Hemera

Hemera (1881) by William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Hemera (1881), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἠμέρα (Heméra), Hemera, “dia”.  Parece relacionar-se com o armênio awr, “quente”. Hemera é a personificação do Dia, concebido como divindade feminina, formando com Éter um par, enquanto Érebo e Nix formam o outro.

Na teogonia hesiódica, Hemera foi a deusa primordial do dia. Ela era filha de Érebo (Escuridão) e de Nix (Noite) e irmã de Éter (Luz).

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

Ao anoitecer, sua mãe, Nix, puxa seu véu da escuridão entre a atmosfera brilhante do éter e o ar inferior da terra trazendo a noite para o homem. Ao amanhecer, Hemera dispersa as névoas da noite, banhando a terra de novo com a luzl brilhante do céu, éter.

Nas cosmogonias antigas noite e dia foram considerados substâncias distintas e independentes do sol.

Hemera era identificada com Hera, a rainha do céu, e Eos, a deusa do amanhecer. Hesíodo parece considerá-la como mais de uma substância divina ao invés de deusa antropomórfica. Ela foi, em grande parte, irrelevante na mitologia, com seu papel sendo totalmente subordinado à deusa Eos, a Aurora.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Hemera.html

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Éter

Αἰθῄρ (Aithér), Éter, provém do verbo αἴθειν (aíthein), “queimar, fazer brilhar”. Do ponto de vista da língua grega, aithér é uma criação semi-artificial para servir de contraponto a ἀήρ (aér), “ar”.

Éter é a camada superior do cosmo, posicionado entre Urano (Céu) e o ar e, por isso mesmo, personifica o céu superior, incandescente, onde a luz é mais pura que na camada mais próxima da Terra, dominada pelo ar. Personificado na Teogonia de Hesíodo (116-132), Éter é filho de Nix, a Noite, e irmão de Hemera, o Dia.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

Éter é a personificação do brilho do ar superior do céu – a substância da luz. Acima dele encontra-se a abóboda maciça do deus que personifica o céu, Urano, e abaixo, as brumas transparentes do ar ligado à terra. Ao anoitecer, sua mãe, Nix, puxa seu véu da escuridão entre o éter e o ar para trazer a noite ao homem. Ao amanhecer, sua irmã, Hemera, dispersa estas névoas, revelando o éter azul brilhante do dia. Noite e dia foram considerados como independentes do sol nas cosmogonias mais antigas.

Éter foi um dos três “ares”. O ar médio foi Aer ou Khaos, uma névoa incolor que envolveu o mundo mortal. O ar inferior foi Érebo, as névoas da escuridão, que envolveu os lugares sombrios debaixo da terra e do reino dos mortos. O terceiro foi o ar superior de Éter, a névoa de luz, morada dos deuses celestes. Ele envolveu os píncaros das montanhas, as nuvens, as estrelas, o sol e a lua. As próprias estrelas foram ditas como formadas a partir dos fogos concentrados de éter.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Aither.html

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Nix

La Nuit (1883), by William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), at Hillwood Museum, Washington, D.C.

La Nuit (1883), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Hillwood Museum, Washington, D.C.

Νύξ (Nýks), Nix, “noite”. A raiz da palavra designativa de νύξ (nýks) aparece na maioria das línguas indo-europeias: latim nox; “noite”; irlandês in-nocht, “esta noite”; gótico nahts, “noite”; sânscrito nák, “noite”. Nix é, portanto, a personificação e a deusa da noite.

Como aparece na Teogonia hesiódica, Caos gerou sozinho as trevas profundas, Érebo e Nix, enquanto de Nix nasceu a luz radiante, Éter e Hemera. Assim, a matéria informe, confusa e opaca, o Caos, gera primeiramente as trevas. É que para Hesíodo o cosmo se desenvolve ciclicamente, de baixo para cima, passando das trevas à luz. É natural, por isso mesmo, que a luz, Éter e Hemera, tenha sido gerada pelas trevas, Nix, a Noite.

Observe-se ainda a conjugação dos opostos: Érebo e Nix, as trevas, se opõem à luz, mas é das trevas, Nix, que nascerá a luz, Éter e Hemera. Esses pares antitéticos unem-se e interferem, cada um triunfando sobre o outro, numa eterna transformação cíclica.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

Também no Gênesis 1,2-3 a luz existiu depois das trevas:

A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: “Exista a luz”. E a luz existiu.

Seu habitat é o extremo Oeste, além do país de Atlas. Enquanto Érebo personifica as trevas subterrâneas, inferiores, Nix personifica as trevas superiores, de cima. Percorre o céu, coberta por um manto sombrio, sobre um carro puxado por quatro cavalos negros e sempre acompanhada das Queres. À Noite só se podem imolar ovelhas negras.

Nix simboliza o tempo das gestações, das germinações e das conspirações, que vão surgir à luz do dia em manifestações de vida. É muito rica em todas as potencialidades de existência, mas entrar na noite é regressar ao indeterminado, onde se misturam pesadelos, íncubos, súcubos e monstros. Símbolo do inconsciente, é no sono da noite que aquele se libera.

Nyx, as represented in the 10th-century Paris Psalter at the side of the Prophet Isaiah

Nix representada ao lado do profeta Isaías em um manuscrito do séc. X.

A deusa geralmente é representada simplesmente como a substância da noite: um véu de névoa sombria advindo do submundo que apaga a luz do Éter (que brilha na atmosfera superior).

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

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O simbolismo do cinto de Hipólita

Foi a pedido de Admeta, filha de Euristeu e sacerdotisa de Hera argiva, que Héracles, acompanhado por alguns voluntários, inclusive Teseu, seguiu para o fabuloso país das Amazonas, a fim de trazer para Admeta o famoso Cinturão de Hipólita, rainha dessas guerreiras indomáveis, e cumprir seu nono trabalho. Tal Cinturão havia sido dado a Hipólita pelo deus Ares, como símbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo.

O herói prosseguiu viagem chegando ao porto de Temíscira, pátria das Amazonas. Hipólita concordou em entregar-lhe o Cinturão, mas Hera, disfarçada de uma amazona, incitou grave querela entre as partes. Após cruenta batalha, a rainha entregou o cinto a Héracles.

O cinturão ou simplesmente o cinto, atado em torno dos rins, por ocasião do nascimento, religa o um ao todo, ao mesmo tempo que liga o indivíduo. Toda a ambivalência de sua simbólica está resumida nestes dois verbos, ligar e religar.

Religando, o cinto dá maior segurança e tranqüilidade, reanima, transmite força e poder; ligando, acarreta, ao revés, a submissão, a dependência e, por conseguinte, a restrição, escolhida ou imposta, da liberdade. Materialização de um engajamento, de um juramento, de um voto feito, o cinto assume um valor iniciático, sacralizante e, materialmente falando, torna-se uma insígnia visível, as mais das vezes honrosa, que traduz a força e o poder de que está investido seu portador. Para não multiplicar os exemplos, é bastante observar as “faixas” dos judocas, de cores variadas e significativas, os cinturões, em que se penduram as armas e os inumeráveis cintos votivos, iniciáticos e de aparato, mencionados pelas tradições e ritos de todas as culturas.

Na Bíblia, o cinto é símbolo de uma união estreita, de um vínculo permanente, no duplo sentido de união na bênção e de tenacidade na maldição:

Vestiu-se de maldição como de veste,
e ela penetrou como água nas suas entranhas,
e como azeite nos seus ossos.
Que ela seja para ele o vestido com que se cobre,
e como o cinto com que se cinge.

Os Judeus celebravam a Páscoa, consoante a ordem de Javé, com um cinto em torno dos rins, pois que o cinto é um elo precioso que une Javé a seu povo.

A composição simbólica do cinturão espelha a vocação de seu portador, configura a humildade ou o poder, designando sempre uma escolha e um exercício concreto dessa escolha. Quando Cristo diz a Pedro que, jovem, ele se cingia, mas um tempo viria em que outro o haveria de cingir (Jo 21,18), isto significa também que Pedro podia outrora escolher seu destino, mas que, depois, ele compreenderia o apelo da vocação:

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço,
cingias-te e ias aonde desejavas; mas quando fores velho,
estenderás as tuas mãos, outro te cingirá e te levará para onde tu não queres.

O cinto é igualmente apotropaico: protege contra os maus espíritos, como os “cinturões” de proteção em torno das cidades as defendem dos inimigos.

Para Auber, citado por Chevalier e Gheerbrant, “cingir os rins nas caminhadas ou em toda e qualquer ação viva e espontânea significava para os antigos uma prova de energia e, por conseguinte, de desprezo pela frouxidão e indolência; era ainda um sinal de continência nos hábitos e de pureza no coração (…). Para S. Gregório, cingir os rins era um símbolo de castidade”. É nesse sentido que, ligado à continência, pode-se interpretar o cinto de couro ou corda, usado em certas ordens e congregações religiosas. Mas o símbolo não pára por aí, pois que os rins, consoante a Bíblia, configuram também não só o poder e a força, mas igualmente a justiça, como diz Isaías 11,5:

A justiça será o cinto dos seus lombos e a fé o talabarte de seus rins.

Símbolo de ligar e religar, símbolo de humildade e submissão, símbolo do poder e da justiça, mas igualmente do “poder castrador”, símbolo da continência, o Cinturão de Hipólita passou do “poder castrador”, para o poder de continência: deixou de ser visado por uma Amazona, para guarnecer os rins de Admeta, sacerdotisa de Hera.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.3. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Amazonas

Head of a Wounded Amazon of the Capitol-Mattei type. Marble. Copy after original by Phidias. Head is a copy from Polyclitus' original. At Museus Capitolinos.

Amazona Ferida, cópia em mármore da obra de Fídias, Museus Capitolinos, Roma.

Ἀμαζών (Amadzón), Amazona, vocábulo usado mais comumente no plural Ἀμαζόνες (Amadzónes), Amazonas, sempre foi interpretado pela etimologia popular como formado por um ἀ- (a- privativo), não, e μαζός (madzós), seio, uma vez que essas guerreiras, dizia-se, amputavam o seio direito para melhor manejar o arco, deixando, as mais das vezes, o seio esquerdo descoberto. Fato, aliás, não confirmado pela iconografia, em que as Amazonas aparecem belas e de seios intactos. Ainda não se possui etimologia segurar para a palavra.  Uma das hipóteses propostas com bastante fundamento é de que Amadzónes proviria do nome de uma tribo iraniana ha-mazan, propriamente “guerreiro”.

As Amazonas eram filhas de Ares, o cruento deus da guerra, e da ninfa Harmonia. Fundaram, sob a inspiração do pai e da deusa Ártemis, um reino belicoso, composto quase que exclusivamente por mulheres, que habitavam os píncaros do Cáucaso ou a Trácia, o Ponto Euxino ou ainda a Cítia ou a Lídia. Os homens, que porventura existissem em seu território, eram empregados em trabalhos servis. Para perpetuar e ampliar a comunidade, mantinham relações sexuais apenas com adventícios. Os filhos homens eram emasculados, mutilados, cegados, e empregados, quando não eliminados, em serviços inferiores.

Há vários mitos que relatam duros combates travados por heróis contra as temíveis filhas de Ares. Uma das provas impostas por Iobates a Belerofonte foi a de combatê-las, empresa de que se saiu aliás muito bem, causando uma verdadeira devastação nas fileiras das comandadas pela rainha Hipólita.

O nono trabalho de Héracles, imposto por Euristeu, foi o de buscar o cinturão da rainha das amazonas. Tendo chegado ao porto de Temíscira, em cujo arredores residiam as guerreiras, a rainha concordou em entregar-lhe o cinto, mas a deusa Hera, disfarçada de amazona,  suscitou grave querela entre os companheiros do herói, entre os quais estava Teseu, e as habitantes de Temíscira. Pensando ter sido traído por Hipólita, Héracles a matou. Foi no decorrer dessa luta, relata uma variante, que Teseu, por seu valor e desempenho, recebeu do herói argivo, como recompensa, a amazona Antíope.

Riding Amazone. Side B of an Attic red-figure neck-amphora, ca. 420 BC.

Amazona cavalgando, lado B de uma ânfora ática (~420 a.C.), Staatliche Antikensammlungen, Munique.

Segundo outra versão, Héracles fez Melanipe de refém e exigiu da rainha Hipólita o seu cinturão, enquanto Teseu raptou Antíope e fez dela sua esposa. As amazonas invadiram Atenas para resgatar Antíope. A batalha decisiva foi travada nos sopés da Acrópole e, apesar da vantagem inicial, as guerreiras não resistiram e foram vencidas por Teseu. Antíope, por amor, pereceu lutando ao lado do marido contra suas próprias irmãs.

Existe ainda uma terceira variante. A invasão da Ática pelas amazonas não se deveu ao rapto de Antíope, mas ao abandono desta por Teseu, que a repudiara, para se casar com a irmã de Ariadne, Fedra. A própria Antíope comandara a expedição e tentara, à base da força, penetrar na sala do festim, no dia mesmo das novas núpcias do rei de Atenas. Como fora repelida e morta, as amazonas se retiraram. Conta-se ainda que estas, comandadas por sua então rainha Pentesileia, enviaram a Troia um contingente de guerreiras em auxílio dos troianos. Pentesileia, todavia, caiu sob os golpes de Aquiles e ficou tão bela na morte, que o herói se comoveu até as lágrimas. O deformado e contestador Tersites ridicularizou-lhe a ternura e ameaçou furar à ponta de lança os olhos da rainha. Aquiles, num acesso de raiva, matou-o a murros.

A deusa protetora das amazonas era naturalmente Ártemis, a arqueira virgem, com quem as filhas do deus da guerra têm muito em comum, não só por seu desdém pelos homens, mas sobretudo por sua vocação de guerreiras e caçadoras. A elas se atribuía, por isso mesmo, a fundação da cidade de Éfeso e a construção do templo gigantesco e riquíssimo consagrado à irmã de Apolo.

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860), National Gallery of Art, Washington D.C.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Dânae

Δανάη (Danáē), Dânae, o nome está relacionado com a raiz indo-europeia dānu, “água”, pelo fato de a heroína ter sido lançada ao mar com o filho Perseu.

Dânae é filha do rei de Argos, Acrísio e de Eurídice, esta, filha de Lacedêmon e de Esparto. Há outra tradição que faz de Dânae filha de Aganipe.

Desejando, além de Dânae, um filho homem, preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o Oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

A fecundação de Dânae, por Klimt. 1907

A fecundação de Dânae (1907), por Gustav Klimt.

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá enclausurou sua filha, em companhia de sua ama. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura e “inviolável” prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

No dia em que o rei tomou conhecimento da existência do neto, encerrou-o juntamente com a mãe num cofre e mandou expô-los ao mar. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae (1892), por Waterhouse.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los. Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então arquitetou um plano e mandou o jovem herói buscar a cabeça de Medusa, missão de que o herói jamais regressaria, segundo pensava o rei tirano.

Uma variante atesta que foi Díctis quem levou a princesa à corte de Polidectes, que a ela se uniu e cuidou da educação do menino.

A seguir a primeira versão, mais difundida por sinal, o rei, na ausência de Perseu, tentou violentar-lhe a mãe. Em seu retorno glorioso, o herói encontrou Dânae e Díctis abraçados à lareira do palácio, tentando escapar das ameaças violentas do tirano. Perseu mostrou-lhe a cabeça de Medusa e o petrificou, bem como a seus cortesãos. Entregou, em seguida, o trono de Sérifos a Díctis e deixou a ilha em companhia de Dânae, que voltou a Argos para viver em companhia de sua mãe Eurídice.

Perseu, no entanto, seguiu à procura de Acrísio. Este, sabedor de que o neto desejava conhecê-lo, e com a sentença do Oráculo a perturbar-lhe a paz, fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Léon-François Comerre's Danaë and the Shower of Gold, 1908.

Dânae e a chuva de ouro (1908), por Léon-François Comerre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Midas

Midas (Μíδας), famoso rei da Frígia, se tornou o herói de vários mitos de cunho popular. Certa feita, o poderoso monarca encontrou o velho Sileno em sono profundo, após encharcar-se, como de hábito, com o doce licor de Baco. Esperou pacientemente que o pai dos sátiros acordasse e pediu-lhe que lhe falasse acerca da sabedoria. O velho não se fez rogado e narrou-lhe ironicamente uma espécia de parábola.

Havia duas cidades, disse o ancião, situadas bem longe, nas extremidades do mundo. A primeira chamava-se Εὐσέβεια (Eusébeia), Eusébia, “respeitadora dos deuses, a piedosa” e a segunda Μάχιμος (Mákhimos), Máquimo, “a belicosa, a sanguinária”. Eram dois reinos, ambos muito ricos. Possuíam tanto ouro e prata, que esses metais preciosos tinham para eles o mesmo valor que o ferro. Os habitantes da primeira viviam felizes como os da Idade de Ouro. Sua morte assemelhava-se a um sono tranquilo; deixavam esta vida sorrindo. Os residentes na segunda passavam a vida que, por sinal, lhe era sempre curta, em lutas cruentas, matando-se uns aos outros.

Certa feita, tanto os “eusébios” quanto os “máquimos” resolveram fazer uma visita a nosso mundo. Cruzaram o Oceano imenso e chegaram à região dos Hiperbóreos, considerados os mais afortunados dos mortais. Ficaram tão impressionados com a miséria lá reinante, sobretudo entre o povo, que resolveram encurtar a viagem e regressaram a seus reinos.

O rei da Frígia, despótico e cruel, cuja corte nadava em ouro, mas cuja população vegetava na miséria, certamente compreendeu a mensagem de Sileno.

Ainda sobre Midas querer usufruir da sabedoria de Sileno:

Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno, o companheiro de Dionísio. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, o daimon calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:
– Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.” O nascimento da tragédia, §3.

Há uma outra versão do encontro entre o imortal sequaz de Dioniso e o rico e ponderoso senhor dos frígios. Sileno, que se embebedara, afastou-se do cortejo de Baco e dormiu numa das montanhas da Frígia. Encontrado por pastores, que não o reconheceram, prenderam-no e conduziram-no ao rei. Midas, que outrora se iniciara nos mistérios dionisíacos, viu logo de quem se tratava. Mandou libertá-lo e deu-lhe uma acolhida digna de um deus.

Midas e Baco, por Nicolas Poussin (1594-1665)

Midas e Baco, por Nicolas Poussin (1594-1665).

Depois, partiu em companhia do sátiro em busca do deus do vinho. Dioniso, agradecido pelas gentilezas e honrarias prestadas a seu servidor inseparável, prometeu a Midas atender-lhe prontamente a um pedido, fosse ele qual fosse. O rei solicitou que se transformasse em ouro tudo quanto tocasse. O deus satisfez-lhe o desejo e as coisas correram maravilhosamente bem até a hora do almoço, porquanto o pão que o rei levara à boca tornou-se um pedaço de ouro e o vinho transformou-se em metal. Esfaimado e arrependido de sua insaciável cobiça, suplicou ao filho de Zeus que lhe retirasse um dom tão funesto. Dioniso ordenou-lhe lavar a cabeça e as mãos na fonte de Pactolo. Isso feito, o poder transformador, “o toque dourado” de Midas, desapareceu, mas as águas da fonte ficaram para sempre cheias de filetes de ouro.

Walter Crane -Midas With The Pitcher

Midas, por Walter Crane.

Plutarco relata uma segunda versão do mito, semelhante, em parte, a esta última. O rei visitava com grande comitiva uma província distante de seu reino, quando se perdeu no deserto. Não tendo encontrado um único oásis, onde houvesse água, Midas e seus companheiros estariam condenados a morrer de sede, não fora a pronta intervenção de Gaia, que fez brotar no deserto uma fonte aparentemente de água cristalina. Todos correram para o manancial, mas, em lugar de líquido, a nascente emanava torrentes de ouro. Midas apelou para Dioniso, que transformou o metal em água pura e fresca. O monarca deu-lhe o nome de Fonte de Midas.

O rei da Frígia está ligado ainda a um ângulo do mito de Apolo. Um dia em que o deus tocava flauta no monte Tmolo, na Lídia, foi desafiado pelo presunçoso Mársias. É que o sátiro, tendo recolhido uma flauta atirada fora por Atena, adquiriu, à força de exercícios ininterruptos, extrema habilidade e virtuosidade. Os juízes de tão magna contenda foram o próprio monte Tmolo, as Musas e Midas. O deus foi declarado vencedor, mas o rei se pronunciou por Mársias. Apolo o puniu, fazendo com que nascessem nele orelhas de burro. No tocante ao vencido, foi o mesmo amarrado a um tronco e escorchado vido.

Midas, envergonhado, camuflava as orelhas com a tiara e somente seu cabeleireiro estava a par do segredo. Se o revelasse, seria morto. Não podendo mais suportar o peso de tamanha responsabilidade e as ameaças constantes do rei, abriu um buraco no solo, junto a um charco, e confiou à mãe Terra que o soberano da Frígia possuía orelhas anormais. Caniços que vegetavam à margem do brejo, quando agitados pelos ventos, murmuravam em coro: “Midas, o rei Midas, possui orelhas de burro”.

King Midas - Life Ball 2015 - influencing by Gustav Klimt’s golden painting

Rei Midas – Life Ball 2015, obra inspirada nas pinturas de Gustav Klimt.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

NIETZSCHE, F. O Nascimento da Tragédia. Trad. GUINSBURG, J. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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Helena

Έλένη (Heléne), Helena, proveio da raiz indo-europeia suel “brilhar”, como se poderia ver pelo grego σέλας (sélas), “brilho, luz”. Helena teria sido, a princípio, “uma deusa luminosa”, irmã dos Dióscuros Castor e Pólux, acompanhantes de Aurora, tendo-se convertido depois numa deusa da vegetação. Há os que tentam explicar Έλένη (Heléne) com o forma latina uenenum, cujo sentido primeiro é “filtro”. Pretendeu-se ainda ligar-lhe o nome a ἑλενίον (helénion), planta que a filha de Zeus manipulava como anestésico. Contudo, esta são apenas especulações, não se conhece a etimologia do no Helena.

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510)

Leda e o Cisne, por Cesare da Sesto (1505–1510).

Na epopeia Homérica Helena é filha de Zeus e de Leda, tendo por pai “humano” a Tíndaro, por irmãos os Dióscuros Castor e Pólux e por irmã a Clitemnestra. Segundo os Cantos Cíprios Zeus apaixonara-se por Nêmesis. Esta, para fugir-lhe à perseguição, percorreu terras, mares e céus, assumindo todas as formas possíveis, inclusive a de peixe. Já cansada, metamorfoseou-se em gansa. Zeus transformando-se em cisne, uniu-se a ela. Por força dessa conjunção sagrada, Nêmesis pôs um ovo, que, encontrado por um pastor, foi entregue a Leda. A esposa de Tíndaro o guardou num cesto e um tempo depois nasceu Helena.

A tradição que faz de Leda mãe de Helena, metamorfoseada também em gansa, acrescenta que Zeus,igualmente sob a forma de cisne, fê-la pôr um ovo, do qual nasceu Helena. Segundo outra versão, foram dois ovos (um formado pelo sêmen de Tíndaro e outro pelo de Zeus), nascendo, em consequência, do primeiro Castor e Clitemnestra, mortais; do segundo, Pólux e Helena, imortais. Mitógrafos de épocas mais tardias fazem-na filha de Oceano ou ainda de Afrodite e dão-lhe por irmãs, além de Clitemnestra, a Timandra e Filônoe.

Helena não foi raptada apenas uma vez, mas duas. O mito da esposa de Menelau é deveras confuso e complexo. Inúmeras variantes posteriores a Homero parecem encobrir o sentido primitivo do mitologema. Pois bem, essa personagem mítica especial, Helena, foi raptada, uma primeira vez, pelo herói ateniense Teseu, que a conduziu a Afidna, na Ática, e a confiou à sua mãe Etra. Mas quando Teseu e seu amigo inseparável, Pirítoo, desceram ao Hades para raptar Perséfone, deusa essencialmente da vegetação, os Dioscuros atacaram Afidna, levando de volta sua irmã e como cativa a mãe de Teseu, Etra, que, como já se viu, foi conduzida para Tróia por Helena, quando de seu segundo rapto por Páris.

Ora, todos os fatos acima narrados acerca do nascimento da rainha de Esparta, sempre tendo, de um lado, por pai um deus da fecundação e por matriz um ovo, e, de outro, as fugas constantes de “suas mães”, Nêmesis e Leda e “seus raptos” por Teseu e Páris, parecem levar a uma só conclusão: Helena teria sido primitivamente uma deusa ctônia e, por conseguinte, uma deusa da vegetação, uma guardiã dos ovos, das sementes depositadas no seio da terra. Como tal, uma vítima destinada ao rapto. Com o tempo, “a deusa Helena”, suplantada por outras divindades da vegetação mais importantes, teria caído no esquecimento e passado à classe das heroínas, fato comum e bem atestado na mitologia.

Voltando ao primeiro rapto de Helena. Com a morte de sua segunda esposa Fedra, Teseu associou-se a Pirítoo, igualmente viúvo de Hipodâmia. Os dois heróis, filhos respectivamente de Posídon e Zeus, resolveram que só se casariam dali em diante com filhas do pai dos deuses e dos homens e, para tanto, decidiram raptar Perséfone, esposa de Plutão, e Helena. Dirigiram-se primeiramente à Esparta, quando então se apoderaram à força da menina, Castor e Pólux, saíram-lhes ao encalço, mas detiveram-se em Tegeia. Uma vez em segurança, Teseu e Pirítoo tiraram a sorte para ver que ficaria com a princesa espartana, comprometendo-se o vencedor ajudar no rapto de Perséfone. A sorte favoreceu o herói ateniense, mas como Helena fosse ainda impúbere, Teseu a levou secretamente para Afidna, demo da Ática, e colocou-a sob proteção e guarde de sua mãe Etra. Isso feito, desceram ao Hades para conquistar Perséfone.

Durante a prolongada ausência do rei ateniense, Castor e Pólux invadiram a Ática e souberam por um certo Academo onde a irmã havia sido escondida. Imediatamente os dois herói de Esparta marcharam contra Afidna, recuperaram a jovem princesa e levaram Etra, mãe de Teseu, como escrava.

Algumas tradições, certamente tardias, insistem que Helena, já era inúbil e teve com Teseu uma filha chamada Ifigênia. Como quer que seja, tão logo retornou a Esparta, Tíndaro acho melhor dá-la em casamento. A “mais bela das mulheres” foi logo cercada por um verdadeiro enxame de pretendentes. Os mitógrafos conservaram-lhes os nomes e seu número varia de vinte a noventa e novo. Dos mais famosos heróis da Hélade só não consta, por óbvio, Aquiles, que é afinal, como se mostrou em Helena, o eterno infinito, o outro lado de Helena. Tíndaro, não sabendo como proceder, ouviu o conselho do solerte Ulisses, exigindo dos pretendentes dois juramentos: que respeitassem a decisão de Helena na escolha do noivo e que socorresse o eleito, se este fosse atacado ou sofresse afronta grave.

Este juramento será invocado por Menelau algum tempo depois e obrigará todos os grandes heróis gregos a participarem da Guerra de Troia.

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816)

Helena e Menelau, por Goethe-Tischbein (1816).

Tíndaro, para compensar o conselho salutar de Ulisses, conseguiu-lhe junto ao irmão Icário a mão de Penélope, prima, por conseguinte, de seus filhos Castor e Pólux, Helena e Clitemnestra.

Helena escolheu Menelau e dessa união nasceu logo uma menina, Hermione, mas os mitógrafos acrescentam que Helena deu à luz também à um menino, Nicóstrato, após ter o casal retornado de Troia. Uma variante dá à criança o nome de Megapentes, que teria nascido, com pleno assentimento de Helena, da união de Menelau com uma escrava, a fim de que o reino de Esparta tivesse um sucessor e o culto familiar não fosse interrompido.

Sendo a rainha espartana a mulher mais bela do mundo, Afrodite, para ganhar o pomo da discórdia, que lhe outorgava o título de “a mais bela entre as deusas”, prometeu-a a Páris. Foi assim que Páris e Eneias, guiados pela bússola de Afrodite, vão ter ao Peloponeso, onde os tindáridas (dióscuros) Castor e Pólux os acolhem com todas as honras devidas.  Após alguns dias em Amiclas, foram conduzidos a Esparta. O rei Menelau os recebeu segundo as normas da sagrada hospitalidade e lhes apresentou Helena. Dias depois, tendo sido chamado, às pressas, à ilha de Creta, para assistir aos funerais de seu padrasto Catreu, deixou os príncipes troianos entregues à solicitude de Helena.

The Love of Helen and Paris, by Jacques-Louis David (1788), Louvre

O amor de Helena e Páris, por Jacques-Louis David (1788), Museu do Louvre.

Bem mais rápido do que se esperava, a rainha cedeu aos reclamos de Alexandre: era jovem, formoso, cercava-o o fausto oriental e tinha a indispensável ajuda de Afrodite. Apaixonada, a vítima da deusa do amor reuniu todos os tesouros que pôde e fugiu com o amante, levando vários escravos, inclusive a cativa Etra, mãe de Teseu, a qual fora feita prisioneira pelos Dioscuros, quando do resgate de Helena, raptada por Teseu e Pirítoo. Em Esparta, porém, ficou Hermione, que então contava apenas nove anos.

Recebendo de Íris, a mensageira dos imortais, a notícia de tão grande desgraça, voltou o rei apressadamente a Esparta. Por duas vezes, sem desprezar a companhia do sagaz Ulisses, Menelau visitou em embaixada a fortaleza de Troia, buscando resolver pacificamente o grave problema. Por isso mesmo, apenas pleiteou Helena, os tesouros e os escravos levados pelo casal. Páris, além de se recusar a entregar a amante e os tesouros, tentou secretamente convencer os troianos a matarem o rei de Esparta. Com a negatividade de Alexandre e a traição de Menelau, a luta se tornou inevitável: era a guerra, planejada por Zeus a conselho de Têmis-Momo, pelo equilíbrio demográfico da terra, uma carnificina para purgar tantas e tantas misérias dos homens, uma catástrofe em que tantos pereceriam “por causa de Helena”.

Embora a maioria dos autores concorde em que rainha espartana seguiu espontaneamente o príncipe troiano, porque se apaixonara por ele, outro julgam que ela foi levada à força ou que Afrodite travestira Páris de Menelau, para facilitar-lhe o rapto.

Acerca da viagem do casal de amantes para a Tróada, as tradições variam muito. A versão mais antiga e certamente a mais singela narra que a nau de Alexandre chegou a seu destino em três dias. Uma variante, no entanto, dá conta de que uma tempestade, desencadeada por Hera, protetora dos amores legítimos e inimiga de Afrodite, por causa da escolha de Páris no célebre concurso de beleza, lançou o barco troiano nas costas da Fenícia ou, mais precisamente, em Sídon. Apesar da fidalga acolhida que lhe foi dada, Páris, usando de astúcia, saqueou o palácio real e fugiu com seus companheiros. Perseguido pelos fenícios, vence-os em sangrenta batalha e navegou em direção à pátria. Uma outra versão relata que, temendo ser seguido por Menelau, o herói troiano fez demoradas escalas a Fenícia e na ilha de Chipre e, que só quando se certificou de que não estava sendo perseguido, se fez novamente no mar. Uma tradição meio estranha e narrada minuciosamente em Helena, o eterno infinito, conta que a deusa Hera, magoada e irritada com ter sido Helena preterida por Afrodite no concurso de beleza arbitrado por Páris, resolveu arrancar Helena dos braços do raptor. Confeccionou em nuvens um eídolon da esposa de Menelau e mandou que Hermes conduzisse para a corte do rei Proteu, no Egito, a verdadeira Helena.

Heródoto (Histórias, 2, 113-115) racionaliza a tradição e, em resumo, diz o seguinte: Páris, tendo raptado Helena, navegou célere em direção a Troia, mas os ventos contrários fizeram-no aportar no Egito. Acusado por seus próprios servidores de haver injuriado Menelau, raptando-lhe a esposa e muitos tesouros, o rei Proteu reteve Helena no Egito, para devolvê-la posteriormente a seu legítimo consorte. A Páris foram concedidos três dias para que deixasse o país, sob pena de ser considerado inimigo. Desse modo, Alexandre chegou sozinho em Ílion e fez-se uma guerra de dez anos, com seu cortejo de morte e destruição, por uma mulher que jamais pisaram em Troia.

Todas essas digressões míticas têm por objetivo inocentar a princesa espartana e mostra que ela foi vítima e instrumento de um destino que lhe ultrapassava a vontade. Tais relatos remontam claramente à tão destacada “palinódia” de Estesícoro. Com efeito, o poeta Estesícoro (séc. VII-VI a.C.), tendo injuriado Helena, em uma poema homônimo, ficara cego. Mas um certo Leônimo de Crotona, no sul da Itália, tento visitado a Ilha Branca, no Ponto Euxino, onde Helena vivia feliz ao lado de Aquiles, ouviu vozes estranhas. Essa lhe ordenavam navegar até Hímera, na Sicília, cidade do “poeta caluniador” e dizer-lhe que a cegueira se devia à cólera de Hera e que sua cura dependia de uma retratação. O poeta, de imediato, compôs uma palinódia, afirmando que Páris levara para Troia apenas um eídolon, um espectro, de Helena e não a verdadeira esposa de Menelau, e recuperou imediatamente a visão.

Nos poemas homéricos, todavia, a rainha de Esparta viveu realmente em Troia como esposa de Alexandre e depois de Deífobo, enquanto durou a guerra. Era condenada por quase todos, menos por Príamo e Heitor, que viam na amante de Páris uma vítima de Afrodite. Os outros membros da família real e o povo, entretanto, detestavam-na, julgando-a culpada pela catástrofe que ameaçava Ílion.

Often she would stand upon the walls of Troy, por Walter Crane

“Muitas vezes ela ficava em cima das muralhas de Troia”, por Walter Crane.

Os troianos estavam cobertos de razão quando desconfiavam da fidelidade da bela espartana à causa de Ílion. Se no canto terceiro Helena aparece as muralhas de Troia, e a pedido de Príamo aponta os heróis aqueus, nomeando a cada um e a saudade da pátria provoca-lhe as lágrimas, bem mais tarde ela se aproxima do cavalo de madeira e imita as vozes das esposas dos guerreiros que se encontravam no bojo da máquina fatal. O objetivo era incentivá-lo e encorajá-los para que destruíssem o mais depressa possível a cidadela asiática e pudessem retornar ao lar.

Uma versão posterior a Homero insiste numa rápida entrevista entre Aquiles e Helena, negociada por Tétis e Afrodite. O herói ficou muito impressionado com a beleza de Helena, mas teria que esperar ainda um pouco até um novo e definitivo encontro na Ilha dos Bem-Aventurados.

Com a morte de Páris, três filhos de Príamo, Idomeneu, Heleno e Deífobo, disputaram a mais bela das mulheres. O rei prometeu-a ao que fosse mais bravo na luta contra os aqueus e Deífobo teve a honra de recebê-la como esposa. Heleno, magoado, refugiou-se no monte Ida. Preso pelos helenos, fez-lhes uma grande revelação: Ílion não poderia ser tomada, enquanto lá estivesse o Paládio, a pequena estátua de madeira de Atena, guardiã das acrópoles.

Helena já arrependida de haver seguido a Páris, era a grande combatente aqueia dentro as muralhas de Troia. Por duas vezes salvou a vida de Odisseu e ainda o ajudou a furtar o Paládio.

Desejando penetra como espião em Ílion, Odisseu, para não ser reconhecido, fez-se chicotear até o sangue por Troas. Ensanguentado e coberto de andrajos, apresentou-se na cidadela como trânsfuga. Conseguiu furtivamente chegar até Helena e a teria convencido a trair os troianos. Relata-se igualmente que a esposa de Deífobo denunciara a Hécuba a presença do herói aqueu, mas este, com suas lágrimas, suas manhãs e palavras artificiosas, teria convencido a rainha a prometer que guardaria segredo a seu respeito. Desse modo foi-lhe possível retirar-se ileso, matando antes as sentinelas que guardavam a entrada da fortaleza.

Mais tarde, o mesmo herói, igualmente disfarçado, mas agora acompanhado de Diomedes, penetrou de novo em Ílion. Dessa vez, Helena não apenas se calou, mas cooperou para o furto do precioso Paládio e concertou com o esposo de Penélope a tática final para a entrega de Ílion aos aqueus.

Foi ela que agitou os fachos acesos, sinal combinado para que as naus gregas, escondida em Tênedos, regressassem e os helenos, sem perda de tempo, pudessem invadir Ílion, que dormia tranquila, após arrastar o cavalo de madeira, com o interior cheio de heróis gregos, para dentro de seus muros.

Agindo com presteza, escondeu as armas de Deífobo, para que o marido não pudesse defender-se. Com tantos serviços prestados a seus compatriotas, aguardou despreocupada o reencontro com o primeiro esposo.

Hllen of Troy, by Evelyn de Morgan (1898)

Helena de Troia, por Evelyn de Morgan (1898).

Tão logo entrou em Ílion, Menelau dirigiu-se ao palácio real e matou o derradeiro amante da esposa. Quando ergueu a espada para golpeá-la também, esta se lhe mostrou seminua, fazendo com que a arma lhe tombasse das mãos. Conta-se ainda que, temendo a ira de Menelau, ela se teria refugiado no templo de Afrodite e de lá, após muitas súplicas e explicações, conseguira reconciliar-se com ele. Há, porém, mitógrafos que insistem na tentativa de lapidação da filha de Tíndaro pelos aqueus, inconformados com a sobrevivência de uma adúltera consumada. Salvou-a mais uma vez a beleza: no confronto com Helena, as pedras caíram das mãos dos amotinados.

Outra versão, talvez mais antiga, atesta que, após a destruição da fortaleza dos priâmidas, Ájax pediu a morte de Helena como pena de seu adultério. Tal proposta provocou a ira dos atridas Agamêmnon e Menelau. Odisseu, com sua astúcia, salvou a rainha de Esparta e devolveu-a a Menelau.

O retorno do rei e da rainha de Esparta, agora reconciliados, foi um odisseia. Os grandes heróis, como Héracles, Perseu, Jasão, Teseu, e Odisseu passam sempre por uma purgação no sal de Posídon. Foi assim que os reis de Esparta, após dois anos de peregrinação pelo Mediterrâneo oriental, foram lançados por um naufrágio no Egito.

Canobo ou Canopo, piloto da nau do rei espartano, morrera picado por uma serpente. Após os solenes funerais do fiel servidor, tornando herói epônimo da cidade de Canopo, Helena matou o réptil e extraiu-lhe o veneno. Hospitaleiramente recebidos pelo faraó Ton ou Tônis, não durou muito a cortesia. Numa curta ausência do marido, Helena passa a ser cortejada pelo soberano, que acaba por tentar violentá-la. Menelau, ao retornar, mata-o. Uma outra versão atesta que o rei de Esparta, tento partido para a Etiópia, confiou a Tônis a esposa, mas Polidamna, mulher do rei egípcio, percebendo o assédio do rei a Helena, enviou-a a ilha de Faros, fornecendo-lhe, porém, uma erva maravilhosa que a protegeria das inúmeras serpentes que infestavam a ilha. Tal erva, por causa de Helena, teria recebido o nome de έλένιον (helénion).

As passagens dos reis lacônicos pelo Egito explica-se ainda por uma outra versão; saudosa de Menelau, Helena teria convencido o piloto de Faros a conduzi-la de Troia para Lacedemônia, mas uma grande tempestade a faz desviar-se para o Egito, onde o piloto perece, picado por uma serpente. Helena, após sepultá-lo, deu-lhe o nome à ilha de Faros, na embocadura do Nilo. Mas tarde, terminada a Guerra de Troia, Menelau encontrou-a no Egito.

Segundo o relato de Eurípides na tragédia Orestes, Menelau e Helena, antes de chegar a Esparta, passam por Argos, no exato dia em que Orestes matara sua mãe Clitemnestra. Ao ver Helena, investiu contra ela, acusando-a de responsável por todas as calamidades acontecidas. A rainha foi salva, pela intervenção de Apolo, que lhe antecipa a apoteose e a imortalidade, como filha de Zeus. Ao cabo de oito anos de padecimentos, em terra e mar, lograram chegar a Esparta, onde Helena se tornou exemplo de todas as virtudes domésticas.

Uma versão tardia, talvez oriunda da Ilha de Rodes, atribui à vida de Helena um fecho integralmente diverso do relado acima. Com a morte de Menelau, conta Pausânias, seus dois filhos Nicóstrato e Megapentes resolveram banir a mãe e madrasta como punição por seus “inúmeros adultérios”. Helena se refugiara na ilha de Rodes, na casa de sua grande amiga Pólixo, cujo marido perecera em Troia, lutando ao lado dos aqueus. Pólixo, que culpava a rainha de Esparta pela morte do esposo, fingiu recebê-la hospitaleiramente, a fim de ganhar tempo para a vingança planejada. Após exercitar bem suas escravas, disfarçou-as em Erínias e ordenou-lhes apavorar e castigar fisicamente Helena, enquanto esta estivesse no banho. O plano foi tão bem executado, que a hóspede se enforcou.

Bust of Helen of Troy by Antonio Canova at Victoria and Albert Museum

Busto de Helena de Troia, por Antonio Canova.

Tradições ainda recentes asseveram que Helena fora sacrificada por Ifigênia, que servia como sacerdotisa de Ártemis, em Táurida, o que traduziria uma “vingança poética” pelo sacrifício a Ártemis de Ifigênia, em Áulis.

Outros mitógrafos asseguram que Tétis, inconformada e inconsolável com a morte de Aquiles “por causa de Helena”, a teria assassinado, quando do tumultuado retorno da tindárida a Esparta.

Helena, consoante poetas e mitógrafos gregos e latinos, teria sido mãe de nove filhos: três mulheres e seis homens. Com Menelau tivera Hermione e Nicóstrato; com Teseu, Ifigênia; com Alexandre ou Páris dera à luz Helena, Búnico, Córito, Ágano, Ideu; e finalmente com Aquiles deu ao mundo o herói Eufórion.

Dos filhos que tiveram com Páris nenhum sobreviveu: Helena foi assassinada por Hécuba e os quatro jovens morreram soterrados por um teto que desabou durante o saque e incêndio de Troia pelos aqueus.

Referências:
BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.
BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.
MOSSÉ, C. Dicionário da Civilização Grega. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Grifo

Apollon riding Gryps. Attic Red Figure, Kylix, ca 380 BC. Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.

Apolo montando o Grifo. Vaso ático em figura vermelha (~380 a.C.). Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Γρύψ (Grýps), Grifo, sempre esteve associado pelos gregos ao adjetivo γρύπος (grypós), “curvo, recurvo, arqueado”. Em princípio, grypós aplica-se a um “nariz aquilino”, mas também a unhas em forma de garras e a bicos “recurvados”, donde Grifo é “o que apresenta bico adunco e garras como as do leão”.

Como os Grifos tinham papel saliente na decoração (possivelmente de procedência oriental), desde a época micênica, postula-se para o termo grego um empréstimo talvez ao acádico karubu, “grifo, querubim”. Uma aproximação com o anglo-saxão crumb e com o antigo alemão krump, “curvo” é perfeitamente viável. O alemão atual, para designar “torto, encurvado, dobrado”, emprega a forma krumm.

Os Grifos são pássaros fabulosos, de bico adunco, asas enormes e corpo de leão. Consagrados a Apolo, guardavam-lhe os tesouros contra as investidas dos arimaspos, no deserto da Cítia. Alguns mitógrafos fazem-nos provir da Etiópia ou mesmo da Índia. Estava associados também a Dioniso, por lhe vigiarem dia e noite a cratera cheia de vinho.

Tradições mais recentes dão conta da feroz oposição dos Grifos aos garimpeiros que buscavam ouro nos desertos do norte da Índia. A luta dos violentos “pássaros de Apolo” se explica diversamente: ou porque estavam encarregados por algum deus da guarda do metal ou porque, fazendo seus ninhos nas montanhas, de onde era extraído o ouro, queriam proteger os filhotes contra todo e qualquer depredador.

Ésquilo, em sua tragédia Prometeu Acorrentado, pelos lábios de Prometeu, faz várias advertências, entre as quais o perigo que representam esses pássaros, cuja missão mais importante é “guardar o ouro”:

– Cuidado com os Grifos, esses cães de Zeus, que não ladram.
Em lugar de focinhos, possuem bicos alongados.

Griffin, Der Naturen Bloeme

Grifo. Imagem retirada do manuscrito Der Naturen Bloeme (A flor da Natureza), 1530, Biblioteca Nacional da Holanda.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Érebo

Ἒρεβος (Érebos), Érebo, é “a obscuridade do mundo subterrâneo, o inferno”. Trata-se de um vocábulo antigo, cuja raiz indo-europeia é *regw-os, “cobrir de trevas, escurecer”, presente no sânscrito rájas– “região obscura do ar, vapor, poeira”, no armênio erek, –oy, “tarde” e no gótico riqiz, “obscuridade, crepúsculo”.

Símbolo das trevas inferiores, mas, uma vez personificado, tornou-se filho do Caos e irmão de Nix, a Noite. Caos gerou sozinho as trevas profundas, Érebo e Nix, enquanto de Nix nasceu a luz radiante, Éter e Hemera. Assim, a matéria informe, confusa e opaca, o Caos, gera primeiramente as trevas.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

O nome Érebo também foi utilizado para o reino sombrio, submundo de Hades. Bem mais tarde, isto é, a partir dos fins do séc. VI a.C., quando o Hades, o mundo infernal, foi “geograficamente” dividido em três compartimentos, Campos Elísios, local onde ficavam por algum tempo os que pouco tinham a purgar, Érebo, residência também temporária dos que muito tinham a sofrer e Tártaro, local de suplício permanente e eterno dos grandes criminosos, mortais e imortais. Érebo ocupou o centro, à igual distância entre os Campos Elísios e o Tártaro.

Érebo foi um Protogenos (deus primordial) da escuridão, consorte de Nix, cuja névoas escuras envolvia as bordas do mundo, e encheu as cavidades profundas da terra. Sua esposa Nix levou estas névoas pelos céus para trazer noite ao mundo, enquanto sua filha Hemera as dispersou trazendo dia: um bloqueando a luz de Éter e outro revelando-na. O ar superior brilhante (éter) foi considerado como a fonte do dia nas cosmogonias antigas, em vez do sol.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Erebos.html

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Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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