gaia são filhos de Nix, a noite.

Urano (Céu) era concebido como um hemisfério, a abóbada celeste, que cobria Gaia, a Terra, concebida como esférica, mas achatada: entre ambos se interpunham o Éter e o AR e, nas profundezas de Gaia, localizava-se o Tártaro, bem abaixo do próprio Hades. Mais adiante se falará da mutilação de Urano por Crono.

Do ponto de vista simbólico, o deus do Céu traduz uma proliferação criadora desmedida e indiferenciada, cuja abundância acaba por destruir o que foi gerado. Urano caracteriza assim a fase inicial de qualquer ação, com alternância de exaltação e depressão, de impulso e queda, de vida e morte dos projetos.

Deus celeste indo-europeu, símbolo da fecundidade, o deus do Céu é representado pelo touro. Sua fertilidade, todavia, é perigosa, além de inútil. A mutilação de Urano por Crono põe cobro a uma odiosa e estéril fecundidade e faz surgir Afrodite, nascida do esperma ensanguentado do deus, a qual introduz no mundo a ordem e a fixação das espécies, impossibilitando qualquer procriação desordenada e nociva. As três fases da evolução criadora seria, a saber: Urano (sem equivalente no mito latino) é a efervescência caótica e indiferenciada, chamada cosmogenia; Crono (Saturno) é o podador, corta e separa. Com um golpe de foice ceifa os órgãos de seu pai, pondo fim a secreções indefinidas. Ele é o tempo da paralisação. É o regulador que bloqueia qualquer criação no universo. É o tempo simétrico, o tempo da identidade. Sua fase denomina-se esquizogenia. O reino de Zeus (Júpiter) se caracteriza por uma nova partida, organizada e ordenada e não mais caótica e anárquica: esta chamada de autogenia. Após a descontinuidade, a criação e a evolução retomam seu caminho.

Urano unido em amor com a deusa-mãe Terra teve os seis Titãs, as seis Titânides, os três ciclopes e os três hecatônquiros.

Gaia e Urano

Gaia e Urano. Obra exposta na seção Cosmogonias e Cosmologia do Espaço do Conhecimento UFMG, Praça da Liberdade.

Tão logo nasciam os filhos, porém, Urano devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia, já curvada com tanto peso ou sentindo-se esgotada com o abraço sem tréguas do esposo, pediu aos filhos que a libertassem da opressão e da fecundidade inesgotável do marido. Todos se recusaram, exceto Crono, o caçula dos titãs. Gaia entregou-lhe uma foice (instrumento sagrado que cortas as sementes, e semente em grego é spérma, “esperma”) e quando o céu, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento do deus caiu sobre a Terra, concebendo esta, no tempo devido, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite.

Com a façanha de Crono, Urano separou-se de Gaia e, impotente, tornou-se um deus ocioso.

Uma interpretação inteiramente diferente do mito do deus do céu foi conservada por Diodoro Sículo (séc. I d.C.). Urano teria sido o primeiro rei dos atlantes, povo justo e respeitador dos deuses, cujo habitat seriam as margens do Oceano. O “deus” os civilizou e iniciou nas artes. Hábil astrônomo, Urano inventou o primeiro calendário, segundo os movimentos dos astros, prevendo o destarte os principais acontecimento que deveriam ocorrer no mundo. Ao morrer, foram-lhe concedidas honras divinas e acabou por ser identificado como o próprio céu. Na versão de Diodoro, Urano foi pai de quarenta e cinco filhos, sendo dezoito de titãs (que mais tarde se chamou Gaia). A ela devem os filhos genéricos de titãs. As filhas do civilizador dos atlantes chamavam-se Basileia (a rainha), mais tarde cognominada Cibele, e Reia, denominada Pandora. Basileia, que era de grande beleza, sucedeu ao pai no trono, e, unindo-se a seu irmão Hipérion, foi mãe de Hélio (Sol) e Selene (Lua). Como filhos de Urano, ainda são mencionados por Diodoro, Crono e Atlas.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Helena

Έλένη (Heléne), Helena, proveio da raiz indo-europeia suel “brilhar”, como se poderia ver pelo grego σέλας (sélas), “brilho, luz”. Helena teria sido, a princípio, “uma deusa luminosa”, irmã dos Dióscuros Castor e Pólux, acompanhantes de Aurora, tendo-se convertido depois numa deusa da vegetação. Há os que tentam explicar Έλένη (Heléne) com o forma latina uenenum, cujo sentido primeiro é “filtro”. Pretendeu-se ainda ligar-lhe o nome a ἑλενίον (helénion), planta que a filha de Zeus manipulava como anestésico. Contudo, esta são apenas especulações, não se conhece a etimologia do no Helena.

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510)

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510).

Na epopeia Homérica Helena é filha de Zeus e de Leda, tendo por pai “humano” a Tíndaro, por irmãos os Dióscuros Castor e Pólux e por irmã a Clitemnestra. Segundo os Cantos Cíprios Zeus apaixonara-se por Nêmesis. Esta, para fugir-lhe à perseguição, percorreu terras, mares e céus, assumindo todas as formas possíveis, inclusive a de peixe. Já cansada, metamorfoseou-se em gansa. Zeus transformando-se em cisne, uniu-se a ela. Por força dessa conjunção sagrada, Nêmesis pôs um ovo, que, encontrado por um pastor, foi entregue a Leda. A esposa de Tíndaro o guardou num cesto e um tempo depois nasceu Helena.

A tradição que faz de Leda mãe de Helena, metamorfoseada também em gansa, acrescenta que Zeus,igualmente sob a forma de cisne, fê-la pôr um ovo, do qual nasceu Helena. Segundo outra versão, foram dois ovos (um formado pelo sêmen de Tíndaro e outro pelo de Zeus), nascendo, em consequência, do primeiro Castor e Clitemnestra, mortais; do segundo, Pólux e Helena, imortais. Mitógrafos de épocas mais tardias fazem-na filha de Oceano ou ainda de Afrodite e dão-lhe por irmãs, além de Clitemnestra, a Timandra e Filônoe.

Helena não foi raptada apenas uma vez, mas duas. O mito da esposa de Menelau é deveras confuso e complexo. Inúmeras variantes posteriores a Homero parecem encobrir o sentido primitivo do mitologema. Pois bem, essa personagem mítica especial, Helena, foi raptada, uma primeira vez, pelo herói ateniense Teseu, que a conduziu a Afidna, na Ática, e a confiou à sua mãe Etra. Mas quando Teseu e seu amigo inseparável, Pirítoo, desceram ao Hades para raptar Perséfone, deusa essencialmente da vegetação, os Dioscuros atacaram Afidna, levando de volta sua irmã e como cativa a mãe de Teseu, Etra, que, como já se viu, foi conduzida para Tróia por Helena, quando de seu segundo rapto por Páris.

Ora, todos os fatos acima narrados acerca do nascimento da rainha de Esparta, sempre tendo, de um lado, por pai um deus da fecundação e por matriz um ovo, e, de outro, as fugas constantes de “suas mães”, Nêmesis e Leda e “seus raptos” por Teseu e Páris, parecem levar a uma só conclusão: Helena teria sido primitivamente uma deusa ctônia e, por conseguinte, uma deusa da vegetação, uma guardiã dos ovos, das sementes depositadas no seio da terra. Como tal, uma vítima destinada ao rapto. Com o tempo, “a deusa Helena”, suplantada por outras divindades da vegetação mais importantes, teria caído no esquecimento e passado à classe das heroínas, fato comum e bem atestado na mitologia.

Voltando ao primeiro rapto de Helena. Com a morte de sua segunda esposa Fedra, Teseu associou-se a Pirítoo, igualmente viúvo de Hipodâmia. Os dois heróis, filhos respectivamente de Posídon e Zeus, resolveram que só se casariam dali em diante com filhas do pai dos deuses e dos homens e, para tanto, decidiram raptar Perséfone, esposa de Plutão, e Helena. Dirigiram-se primeiramente à Esparta, quando então se apoderaram à força da menina, Castor e Pólux, saíram-lhes ao encalço, mas detiveram-se em Tegeia. Uma vez em segurança, Teseu e Pirítoo tiraram a sorte para ver que ficaria com a princesa espartana, comprometendo-se o vencedor ajudar no rapto de Perséfone. A sorte favoreceu o herói ateniense, mas como Helena fosse ainda impúbere, Teseu a levou secretamente para Afidna, demo da Ática, e colocou-a sob proteção e guarde de sua mãe Etra. Isso feito, desceram ao Hades para conquistar Perséfone.

Durante a prolongada ausência do rei ateniense, Castor e Pólux invadiram a Ática e souberam por um certo Academo onde a irmã havia sido escondida. Imediatamente os dois herói de Esparta marcharam contra Afidna, recuperaram a jovem princesa e levaram Etra, mãe de Teseu, como escrava.

Algumas tradições, certamente tardias, insistem que Helena, já era inúbil e teve com Teseu uma filha chamada Ifigênia. Como quer que seja, tão logo retornou a Esparta, Tíndaro acho melhor dá-la em casamento. A “mais bela das mulheres” foi logo cercada por um verdadeiro enxame de pretendentes. Os mitógrafos conservaram-lhes os nomes e seu número varia de vinte a noventa e novo. Dos mais famosos heróis da Hélade só não consta, por óbvio, Aquiles, que é afinal, como se mostrou em Helena, o eterno infinito, o outro lado de Helena. Tíndaro, não sabendo como proceder, ouviu o conselho do solerte Ulisses, exigindo dos pretendentes dois juramentos: que respeitassem a decisão de Helena na escolha do noivo e que socorresse o eleito, se este fosse atacado ou sofresse afronta grave.

Este juramento será invocado por Menelau algum tempo depois e obrigará todos os grandes heróis gregos a participarem da Guerra de Troia.

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816)

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816).

Tíndaro, para compensar o conselho salutar de Ulisses, conseguiu-lhe junto ao irmão Icário a mão de Penélope, prima, por conseguinte, de seus filhos Castor e Pólux, Helena e Clitemnestra.

Helena escolheu Menelau e dessa união nasceu logo uma menina, Hermione, mas os mitógrafos acrescentam que Helena deu à luz também à um menino, Nicóstrato, após ter o casal retornado de Troia. Uma variante dá à criança o nome de Megapentes, que teria nascido, com pleno assentimento de Helena, da união de Menelau com uma escrava, a fim de que o reino de Esparta tivesse um sucessor e o culto familiar não fosse interrompido.

Sendo a rainha espartana a mulher mais bela do mundo, Afrodite, para ganhar o pomo da discórdia, que lhe outorgava o título de “a mais bela entre as deusas”, prometeu-a a Páris. Foi assim que Páris e Eneias, guiados pela bússola de Afrodite, vão ter ao Peloponeso, onde os tindáridas (dióscuros) Castor e Pólux os acolhem com todas as honras devidas.  Após alguns dias em Amiclas, foram conduzidos a Esparta. O rei Menelau os recebeu segundo as normas da sagrada hospitalidade e lhes apresentou Helena. Dias depois, tendo sido chamado, às pressas, à ilha de Creta, para assistir aos funerais de seu padrasto Catreu, deixou os príncipes troianos entregues à solicitude de Helena.

The Love of Helen and Paris, by Jacques-Louis David (1788), Louvre

O amor de Helena e Páris, por Jacques-Louis David (1788), Museu do Louvre.

Bem mais rápido do que se esperava, a rainha cedeu aos reclamos de Alexandre: era jovem, formoso, cercava-o o fausto oriental e tinha a indispensável ajuda de Afrodite. Apaixonada, a vítima da deusa do amor reuniu todos os tesouros que pôde e fugiu com o amante, levando vários escravos, inclusive a cativa Etra, mãe de Teseu, a qual fora feita prisioneira pelos Dioscuros, quando do resgate de Helena, raptada por Teseu e Pirítoo. Em Esparta, porém, ficou Hermione, que então contava apenas nove anos.

Recebendo de Íris, a mensageira dos imortais, a notícia de tão grande desgraça, voltou o rei apressadamente a Esparta. Por duas vezes, sem desprezar a companhia do sagaz Ulisses, Menelau visitou em embaixada a fortaleza de Troia, buscando resolver pacificamente o grave problema. Por isso mesmo, apenas pleiteou Helena, os tesouros e os escravos levados pelo casal. Páris, além de se recusar a entregar a amante e os tesouros, tentou secretamente convencer os troianos a matarem o rei de Esparta. Com a negatividade de Alexandre e a traição de Menelau, a luta se tornou inevitável: era a guerra, planejada por Zeus a conselho de Têmis-Momo, pelo equilíbrio demográfico da terra, uma carnificina para purgar tantas e tantas misérias dos homens, uma catástrofe em que tantos pereceriam “por causa de Helena”.

Embora a maioria dos autores concorde em que rainha espartana seguiu espontaneamente o príncipe troiano, porque se apaixonara por ele, outro julgam que ela foi levada à força ou que Afrodite travestira Páris de Menelau, para facilitar-lhe o rapto.

Acerca da viagem do casal de amantes para a Tróada, as tradições variam muito. A versão mais antiga e certamente a mais singela narra que a nau de Alexandre chegou a seu destino em três dias. Uma variante, no entanto, dá conta de que uma tempestade, desencadeada por Hera, protetora dos amores legítimos e inimiga de Afrodite, por causa da escolha de Páris no célebre concurso de beleza, lançou o barco troiano nas costas da Fenícia ou, mais precisamente, em Sídon. Apesar da fidalga acolhida que lhe foi dada, Páris, usando de astúcia, saqueou o palácio real e fugiu com seus companheiros. Perseguido pelos fenícios, vence-os em sangrenta batalha e navegou em direção à pátria. Uma outra versão relata que, temendo ser seguido por Menelau, o herói troiano fez demoradas escalas a Fenícia e na ilha de Chipre e, que só quando se certificou de que não estava sendo perseguido, se fez novamente no mar. Uma tradição meio estranha e narrada minuciosamente em Helena, o eterno infinito, conta que a deusa Hera, magoada e irritada com ter sido Helena preterida por Afrodite no concurso de beleza arbitrado por Páris, resolveu arrancar Helena dos braços do raptor. Confeccionou em nuvens um eídolon da esposa de Menelau e mandou que Hermes conduzisse para a corte do rei Proteu, no Egito, a verdadeira Helena.

Heródoto (Histórias, 2, 113-115) racionaliza a tradição e, em resumo, diz o seguinte: Páris, tendo raptado Helena, navegou célere em direção a Troia, mas os ventos contrários fizeram-no aportar no Egito. Acusado por seus próprios servidores de haver injuriado Menelau, raptando-lhe a esposa e muitos tesouros, o rei Proteu reteve Helena no Egito, para devolvê-la posteriormente a seu legítimo consorte. A Páris foram concedidos três dias para que deixasse o país, sob pena de ser considerado inimigo. Desse modo, Alexandre chegou sozinho em Ílion e fez-se uma guerra de dez anos, com seu cortejo de morte e destruição, por uma mulher que jamais pisaram em Troia.

Todas essas digressões míticas têm por objetivo inocentar a princesa espartana e mostra que ela foi vítima e instrumento de um destino que lhe ultrapassava a vontade. Tais relatos remontam claramente à tão destacada “palinódia” de Estesícoro. Com efeito, o poeta Estesícoro (séc. VII-VI a.C.), tendo injuriado Helena, em uma poema homônimo, ficara cego. Mas um certo Leônimo de Crotona, no sul da Itália, tento visitado a Ilha Branca, no Ponto Euxino, onde Helena vivia feliz ao lado de Aquiles, ouviu vozes estranhas. Essa lhe ordenavam navegar até Hímera, na Sicília, cidade do “poeta caluniador” e dizer-lhe que a cegueira se devia à cólera de Hera e que sua cura dependia de uma retratação. O poeta, de imediato, compôs uma palinódia, afirmando que Páris levara para Troia apenas um eídolon, um espectro, de Helena e não a verdadeira esposa de Menelau, e recuperou imediatamente a visão.

Nos poemas homéricos, todavia, a rainha de Esparta viveu realmente em Troia como esposa de Alexandre e depois de Deífobo, enquanto durou a guerra. Era condenada por quase todos, menos por Príamo e Heitor, que viam na amante de Páris uma vítima de Afrodite. Os outros membros da família real e o povo, entretanto, detestavam-na, julgando-a culpada pela catástrofe que ameaçava Ílion.

Often she would stand upon the walls of Troy, por Walter Crane

“Muitas vezes ela ficava em cima das muralhas de Troia”, por Walter Crane.

Os troianos estavam cobertos de razão quando desconfiavam da fidelidade da bela espartana à causa de Ílion. Se no canto terceiro Helena aparece as muralhas de Troia, e a pedido de Príamo aponta os heróis aqueus, nomeando a cada um e a saudade da pátria provoca-lhe as lágrimas, bem mais tarde ela se aproxima do cavalo de madeira e imita as vozes das esposas dos guerreiros que se encontravam no bojo da máquina fatal. O objetivo era incentivá-lo e encorajá-los para que destruíssem o mais depressa possível a cidadela asiática e pudessem retornar ao lar.

Uma versão posterior a Homero insiste numa rápida entrevista entre Aquiles e Helena, negociada por Tétis e Afrodite. O herói ficou muito impressionado com a beleza de Helena, mas teria que esperar ainda um pouco até um novo e definitivo encontro na Ilha dos Bem-Aventurados.

Com a morte de Páris, três filhos de Príamo, Idomeneu, Heleno e Deífobo, disputaram a mais bela das mulheres. O rei prometeu-a ao que fosse mais bravo na luta contra os aqueus e Deífobo teve a honra de recebê-la como esposa. Heleno, magoado, refugiou-se no monte Ida. Preso pelos helenos, fez-lhes uma grande revelação: Ílion não poderia ser tomada, enquanto lá estivesse o Paládio, a pequena estátua de madeira de Atena, guardiã das acrópoles.

Helena já arrependida de haver seguido a Páris, era a grande combatente aqueia dentro as muralhas de Troia. Por duas vezes salvou a vida de Odisseu e ainda o ajudou a furtar o Paládio.

Desejando penetra como espião em Ílion, Odisseu, para não ser reconhecido, fez-se chicotear até o sangue por Troas. Ensanguentado e coberto de andrajos, apresentou-se na cidadela como trânsfuga. Conseguiu furtivamente chegar até Helena e a teria convencido a trair os troianos. Relata-se igualmente que a esposa de Deífobo denunciara a Hécuba a presença do herói aqueu, mas este, com suas lágrimas, suas manhãs e palavras artificiosas, teria convencido a rainha a prometer que guardaria segredo a seu respeito. Desse modo foi-lhe possível retirar-se ileso, matando antes as sentinelas que guardavam a entrada da fortaleza.

Mais tarde, o mesmo herói, igualmente disfarçado, mas agora acompanhado de Diomedes, penetrou de novo em Ílion. Dessa vez, Helena não apenas se calou, mas cooperou para o furto do precioso Paládio e concertou com o esposo de Penélope a tática final para a entrega de Ílion aos aqueus.

Foi ela que agitou os fachos acesos, sinal combinado para que as naus gregas, escondida em Tênedos, regressassem e os helenos, sem perda de tempo, pudessem invadir Ílion, que dormia tranquila, após arrastar o cavalo de madeira, com o interior cheio de heróis gregos, para dentro de seus muros.

Agindo com presteza, escondeu as armas de Deífobo, para que o marido não pudesse defender-se. Com tantos serviços prestados a seus compatriotas, aguardou despreocupada o reencontro com o primeiro esposo.

Hllen of Troy, by Evelyn de Morgan (1898)

Helena de Troia, por Evelyn de Morgan (1898).

Tão logo entrou em Ílion, Menelau dirigiu-se ao palácio real e matou o derradeiro amante da esposa. Quando ergueu a espada para golpeá-la também, esta se lhe mostrou seminua, fazendo com que a arma lhe tombasse das mãos. Conta-se ainda que, temendo a ira de Menelau, ela se teria refugiado no templo de Afrodite e de lá, após muitas súplicas e explicações, conseguira reconciliar-se com ele. Há, porém, mitógrafos que insistem na tentativa de lapidação da filha de Tíndaro pelos aqueus, inconformados com a sobrevivência de uma adúltera consumada. Salvou-a mais uma vez a beleza: no confronto com Helena, as pedras caíram das mãos dos amotinados.

Outra versão, talvez mais antiga, atesta que, após a destruição da fortaleza dos priâmidas, Ájax pediu a morte de Helena como pena de seu adultério. Tal proposta provocou a ira dos atridas Agamêmnon e Menelau. Odisseu, com sua astúcia, salvou a rainha de Esparta e devolveu-a a Menelau.

O retorno do rei e da rainha de Esparta, agora reconciliados, foi um odisseia. Os grandes heróis, como Héracles, Perseu, Jasão, Teseu, e Odisseu passam sempre por uma purgação no sal de Posídon. Foi assim que os reis de Esparta, após dois anos de peregrinação pelo Mediterrâneo oriental, foram lançados por um naufrágio no Egito.

Canobo ou Canopo, piloto da nau do rei espartano, morrera picado por uma serpente. Após os solenes funerais do fiel servidor, tornando herói epônimo da cidade de Canopo, Helena matou o réptil e extraiu-lhe o veneno. Hospitaleiramente recebidos pelo faraó Ton ou Tônis, não durou muito a cortesia. Numa curta ausência do marido, Helena passa a ser cortejada pelo soberano, que acaba por tentar violentá-la. Menelau, ao retornar, mata-o. Uma outra versão atesta que o rei de Esparta, tento partido para a Etiópia, confiou a Tônis a esposa, mas Polidamna, mulher do rei egípcio, percebendo o assédio do rei a Helena, enviou-a a ilha de Faros, fornecendo-lhe, porém, uma erva maravilhosa que a protegeria das inúmeras serpentes que infestavam a ilha. Tal erva, por causa de Helena, teria recebido o nome de έλένιον (helénion).

As passagens dos reis lacônicos pelo Egito explica-se ainda por uma outra versão; saudosa de Menelau, Helena teria convencido o piloto de Faros a conduzi-la de Troia para Lacedemônia, mas uma grande tempestade a faz desviar-se para o Egito, onde o piloto perece, picado por uma serpente. Helena, após sepultá-lo, deu-lhe o nome à ilha de Faros, na embocadura do Nilo. Mas tarde, terminada a Guerra de Troia, Menelau encontrou-a no Egito.

Segundo o relato de Eurípides na tragédia Orestes, Menelau e Helena, antes de chegar a Esparta, passam por Argos, no exato dia em que Orestes matara sua mãe Clitemnestra. Ao ver Helena, investiu contra ela, acusando-a de responsável por todas as calamidades acontecidas. A rainha foi salva, pela intervenção de Apolo, que lhe antecipa a apoteose e a imortalidade, como filha de Zeus. Ao cabo de oito anos de padecimentos, em terra e mar, lograram chegar a Esparta, onde Helena se tornou exemplo de todas as virtudes domésticas.

Uma versão tardia, talvez oriunda da Ilha de Rodes, atribui à vida de Helena um fecho integralmente diverso do relado acima. Com a morte de Menelau, conta Pausânias, seus dois filhos Nicóstrato e Megapentes resolveram banir a mãe e madrasta como punição por seus “inúmeros adultérios”. Helena se refugiara na ilha de Rodes, na casa de sua grande amiga Pólixo, cujo marido perecera em Troia, lutando ao lado dos aqueus. Pólixo, que culpava a rainha de Esparta pela morte do esposo, fingiu recebê-la hospitaleiramente, a fim de ganhar tempo para a vingança planejada. Após exercitar bem suas escravas, disfarçou-as em Erínias e ordenou-lhes apavorar e castigar fisicamente Helena, enquanto esta estivesse no banho. O plano foi tão bem executado, que a hóspede se enforcou.

Bust of Helen of Troy by Antonio Canova at Victoria and Albert Museum

Busto de Helena de Troia, por Antonio Canova.

Tradições ainda recentes asseveram que Helena fora sacrificada por Ifigênia, que servia como sacerdotisa de Ártemis, em Táurida, o que traduziria uma “vingança poética” pelo sacrifício a Ártemis de Ifigênia, em Áulis.

Outros mitógrafos asseguram que Tétis, inconformada e inconsolável com a morte de Aquiles “por causa de Helena”, a teria assassinado, quando do tumultuado retorno da tindárida a Esparta.

Helena, consoante poetas e mitógrafos gregos e latinos, teria sido mãe de nove filhos: três mulheres e seis homens. Com Menelau tivera Hermione e Nicóstrato; com Teseu, Ifigênia; com Alexandre ou Páris dera à luz Helena, Búnico, Córito, Ágano, Ideu; e finalmente com Aquiles deu ao mundo o herói Eufórion.

Dos filhos que tiveram com Páris nenhum sobreviveu: Helena foi assassinada por Hécuba e os quatro jovens morreram soterrados por um teto que desabou durante o saque e incêndio de Troia pelos aqueus.

Referências:
BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.
BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.
MOSSÉ, C. Dicionário da Civilização Grega. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Andrômeda

Depois de decapitar Medusa e petrificar Atlas, Perseu continuou sua jornada e alcançou a costa da Etiópia. Voando no céu, viu do alto alguma coisa branca entre as escuras rochas da praia. Desceu por curiosidade. A primeira vista pensou se tratar de uma estátua, porém, ao se aproximar um pouco mais, reparou que era uma moça. Estava atada à rocha e chorava desesperadamente. Perseu firmou o pé em terra e se aproximou da jovem. Perguntou-lhe por que a haviam amarrado. Aos soluços, ela se pôs a relatar sua trágica história:

– Meu nome é Andrômeda e sou filha de Cefeu, rei da Etiópia. Fui amarrada à rocha porque preciso pagar por um delito que não cometi! Minha mãe, a rainha Cassiopeia, cometeu um erro inconcebível: quis medir-se em beleza com as formosas nereidas, filhas de Nereu, o adivinho do mar. E ainda brigou com elas no final, insistindo ser a mais bela. As deusas marinhas ficaram muito ofendidas e foram fazer suas queixas não a seu pai, que é calmo e jamais se zanga, mas ao poderoso deus do mar Posídon, o abalador da Terra. A fúria do deus foi irrefreável. Para nos castigar, enviou à nossa terra uma inundação catastrófica! Assim que essa desgraça passou, fez surgir um monstro marinho que devasta nossos campos. Como o mal parecia não ter fim, meu pai foi perguntar ao oráculo o que devia fazer. O adivinho respondeu que o mal só terá fim quando o monstro devorar a filha do rei. O povo não suportando mais a desgraça que se abatera sobre ele, se amotinou. Assim, amarraram-me a esta rocha, e agora estou prestes a ser despedaçada pela fera.

Perseu ficou imensamente comovido. Já estava apaixonado pela linda moça e queria muito salvá-la, para fazê-la sua esposa, mas não sabia com que palavras se dirigir a ela. Então Andrômeda acrescentou:

– Solte-me, caro estrangeiro! E faça de mim sua escrava, se não quiser se casar comigo! Salve-me e lhe serei grata para sempre.

Mal disse isso, a jovem começou a chorar, lamentando seu destino tão impiedoso. Perseu então se apresentou a Andrômeda, dizendo que era filho de Zeus e que podia derrotar o monstro para libertá-la. No momento em que a esperança iluminou o rosto da bela princesa surgiram seus pais, que haviam escutado as palavras de Perseu. Atiraram-se aos seus pés e imploraram para que o herói salvasse sua filha. Eles prometeram dar todas as suas riquezas e o reino inteiro, caso Perseu o quisesse.

Perseus e Andromeda, por Pablo Veronese (1576-78)

Perseu e Andrômeda, por Pablo Veronese (1576-78), Museu de Belas Artes de Rennes, França.

Perseu queria apenas desposar Andrômeda. Então, Cefeu e Cassiopeia juraram em nome da deusa Afrodite que lhe dariam a mão da filha em casamento, se ele derrotasse o abominável monstro. Eis que, num instante, o mar começou a espumar e a revolver-se. Um dorso negro surgiu dentre a espuma, mas desapareceu para ressurgir logo em seguida, até que, em pouco tempo, se podia distinguir um dragão marinho tenebroso sobre as ondas.

O momento era crítico. O monstro rasgava as ondas e se aproximava rapidamente. Perseu voou para o céu. Andrômeda e seus pais olharam-no surpresos, quando, subitamente, o herói colocou o elmo de Hades e ficou invisível, deixando todos perplexos. Arremessou-se, invisível, sobre o dragão e de repente desferiu-lhe um golpe de espada no pescoço, mas este era tão grosso, que a criatura não sofreu grande dano, apenas ficou ainda mais enraivecida. O imenso dragão começou a saltar, formando ondas do tamanho de montanhas, e Perseu não via oportunidade de golpeá-loo novamente. O monstro procurava o inimigo, mas não via nada, nem na terra nem no mar; até que enxergou a sombra de Perseu sobre as ondas espumantes. Enganado, lançou-se em direção a ela. Então, o herói viu a chance que esperava e enterrou a espada até o cabo na cabeça da fera. Enfim, como que por magia, o monstro se acalmou; virou-se de barriga para cima no mar e ficou ali, arrastado pelas ondas. Andando agora sobre ele, Perseu tirou o capacete de Hades,  Andrômeda e seus pais, vendo-o de pé sobre o dragão, choraram de alegria. Após assegurar-se de que a fera estava mesmo morta, Perseu voou até Andrômeda. Depressa soltou as correntes que a prendiam.

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13)

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.

No dia seguinte, prepararam-se as núpcias. No grande salão do palácio reuniram-se todos os nobres da região. Tudo era rico e majestoso. Logo, um cantor, belo como um deus, começou a tocar sua harpa, e a festa teve início. De repente, a canção foi interrompida e todos ficaram mudos e surpresos, pois a porta, escancarando-se, fez um estrondo: Fineu, irmão de Cefeu, entrou acompanhado de vários guerreiros dizendo que Andrômeda pertencia a ele. Cefeu e Cassiopeia ficaram sem palavras.

– Ouçam todos! – gritou um respeitável nobre. – Andrômeda está viva porque Perseu a salvou, arriscando a própria vida! E agora vem Fineu reivindicar seus direitos. Que direitos, Fineu? Onde você andava quando Andrômeda estava presa à rocha? Por que não foi matar o monstro? Por que, em vez disso, você se foi, deixando-a para a morte, sem nem mesmo ir confortá-la em sua desgraça? Quem desfez o noivado? Os pais dela ou você mesmo? E com que direito vem tomá-la agora, ainda por cima à força? Andrômeda pertence a Perseu. Para aquele que discordar disso, há uma solução muito simples: perguntar a ela.

Cefeu, então, perguntou a filha com quem ela se casaria. Andrômeda respondeu que sua vida pertencia a seu salvador e que tomaria o mesmo como esposo.

Fineu irritadíssimo, sem perder tempo, arremessou sua lança em direção a Perseu, que estava parado e pulou para o canto, salvando-se. Mas a arma atingiu mortalmente o peito do cantor. Perseu sacou sua espada para se defender, enquanto, dentre os convidados, vários jovens destemidos e valorosos puseram-se a seu lado. A batalha teve início imediato. Um após outro, os homens de Fineu caíam mortos pelo chão, mas, como eram muitos e pereciam também diversos companheiros de Perseu, a luta continuava desigual.

A própria Atena, vendo o herói em perigo, veio ajudá-lo, protegendo-lhe o corpo com seu escudo. Porém, choviam flechas e lanças, e todos os guerreiros de Perseu já estavam mortos. O valente filho de Zeus guerreava sozinho. Apoiado em um pilar, travava uma luta que não tinha  menor chance de vencer. A não ser que… Então Perseu gritou para que fosse seu amigo, virasse os olhos para o outro lado. Dizendo isso, tirou da sacola a cabeça de Medusa e exibiu-a aos inimigos. De repente, o palácio de Cefeu ficou repleto de estátuas. Eram os guerreiros de Fineu, que haviam se transformado em pedra.

Por último restou o próprio Fineu, que, ao ver o mal que se abatera sobre seus companheiros, caiu apavorado aos pés de Perseu e implorou compaixão. O herói, no entanto, mostrou-lhe a cabeça da górgona e o transformou em pedra. Assim, Fineu ficou petrificado na posição mais humilhante, a do guerreiro suplicante.

Perseu desposou Andrômeda, mas não quis prolongar sua permanência no  palácio de Cefeu, pois precisava voltar à Grécia. Com lágrimas nos olhos, Andrômeda se despediu dos pais e acompanhou o marido.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Teseu contra o Minotauro

Em Creta, Encontraram Minos no porto a esperar por eles. Os jovens desembarcaram, e Minos olhava-os um por um, atentamente. Teseu ficou inquieto por causa dos dois valorosos rapazes vestidos de mulher, mas eles estavam tão perfeitamente disfarçados, que Minos nada percebeu. Seus olhos, contudo, pousaram sobre uma moça lindíssima, Eribeia. Como Minos não era de se importar com os outros, fazendo o que lhe vinha à cabeça, estendeu a mão e começou a importuná-la. Imediatamente Teseu apresentou-se corajoso: “Viemos aqui para morrer, não para sermos desonrados!” Minos logo perguntou quem era aquele insolente rapaz que ousava levantar a voz para o rei:

-Quem é você, que ousa me fazer advertências? Está se esquecendo de que sou rei da poderosa Creta? E se isso não bastar, fique sabendo que sou filho de Zeus! – voltou-se para o céu e gritou: – Zeus, meu pai, por favor, mostre que eu sou!

Um raio brilhou no céu sem nuvens, sinal de que Zeus reconhecia seu filho. Teseu ficou surpreso, mas nem assim perdeu a coragem e retrucou:

– Se isso tem tanta importância, devo dizer-lhe que também sou filho de um deus, o deus que governa os mares. Sou filho de Poseidon!

Minos, totalmente cético, Tirou seu anel e lançou-o, com toda força, ao mar, e disse que se Teseu fosse realmente filho de Poseidon, poderia trazê-lo de volta. Teseu, dando um mergulho, desapareceu nas águas profundas. Passou-se um bom tempo sem que ele reaparecesse. Todos diziam que teria se afogado, e Minos, irônico, acrescentou: “Que pena! O Minotauro comerá um a menos”. Mas Ariadne, filha de Minos, que também estava entre os presentes, encobriu o rosto e secretamente enxugou as lágrimas. Prestara atenção em Teseu desde o primeiro momento, e sua ousadia a havia comovido. De imediato, um forte amor se aninhou dentro dela, quando uma flecha de Eros, o filho alado da deusa, Afrodite, trespassou-lhe o coração. Por isso sofria.

Teseu, entretanto, não estava perdido. Assim que mergulhou na água, golfinhos o apanharam e conduziram-no sem demora até o palácio do deus marítimo, Poseidon, o abalador da Terra, irmão de Zeus e nada inferior em força ao deus portador dos raios.

Em um majestoso trono, semelhante a uma imensa concha, sentava-se o deus que governa as ondas. Ao seu lado estava a belíssima Anfitrite, esposa do eminente deus. Perto deles encontravam-se Tríton e muitas outras divindades marinhas.

Poseidon recebeu Teseu com afeto e, assim que ouviu o porquê de ele ter descido ao seu reino aquático, ordenou a Tríton que trouxesse o anel rapidamente. O deus marinho não demorou a voltar, juntamente com uma multidão de nereidas. Uma delas trazia o anel e o entregou a Teseu. Imediatamente Anfitrite colocou sobre os cabelos de Teseu uma coroa de ouro, e Poseidon, ciente de que o herói não devia se demorar, ordenou a Tríton e às nereidas que o conduzissem à praia.

Teseu saiu do mar no momento em que todos se preparavam para ir embora. De repente alguém gritou: “Teseu! Teseu está vivo!” Minos não ousava crer em seus próprios olhos! Além de não ter se afogado Teseu usava uma coroa na cabeça, toda de folhas de ouro! Mas o rei de Creta ficou ainda mais surpreso quando recebeu o anel. Percebeu que Teseu não era um mortal comum, e teve medo. Por isso, disse ao seu séquito que o herói deveria ser o primeiro a ser devorado pelo monstro biforme. Ao ouvir isso, Ariadne ficou mortificada. Tinha pena dos outros rapazes e moças, mas ouvir tais palavras sobre Teseu era como se um punhal lhe atravessasse o coração.

Minos ordenou que levassem Teseu ao Labirinto na manhã seguinte para ser devorado pelo Minotauro.

Quando a inquietação de Ariadne já chegava ao seu ápice, ela lamentou. Ariadne pousou a cabeça sobre o ombro de sua irmã, Fedra, para ocultar seus olhos lacrimosos. Então contou tudo que sentia à irmã e lhe pediu ajuda, um meio de salvá-lo. Fedra não acreditava que seria possível salvá-lo, disse que nem Dédalo o conseguiria. Nesse momento, Ariadne se alegrou e correu para a oficina do grande artífice, que era sua última esperança.

Dédalo era o arquiteto ateniense que construiu o Labirinto. Mas, além de ser um grande arquiteto e artista, era também sábio e engenhoso como nenhum outro no mundo. Ariadne pediu por ajuda e Dédalo consentiu, pois também queria salvar seus conterrâneos.

O Minotauro no labirinto Conimbriga

O Minotauro no labirinto Conimbriga

– Então escute-me. – disse ele. – Junto com os jovens está também Teseu, filho do rei de Atenas. Teseu é um grande herói. Matou saqueadores, bandidos e monstros. Creio que poderá matar também o Minotauro. A grande dificuldade não está nisso, mas em como ele poderá sair do Labirinto. Eu o construí a mando de Minos, mas jamais imaginei que se tornaria morada de um monstro! O Labirinto é uma obra muito estranha. Seus corredores, galerias, escadas, portas, e todos os seus espaços foram construídos de tal maneira que é fácil entrar e chegar ao centro, mas é totalmente impossível sair do edifício depois. Já tenho a solução para isso, entretanto, é preciso que alguém se encontre secretamente com Teseu. Não vejo outra pessoa que não você! Tome este novelo. Ache uma maneira de entregá-lo a Teseu sem que a vejam, diga-lhe que amarre uma das pontas junto à entrada e prossiga desnovelando a lã. Enrolando novamente o novelo, ele achará a saída e não se perderá.

Depois de ouvir cuidadosamente as instruções de Dédalo, Ariadne, com o novelo escondido debaixo do braço, correu para encontrar Teseu:

– Sou filha de Minos – disse-lhe. – Meu nome é Ariadne e, por mais estranho que lhe possa parecer, não quero que pereça. Preferiria morrer se você morresse.

Teseu ficou surpreso, mas logo se lembro de que havia pedido a ajuda de Afrodite e compreendeu prontamente. Olhou para Ariadne. Era belíssima, como uma deusa. Admirou sua coragem, ficou maravilhado com sua beleza e também se apaixonou. Disse a ela para que ficasse tranquila, pois ele mataria o monstro e voltaria vivo para Atenas. Ariadne, então, entregou o novelo para Teseu e repassou as instruções que recebera de Dédalo.

Theseus and The Minotaur 4

O herói ficou entusiasmado. Pela manhã, assim que foi colocado no Labirinto, amarrou a ponta do fio na entrada, conforme Ariadne instruíra, e prosseguiu desenrolando-o. O caminho dentro do Labirinto era interminável e confuso. Teseu seguia ora pela direita, ora pela esquerda; ora retrocedia, ora avançava; subia e descia… Assim Teseu caminhou por muito tempo, até que, de repente, onde menos esperava, topou com o Minotauro!

A luta começou no mesmo instante! O terrível monstro investia com os chifres contra Teseu, que, muito ágil, esquivava-se, golpeando-o no flanco com a espada. Os golpes pouco dano causavam ao Minotauro, que arremetia contra o herói incessantemente. Teseu, sem nada sofre, desviava-se de todos os ataques do touro. Num dado momento, o monstro, visivelmente extenuado, quis tomar fôlego. Teseu não perdeu a oportunidade: agarrando-o pelos chifres com uma força extraordinária, arremessou-o ao chão e cravou-lhe mortalmente a espada.

O herói olhou o cadáver do Minotauro, enxugou o suor da testa e pensou: “Agora só me resta encontrar a saída”. Então começou a empreitada, tornando a enrolar o novelo. Felizmente ele o tinha, porque, se algo lhe dizia que devia seguir por um lado, o fio o conduzia por outro. Quando novamente achava que determinado caminho era o certo, o fio indicava outro. Perplexo, Teseu não podia entender por que o fio o conduzia por entre passagens tão inusitadas, até que avistou a saída.

Ariadne o esperava sozinha. Por sorte, Minos não havia se preocupado em convocar sentinelas. Chorando de alegria, a filha de Minos caiu nos braços de Teseu, que não tinha palavra para agradecer. Apenas entregou-lhe o novelo, o “fio de Ariadne”, como ficou conhecido desde então.

Em seguida, foram correndo encontrar os outros, mas a prisão onde estavam os jovens não estava desprotegida. Teseu assobiou três vezes. Ao ouvirem da prisão os assobios, os jovens de um salto se puseram em pé. Todos juntos se lançaram impetuosamente sobre a porta, arrebentando-a. Os sentinelas correram para verificar o que era e viram duas garotas saindo. Foram tentar empurrá-las de volta, mas levaram socos tão fortes, que desmoronaram no chão. Vieram correndo também os guardas, mas com eles aconteceu o mesmo, porque “as garotas” eram os dois rapazes vestidos de mulher. Logo veio também Teseu, de espada em punho, mas nada precisou fazer… Tudo havia terminado e, correndo, chegaram à praia, que, àquela hora, estava deserta. Na areia, todos os navios cretenses; na água, apenas o de Teseu.

Teseu e Minotauro

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O pomo da discórdia

Nas núpcias de Peleu e Tétis, Éris, a deusa que personifica a discórdia, fora a única divindade não convidada. Para vingar-se, a divindade malfazeja lançou um pomo de ouro entre as deusas Hera, Atena e Afrodite, com a seguinte inscrição: “à mais bela”. Cada uma das deusas considerava que a maçã lhe pertencia e aferraram-se numa discussão. Para não se envolver na questão, Zeus determinou que o pastor Páris, filho de Príamo, julgaria qual das três deveria ficar com o pomo.

Pomo da discórdia

Éris lançando o pomo

As deusas, conduzidas por Hermes, apresentaram-se diante de Páris e cada uma lhe prometeu algum dom. Hera prometeu torná-lo o soberano da Europa e da Ásia. Atena prometeu torná-lo invencível nos combates, e Afrodite prometeu-lhe Helena, a mais bela de todas as mulheres. Páris, então, entregou o pomo a Afrodite. Essa escolha está na origem da Guerra de Troia, pois, para cumprir a promessa, Afrodite despertou uma paixão irresistível em Helena e esta, na ausência de seu esposo Menelau, acabou partindo com Páris para Troia. Quando Menelau retornou, convocou todos os chefes gregos a uma expedição contra Páris e os troianos.

Julgamento de Páris (1904) Enrique Simonet.

Julgamento de Páris, Enrique Simonet (1904)

Referências:

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix, 1974.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Linceu e Hipermnestra

Dânao havia ordenado que as suas cinquenta filhas matassem seus maridos, os cinquenta filhos de Egito, na noite de núpcias. Dânao e Egito eram irmãos, porém nunca se entenderam. Os casamentos vieram de um acordo, que não agradava o pai das noivas. Os cinquenta filhos de Egito ameaçaram destruir Argos caso o matrimônio não se realizasse. Dânao não teve escolha, mas arquitetou um plano cruento para dar fim a essa ameaça. Então as núpcias se deram com toda a pompa, como queriam os filhos de Egito. Sequer desconfiavam que assombroso destino os aguardava.

Com o cair da noite, a festa terminou. Cada casal se dirigiu aos seus aposentos e, conforme o planejado, os moços foram sucumbindo, um a um, em seus leitos nupciais. No entanto, num dos quartos, Linceu, o mais belo dos filhos de Egito, não parecia ter pressa em deitar-se ao lado da esposa. Quando Hipermnestra, a formosa danaide, chamou-o para junto de si, procurando dissimuladamente o punhal sob o travesseiro, o jovem disse que não concordava com o que aconteceu. Não era certo um casamento ser regido sob a ameaça de armas, prosseguiu ele. Por fim, disse que, embora a beleza da jovem o tivesse encantado, jamais se deitaria à força com uma mulher que não o quer como marido. Dizendo isso, pegou uma coberta, e deitou sobre ela num canto do quarto e adormeceu.

Hipermnestra não conseguira pregar o olho. As palavras nobres de Linceu acalentou o ódio em seu coração, o amor se aninhou. Ela passou a noite em claro com medo que as irmãs descobrissem e viessem matar o jovem. As irmãs insensíveis, porém, após o crime, dormiam profundamente com a sensação de dever cumprido. Antes de raiar o dia, Hipermnestra acordou Linceu, contou-lhe tudo e o ajudou a fugir do palácio.

Pela manhã, quando Dânao descobriu que a filha não havia cumprido sua tarefa, ficou ensandecido. Agrilhou-a numa cela e, no dia seguinte, requiriu no tribunal a sua condenação à morte. Todos estavam contra ela: pai, irmãs, juízes e os que acompanhavam o julgamento. Desobedecer às ordens do pai era a maior infração às regras sagradas desde o início dos tempos.

Contudo, quando a sentença de morte ia ser proferida, a própria Afrodite apresentou-se diante do tribunal e disse:

– Mas o que vão fazer? – gritou. – Pode ser que estejam certos quanto à obediência que os filhos devem aos pais, mas existe uma força ainda maior. É a força universal do amor! Lembrem-se do primeiro casal do mundo: o grande Urano e a belíssima Gaia. Atente para o exemplo que nos dão: Gaia anseia por amor e Urano inunda a terra com a chuva que fertiliza. Gaia dá frutos, faz crescer as plantas e os animais, sem os quais os homens não poderiam viver. Olhem bem todos vocês, prestes a condenar uma moça que amou. Vocês só existe porque há amor. Se esse sentimento desaparecesse, toda a beleza do mundo se extinguiria!

Após ouvirem essas palavras aladas, todos que estavam ali presente, quem antes a consideravam culpada, concordaram com a inocência da bela danaide. Depois de liberta, encontrou vestígios de que Linceu estava a salvo. Toda a cidade festejou o triunfo desse amor.

Tempos depois, com a morte de Dânao, Linceu tornou-se rei. Graças a sua salvação é que tivemos a linhagem que trouxe ao mundo Perseu, e mais tarde, Hércules.

Hypermnestra, daughter of Danaus.

Hipermnestra, Biblioteca National da França

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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