Deuses

A loucura de Héracles

Héracles teve três filhos com sua primeira esposa, Mégara. O casal era muito feliz, porém a felicidade do herói e suas vitórias cada vez mais gloriosas provocaram um amargo ressentimento em Hera, que resolveu causar-lhe mal outra vez.

Certa feita, quando Héracles, cheio de alegria, observava seus filhos brincando, Ate – a deusa do engano –  surgiu silenciosamente atrás dele, jogando-lhe sobre os olhos um véu invisível que tinha o poder mágico de turvar o raciocínio. A visão do herói perturbou-se e, em vez de sues filhos, viu três dragões colossais prontos a atacar. Agarrando cadeiras, mesas e tudo o mais a seu alcance, Héracles quebrou-os sobre o que pensava serem as cabeças dos monstros enormes e assim matou sua prole.

Depois, tomado de uma raiva demoníaca, destroçou tudo quanto havia no palácio, enquanto os que estavam lá dentro empurravam-se pelas portas ou atiravam-se das janelas, procurando escapar à agitação selvagem do homem mais forte do mundo, até que o palácio de Creonte foi reduzido a um monte de pedras.

Ate voltou e retirou o véu invisível. Então, o desafortunado pai viu, entre os destroços, não dragões, mas mortos os seus três filhos. Seus olhos não podiam acreditar na verdade terrível que os outros lhe contavam. Como pudera matar com as próprias mãos os filhos que tanto amava?

 

A loucurade de Héracles

Um desenho de linha 1889 do herói grego Héracles (aflito com algo parecido com transtorno de estresse pós-traumático provocado pela violência que causou contra seus filhos), pelo artista August Baumeister. Origina-se em uma pintura de vasos gregos-siciliano assinado por Asteas (350-320 a.C.), que descreve uma peça de teatro do dramaturgo Eurípides em que o Héracles está prestes a imolar o primeiro de seus três filhos, enquanto sua esposa tenta escapar de sua ira psicótica.

Por causa dessa ação horrenda, Creonte ordenou que Héracles abandonasse Tebas imediatamente, e sua esposa que mandou informá-lo de que nunca mais queria vê-lo. Antes, porém, que lhe dissessem algo, o triste herói tomara o caminho do exílio por sua própria vontade e, vagando sem destino, foi dar nas terras de Téspio.

Lá, numa voz rouca e angustiada, contou a seu amigo, o rei Téspio, o vil crime que cometera; depois disso, apesar de sua força e coragem, não resistiu e chorou como uma criança, implorando ajuda.

Téspio teve pena de Héracles e recebeu-o como convidado, fazendo tudo o que estava a seu alcance, procurando ajudar o herói a esquecer o ocorrido. Tudo em vão; nada podia apagar de sua memória aquele cenário terrível.

E assim o tempo passou, até que um dia chegaram mensageiros de Micenas, informando a Téspio que o rei Estênelo morrera e seu filho, Euristeu, reinava em seu lugar. Traziam, também, uma mensagem  do novo rei destinada a Héracles. O herói estava sentado ali perto, silencioso, perdido em tristes pensamentos: mas, ao ouvir seu nome, levantou-se, pegou a carta e leu-a:

“Eu, o grande rei de Micenas”, dizia a carta, “a quem Zeus deu o direito de governar todas as pessoas da Hélade, agora ordeno a Héracles, filho de Anfítrion, que passe a me servir para realizar grandes trabalhos que trarão glórias para meu nome e meu reinado. Assim eu, Euristeu, filho de Estênelo e descendente de Zeus pelo herói Perseu, decreto.”

Quando Héracles acabou de ler aquela convocação, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Téspio, que viu a presunção ridícula da ordem de Euristeu, aconselhou-o a não ir. Mas os deuses não eram da mesma opinião. O grande Zeus estava amarrado pelo juramento de há tantos anos e nada podia fazer. Agora Hera tinha a palavra, e seu ódio pelo filho de Alcmena era mortal. Fazendo com que um fanfarrão digno de dó como Euristeu desse uma ordem a Héracles, ela poderia, além de humilhar o herói, provocar seu fim.

Contudo, os perigos da incumbência não assustavam Héracles, e, quanto a humilhação, isso era exatamente o que ele buscava para se redimir do crime contra seus próprios filhos.

A única coisa que o fazia hesitar era a ideia de servir a um homem indigno e desprezível. Será que não faria mais mal do que bem à raça humana? Em sua confusão, decidiu consultar o oráculo de Delfos. A resposta foi a seguinte:

– Vá a Micenas e fique a serviço de Euristeu. Ele ordenará que realize doze grandes trabalhos. Só quando tiver completado o último deles é que os deuses perdoarão seu crime contra seus filhos.

Héracles sentiu-se aliviado com as palavras do oráculo e, afinal, sabia que caminho seguir.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Eros

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_A_Young_Girl_Defending_Herself_Against_Eros_(1880)

Jovem defendendo-se de Eros (1880), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἒρως (Éros), Eros, do verbo ἒρασθαι (érasthai), estar inflamado de amor, significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.C. ao século VI d.C.

Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Gaia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um daimon, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens e, como o deus do Amor está a meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se, assim, o elo que une o Todo a si mesmo. Foi contra a tendência generalizada de considerar Eros como um grande deus que o filósofo da Academia lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (Expediente) e de Penía (Pobreza), no Jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e “carência”, sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, “a plenitude”. Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ἐνέργεια (enérgueia), uma “energia”, perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca do objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam ser o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite vulgar, da Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Ártemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência dos poetas, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sob a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incompatível com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

Uma das Odes atribuídas ao grande poeta lírico grego do século VI a.C, Anacreonte, nos dá um retrato de corpo inteiro desse incendiário de corações. Vamos transcrevê-la, para que se tenha uma ideia da concepção sobretudo alexandrina de Eros:

Winged youth (Eros) flying to an altar. Side A of a Lucanian red-figure nestoris, terracotta, ~350-325BC, at Metropolitan Museum of Art

Eros alado, terracota em figtura vermelha (ca 350-325 a.C.), Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta.
“Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?”
Respondeu Eros: “Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua”.
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
“Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo”.
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão.
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro, acrescentou, alegra-te,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido”.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina na consciência, onde poderá tornar-se uma força espiritual de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades. Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontra-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sido total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação.

Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo.

Relativamente a TânatosHipno, Eros é acentuadamente mágico e o mais flexível dos três, com um papel mais definido na cosmogonia e fertilidade. Tem, por sua própria natureza, uma capacidade bem maior de cooperar com os mortais dia e noite nas conquistas e no amor. Promotor de uniões e despedidas, recebido sempre com mais simpatia que Hipno e Tânatos, possui um público muito mais entusiasta na poesia e na arte. Nos poemas homéricos, ainda não antropomorfizado, o substantivo Eros compartilha efetivamente os poderes das duas divindades anteriores: derrama uma caligem sobre a cabeça dos homens, apodera-se dos corações, como fez com Páris em relação a Helena; relaxa os membros, domina as criaturas humanas como se fossem corcéis, convertendo-se num déspota e é difícil combatê-lo, quanto mais vencê-lo.

Era companheiro e solidário a Hipno, mas por vezes se tornava inimigo do mesmo. Quando o Sono atrai ou Eros, este pode desencadear aparições de pessoas amadas ou um sono agitado com riscos e despedidas. A mente pode viajar para longe, perturba-se a identidade e a psiqué se afasta para além dos limites da experiência em vigília. Portador, como Hermes, de uma varinha mágica para seguir as pistas de Hipno, tem o poder de encantar, fechando ou despertando os olhos adormecidos dos mortais. Se a θέλξις (thélksis), o encantamento, é um elemento perigoso na magia e no encanto, Eros com frequência se identifica como cantor e músico. É o Eros da lira, capaz de transtornar inteligência e coração. Apresenta-se igualmente como depredador que captura veados e lebres.  Era o caçador clássico com o arco, ἀμήϰανος (amékhanos), difícil de combater, ἀνίκατος μάϰαν (aníkatos mákhan), invencível numa batalha, como se expressa Sófocles na Antígona sublinhando a antiga associação entre τόξα (tóksa) “as armas” e τοξικόν (toksikón), “a flecha envenenada”.

erosExiste, no entanto, um Eros bem mais arcaico, adolescente musculoso, de asas poderosas, um convite falaz para o sexo. Participa, como tal, de um grupo tradicional de violadores alados, que transportam suas vítimas à força para locais inacessíveis, como Bóreas, o vento do norte, Hipno, Tânatos, as Harpias, a Esfinge. É o Eros de que nos fala o poema Íbico (séc. VI a.C.), um Eros atrevido e sombrio, que se manifesta entre relâmpagos e loucuras desenfreadas, como o vento do norte flamejante com seus raios, o qual enlouquece nossas mentes da cabeça aos pés.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Oceano

Oceanus in the Trevi Fountain, Rome

Oceano, em Fontana di Trevi, Roma, Itália.

’Ωκεανός (Okeanós), Oceano, sem etimologia ainda bem definida deve ser um empréstimo, uma vez que os indo-europeus  não tinham noção de “um rio original e universal”, nem tampouco possuíam uma palavra para designar “mar”. É possível que se trate de palavra mediterrânea com o sentido de “circular, envolver”.

Parece que Oceano, nas concepções primitivas helênicas, era concebido, a princípio, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras extremas do globo terráqueo. Pelo menos esta é a ideia que do mesmo faziam os Sumérios, segundo os quais a Terra estava sentada sobre o Oceano, o rio-serpente.

Tal conceito ajuda de muito a explicar a topografia de algumas façanhas de Héracles, deslocando-se de um ponto cardeal a outro por mar, bem como a localização dos Jardins das Hespérides, das Górgonas e de outros pontos geográficos imaginários. No mito grego, Oceano é a personificação da água que rodeia o mundo: é representado como um rio, o Rio-Oceano, que corre em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo em Prometeu Acorrentado: Oceano, cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

Quando, mais tarde, os conhecimentos geográficos se tornaram mais precisos, Oceano passou a designar o Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo antigo.

Filho de Gaia e Urano, é o mais velho dos Titãs, mas, extremamente “conciliador”, visto que jamais se indispôs com Zeus.

Representa o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, simboliza o poder e a fecundidade feminina do mar. Como deus, Oceano é o pai de todos os rios, que, segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceânides. Dentre os rios, Hesíodo cita particularmente o Nilo, Alfeu, Erídano, Estrímon, Meandro, Istro, Fásis, Reso, Aqueloo, Nesso, Ródiom Haliácmon, Heptáporo, Granico, Esepo, Símois, Peneu, Hermo, Caíco, Sangário, Ládon, Partênio, Eveno, Ardesco e Escamandro.

As Oceânides, que personificam os riachos, as fontes e as nascentes. Unidas a deuses e, por vezes, a simples mortais, são responsáveis por numerosa descendência. Dentre elas, as mais importantes no mito são: Estige, Admeta, Iante, Electra, Dóris, Urânia, Hipo, Clímene, Calírroe, Idiia, Pasítoe, Dione, Toe, Polidora, Perseis, Ianira, Acasta, Menesto, Europa, Métis, Eurínome, Telesto, Ásia, Calipso, Eudora e Ocírroe.

O Oceano, em razão mesmo de sua vastidão, aparentemente sem limites, é a imagem da indistinção e da indeterminação primordial.

De outro lado, o simbolismo do Oceano se une ao da água, considerada como origem da vida. Na mitologia egípcia, o nascimento da Terra e da vida era concebido como uma emergência do Oceano, à imagem e semelhança dos montículos lodosos que cobrem o Nilo, quando de sua baixa. Assim, a criação, inclusive a dos deuses, emergiu das águas primordiais. O deus primordial era chamado a Terra que emerge. Afinal, as águas simbolizam a soma de todas as virtualidades: são a fonte, a origem e o reservatório de todas as possibilidades de existência. Precedem a todas as formas e suportam toda a criação.

Oceano e suas filhas, as Oceânides, surgem na literatura grega como personagens da gigantesca tragédia de Ésquilo, Prometeu Acorrentado.

Oceano, apesar de personagem secundária na peça, um mero tritagonista, é finamente marcado por Esquilo: tímido, medroso e conciliador, está sempre disposto a ceder diante do poderio e da arrogância de Zeus. Com o caráter fraco de seu pai contrastam as Oceânides, que formam o Coro da peça: preferem ser sepultadas com Prometeu a sujeitar-se à prepotência do pai dos deuses e dos homens.

Mesmo quando os Titãs, após a mutilação de Urano, se apossaram do mundo, Oceano resolveu não participar das lutas que se seguiram, permanecendo sempre à parte como observador atento dos fatos. . .

Dada a pouca ou nenhuma importância dos Titãs Ceos, Crio e Hipérion no mito grego, a não ser por seus casamentos, filhos e descendentes, vamos diretamente a Crono.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Reia

Rhea and Cronus, ca 475 - 425 BC, at Metropolitan Museum, New York City, USA.

Reia e Crono, pélica de figuras vermelhas (ca. 475-425 a.C), Museu Metropolitano de Nova York, EUA.

Ῥέα (Rhéa), Reia, talvez seu nome seja um epíteto da terra: ampla, larga, cheia, da raiz ureia, com o mesmo sentido. Seu nome também pode significar fluxo ou facilidade. Como esposa de Crono, ela representou o eterno fluxo do tempo e de gerações; como a Grande Mãe (Meter Megale), o “fluxo” era sangue menstrual, águas de nascimento, e leite.

Trata-se, em todo caso, de uma divindade minóica, de uma Grande Mãe cretense, que, no sincretismo creto-micênico, decaiu de posto, tornando-se não apenas esposa de Crono, mas sobretudo “atriz de um drama mitológico”, cuja encenação já se começou a ver com a fuga da deusa para a ilha de Creta e o estratagema da pedra.

Reia, uma das titânides, filha de Gaia e Urano, uniu-se ao irmão Crono, era a Rainha dos Céus, e foi mãe, segundo a Teogonia de Hesíodo, de seis filhos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus.

Instruído por um presságio de Gaia, Crono devorava todos os filhos, tão logo nasciam, porque sabia que um deles o destronaria. Grávida de Zeus, a deusa fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz ao caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança e o deus, de imediato, a engoliu. Mais tarde, Crono foi obrigado a devolver todos os filhos à luz. Estes, comandados por Zeus, destronaram o pai.

Reia submetida a Crono pariu brilhantes filhos:
Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,
o forte Hades que sob o chão habita um palácio
com impiedoso coração, o troante Treme-terra
e o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,
sob cujo trovão até a ampla terra se abala.
E engolia-os o grande Crono tão logo cada um
do ventre sagrado da mãe descia aos joelhos,
tramando-o para que outro dos magníficos Uranidas
não tivesse entre os imortais a honra de rei.
Pois soube da Terra e do Céu constelado
que lhe era destino por um filho ser submetido
apesar de poderoso, por desígnios do grande Zeus.
E não mantinha vigilância de cego, mas à espreita
engolia os filhos. Reia agarrou-a longa aflição.
Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens
ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos,
aos seus, à Terra e ao Céu constelado,
comporem um ardil para que oculta parisse
o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai
e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar.
Eles escutaram e atenderam à filha querida
e indicaram quanto era destino ocorrer
ao rei Crono e ao filho de violento ânimo.
Enviaram-na a Licto, gorda região de Creta,
quando ela devia parir o filho de ótimas armas,
o grande Zeus, e recebeu-o Terra prodigiosa
na vasta Creta para nutri-lo e criá-lo.
Aí levando-o através da veloz noite negra atingiu
primeiro Licto, e com ele nas mãos escondeu-o
em gruta íngreme sob o covil da terra divina
no monte das Cabras denso de árvores.
Encueirou grande pedra e entregou-a
ao soberano Uranida rei dos antigos Deuses.
Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.
Teogonia – Hesíodo

Na época romana, Reia, antiga divindade da Terra, acabou fundindo-se com Cibele. Reia simboliza a energia escondida no seio da Terra. Gerou os deuses dos quatro elementos. É a fonte primordial ctônia de toda a fecundidade.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

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Crono

Κρόνος (Krónos), Crono, sem etimologia certa até o momento. Por um simples jogo de palavras, por uma espécie de homonímia forçada, Crono foi identificado muitas vezes com o Tempo personificado, já que, em grego Χρόνος (Khrónos) é o tempo. Se, na realidade, Krónos, Crono, nada tem a ver etimologicamente com Khrónos, o Tempo, semanticamente a identificação, de certa forma, é válida: Crono devora, ao mesmo tempo que gera; mutilando a Urano, estanca as fontes da vida, mas torna-se ele próprio uma fonte, fecundando Reia.

Crono é o mais jovem filho de Gaia e Urano na linhagem dos titãs. Pertence, por conseguinte, à primeira geração divina, anterior a Zeus e aos restantes deuses olímpicos.

O fato é que Urano, tão logo nasciam os filhos, devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia então resolveu libertá-los e pediu aos filhos que a vingassem e libertassem do esposo. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe Gaia uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos.

Rápida [Gaia] criou o gênero do grisalho aço,
forjou grande podão e indicou aos filhos.
Disse com ousadia, ofendida no coração:
“Filhos meus e do pai estólido, se quiserdes
ter-me fé, puniremos o maligno ultraje de vosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou e a todos reteve o terror, ninguém
vozeou. Ousado o grande Crono de curvo pensar
devolveu logo as palavras à mãe cuidadosa:
“Mãe, isto eu prometo e cumprirei
a obra, porque nefando não me importa o nosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou. Exultou nas entranhas Terra prodigiosa,
colocou-o oculto em tocaia, pôs-lhe nas mãos
a foice dentada e inculcou-lhe todo o ardil.
Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra
desejando amor sobrepairou e estendeu-se
a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão
esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice
longa e dentada. E do pai o pênis
ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás.
Teogonia – Hesíodo

O sangue do ferimento de Urano, no entanto, caiu todo sobre Gaia, concebendo esta, por isso mesmo, tempos depois, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram, com a espuma, que saía do membro divino, uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite. Com isto, o caçula dos Titãs vingou a mãe e libertou os irmãos.

Com a façanha de Crono, Urano (Céu) separou-se de Gaia (Terra). O Titã, após expulsar o pai, tomou seu lugar, casando-se com sua irmã Reia. Senhor do mundo, converteu-se num déspota pior que o pai. Temendo os Ciclopes que Urano lançara no Tártaro e que ele havia libertado, a pedido da mãe, novamente os aprisionou nas trevas inferiores e desta vez lhes deu por companhia dos Hecatonquiros.

Dois pontos básicos devem ser ressaltados no episódio de Crono e Urano: a castração do rei e, em consequência, sua separação da rainha. A castração de Urano põe fim a uma longa e ininterrupta procriação, de resto inútil, uma vez que o pai devolvia os recém-nascidos ao ventre materno.

Saturno devorando a un hijo, por Francisco de Goya (1819–1823). Museu do Prado, Madri, Espanha 2.jpg

Saturno (Crono) devorando seu filho (1819-23), por Goya, Museu do Prado, Madri, Espanha.

Como Urano e Gaia, depositário da mântica, vale dizer, do conhecimento do futuro, lhe houveram predito que seria destronado por um dos filhos, que teria de Teia, passou a engoli-los, à medida que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades ou Plutão e Posídon. Escapou somente Zeus. Grávida deste último, Reia fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz o caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança, e o deus, de imediato, a engoliu.

Uma vez nascido, Zeus, ajudado por Métis ou pela própria Gaia, fez que Crono ingerisse uma poção mágica que o forçou a devolver todos os filhos anteriormente devorados. Comandados por Zeus, os deuses olímpicos iniciaram uma luta de dez anos contra os Titãs. Por fim venceu o caçula de Reia. Os Titãs, expulsos do céu, foram lançados ao Tártaro. Para obter tão retumbante triunfo, o futuro pai dos deuses e dos homens, a conselho de Gaia, libertou das trevas os Ciclopes e os Hecatonquiros. Estes últimos tornaram-se, desde então, os guardiães dos inimigos destronados.

Além dos filhos que teve com Reia, algumas tradições atribuem à união de Crono com Fílira a paternidade sobre Quíron, o grande pacífico Centauro. Outros mitógrafos dão-lhe ainda como filhos Hefesto e Afrodite.

Na tradição religiosa órfica, Zeus, tão logo sentiu consolidado seu poder, libertou o pai Crono da prisão subterrânea, recompôs-se com ele e o enviou para a lha dos Bem-Aventurados. Esta reconciliação do senhor do Olimpo com o pai, considerado como um príncipe justo e bom, o primeiro a reinar no céu e na terra, é que gerou o mito da Idade de Ouro.

Na Hélade, sobretudo entre os Órficos, se dizia que em priscas eras o deus pacífico e generoso teria reinado em Olímpia.

Diga-se, de caminho, que essa ideia de o deus ter reinado em “priscas eras” fez de Crono sinônimo de um passado incomensurável. Asim é que o derivado κρονεῖον (kroneîon) significa “no tempo de Crono”.

Dizia-se igualmente que o rei bom justo teria reinado na África, na Sicília e em todo o ocidente mediterrâneo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

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Óreas

Οὔρεα (Úrea), Óreas, “montanhas, montes”, personificados como filhos de Gaia e irmãos de Urano e Pontos, são em Hesíodo a “agradável habitação das Ninfas”.

Os Óreas foram os Protogenoi (deuses primordiais) ou Daimones rústicos (espíritos) para as montanhas. Cada um e cada montanha foi dito ter o seu próprio antigo deus barbudo. As Montanhas foram ocasionalmente representadas na arte clássica como homens barbudos velhos levantando-se entre os seus picos escarpados. Os dez ourea que nasceram de Gaia por partenogênese são:

Etna: O vulcão da Sicília (na Itália).
Atos: uma montanha da Trácia (norte da Grécia).
Hélicon: uma montanha da Beócia (na Grécia Central). Entrou em um concurso cantando com o vizinho Monte Cíteron.
Cíteron: uma montanha da Beócia (na Grécia Central). Entrou em um concurso cantando com o vizinho Monte Hélicon.
Nisa: uma montanha da Beócia (na Grécia Central). Nisa foi a ama do deus Dionísio.
Olimpo I:  montanha da Tessália (norte da Grécia), a morada dos deuses.
Olimpo II: montanha da Frígia (na Anatólia).
Óreos: montanha-deus do Monte Ótris, em Malis (Grécia central).
Parnaso: uma montanha da Beócia e Ática (na Centra Grécia).
Tmolo: uma montanha da Lídia (na Anatólia). Foi o juiz de um concurso musical entre Apolo e Pan.

Por sua altura e por ser um centro, a montanha tem um simbolismo preciso e significativo. Na medida em que a montanha é alta, elevada, vertical, aproximando-se do céu, é símbolo de transcendência; enquanto centro de hierofanias (manifestações do sagrado) e de teofanias (manifestações dos deuses), participa do simbolismo da manifestação. Como ponto de encontro entre o céu e a terra, é a residência dos deuses e o termo da ascensão humana. Expressão da estabilidade e da imutabilidade, a montanha, segundo os Sumérios, é a massa primordial não diferenciada, o Ovo do mundo. Residência dos deuses, escalar a montanha sagrada é caminhar em direção ao Céu, como meio de se entrar em contato com o Divino, e uma espécie de retorno ao Princípio.

Todas as culturas têm sua montanha sagrada. Moisés recebeu as Tábuas da Lei no Monte Sinai; Garizim foi e continua a ser um cume sagrado nas montanhas de Efraim; o sacrifício de Isaac foi sobre a montanha; Elias obtém o milagre da chuva nos píncaros do monte Carmelo (lRs 18,45); uma das mais belas pregações de Cristo foi o Sermão da Montanha (Mt 5,lsqq.); a transfiguração de Jesus foi sobre uma alta montanha (Mc 9,2) e sua ascensão, sobre o monte das Oliveiras (Lc 24,50; At 1,12) .

Os exemplos poderiam multiplicar-se. Acrescentemos, apenas, que o monte Olimpo era a morada dos deuses gregos; Dioniso foi criado no monte Nisa e Zeus o foi no Monte Ida. Montesalvat do Graal está situado no meio de ilhas inacessíveis.

Na realidade, Deus está sempre mais perto, quando se escala a montanha.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Ourea.html

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Pontos

Πόντος (Póntos), Pontos, é “o mar”, por vezes “o alto-mar”, diferente de πέλαγος (pélagos), em princípio “via de acesso, de passagem, não raro difícil. Póntos entra numa vasta família etimológica de forma e sentidos diversos. Assim,  o sânscrito tem pánthah, “caminho que oferece dificuldade”, e o latim pons, pontis, “ponte, passarela”. Pontos é, pois, a marcha, o caminho, “os caminhos do mar”.

Filho de Gaia, Pontos uni-se à própria mãe e foi pai de Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia. Por vezes lhe atribui igualmente a paternidade de Briareu e dos quatro telquines, os primitivos habitantes da ilha de Rodes, Acteu, Megalésio, Ôrmeno e Lico. Com Tálassa, sua contraparte feminina, Pontos gerou os peixes e outras criaturas marinhas. Pontos e Tálassa foram completamente substituídos por Posídon e Anfitrite na arte clássica e mito. Em mosaico romano os deuses primordiais-do-mar eram geralmente Oceano e Tétis.

Num mosaico romano Pontos aparece como uma cabeça gigante que emerge do mar adornado com uma barba grisalha e chifres de guarra de caranguejo:

Okeanos or Pontos mosaic at Bardo Museum, Tunis, Tunisia

Pontos em um mosaico romano antigo, Bardo Museum, Túnis, Tunísia.

Personificado, passou a figurar como representação masculina do mar. Não possuindo um mito particular, aparece apenas nas genealogias teogônicas e cosmogônicas. O mar simboliza a dinâmica da vida. Tudo sai do mar e a ele retorna, tornando-se o mesmo o lugar de nascimentos, transformações e renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possíveis realidades ainda informais e as realidades formais, uma situação de ambivalência, que é a da incerteza, da dúvida e da indecisão, que se pode concluir bem ou mal. Daí ser o mar simultaneamente a imagem da vida e da morte. Cretenses, Gregos e Romanos sacrificavam ao mar cavalos e touros, ambos símbolos de fecundidade. Símbolo também de hostilidade ao divino, o mar acabou por ser vencido e dominado por um deus. Segundo as cosmogonias babilônicas, Tiamat (O Mar), após contribuir para dar nascimento aos deuses, foi por um deles vencido. Javé tinha domínio total sobre o mar e seus monstros, como diz Jó 7,12:

Acaso sou eu o mar ou baleia, para me teres encerrado como num cárcere?

Criação de Deus (Gn 1,9-10), o mar tem que lhe estar sujeito (Jr 31,35). Cristo dá ordens aos ventos e ao mar, e as tempestades se transformam em bonança (Mt 8,24-27).

João (Ap 21,1) canta o mundo novo, em que o mar não mais existirá.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Urano

UranusΟὐρανός (Uranós), Urano, “abóboda do céu, céu, firmamento”. A antiga etimologia que aproximava Uranós de Varuna foi descartada. O Varuna é, no panteão hindu, o patrono da realeza. É a personificação do Céu, enquanto elemento fecundador de Gaia.

Filho de Gaia na Teogonia de Hesíodo e, em outros poemas, de Éter e certamente de Hemera, o dia, na teogonia órfica Urano e Gaia são filhos de Nix, a noite.

Urano (Céu) era concebido como um hemisfério, a abóbada celeste, que cobria Gaia, a Terra, concebida como esférica, mas achatada: entre ambos se interpunham o Éter e o AR e, nas profundezas de Gaia, localizava-se o Tártaro, bem abaixo do próprio Hades. Mais adiante se falará da mutilação de Urano por Crono.

Do ponto de vista simbólico, o deus do Céu traduz uma proliferação criadora desmedida e indiferenciada, cuja abundância acaba por destruir o que foi gerado. Urano caracteriza assim a fase inicial de qualquer ação, com alternância de exaltação e depressão, de impulso e queda, de vida e morte dos projetos.

Deus celeste indo-europeu, símbolo da fecundidade, o deus do Céu é representado pelo touro. Sua fertilidade, todavia, é perigosa, além de inútil. A mutilação de Urano por Crono põe cobro a uma odiosa e estéril fecundidade e faz surgir Afrodite, nascida do esperma ensanguentado do deus, a qual introduz no mundo a ordem e a fixação das espécies, impossibilitando qualquer procriação desordenada e nociva. As três fases da evolução criadora seria, a saber: Urano (sem equivalente no mito latino) é a efervescência caótica e indiferenciada, chamada cosmogenia; Crono (Saturno) é o podador, corta e separa. Com um golpe de foice ceifa os órgãos de seu pai, pondo fim a secreções indefinidas. Ele é o tempo da paralisação. É o regulador que bloqueia qualquer criação no universo. É o tempo simétrico, o tempo da identidade. Sua fase denomina-se esquizogenia. O reino de Zeus (Júpiter) se caracteriza por uma nova partida, organizada e ordenada e não mais caótica e anárquica: esta chamada de autogenia. Após a descontinuidade, a criação e a evolução retomam seu caminho.

Urano unido em amor com a deusa-mãe Terra teve os seis Titãs, as seis Titânides, os três ciclopes e os três hecatônquiros.

Gaia e Urano

Gaia e Urano. Obra exposta na seção Cosmogonias e Cosmologia do Espaço do Conhecimento UFMG, Praça da Liberdade.

Tão logo nasciam os filhos, porém, Urano devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Gaia, já curvada com tanto peso ou sentindo-se esgotada com o abraço sem tréguas do esposo, pediu aos filhos que a libertassem da opressão e da fecundidade inesgotável do marido. Todos se recusaram, exceto Crono, o caçula dos titãs. Gaia entregou-lhe uma foice (instrumento sagrado que cortas as sementes, e semente em grego é spérma, “esperma”) e quando o céu, “ávido de amor”, se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento do deus caiu sobre a Terra, concebendo esta, no tempo devido, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma “espumarada”, de que nasceu Afrodite.

Com a façanha de Crono, Urano separou-se de Gaia e, impotente, tornou-se um deus ocioso.

Uma interpretação inteiramente diferente do mito do deus do céu foi conservada por Diodoro Sículo (séc. I d.C.). Urano teria sido o primeiro rei dos atlantes, povo justo e respeitador dos deuses, cujo habitat seriam as margens do Oceano. O “deus” os civilizou e iniciou nas artes. Hábil astrônomo, Urano inventou o primeiro calendário, segundo os movimentos dos astros, prevendo o destarte os principais acontecimento que deveriam ocorrer no mundo. Ao morrer, foram-lhe concedidas honras divinas e acabou por ser identificado como o próprio céu. Na versão de Diodoro, Urano foi pai de quarenta e cinco filhos, sendo dezoito de titãs (que mais tarde se chamou Gaia). A ela devem os filhos genéricos de titãs. As filhas do civilizador dos atlantes chamavam-se Basileia (a rainha), mais tarde cognominada Cibele, e Reia, denominada Pandora. Basileia, que era de grande beleza, sucedeu ao pai no trono, e, unindo-se a seu irmão Hipérion, foi mãe de Hélio (Sol) e Selene (Lua). Como filhos de Urano, ainda são mencionados por Diodoro, Crono e Atlas.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Hemera

Hemera (1881) by William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Hemera (1881), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἠμέρα (Heméra), Hemera, “dia”.  Parece relacionar-se com o armênio awr, “quente”. Hemera é a personificação do Dia, concebido como divindade feminina, formando com Éter um par, enquanto Érebo e Nix formam o outro.

Na teogonia hesiódica, Hemera foi a deusa primordial do dia. Ela era filha de Érebo (Escuridão) e de Nix (Noite) e irmã de Éter (Luz).

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

Ao anoitecer, sua mãe, Nix, puxa seu véu da escuridão entre a atmosfera brilhante do éter e o ar inferior da terra trazendo a noite para o homem. Ao amanhecer, Hemera dispersa as névoas da noite, banhando a terra de novo com a luzl brilhante do céu, éter.

Nas cosmogonias antigas noite e dia foram considerados substâncias distintas e independentes do sol.

Hemera era identificada com Hera, a rainha do céu, e Eos, a deusa do amanhecer. Hesíodo parece considerá-la como mais de uma substância divina ao invés de deusa antropomórfica. Ela foi, em grande parte, irrelevante na mitologia, com seu papel sendo totalmente subordinado à deusa Eos, a Aurora.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Hemera.html

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Éter

Αἰθῄρ (Aithér), Éter, provém do verbo αἴθειν (aíthein), “queimar, fazer brilhar”. Do ponto de vista da língua grega, aithér é uma criação semi-artificial para servir de contraponto a ἀήρ (aér), “ar”.

Éter é a camada superior do cosmo, posicionado entre Urano (Céu) e o ar e, por isso mesmo, personifica o céu superior, incandescente, onde a luz é mais pura que na camada mais próxima da Terra, dominada pelo ar. Personificado na Teogonia de Hesíodo (116-132), Éter é filho de Nix, a Noite, e irmão de Hemera, o Dia.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Teogonia, vv. 123-25.

Éter é a personificação do brilho do ar superior do céu – a substância da luz. Acima dele encontra-se a abóboda maciça do deus que personifica o céu, Urano, e abaixo, as brumas transparentes do ar ligado à terra. Ao anoitecer, sua mãe, Nix, puxa seu véu da escuridão entre o éter e o ar para trazer a noite ao homem. Ao amanhecer, sua irmã, Hemera, dispersa estas névoas, revelando o éter azul brilhante do dia. Noite e dia foram considerados como independentes do sol nas cosmogonias mais antigas.

Éter foi um dos três “ares”. O ar médio foi Aer ou Khaos, uma névoa incolor que envolveu o mundo mortal. O ar inferior foi Érebo, as névoas da escuridão, que envolveu os lugares sombrios debaixo da terra e do reino dos mortos. O terceiro foi o ar superior de Éter, a névoa de luz, morada dos deuses celestes. Ele envolveu os píncaros das montanhas, as nuvens, as estrelas, o sol e a lua. As próprias estrelas foram ditas como formadas a partir dos fogos concentrados de éter.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

THEOI: http://www.theoi.com/Protogenos/Aither.html

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