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IX. O cinto de Hipólita

Em Micenas, uma nova ordem aguardava o herói: ele devia trazer o cinto de Hipólita, rainha das amazonas. Mais uma vez, tratava-se de uma ideia de Hera.

A deusa estava mais irritada que Euristeu por ver que Héracles lograva êxito em todos os trabalhos que lhe imputava. Alguma coisa mais difícil tinha de ser encontrada. Foi por isso que ela pensou nas amazonas, e o cinto de Hipólita lhe veio à mente. Hera se lembrou de que Admete, a filha do rei, era sacerdotisa de seu templo. Assim, podia facilmente incutir na moça o desejo de possuir o cinto da rainha das amazonas. Na primeira vez que a princesa foi ao templo de Hera em Argos, a deusa apareceu diante dela e disse:

– Admete, filha de Euristeu, existe um cinto mágico que é usado por Hipólita, a famosa rainha das amazonas. Ela o ganhou de Ares, rei da guerra, e ele é o símbolo da autoridade e do poder. Você mesma poderia usá-lo, se pedisse a seu pai que mandasse Héracles buscá-lo.

Admete ficou encantada com a ideia de ter aquele cinto, e Euristeu ficou mais encantado ainda quando a filha pediu-lhe aquele favor. Sem perder um minuto, ele chamou Copreu e transmitiu sua ordem.

Quando Héracles recebeu a ordem de executar essa tarefa, soube quão difícil seria. Novamente decidiu fazer a viagem por mar, com um grupo de bravos companheiros, e uma vez mais famosos heróis da Grécia mostraram-se dispostos a arriscar suas vidas ao lado de Héracles. Entre eles estava Teseu, o grande herói de Atenas, Iolau, sobrinho de Héracles, o valente jovem Télamon de Salamina e Peleu, que mais tarde se tornaria pai de Aquiles.

 Seu navio a vela pôs-se ao mar com um vento bom e fez sua primeira escala na ilha de Paros, onde eles também enfrentariam o primeiro perigo.

Naquela ocasião, o rei da ilha, que fica nas Cíclades, era um certo Alceu e, no dia em que o navio de Héracles aportou, os três filhos do rei Minos estavam lá como seus hóspedes, homens orgulhosos, rudes e nada hospitaleiros. Como não havia mais água a bordo, Héracles enviou dois de seus companheiros à terra para encher os potes. Lá, a despeito das leis sagradas que protegiam os estrangeiros carentes de alimentos ou água, foram atacados e mortos traiçoeiramente pelos filhos de Minos.

Héracles testemunhou a cena do convés e, numa explosão de ira e indignação, saltou para a terra, seguido pelos companheiros. Os filhos de Minos pagaram pelo crime com suas vidas, mas a luta logo se transformou  numa batalha com os habitantes da ilha, que foram obrigados a recuar. Quando os habitantes de Paros perceberam que tinham começado uma guerra contra o poderoso Héracles, logo admitiram o erro. Dois arautos subiram nas muralhas e tocaram as trombetas indicando que queriam falar. Depois, um deles disse bem alto:

– Héracles, filho de Anfítrion, nosso rei Alceu não desejou esta guerra. Ele ficou muito sentido quando soube que havia eclodido um conflito entre nós e que os filhos de Minos tinham matado seus dois homens. Propõe agora que você escolha dois habitantes da ilha, os mais valentes que encontrar, e leve-os com você em sua expedição.

A resposta de Héracles surpreendeu a todos:

– Escolho o rei Alceu e seu irmão Estênelo. Esses dois são, eu creio, os homens mais corajosos dentre vocês.

Um silêncio sepulcral seguiu-se a essas palavras. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Mas logo o grande portão do castelo se abriu e Alceu e Estênelo saíram num passo decidido, postando-se atenciosamente diante de Héracles. Em vez de ordens, o herói abraçou os dois, companheiros jovens e valentes tomavam o lugar dos que haviam morrido e logo o navio largou velas para a terra das amazonas.

Viajando para o norte, passaram pelo Helesponto e pelo Bósforo e saíram no mar Negro. Seguindo a costa da Ásia Menos, aportaram em Mísia, onde o rei Lico os recebeu calorosamente. Um banquete foi oferecido no grande salão do palácio. Eles comiam e bebiam, fazendo brindes uns aos outros, quando um soldado esbaforido entrou no salão e informou ao rei que os bébrices haviam invadido o país. Todo os companheiro puseram-se de pé. Lico olhou consternado para seus nobres, que tinham ficado pálidos. Todos entraram em pânico, mas Héracles interrompeu os gritos de desespero, encorajou-os e preparou-se para lutar junto deles.

Héracles e seus companheiros foram para fora do palácio, de encontro ao inimigo. Logo estavam no meio da batalha. Com seu aparecimento, os eventos tomaram outro rumo. O vigor do ataque dos heróis espalhou o pânico entre os bébrices e reanimou a coragem dos homens de Lico. O inimigo foi derrotado, seu rei morto, e uma grande parte do país foi cedido a Mísia. Em gratidão, Lico chamou a região de Heracleia. Chegando o momento de retornarem a missão, Lico deu aos corajosos aventureiros tantas provisões quantas couberam em seu navio, e uma grande multidão se postou no porto, oferecendo-lhes uma despedida digna de deuses.

O navio de Héracles zarpou e, depois de longa jornada, chegou à foz do rio Térmodon. Logo que o adentraram, os heróis avistaram Temíscira, capital das amazonas. Héracles inclinou-se sobre a cana do leme e estudou a cidade, enquanto o navio chegava mais perto. Ele tinha ouvido muitas histórias sobre as amazonas.


Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Sobre as amazonas:
Dizia-se que a primeira delas era filha do deus da guerra, Ares. Elas herdaram suas habilidades marciais e ensinaram-nas a seus filhos, ou melhor, filhas. Porque elas deixavam seus filhos do sexo masculino exclusivamente para as tarefas domésticas, enquanto usavam o seu tempo para aprender a lutar com a espada, lança e arco, montadas em cavalos velozes. Tornaram-se famosas em todo o mundo. Nenhum exército lhes podia resistir. Fizeram expedições em toda a Ásia Menor e no Cáucaso. Aventuraram-se pelo sul, chegando até a Síria e, pelo oeste, chegaram à Trácia e às ilhas do mar Egeu. Diz-se até que atingiram a Líbia. Os habitantes de muitas cidades, dentre as quais Éfeso, Esmirna, Cirene, Mirina e Sinope, proclamam com orgulho que suas cidades foram fundadas pelas amazonas. Naquela ocasião, essas mulheres belicosas viviam na região que circundava o rio Térmodon. Estavam distribuídas em três tribos e tinham três cidades, sendo Temíscira sua capital, governada por Hipólita. As outras duas eram governadas por Melanipe e Antíope.


O navio de Héracles já margeava as terras onde uma multidão de amazonas se formara. Talvez fosse a mera curiosidade que as levara até lá, talvez fosse um pressentimento…

Aquela expedição desde o começo não agradava Héracles. Ele não desejava guerrear contras as amazonas para arrebatar-lhes algo que lhes pertencia legitimamente, ou melhor, à sua rainha.

O navio ancorou. Héracles foi o primeiro a chegar em terra firme. Hipólita estava no meio da multidão, e o herói distinguiu-a de pronto. Ela também sabia quem era o austero forasteiro que saíra do navio resolutamente, porque as peripécias de Héracles tinham tornado seu nome famoso em todo o mundo. Para mostrar sua grande consideração por ele, Hipólita desceu de seu cavalo, saudando o herói.

Quando Héracles viu a rainha de perto, ficou atônito pois a pele de Hipólita, queimada pelo sol, tinha um tom de bronze intenso, e suas pernas e braços eram musculosos. Era difícil encontrar até mesmo homens de uma estrutura forte como aquela! Todas as amazonas também se mostravam robustas. Os companheiros do herói ficaram de olhos arregalados, estarrecidos.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão e Herácles explicou a que vinha. Hipólita ficou espantada quando ouviu toda a história. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Todos aguardavam a réplica da rainha. Por fim, Hipólita concordou em entregar o cinto para que o herói levasse a Euristeu.

Nesse momento Hera impediu que Hipólita renunciasse a seu cinto. Ela se transformou numa amazona e, justamente quando a rainha estendia o cinto para Héracles, gritou: “Não devemos entregar o cinto. Este homem veio para levar nossa rainha e deve morrer!”.

Hipólita puxou sua mão para trás, enquanto gritos de guerra explodiam entre as amazonas. A luta foi inevitável, pois as amazonas começaram a atacar o herói e seus companheiros.

Enfrentadas pelos heróis unidos, aquelas mulheres beligerantes finalmente experimentaram a derrota e tombaram. Mas não antes que Héracles fizesse Melanipe sua prisioneira e Antíope fosse capturada por Teseu. Vencidas, afinal, as amazonas imploraram paz. Hipólita adiantou-se para falar com Héracles, mas estava tão arrasada que não conseguiu dizer nenhuma palavra. Então o herói impôs seus termos:

– Você me dará seu cinto e Melanipe será solta. Isso eu garanto porque ela é prisioneira só minha. Quanto a Antíope, foi Teseu que a capturou e não tenho direito de ordenar sua libertação. Ele a levará para Atenas.

Hipólita aceitou, Héracles pegou o cinto, Melanipe foi solta e Antíope foi levada pelo herói ateniense.

Os sobreviventes subiram a bordo e tomaram o longo percurso de volta. Herácles e os outros camaradas içaram velas rumo a Micenas. Quando chegaram ao porto, os outros heróis se despediram e cada um se dirigiu para a sua terra natal; ao passo que Héracles, com o cinto nas mãos, seguiu para o palácio de Euristeu.

Apesar do medíocre rei ter proibido os herói de aparecer em sua presença, Héracles entrou sem que ninguém o impedisse. Marchou diretamente para o grande salão, abriu sozinho o portão duplo e entrou, levando o cinto de Hipólita. A primeira pessoa que pôs os olhos nele foi Admete e, quando viu o que o herói tinha nas mãos, deixou exclamar-se a agradável surpresa que a tomara. O rei Euristeu voltou-se para saber a razão da alegria da filha e quase desfaleceu. O nono trabalho estava cumprido.

9th labor of Hercules - the belt of hippolyte by Pierre Salsiccia

O cinto de Hipólita, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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