Curiosidades

Mito e Mitologia

É necessário deixar bem claro, nesta tentativa de conceituar o mito¹, que o mesmo não tem aqui a conotação usual de fábula, lenda², invenção, ficção, mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as impropriamente denominadas culturas primitivas, onde mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Em outros termos, mito, consoante Mircea Eliade, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípio, illo tempôre, quando, com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser.

Em síntese:

mito

De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra “revelada”, o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, “ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento”. Maurice Leenhardt precisa ainda mais o conceito: “O mito é sentido e vivido antes de ser inteligido e formulado. Mito é a palavra, a imagem, o gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como uma criança, antes de fixar-se como narrativa”.

O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Roland Barthes, o mito não pode, conseqüentemente, “ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma”. Assim, não se há de definir o mito “pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere”.

É bem verdade que a sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia, de mentiras, daí mitomania, mas não é este o sentido que hodiernamente se lhe atribuí.

O mesmo Roland Barthes, aliás, procurou reduzir, embora significativamente, o conceito de mito, apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Uma verdade que esconde outra verdade. Talvez fosse mais exato defini-lo como uma verdade profunda de nossa mente. É que poucos se dão ao trabalho de verificar a verdade que existe no mito, buscando apenas a ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os significantes, isto é, a parte concreta do signo. É mister ir além das aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o sentido profundo.

Talvez se pudesse definir mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung, como a conscientização dos arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas através das quais o inconsciente se manifesta.

Compreende-se por inconsciente coletivo a herança das vivências das gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido.

Arquétipo, do grego arkhétypos, etimologicamente, significa modelo primitivo, idéias inatas. Como conteúdo do inconsciente coletivo foi empregado pela primeira vez por Jung. No mito, esses conteúdos remontam a uma tradição, cuja idade é impossível determinar. Pertencem a um mundo do passado, primitivo, cujas exigências espirituais são semelhantes às que se observam entre culturas primitivas ainda existentes. Normalmente, ou didaticamente, se distinguem dois tipos de imagens:

a) imagens (incluídos os sonhos) de caráter pessoal, que remontam a experiências pessoais esquecidas ou reprimidas, que podem ser explicadas pela anamnese individual;

b) imagens (incluídos os sonhos) de caráter impessoal, que não podem ser incorporados à história individual. Correspondem a certos elementos coletivos: são hereditárias.

A palavra textual de Jung ilustra melhor o que se expôs: “Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre e a priori“.³

Embora se tenha que admitir a importância da tradição e da dispersão por migrações, casos há e muito numerosos em que essas imagens pressupõem uma camada psíquica coletiva: é o inconsciente coletivo. Mas, como este não é verbal, quer dizer, não podendo o inconsciente se manifestar de forma conceitual, verbal, ele o faz através de símbolos. Atente-se para a etimologia de símbolo, do grego sýmbolon, do verbo symbállein, “lançar com”, arremessar ao mesmo tempo, “com-jogar”. De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitiam aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência.

Assim, para se atingir o mito, que se expressa por símbolos, é preciso fazer uma equivalência, uma “con-jugação”, uma “re-união”, porque, se o signo é sempre menor do que o conceito que representa, o símbolo representa sempre mais do que seu significado evidente e imediato.

Em síntese, os mitos são a linguagem imagística dos princípios. “Traduzem” a origem de uma instituição, de um hábito, a lógica de uma gesta, a economia de um encontro.

Na expressão de Goethe, os mitos são as relações permanentes da vida.

Se mito é, pois, uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo, então o que é mitologia?

Se mitologema é a soma dos elementos antigos transmitidos pela tradição e mitema as unidades constitutivas desses elementos, mitologia é o “movimento” desse material: algo de estável e mutável simultaneamente, sujeito, portanto, a transformações. Do ponto de vista etimológico, mitologia é o estudo dos mitos, concebidos como história verdadeira.

 

1. Claro que a palavra mito tem múltiplos significados, mas, como diz Roland Barthes, o que se tenta é definir coisas, não palavras.
2. Mito se distingue de lenda, fábula, alegoria e parábola. Lenda é uma narrativa de cunho, as mais das vezes, edificante, composta para ser lida (provém do latim legenda, o que deve ser lido) ou narrada em público e que tem por alicerce o histórico, embora deformado. Fábula é uma pequena narrativa de caráter puramente imaginário, que visa a transmitir um ensinamento teórico ou moral. Parábola, na definição de Monique Augras, em A Dimensão Simbólica, Petrópolis, Vozes, 1980, “é um mito elaborado de maneira intencional”. Tem, antes do mais, um caráter didático. “Os Evangelhos evidenciam o caráter didático da parábola, que tende a criar um simbolismo para explicar princípios religiosos”, consoante a mesma autora. Alegoria, etimologicamente dizer outra coisa, é uma ficção que representa um objeto para dar ideia de outro ou, mais profundamente, “um processo mental que consiste em simbolizar como ser divino, humano ou animal uma ação ou uma qualidade”.
3. JUNG, CG. Aion — Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha, O.S.B. Petrópolis, Vozes, 1982, p. 6.

 

John Singer Sargent, Atlas and the Hesperides

Atlas e as Hesérides, por John Singer Sargent (1856-1925)

Referência:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Pã e Siringe

PanPã era um deus das montanhas, e sua região favorita era a Arcádia, onde nascera. Filho de Hermes e da ninfa Dríope, Pã nasceu diferente: peludo, com orelhas pontudas, chifres e cascos de bodes. Era protetor dos pastores e caçadores, também gostava de dançar e cantar. Porém, o que mais amava era tocar sua flauta.

Apesar de ser muito bondoso e de não desejar fazer mal algum, Pã era temido e causava terror por onde passava. Também não quis causar nenhum mal a bela ninfa do bosque, Siringe, por quem se apaixonara à primeira vista. Entretanto, ela fugiu em pânico ao se deparar com a figura do deus. Pã saiu atrás dela, numa perseguição que teve um fim imprevisível. Quanto mais ele corria, mais rápido corria a ninfa. Até que Siringe viu se caminho bloqueado pelo caudaloso rio Ládon e, horrorizada, viu que Pã se aproximava velozmente.

Em desespero, pediu que o deus do rio a salvasse e, no momento em que Pã esticava o braço para alcançá-la, Ládon transformou-a em bambu. Desolado com a perda da encantadora donzela, que desaparecera diante de seus olhos, Pã ficou examinando o bambu em suas mãos. Não queria jogá-lo fora. Ouvindo o barulho que o vento fazia ao passar pelo caule oco, teve uma ideia: cortou-o em vários pedaços pequenos, de tamanhos diferentes, e, começando pelo maior, prendeu-os lado a lado com cera. Desse modo, criou um no instrumento musical: a siringe, ou a flauta de Pã, como hoje é conhecida. Assim que soprou entre seus orifícios, ficou encantado com a suavidade do som e nunca mais se separou dela. Pã era um músico extraordinário, superado apenas por Apolo.

Pã e Syrinx, por Nicolas Poussin (1637)

Pã e Sirene, por Nicolas Poussin (1637)

Relata a tradição que perto de Éfeso havia uma gruta, onde o deus depositou a primeira flauta. Com o tempo esta caverna passou a ser o local de atestado de virgindade. A jovem, que se dissesse virgem, passava a residir temporariamente na gruta. Se o fosse, ouviam-se sons maravilhosos provindos lá de dentro. A porta abria sozinha e a moça surgia coroada com folhas de pinheiro. Caso contrário, gritos fúnebres enchiam a caverna e, dias depois, aberta a porta, a perjura havia desaparecido.

Referências:

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Acrísio e Preto: a inimizade entre irmãos

Linceu casou-se com Hipermnestra, tornou-se rei e depois foi sucedido no trono por seu filho Abas, que, por sua vez, teve dois filhos gêmeos: Acrísio e Preto.

A cobiça de Egito fez de Dânao um inimigo mortal. A inimizade entre os dois era tanta que Dânao pediu que suas filhas, as danaides, matassem seus respectivos maridos na noite de núpcias, todos filhos de Egito. Mais tarde, no Hades, as danaides foram castigadas pela eternidade. Entretanto, aqueles que se tornaram célebres pela inimizade entre irmãos foram Acrísio e Preto. Desde pequenos ficaram conhecidos em toda a Grécia por suas disputas intermináveis.

Muitos diziam que a primeira contenda entre os dois aconteceu quando ainda estavam na barriga da mãe! Ela gritava de dor porque eles disputavam quem nasceria primeiro, afinal, este seria o herdeiro do trono.

O mal ficou ainda pior quando os dois cresceram, e isso angustiava demais seus velhos pais. Abas, na hora da morte, a fim de não dar motivo para novas brigas, chamou os filhos e disse que os dois deveriam governar o reino alternadamente: um ano um, um ano outro. O rei, porém, morreu sem ter tempo de dizer qual iria governar primeiro, e uma briga terrível eclodiu ali mesmo, sobre o cadáver do pai.

 Finalmente, Acrísio tomou o reino à força e Preto foi obrigado a se exilar, fugindo para a Lícia, cujo rei, Iobates, não somente o hospedou, como deu-lhe ainda a mão de sua filha, Estenebeia, em casamento. Por fim, obviamente também apoiou o genro em suas reivindicações pelos direitos ao trono de Argos. Deste modo, não passou muito tempo e Preto retornou à terra natal com um exército fornecido pelo sogro, a fim de reclamar junto ao irmão o reino do pai.

Acrísio recusou, e uma grande batalha teve início do lado de fora das muralhas de Argos. Como nenhum dos dois saiu vencedor, acertaram que Preto tomaria para si a vizinha Tirinto e Acrísio manteria Argos sob seu domínio.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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A descensão de Áugias

No episódio do sexto trabalho, Héracles limpou os estábulos do rei Áugias e foi pago com ingratidão e insolência. O herói foi exitado de Élis, mas prometeu voltar e fazer com que o rei pagasse caro pelos truques sujos usados. Ele não o fez pagar naquela hora, pois não era o momento propício para isso. O herói tinha que realizar outros grandes trabalhos por desígnio dos deuses para obter sua redenção. “Não me esquecerei, pode ter certeza”, disse para Áugias e partiu para Micenas.

E não se esqueceu. Quando todos os doze trabalhos haviam sido realizados, Héracles voltou a Élis com um exército. Combateu Áugias, matando-o ao final, e fez de Fileu o novo rei. Héracles não quis ficar com o gado que lhe era devido e Fileu ofereceu-lhe uma faixa de terra perto do rio Peneu. Lá, Héracles construiu um templo para Zeus Olímpio e um grande estádio, cujo tamanho, dizia o povo, fora medido com seus próprios passos largos. Deu o nome de Olímpia ao lugar e ali realizou os primeiros jogos olímpicos.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Centauros

Centaur wielding rock, attic bilingual, 520BC, Toledo Museum of Art, Ohio, USA

Centauro erguendo uma pedra, 520 a.C., Museu de Arte de Toledo, Ohio, EUA.

Κένταυροι (Kéntaroi), Centauro, é um termo de etimologia ignorada. Como os centauros são nubigenae, “filhos da nuvem”, tentou-se decompor a palavra em κεντ- (kent-) do verbo κεντεῖν (kenteîn), “picar, furar, ferir” e αὒρα, “ar”, o que se constitui numa etimologia meramente hipotética.

O ingrato Íxion tentou violentar a deusa Hera. Zeus, para punir-lhe o sacrilégio, confeccionou um eídolon da esposa sob forma de nuvem, que, imediatamente, o rei dos lápitas envolveu em seus braços. Dessa união nasceu um monstro, o Centauro. Este, na versão do condor de Tebas, unindo-se a éguas da Magnésia, nos sopés do monte Pélion, deu origem aos Centauros. Segundo outras fontes, talvez mais antigas, todos os centauros, exceto Folos e Quíron, eram filhos de Íxion e de Nefele, o eídolon de Hera. Concebidos como seres monstruosos, selvagens e bestiais, tinham o busto de homem, mas do busto para baixo eram cavalos perfeitos. Violentos, sanguinários e luxuriosos, habitavam montanhas e florestas da Tessália e os arredores dos montes Ossa e Pélion, alimentando-se de carne crua.

Essas criaturas brutais e violentas, estavam quase sempre ébrias. Um ou outro centauro aparece isoladamente no mito, mas sempre com a mesma atitude: raptar ou violentar noivas e mulheres alheias. O episódio mais famoso dos centauros é o das núpcias de Pirítoo. Este também era filho de Íxion, o que fazia dos centauros seus meio-irmãos. Um deles, no dia do casamento, inteiramente embriagado, quis violentar Hipodâmia, a jovem noiva. Pirítoo e Teseu, numa luta terrível que então se travou, ajudados por seus companheiros, mataram quase todos os centauros, que foram, finalmente, massacrados por Héracles.

Quíron, também centauro, não pertencia à raça dos demais, fruto dos amores de Íxion com uma Nuvem (à qual Zeus dera a forma de Hera, a fim de iludir os desejos criminosos desse rei tessálio, que, mais tarde, foi condenado no Hades ao suplício da roda), mas era filho de Chronos e da ninfa Fílira. A respeito do nascimento desse centauro há duas versões: uma diz que ele se transformou em cavalo para possuir a formosa ninfa; outra diz que, surpreendidos ambos no momento em que enlaçados gozavam o prazer do amor, Chronos, assustado, não completou o ato e saiu galopando já transformado em cavalo, deixando, contudo, a ninfa grávida.

Outro centauro que não pertencia a genealogia dos filhos de Íxion era Folos, filho de Sileno e de uma Melíade, ninfa dos freixos. Quíron tornou-se amigo e protetor de Peleu, a quem salvou a vida, e educou Aquiles, Jasão e Asclépio, ensinando-lhes a virtude, a música e a medicina. Folos, está intimamente ligado às lendas de Héracles. Quando este cercava o javali de Erimanto, hospedou-se na gruta do bondoso Folos, ao qual Dioniso havia dado um odre de capitoso vinho, com a recomendação de abri-lo somente quando Héracles estivesse presente. Depois da refeição, Folos abriu o obre de vinho e puseram-se a beber. O perfume atraiu um bando de centauros, armados de brandões, e de árvores inteiras. Travou-se uma terrível luta e Héracles matou vários centauros; Folos, porém, feriu-se acidentalmente com as flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna, o que causou sua morte.

Modern bronze copy of the type of the Young Centaur, Malmaison

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix,1974.

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O pomo da discórdia

Nas núpcias de Peleu e Tétis, Éris, a deusa que personifica a discórdia, fora a única divindade não convidada. Para vingar-se, a divindade malfazeja lançou um pomo de ouro entre as deusas Hera, Atena e Afrodite, com a seguinte inscrição: “à mais bela”. Cada uma das deusas considerava que a maçã lhe pertencia e aferraram-se numa discussão. Para não se envolver na questão, Zeus determinou que o pastor Páris, filho de Príamo, julgaria qual das três deveria ficar com o pomo.

Pomo da discórdia

Éris lançando o pomo

As deusas, conduzidas por Hermes, apresentaram-se diante de Páris e cada uma lhe prometeu algum dom. Hera prometeu torná-lo o soberano da Europa e da Ásia. Atena prometeu torná-lo invencível nos combates, e Afrodite prometeu-lhe Helena, a mais bela de todas as mulheres. Páris, então, entregou o pomo a Afrodite. Essa escolha está na origem da Guerra de Troia, pois, para cumprir a promessa, Afrodite despertou uma paixão irresistível em Helena e esta, na ausência de seu esposo Menelau, acabou partindo com Páris para Troia. Quando Menelau retornou, convocou todos os chefes gregos a uma expedição contra Páris e os troianos.

Julgamento de Páris (1904) Enrique Simonet.

Julgamento de Páris, Enrique Simonet (1904)

Referências:

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix, 1974.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Quíron

Quíron e Aquiles, ânfora ática ~520a.C, Museu do Louvre, França.

Quíron e Aquiles, ânfora ática (~520a.C.), Museu do Louvre, França.

Quíron, em grego Χείρων (Kheíron), nome que é, possivelmente, uma abreviatura de χειρουργός (kheirourgós), “que trabalha ou age com as mãos”, cirurgião, pois esse centauro foi um grande médico, que sabia muito bem compreender seus pacientes, por ser um médico ferido.

Filho de Chronos e Fílira, pertencia à geração divina dos Olímpicos. Pelo fato de Chronos ter-se unido a Fílira sob a forma de um cavalo, o Centauro possuía dupla natureza: equina e humana. Fílira era filha do Oceano e fora seduzida por Chronos. Um dia, estavam ambos terminando o ato amoroso, quando foram surpreendidos por Reia, esposa do mesmo. Este, imediatamente, fugiu sobre a forma de cavalo. Fílira, cheia de vergonha, escondeu-se nas florestas da montanha, onde, passado o tempo, deu à luz um Centauro, o famoso Quíron. À vista do monstro que dela nascera, metade homem, metade cavalo, experimentou a mãe tamanha dor, que suplicou aos deuses que dela se apiedassem e a metamorfosearam. Os imortais atenderam-na e foi transformada em tília, árvore em Grego chamada φιλύρα.

Quíron passou a sua primeira juventude nas florestas e nas montanhas. Vivia numa gruta, situada ao pé do monte Pélion, e era um gênio benfazejo, amigo dos homens. Tornou-se amigo de Ártemis e com ela costumava caçar, indicando-lhe os lugares onde se acolhiam os animais que a deusa desejava matar. Ao contrário dos demais Centauros, possuía uma inteligência brilhante, e o convício com Ártemis trouxe-lhe grandes vantagens. Com ela aprendeu o conhecimentos dos símplices e das estrelas. Sábio, ensinava música, a arte da guerra e da caça, a moral, a astronomia, mas sobretudo medicina. Foi o grande educador de heróis, entre outros, de Jasão, Héracles, Peleu, Teseu, Aquiles e Asclépio.

Centaur. The cenataur Chiron with the goddess Diana-Artmeis holding twoe plants of the genus Artemisia. Bodleian Library, MS. Ashmole 1462, Folio 18r.

Quíron e Ártemis

Na guerra que Héracles moveu contra os centauros, Quíron, que estava do lado do herói e era seu amigo, foi acidentalmente ferido, na perna, por uma flecha envenenada, a qual o filho de Alcmena, ao realizar o segundo trabalho, embebera no veneno da Hidra de Lerna. O Centauro aplicou unguentos sobre o ferimento, mas era incurável. Recolhido à sua gruta, Quíron desejou morrer, mas nem isso conseguiu, porque era imortal. O infeliz, passou anos de agonia sofrendo dores intoleráveis, pediu a Zeus que desse término ao suplício abreviando-lhe os dias. Zeus atendeu a súplica do centauro, mas não deixou que o deus da morte o levasse para as profundezas do inferno. Conta-se que Quíron subiu ao Céu sob a forma da constelação de Sagitário, uma vez que a flecha, em latim sagitta, a que se assimila o Sagitário, estabelece a síntese dinâmica do homem, voando através do conhecimento para sua transformação, de ser animal em ser espiritual. Quíron passou à posterioridade com a alcunha de “o Sábio”.

Conforme outra versão, quando o Centauro examinava as flechas de Héracles, por acaso uma escapou-lhe das mãos e veio a feri-lo no pé. Todos os remédios foram impotentes para acalmar-lhe a dor. Dotado pelos deuses com o dom da imortalidade, não podia morrer; pediu e obteve que sua imortalidade fosse dada a Prometeu.

Há ainda outra versão. Segundo Plínio, o centauro Quíron curou-se da ferida com a planta depois chamada de centáurea.

Bronze Kheiron, the immortal son of the Titan Kronos and a half-brother of Zeus. Kheiron mentored many of the great heroes, including Jason and Akhilleus - Constellation Sagittarius.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.2. Petrópolis: Vozes, 2009.

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix,1974.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O destino das danaides

Linceu e Hipermnestra casaram-se e foram felizes no amor. Esta foi a única filha de Dânao que descumprira a sua ordem e não cometeu o terrível crime. Quanto às outras danaides, Zeus ordenou a Atenas e Hermes que as purificassem de seu crime. Depois, Dânao organizou competições atléticas na qual os vencedores se casariam com as suas filhas. As competições prosseguiram até todas estarem casadas. Com as cinquenta filhas casadas, a linhagem de Dânao tornou-se tão numerosa que, a certa altura, todos os habitantes da Grécia passaram a ser chamados de dânaos.

Muito embora as danaides tivessem sido perdoadas pelos deuses e pelos homens, não escaparam à austeridade dos juízes do Hades. Após a morte, foram condenadas a um árduo trabalho interminável: deviam encher de água um grande tonel de barro sem fundo. Por incontáveis séculos, as danaides foram escravizadas no mundo ínfero, por causa do crime terrível (matar o marido à sangue frio). Desde então, o tonel que nunca se enche ficou conhecido como “o tonel as danaides”, expressão ainda hoje usada.

Danaides_by_John_William_Waterhouse,_1903

Danaides, por John William Waterhouse (1903)

Referência: STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Linceu e Hipermnestra

Dânao havia ordenado que as suas cinquenta filhas matassem seus maridos, os cinquenta filhos de Egito, na noite de núpcias. Dânao e Egito eram irmãos, porém nunca se entenderam. Os casamentos vieram de um acordo, que não agradava o pai das noivas. Os cinquenta filhos de Egito ameaçaram destruir Argos caso o matrimônio não se realizasse. Dânao não teve escolha, mas arquitetou um plano cruento para dar fim a essa ameaça. Então as núpcias se deram com toda a pompa, como queriam os filhos de Egito. Sequer desconfiavam que assombroso destino os aguardava.

Com o cair da noite, a festa terminou. Cada casal se dirigiu aos seus aposentos e, conforme o planejado, os moços foram sucumbindo, um a um, em seus leitos nupciais. No entanto, num dos quartos, Linceu, o mais belo dos filhos de Egito, não parecia ter pressa em deitar-se ao lado da esposa. Quando Hipermnestra, a formosa danaide, chamou-o para junto de si, procurando dissimuladamente o punhal sob o travesseiro, o jovem disse que não concordava com o que aconteceu. Não era certo um casamento ser regido sob a ameaça de armas, prosseguiu ele. Por fim, disse que, embora a beleza da jovem o tivesse encantado, jamais se deitaria à força com uma mulher que não o quer como marido. Dizendo isso, pegou uma coberta, e deitou sobre ela num canto do quarto e adormeceu.

Hipermnestra não conseguira pregar o olho. As palavras nobres de Linceu acalentou o ódio em seu coração, o amor se aninhou. Ela passou a noite em claro com medo que as irmãs descobrissem e viessem matar o jovem. As irmãs insensíveis, porém, após o crime, dormiam profundamente com a sensação de dever cumprido. Antes de raiar o dia, Hipermnestra acordou Linceu, contou-lhe tudo e o ajudou a fugir do palácio.

Pela manhã, quando Dânao descobriu que a filha não havia cumprido sua tarefa, ficou ensandecido. Agrilhou-a numa cela e, no dia seguinte, requiriu no tribunal a sua condenação à morte. Todos estavam contra ela: pai, irmãs, juízes e os que acompanhavam o julgamento. Desobedecer às ordens do pai era a maior infração às regras sagradas desde o início dos tempos.

Contudo, quando a sentença de morte ia ser proferida, a própria Afrodite apresentou-se diante do tribunal e disse:

– Mas o que vão fazer? – gritou. – Pode ser que estejam certos quanto à obediência que os filhos devem aos pais, mas existe uma força ainda maior. É a força universal do amor! Lembrem-se do primeiro casal do mundo: o grande Urano e a belíssima Gaia. Atente para o exemplo que nos dão: Gaia anseia por amor e Urano inunda a terra com a chuva que fertiliza. Gaia dá frutos, faz crescer as plantas e os animais, sem os quais os homens não poderiam viver. Olhem bem todos vocês, prestes a condenar uma moça que amou. Vocês só existe porque há amor. Se esse sentimento desaparecesse, toda a beleza do mundo se extinguiria!

Após ouvirem essas palavras aladas, todos que estavam ali presente, quem antes a consideravam culpada, concordaram com a inocência da bela danaide. Depois de liberta, encontrou vestígios de que Linceu estava a salvo. Toda a cidade festejou o triunfo desse amor.

Tempos depois, com a morte de Dânao, Linceu tornou-se rei. Graças a sua salvação é que tivemos a linhagem que trouxe ao mundo Perseu, e mais tarde, Hércules.

Hypermnestra, daughter of Danaus.

Hipermnestra, Biblioteca National da França

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Héracles e a morte de Lino

Anfítrion cuidava mais de Héracles que do próprio filho. Desde cedo, o filho de Alcmena contou com o ensino dos maiores sábios, artistas famosos e lutadores famosos. O herói aprendeu a ler e escrever, estudou literatura, filosofia, astronomia, música e canto. Lino, filho de Apolo e da musa Urânia, era o encarregado de ensinar música ao jovem.

Apesar de jovem, Héracles nunca usou sua força para causar danos arbitrários a terceiros, contudo não se submetia ao abuso ou maus tratos de quem quer que fosse. Quem provocava sua ira implacável, sofria consequências temíveis – foi o que aconteceu com Lino.

Héracles gosta de música tanto quanto de todas as demais coisas que aprendia, mas, quando começou a aprender lira, teve sérias dificuldades. Com seus dedos grossos e fortes ele sempre acabava arrebentando as cordas; seu professor, Lino, ficava desesperado, praguejava contra deuses e demônios. Por mais que Héracles se esforçasse, não conseguia melhorar, e, certo dia, na execução de um exercício difícil, arrebentou todas as cordas de uma só vez. Para Lino aquilo foi a gota d’água. Perdeu a paciência e, ensandecido, começou a bater no seu pupilo como se quisesse matá-lo. Não suportando mais a aula nem o professor, Héracles arremessou a lira na cabeça do mestre com uma força incontrolável; o instrumento atingiu violentamente Lino, que caiu morto.

O jovem Héracles foi levado ao tribunal e os juízes acusavam-no de ter cometido um crime terrível e injustificável. No entanto, o herói era capaz de se defender, pois tinha recebido vários ensinamentos, inclusive sobre política. Então ele explicou que não teve a intenção de matar seu professor e citou uma lei decretada pelo maior legislador da Grécia, Radamanto: aquele que é atacado tem o direito de retaliar. Os juízes não tiveram mais o que dizer e declaram Héracles inocente.

Palaistra_scene_Louvre_G457

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Pensamentos Flutuantes

Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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