Heróis

A loucura de Héracles

Héracles teve três filhos com sua primeira esposa, Mégara. O casal era muito feliz, porém a felicidade do herói e suas vitórias cada vez mais gloriosas provocaram um amargo ressentimento em Hera, que resolveu causar-lhe mal outra vez.

Certa feita, quando Héracles, cheio de alegria, observava seus filhos brincando, Ate – a deusa do engano –  surgiu silenciosamente atrás dele, jogando-lhe sobre os olhos um véu invisível que tinha o poder mágico de turvar o raciocínio. A visão do herói perturbou-se e, em vez de sues filhos, viu três dragões colossais prontos a atacar. Agarrando cadeiras, mesas e tudo o mais a seu alcance, Héracles quebrou-os sobre o que pensava serem as cabeças dos monstros enormes e assim matou sua prole.

Depois, tomado de uma raiva demoníaca, destroçou tudo quanto havia no palácio, enquanto os que estavam lá dentro empurravam-se pelas portas ou atiravam-se das janelas, procurando escapar à agitação selvagem do homem mais forte do mundo, até que o palácio de Creonte foi reduzido a um monte de pedras.

Ate voltou e retirou o véu invisível. Então, o desafortunado pai viu, entre os destroços, não dragões, mas mortos os seus três filhos. Seus olhos não podiam acreditar na verdade terrível que os outros lhe contavam. Como pudera matar com as próprias mãos os filhos que tanto amava?

 

A loucurade de Héracles

Um desenho de linha 1889 do herói grego Héracles (aflito com algo parecido com transtorno de estresse pós-traumático provocado pela violência que causou contra seus filhos), pelo artista August Baumeister. Origina-se em uma pintura de vasos gregos-siciliano assinado por Asteas (350-320 a.C.), que descreve uma peça de teatro do dramaturgo Eurípides em que o Héracles está prestes a imolar o primeiro de seus três filhos, enquanto sua esposa tenta escapar de sua ira psicótica.

Por causa dessa ação horrenda, Creonte ordenou que Héracles abandonasse Tebas imediatamente, e sua esposa que mandou informá-lo de que nunca mais queria vê-lo. Antes, porém, que lhe dissessem algo, o triste herói tomara o caminho do exílio por sua própria vontade e, vagando sem destino, foi dar nas terras de Téspio.

Lá, numa voz rouca e angustiada, contou a seu amigo, o rei Téspio, o vil crime que cometera; depois disso, apesar de sua força e coragem, não resistiu e chorou como uma criança, implorando ajuda.

Téspio teve pena de Héracles e recebeu-o como convidado, fazendo tudo o que estava a seu alcance, procurando ajudar o herói a esquecer o ocorrido. Tudo em vão; nada podia apagar de sua memória aquele cenário terrível.

E assim o tempo passou, até que um dia chegaram mensageiros de Micenas, informando a Téspio que o rei Estênelo morrera e seu filho, Euristeu, reinava em seu lugar. Traziam, também, uma mensagem  do novo rei destinada a Héracles. O herói estava sentado ali perto, silencioso, perdido em tristes pensamentos: mas, ao ouvir seu nome, levantou-se, pegou a carta e leu-a:

“Eu, o grande rei de Micenas”, dizia a carta, “a quem Zeus deu o direito de governar todas as pessoas da Hélade, agora ordeno a Héracles, filho de Anfítrion, que passe a me servir para realizar grandes trabalhos que trarão glórias para meu nome e meu reinado. Assim eu, Euristeu, filho de Estênelo e descendente de Zeus pelo herói Perseu, decreto.”

Quando Héracles acabou de ler aquela convocação, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Téspio, que viu a presunção ridícula da ordem de Euristeu, aconselhou-o a não ir. Mas os deuses não eram da mesma opinião. O grande Zeus estava amarrado pelo juramento de há tantos anos e nada podia fazer. Agora Hera tinha a palavra, e seu ódio pelo filho de Alcmena era mortal. Fazendo com que um fanfarrão digno de dó como Euristeu desse uma ordem a Héracles, ela poderia, além de humilhar o herói, provocar seu fim.

Contudo, os perigos da incumbência não assustavam Héracles, e, quanto a humilhação, isso era exatamente o que ele buscava para se redimir do crime contra seus próprios filhos.

A única coisa que o fazia hesitar era a ideia de servir a um homem indigno e desprezível. Será que não faria mais mal do que bem à raça humana? Em sua confusão, decidiu consultar o oráculo de Delfos. A resposta foi a seguinte:

– Vá a Micenas e fique a serviço de Euristeu. Ele ordenará que realize doze grandes trabalhos. Só quando tiver completado o último deles é que os deuses perdoarão seu crime contra seus filhos.

Héracles sentiu-se aliviado com as palavras do oráculo e, afinal, sabia que caminho seguir.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O simbolismo do cinto de Hipólita

Foi a pedido de Admeta, filha de Euristeu e sacerdotisa de Hera argiva, que Héracles, acompanhado por alguns voluntários, inclusive Teseu, seguiu para o fabuloso país das Amazonas, a fim de trazer para Admeta o famoso Cinturão de Hipólita, rainha dessas guerreiras indomáveis, e cumprir seu nono trabalho. Tal Cinturão havia sido dado a Hipólita pelo deus Ares, como símbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo.

O herói prosseguiu viagem chegando ao porto de Temíscira, pátria das Amazonas. Hipólita concordou em entregar-lhe o Cinturão, mas Hera, disfarçada de uma amazona, incitou grave querela entre as partes. Após cruenta batalha, a rainha entregou o cinto a Héracles.

O cinturão ou simplesmente o cinto, atado em torno dos rins, por ocasião do nascimento, religa o um ao todo, ao mesmo tempo que liga o indivíduo. Toda a ambivalência de sua simbólica está resumida nestes dois verbos, ligar e religar.

Religando, o cinto dá maior segurança e tranqüilidade, reanima, transmite força e poder; ligando, acarreta, ao revés, a submissão, a dependência e, por conseguinte, a restrição, escolhida ou imposta, da liberdade. Materialização de um engajamento, de um juramento, de um voto feito, o cinto assume um valor iniciático, sacralizante e, materialmente falando, torna-se uma insígnia visível, as mais das vezes honrosa, que traduz a força e o poder de que está investido seu portador. Para não multiplicar os exemplos, é bastante observar as “faixas” dos judocas, de cores variadas e significativas, os cinturões, em que se penduram as armas e os inumeráveis cintos votivos, iniciáticos e de aparato, mencionados pelas tradições e ritos de todas as culturas.

Na Bíblia, o cinto é símbolo de uma união estreita, de um vínculo permanente, no duplo sentido de união na bênção e de tenacidade na maldição:

Vestiu-se de maldição como de veste,
e ela penetrou como água nas suas entranhas,
e como azeite nos seus ossos.
Que ela seja para ele o vestido com que se cobre,
e como o cinto com que se cinge.

Os Judeus celebravam a Páscoa, consoante a ordem de Javé, com um cinto em torno dos rins, pois que o cinto é um elo precioso que une Javé a seu povo.

A composição simbólica do cinturão espelha a vocação de seu portador, configura a humildade ou o poder, designando sempre uma escolha e um exercício concreto dessa escolha. Quando Cristo diz a Pedro que, jovem, ele se cingia, mas um tempo viria em que outro o haveria de cingir (Jo 21,18), isto significa também que Pedro podia outrora escolher seu destino, mas que, depois, ele compreenderia o apelo da vocação:

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço,
cingias-te e ias aonde desejavas; mas quando fores velho,
estenderás as tuas mãos, outro te cingirá e te levará para onde tu não queres.

O cinto é igualmente apotropaico: protege contra os maus espíritos, como os “cinturões” de proteção em torno das cidades as defendem dos inimigos.

Para Auber, citado por Chevalier e Gheerbrant, “cingir os rins nas caminhadas ou em toda e qualquer ação viva e espontânea significava para os antigos uma prova de energia e, por conseguinte, de desprezo pela frouxidão e indolência; era ainda um sinal de continência nos hábitos e de pureza no coração (…). Para S. Gregório, cingir os rins era um símbolo de castidade”. É nesse sentido que, ligado à continência, pode-se interpretar o cinto de couro ou corda, usado em certas ordens e congregações religiosas. Mas o símbolo não pára por aí, pois que os rins, consoante a Bíblia, configuram também não só o poder e a força, mas igualmente a justiça, como diz Isaías 11,5:

A justiça será o cinto dos seus lombos e a fé o talabarte de seus rins.

Símbolo de ligar e religar, símbolo de humildade e submissão, símbolo do poder e da justiça, mas igualmente do “poder castrador”, símbolo da continência, o Cinturão de Hipólita passou do “poder castrador”, para o poder de continência: deixou de ser visado por uma Amazona, para guarnecer os rins de Admeta, sacerdotisa de Hera.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.3. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Amazonas

Head of a Wounded Amazon of the Capitol-Mattei type. Marble. Copy after original by Phidias. Head is a copy from Polyclitus' original. At Museus Capitolinos.

Amazona Ferida, cópia em mármore da obra de Fídias, Museus Capitolinos, Roma.

Ἀμαζών (Amadzón), Amazona, vocábulo usado mais comumente no plural Ἀμαζόνες (Amadzónes), Amazonas, sempre foi interpretado pela etimologia popular como formado por um ἀ- (a- privativo), não, e μαζός (madzós), seio, uma vez que essas guerreiras, dizia-se, amputavam o seio direito para melhor manejar o arco, deixando, as mais das vezes, o seio esquerdo descoberto. Fato, aliás, não confirmado pela iconografia, em que as Amazonas aparecem belas e de seios intactos. Ainda não se possui etimologia segurar para a palavra.  Uma das hipóteses propostas com bastante fundamento é de que Amadzónes proviria do nome de uma tribo iraniana ha-mazan, propriamente “guerreiro”.

As Amazonas eram filhas de Ares, o cruento deus da guerra, e da ninfa Harmonia. Fundaram, sob a inspiração do pai e da deusa Ártemis, um reino belicoso, composto quase que exclusivamente por mulheres, que habitavam os píncaros do Cáucaso ou a Trácia, o Ponto Euxino ou ainda a Cítia ou a Lídia. Os homens, que porventura existissem em seu território, eram empregados em trabalhos servis. Para perpetuar e ampliar a comunidade, mantinham relações sexuais apenas com adventícios. Os filhos homens eram emasculados, mutilados, cegados, e empregados, quando não eliminados, em serviços inferiores.

Há vários mitos que relatam duros combates travados por heróis contra as temíveis filhas de Ares. Uma das provas impostas por Iobates a Belerofonte foi a de combatê-las, empresa de que se saiu aliás muito bem, causando uma verdadeira devastação nas fileiras das comandadas pela rainha Hipólita.

O nono trabalho de Héracles, imposto por Euristeu, foi o de buscar o cinturão da rainha das amazonas. Tendo chegado ao porto de Temíscira, em cujo arredores residiam as guerreiras, a rainha concordou em entregar-lhe o cinto, mas a deusa Hera, disfarçada de amazona,  suscitou grave querela entre os companheiros do herói, entre os quais estava Teseu, e as habitantes de Temíscira. Pensando ter sido traído por Hipólita, Héracles a matou. Foi no decorrer dessa luta, relata uma variante, que Teseu, por seu valor e desempenho, recebeu do herói argivo, como recompensa, a amazona Antíope.

Riding Amazone. Side B of an Attic red-figure neck-amphora, ca. 420 BC.

Amazona cavalgando, lado B de uma ânfora ática (~420 a.C.), Staatliche Antikensammlungen, Munique.

Segundo outra versão, Héracles fez Melanipe de refém e exigiu da rainha Hipólita o seu cinturão, enquanto Teseu raptou Antíope e fez dela sua esposa. As amazonas invadiram Atenas para resgatar Antíope. A batalha decisiva foi travada nos sopés da Acrópole e, apesar da vantagem inicial, as guerreiras não resistiram e foram vencidas por Teseu. Antíope, por amor, pereceu lutando ao lado do marido contra suas próprias irmãs.

Existe ainda uma terceira variante. A invasão da Ática pelas amazonas não se deveu ao rapto de Antíope, mas ao abandono desta por Teseu, que a repudiara, para se casar com a irmã de Ariadne, Fedra. A própria Antíope comandara a expedição e tentara, à base da força, penetrar na sala do festim, no dia mesmo das novas núpcias do rei de Atenas. Como fora repelida e morta, as amazonas se retiraram. Conta-se ainda que estas, comandadas por sua então rainha Pentesileia, enviaram a Troia um contingente de guerreiras em auxílio dos troianos. Pentesileia, todavia, caiu sob os golpes de Aquiles e ficou tão bela na morte, que o herói se comoveu até as lágrimas. O deformado e contestador Tersites ridicularizou-lhe a ternura e ameaçou furar à ponta de lança os olhos da rainha. Aquiles, num acesso de raiva, matou-o a murros.

A deusa protetora das amazonas era naturalmente Ártemis, a arqueira virgem, com quem as filhas do deus da guerra têm muito em comum, não só por seu desdém pelos homens, mas sobretudo por sua vocação de guerreiras e caçadoras. A elas se atribuía, por isso mesmo, a fundação da cidade de Éfeso e a construção do templo gigantesco e riquíssimo consagrado à irmã de Apolo.

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860)

Amazona se preparando para a batalha, por Pierre-Eugene-Emile Hebert (1860), National Gallery of Art, Washington D.C.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Dânae

Δανάη (Danáē), Dânae, o nome está relacionado com a raiz indo-europeia dānu, “água”, pelo fato de a heroína ter sido lançada ao mar com o filho Perseu.

Dânae é filha do rei de Argos, Acrísio e de Eurídice, esta, filha de Lacedêmon e de Esparto. Há outra tradição que faz de Dânae filha de Aganipe.

Desejando, além de Dânae, um filho homem, preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o Oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

A fecundação de Dânae, por Klimt. 1907

A fecundação de Dânae (1907), por Gustav Klimt.

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá enclausurou sua filha, em companhia de sua ama. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura e “inviolável” prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

No dia em que o rei tomou conhecimento da existência do neto, encerrou-o juntamente com a mãe num cofre e mandou expô-los ao mar. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae (1892), por Waterhouse.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los. Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

O rei Polidectes decidiu se livrar de Perseu. Imaginava que assim Dânae não apenas ficaria desprotegida, como também sofreria uma imensa solidão e não teria mais forças para resistir às pressões. Então arquitetou um plano e mandou o jovem herói buscar a cabeça de Medusa, missão de que o herói jamais regressaria, segundo pensava o rei tirano.

Uma variante atesta que foi Díctis quem levou a princesa à corte de Polidectes, que a ela se uniu e cuidou da educação do menino.

A seguir a primeira versão, mais difundida por sinal, o rei, na ausência de Perseu, tentou violentar-lhe a mãe. Em seu retorno glorioso, o herói encontrou Dânae e Díctis abraçados à lareira do palácio, tentando escapar das ameaças violentas do tirano. Perseu mostrou-lhe a cabeça de Medusa e o petrificou, bem como a seus cortesãos. Entregou, em seguida, o trono de Sérifos a Díctis e deixou a ilha em companhia de Dânae, que voltou a Argos para viver em companhia de sua mãe Eurídice.

Perseu, no entanto, seguiu à procura de Acrísio. Este, sabedor de que o neto desejava conhecê-lo, e com a sentença do Oráculo a perturbar-lhe a paz, fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Léon-François Comerre's Danaë and the Shower of Gold, 1908.

Dânae e a chuva de ouro (1908), por Léon-François Comerre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Midas

Midas (Μíδας), famoso rei da Frígia, se tornou o herói de vários mitos de cunho popular. Certa feita, o poderoso monarca encontrou o velho Sileno em sono profundo, após encharcar-se, como de hábito, com o doce licor de Baco. Esperou pacientemente que o pai dos sátiros acordasse e pediu-lhe que lhe falasse acerca da sabedoria. O velho não se fez rogado e narrou-lhe ironicamente uma espécia de parábola.

Havia duas cidades, disse o ancião, situadas bem longe, nas extremidades do mundo. A primeira chamava-se Εὐσέβεια (Eusébeia), Eusébia, “respeitadora dos deuses, a piedosa” e a segunda Μάχιμος (Mákhimos), Máquimo, “a belicosa, a sanguinária”. Eram dois reinos, ambos muito ricos. Possuíam tanto ouro e prata, que esses metais preciosos tinham para eles o mesmo valor que o ferro. Os habitantes da primeira viviam felizes como os da Idade de Ouro. Sua morte assemelhava-se a um sono tranquilo; deixavam esta vida sorrindo. Os residentes na segunda passavam a vida que, por sinal, lhe era sempre curta, em lutas cruentas, matando-se uns aos outros.

Certa feita, tanto os “eusébios” quanto os “máquimos” resolveram fazer uma visita a nosso mundo. Cruzaram o Oceano imenso e chegaram à região dos Hiperbóreos, considerados os mais afortunados dos mortais. Ficaram tão impressionados com a miséria lá reinante, sobretudo entre o povo, que resolveram encurtar a viagem e regressaram a seus reinos.

O rei da Frígia, despótico e cruel, cuja corte nadava em ouro, mas cuja população vegetava na miséria, certamente compreendeu a mensagem de Sileno.

Ainda sobre Midas querer usufruir da sabedoria de Sileno:

Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno, o companheiro de Dionísio. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, o daimon calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:
– Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.” O nascimento da tragédia, §3.

Há uma outra versão do encontro entre o imortal sequaz de Dioniso e o rico e ponderoso senhor dos frígios. Sileno, que se embebedara, afastou-se do cortejo de Baco e dormiu numa das montanhas da Frígia. Encontrado por pastores, que não o reconheceram, prenderam-no e conduziram-no ao rei. Midas, que outrora se iniciara nos mistérios dionisíacos, viu logo de quem se tratava. Mandou libertá-lo e deu-lhe uma acolhida digna de um deus.

Midas e Baco, por Nicolas Poussin (1594-1665)

Midas e Baco, por Nicolas Poussin (1594-1665).

Depois, partiu em companhia do sátiro em busca do deus do vinho. Dioniso, agradecido pelas gentilezas e honrarias prestadas a seu servidor inseparável, prometeu a Midas atender-lhe prontamente a um pedido, fosse ele qual fosse. O rei solicitou que se transformasse em ouro tudo quanto tocasse. O deus satisfez-lhe o desejo e as coisas correram maravilhosamente bem até a hora do almoço, porquanto o pão que o rei levara à boca tornou-se um pedaço de ouro e o vinho transformou-se em metal. Esfaimado e arrependido de sua insaciável cobiça, suplicou ao filho de Zeus que lhe retirasse um dom tão funesto. Dioniso ordenou-lhe lavar a cabeça e as mãos na fonte de Pactolo. Isso feito, o poder transformador, “o toque dourado” de Midas, desapareceu, mas as águas da fonte ficaram para sempre cheias de filetes de ouro.

Walter Crane -Midas With The Pitcher

Midas, por Walter Crane.

Plutarco relata uma segunda versão do mito, semelhante, em parte, a esta última. O rei visitava com grande comitiva uma província distante de seu reino, quando se perdeu no deserto. Não tendo encontrado um único oásis, onde houvesse água, Midas e seus companheiros estariam condenados a morrer de sede, não fora a pronta intervenção de Gaia, que fez brotar no deserto uma fonte aparentemente de água cristalina. Todos correram para o manancial, mas, em lugar de líquido, a nascente emanava torrentes de ouro. Midas apelou para Dioniso, que transformou o metal em água pura e fresca. O monarca deu-lhe o nome de Fonte de Midas.

O rei da Frígia está ligado ainda a um ângulo do mito de Apolo. Um dia em que o deus tocava flauta no monte Tmolo, na Lídia, foi desafiado pelo presunçoso Mársias. É que o sátiro, tendo recolhido uma flauta atirada fora por Atena, adquiriu, à força de exercícios ininterruptos, extrema habilidade e virtuosidade. Os juízes de tão magna contenda foram o próprio monte Tmolo, as Musas e Midas. O deus foi declarado vencedor, mas o rei se pronunciou por Mársias. Apolo o puniu, fazendo com que nascessem nele orelhas de burro. No tocante ao vencido, foi o mesmo amarrado a um tronco e escorchado vido.

Midas, envergonhado, camuflava as orelhas com a tiara e somente seu cabeleireiro estava a par do segredo. Se o revelasse, seria morto. Não podendo mais suportar o peso de tamanha responsabilidade e as ameaças constantes do rei, abriu um buraco no solo, junto a um charco, e confiou à mãe Terra que o soberano da Frígia possuía orelhas anormais. Caniços que vegetavam à margem do brejo, quando agitados pelos ventos, murmuravam em coro: “Midas, o rei Midas, possui orelhas de burro”.

King Midas - Life Ball 2015 - influencing by Gustav Klimt’s golden painting

Rei Midas – Life Ball 2015, obra inspirada nas pinturas de Gustav Klimt.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

NIETZSCHE, F. O Nascimento da Tragédia. Trad. GUINSBURG, J. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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Perseu: cumpre-se o oráculo

Ao retornar a Argos, seu avô, Acrísio, havia desaparecido. Por medo de que o antigo oráculo se tornasse realidade, abandonou o trono e fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Perseu tornou-se rei da cidade.

Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Perseu retornou a Argos extremamente triste. Não queria reinar no trono do avô que, sem querer, havia matado. Na vizinha Tirinto, o rei era Megapentes, filho de Preto, e a imensa inimizade entre Preto e Acrísio não fora herdada por Perseu e Megapentes. Sendo grandes amigos, concordaram em trocar seus reinos.

Perseu também é conhecido por ser o fundador e primeiro rei de Micenas, a mais rica, brilhante e poderosa cidade dos tempos míticos. Quando certa vez encontrou um bom sítio, um pouco além de Tirinto, resolveu fortificá-lo com um castelo e transferir para lá a sua capital. Os ciclopes o ajudaram muito na construção da cidade: eram os únicos, dizem, que poderiam erguer rochas colossais como aquelas que vemos nas muralhas de Micenas, as muralhas ciclópicas, como são chamadas desde então.

Perseu e Andrômeda viveram muitos anos e tiveram sete filhos. O mais velho deles, Perses, se tornou o primeiro rei dos persas e fundador desse grande povo. O segundo filho, Eléctrion, tornou-se mais tarde rei de Micenas. Sua filha, Alcmena, gerou Héracles, o grande herói da Grécia.

Todos esses fundadores, reis e heróis, descendem da linhagem do deus-rio Ínaco, o fundador e primeiro rei de Argos. Se colocarmos essas grande linhagem em ordem, para ver como chegamos a Perseu e Héracles, teremos: primeiro Ínaco, em seguida Io, depois Épafo, e então Líbia, Belo, Dânao, Hipermnestra, Abas, Acrísio, Dânae e Perseu. Depois virão Eléctrion, Alcmena e, finalmente, Héracles.

Sidney_Hall,_Perseus_and_Caput_Medusæ,_1825

Constelação de Perseu (1825) por Sidney Hall.

Perseu e Andrômeda reinaram em Micenas pacificamente e, quando morreram, não foram para o escuríssimo Hades, mas subiram ao céu, pois assim quis o pai de Perseu, o grande Zeus. Ainda hoje, qualquer um pode achar a constelação de Perseu, ao lado da constelação de Andrômeda. Um pouco mais além, encontram-se as de Cefeu e Cassiopeia, porque Andrômeda, quando morreu, ficou amargurada por não haver revisto os pais desde que se casara e, então, Zeus, o grande soberano do céu e da Terra, colocou Cefeu e Cassiopeia nas estrelas, ao lado da filha.

Sidney_Hall_-_Urania's_Mirror_-_Gloria_Frederici,_Andromeda,_and_Triangula

Constelação de Andrômeda por Sidney Hall.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Polidectes

Perseus Delivering Medusa's Head (1892) by Walter Crane

Perseu mostrando a cabeça da Medusa a Polidectes, por Walter Crane.

Após muito feitos, era hora de Perseu retornar à Grécia com a recém desposada Andrômeda. Quando chegaram na ilha Sérifos, o herói foi primeiro à modesta casa de Díctis procurar sua mãe. Abriu a porta e entrou. Díctis ficou surpreso ao vê-lo outra vez e ajoelhou-se beijando-lhe as mãos. Perseu disse que trazia consigo a cabeça da górgona Medusa, como havia prometido, e quis logo saber onde estava sua mãe, Dânae. Díctis informou-lhe que seu irmão Polidectes a mantinha como prisioneira.

Perseu não perdeu um só instante e foi encontrá-lo. Avistou-o em um terraço ao lado do palácio, a beber, comer e farrear com os amigos. Mas surgiu Perseu, todos ficaram embasbacados. Ninguém esperava rever o herói, muito menos Polidectes, que, ao reconhecê-lo, gritou: – Como ousa pôr os pés aqui novamente? Eu o mandei buscar a cabeça de Medusa!

Perseu disse que estava com a cabeça da górgona. Polidectes ouvindo essa resposta deu uma gargalhada. Imediatamente seus amigos o imitaram e todos juntos caçoavam do herói. E eram gargalhadas e zombarias, uma atrás da outra. Então, Perseu enfiou a mão na sacola e tirou a horrenda cabeça e disse: – Eis aqui, já que não acreditam em mim!

Num instante, assim rindo e caçoando, todos ficaram petrificados, enchendo o lugar de estátuas. E dizem que, se hoje Sérifos tem muitas pedras, é porque vieram dessas estátuas, que pouco a pouco se fragmentaram.

Perseu, após libertar sua mãe, fez de Díctis rei da ilha e, em seguida, juntamente com Dânae e Andrômeda, voltou para Argos. Lá chegando, agradeceu à deusa Atena, que tanto o havia ajudado, e ofereceu-lhe a cabeça da Medusa. A deusa pôs a oferenda em sua égide. Depois, o herói tomou o rumo das ninfas estígias. Ao encontrá-las, devolveu-lhes as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica.

Athene receives the head of Medousa from Perseus. The hero is depicted as a young man, wearing the winged boots of Hermes and the cap of darkness on his head. Athene holds the Gorgoneion (Gorgon head) by its snaky locks

Perseu entregando a cabeça de Medusa a Atena. Cratera atribuída ao pintor Tarporley de Apúlia (400-385a.C.). Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, EUA.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Corsa Cerinita

Ελαφος Κερυνιτις (Elaphos Kerynitis), Corsa Cerinita, era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente da ninfa Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.

Héracles foi enviado para buscá-la em seu quinto trabalho. O herói de perseguiu o rápido animal por um ano inteiro. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. O herói aproveitou a chance para capturar o animal e, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas da corsa. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

Nesse momento, Ártemis apareceu furiosa apontando suas flechas certeiras para Héracles. O herói explicou o motivo de suas ações e a deusa permitiu que ele levasse o animal sagrado para Micenas. Segundo algumas tradições, Héracles matou a corsa.

Hercules and the hind, with Athena and Artemis looking on (Attic amphora, 540–530 BC)

Hérakles capturando a corsa, quebrando um de seus chifres de ouro, enquanto Atena (à esquerda) e Ártemis (à direita) observam. Ânfora ática (~540-530 a.C.), Museu Britânico, Londres.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O pequeno Héracles e as serpentes de Hera

Zeus havia confiada a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles, e a deusa da sabedoria fez tudo que estava a seu alcance para ajudar a criança. Ela mandou sua coruja, o pássaro da sabedoria, velar o berço do menino, que, assim, adquiriu novos saberes a cada dia, a cada hora, sempre protegido pela ave atenta. Esta o guardava de todos os perigos e o abanava com suas asas nas noites quentes de verão.

Os gêmeos de Alcmena dormiam dentro de um escudo suspenso, o qual pertencera ao rei dos teléboas e fazia parte do butim que Anfítrion trouxera da batalha. Os dois irmãos brincavam frequentemente ali dentro, enquanto o escudo se balançava no ar; mas Héracles tinha tanta energia que um dia empurrou Íficles pela borda do berço. Alcmena ouviu seus gritos e correu a ver o que acontecera. Felizmente Íficles não se machucara. De todo modo, para ficar tranquila, a rainha abaixou o escudo e, a partir desse dia, deixou-o no chão. Mas a real medida da força do pequeno Héracles não se revelou até a primeira ameaça engenhada por Hera.

A oportunidade surgiu numa noite em que a coruja saiu de seu posto para punir um rato que estragara o bordado mais fino de Atena. Ao sair, naturalmente, a coruja advertiu Alcmena que tomasse conta de seus filhos; ela, então, pôs doze moças robustas para vigiá-los até que a sábia ave voltasse.

As criadas ficaram bordando no quarto das crianças. Porém, antes de começar a amanhecer, com as cabeças pendendo para a frente e os queixos encostados no colo, foram sendo vencidas pelo sono, uma a uma.

A última delas mal começava a cochilar, quando, pela porta entreaberta, deslizaram duas serpentes enormes enviadas por Hera numa missão assassina. Através da janela, a luz da Lua iluminava os bebês, e as duas serpentes dirigiram-se para o berço.

Mas o ruído de seu rastejar bastou para despertar o pequeno Héracles. Ele as viu de imediato e, pondo-se de pé preparou-se para enfrentar o perigo que o ameaçava. Seu movimento súbito acordou Íficles, que bateu os olhos nas serpentes e começou a gritar de pavor. Seus gritos acordaram as criadas que, ao verem as duas enormes serpentes, saíram correndo do quarto, gritando por socorro. Alcmena ouviu os gritos e acordou Anfítrion. Os guardas se alvoroçaram e logo todo o palácio se agitou. Com a espada na mão, Anfítrion entrou rapidamente no quarto das crianças, seguido pela esposa e por uma porção de soldados. A cena com que se depararam foi absolutamente inacreditável! Héracles estava estrangulando as duas enormes serpentes, que se contraíam e estremeciam sob o torniquete. Anfítrion desembainhou sua espada para matá-las, mas percebeu que já não era mais necessário. Héracles jogou seus corpos sem vida aos pés de seu aturdido padrasto, enquanto Íficles, como era natural, continuava a chorar de medo.

The Boy Hercules strangles the serpents by Pietro Benvenuti (1817-29)

Héracles estrangulando as serpentes (1817-29) fresco por Pietro Benvenuti, Palácio Pitti, Florença.

Assim se frustou a tentativa de Hera. E todos os que haviam presenciado a cena perceberam que aquela criança estava predestinada a realizar grandes feitos. Anfítrion, que até aquele momento não sabia qual dos meninos era seu filho, curvou-se, fazendo uma reverência ao filho de Zeus.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte III: nascem os gêmeos

Passaram-se nove meses, até que, uma noite, quando os deuses estavam comendo e bebendo nos brilhantes salões do Olimpo, Zeus levantou-se da mesa e anunciou que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite era seu filho, que esta se transformará no maior herói jamais visto antes, e todas as pessoas da Grécia se curvarão diante de sua vontade. Disse que seu nome será Héracles.

Quando ouviu essas palavras, Hera ficou doida de ciúme. Mais uma vez seu marido tinha gerado uma criança com outra mulher! Não se conteve e sussurrou algo no ouvido da ardilosa deusa Ate, que estava sentada a seu lado, depois virou-se para Zeus e retrucou exigindo que o esposo jurasse diante de todos os deuses que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite seria realmente o herói do qual falou, e que todas as pessoas da Grécia se curvariam diante de sua vontade.

Sem hesitar um só momento, sem suspeitar de nada, Zeus fez um juramento que nunca poderia ser quebrado. Ele jurou pelas águas sagradas do Estige que seria conforme havia dito.

Quando Hera ouviu o juramento do marido, sorriu maliciosamente. Acontece que, em Micenas, Nicipe, mulher de Estênelo, esperava um filho, e seu marido, assim como o pai de Alcmena, era filho de Perseu. Nicipe estava grávida havia apenas sete meses, mas isso não se afigurou um problema para Hera. Ela ordenou a Ilítia, deusa dos parto, que corresse a Tebas, prolongasse o trabalho de parto e as dores de Alcmena e, depois, fosse diretamente a Micenas, para trazer o filho de Nicipe a este mundo antes do tempo.

Birth of Heracles by Jean Jacques Francois Le Barbier

Nascimento de Héracles, por Jean Jacques Francois Le Barbier

As ordens de Hera foram cumpridas ao pé da letra e, assim, a despeito dos bem engendrados planos de Zeus, a primeira criança da linhagem de Perseu a nascer naquela noite foi Euristeu de Micenas, uma criatura tímida, fraca, empurrada para o mundo dois meses antes do tempo. Uma hora depois, nasceu Héracles, seguido imediatamente por outro menino, Íficles, gerado por Anfítrion.

Logo depois do nascimento de Héracles, Hera apresentou-se diante de Zeus e disse cheia de sarcasmo que a primeira criança da linhagem de Perseu que veio a nascer foi Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e que, de acordo com o juramento, Euristeu mandará e Héracles o obedecerá.

Zeus ficou mudo, de tão furioso. Todos os seus maravilhosos planos haviam malogrado. Era essa a terrível verdade – Euristeu mandaria e Héracles o obedeceria. Zeus mesmo jurara isso, pelas sagradas águas do Estige.

Desse modo, Hera burlou o grande senhor dos deuses e dos homens, e o anseio de gerações continuaria sendo um mero sonho, porque Euristeu não parecia de fato capaz de se tornar o verdadeiro líder de toda a Grécia.

A raiva de Zeus era imensa. Ele nem podia imaginar como caíra em tal armadilha. Mas, quando pôs os olhos em Ate, compreendeu tudo: ela turvara seu raciocínio e o pegara desprevenido; sem dúvida pagaria por isso! Agarrando a deusa pelos cabelos trançados, Zeus arremessou-a para fora do Olimpo com uma força tremenda. Desde aquele dia, a ardilosa Ate passou a viver na Terra, entre os homens e as mulheres. E todas as ações desleais dos mortais são atribuídas a sua insidiosa influência. Até hoje, na língua grega, a palavra para fraude significa “aquilo que vem de Ate”, já que a deusa é a personificação do erro.

Depois disso, Zeus dirigiu-se aos outros deuses e disse que havia feito um juramento sagrado e que não podia voltar atrás. Héracles não se tornaria o grande líder que a Grécia há tanto tempo necessita. Em vez disso, ele passará por tanta dor e sofrimento como nenhum outro jamais passara. Mas ele também realizará doze grandes trabalhos e muitos outros feitos maravilhosos e será exaltado e admirado como nenhum outro deus ou mortal jamais foi. E, quando sua vida na Terra chegar ao fim, será recebido no Olimpo. Tornará-se imortal e a própria Hera o aceitará como seu igual, fazendo as pazes com ele.

Hera ao ouvir isso disse a si mesma que aquilo nunca aconteceria, pela simples razão de que Héracles não viverá. Ela tomaria providências para que ele morresse enquanto ainda era um bebê. Mas, diferentemente do que previa, Hera dificultou seus próprios planos.

Num certo anoitecer, Zeus implantou na mente de Alcmena o temor de que Hera, sua esposa, viesse fazer algum mal ao infante Héracles naquela mesma noite. Para proteger seu filho da cólera da deusa, Alcmena tirou o pequeno Héracles do palácio e deixou-o num local isolado, fora dos muros de Tebas, pedindo que Atena o protegesse.

Agindo sob as ordens de Zeus, Atena levou Hero para passear nos arredores da cidade e, fazendo parecer uma mera coincidência, conduziu-a exatamente ao lugar onde Héracles fora deixado.

Hera viu a criança e pegou-a no colo. Atena que observava a cena, sugeriu que a deusa amamentasse o bebê. Hera, com boa vontade, ofereceu seu seio à criança, mas Héracles sugou-o com tal força e machucou-a tanto, que ela o afastou bruscamente, deixando esguichar seu leite no céu escuro. E assim foi criada a via láctea, o “caminho do leite”. Mas não foi só isso que aconteceu. Quando Héracles tomou o leite de Hera, tornou-se muito forte: em vez de destruí-lo como planejara, a deusa o fizera indestrutível.

The Origin of the Milky Way (~1575) by Tintoretto, in National Gallery, London

A origem da Via Láctea (1575), por Tintoretto, National Gallery, Londres.

Depois que as duas deusas saíram de cena, apareceu Alcmena, apressada para pegar seu filho. Hera mordeu os lábios, pálida de raiva. Agora compreendia o acontecido. Assim como enganara Zeus, via-se por ele ludibriada. Ela não podia fazer nada, mas sua determinação de destruir Héracles redobrou-se. A partir daí, Zeus confiou a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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