Criaturas

Nesso

Ânfora de Nesso, entre 625 e 600 a. C. , Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

Ânfora de Nesso (~625-600 a.C.), Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

Νέσσος (Néssos), Nesso, poderia originar-se da raiz nek, “morrer”, através de nek-ios, “cadáver”, já que o corpo do Centauro, lançado por Héracles no rio Eveno, lhe poluíra as águas.

Como os demais centauros, Nesso era filho de Íxion e de Néfele, a “Nuvem”.

Participou da luta de seus irmãos contra Héracles, que estava hospedado na casa do pacífico Folos, que apesar de centauro, era de uma outra genealogia. Derrotados e perseguidos pelo herói, os filhos de Íxion tomaram direções várias, tendo Nesso se refugiado junto ao rio Eveno, onde passou a exercer o ofício de barqueiro.

Após o assassinato involuntário do copeiro Êunomo, Héracles deixou Cálidon com sua esposa Dejanira e com o filho Hilo, ainda muito jovem, e dirigiu-se para Tráquis, tendo para tanto que atravessar o rio Eveno. Apresentando-se o herói com a família, primeiramente o lascivo Centauro o conduziu para a outra margem (ou, segundo uma versão diferente, o filho de Alcmena atravessara o rio a nado) e, em seguida, voltou para buscar Dejanira. No meio do trajeto, como se recordasse da derrota que sofrera e da perseguição de que fora vítima, tentou, para vingar-se, violentar a esposa do herói, que, desesperada, gritou por socorro. Héracles aguardou tranquilamente que o barqueiro alcançasse terra firme e varou-lhe o coração com flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna.

Nesso, já expirando, entregou a Dejanira sua túnica manchada com o sangue venenoso da Hidra, segundo outra versão, ele convenceu Dejanira a coletar seu sangue com um frasco. Explicou-lhe que a indumentária seria para ela um precioso talismã, um filtro poderoso, com a força e a virtude de restituir-lhe o esposo, se por ventura este, algum dia, tentasse abandoná-la.

Mais tarde, após a vitória sobre Êurito, como o herói desejasse erguer um altar a seu pai Zeus, mandou seu companheiro Licas pedir à esposa que lhe enviasse uma túnica ainda não usada, como era de praxe em consagrações e sacrifícios solenes.

Admoestada pelo indiscreto servido do marido de que este certamente a esqueceria, por estar apaixonado por Íole, filha de Êurito, Dejanira lembrou-se do “filtro amoroso”, ensinado por Nesso e mandou ao esposo a túnica envenenada. Ao vesti-la, a peçonha infiltrou-se-lhe no corpo. Tentou arrancá-la, mas a indumentária fatídica se achava de tal modo aderente às suas carnes, que estas lhe saíram aos pedaços. Alucinado de dor, escalou o monte Era e lançou-se sobre uma fogueira perecendo carbonizado. Uma tradição diferente conta que o herói suplicou para que um de seus companheiros atirasse uma flecha na fogueira pondo-lhe fogo e que Filoctetes aceitou a tarefa em troca das flechas envenenadas com o sangue da Hidra. Héracles pereceu como mortal, mas Zeus apiedou-se de seu filho e cedeu-lhe lugar dentre os deuses.

Heracles and Nessus by Giambologna, (1599), Florence. 2

Héracles e Nesso, por Giambologna (1599).

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Grifo

Apollon riding Gryps. Attic Red Figure, Kylix, ca 380 BC. Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.

Apolo montando o Grifo. Vaso ático em figura vermelha (~380 a.C.). Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Γρύψ (Grýps), Grifo, sempre esteve associado pelos gregos ao adjetivo γρύπος (grypós), “curvo, recurvo, arqueado”. Em princípio, grypós aplica-se a um “nariz aquilino”, mas também a unhas em forma de garras e a bicos “recurvados”, donde Grifo é “o que apresenta bico adunco e garras como as do leão”.

Como os Grifos tinham papel saliente na decoração (possivelmente de procedência oriental), desde a época micênica, postula-se para o termo grego um empréstimo talvez ao acádico karubu, “grifo, querubim”. Uma aproximação com o anglo-saxão crumb e com o antigo alemão krump, “curvo” é perfeitamente viável. O alemão atual, para designar “torto, encurvado, dobrado”, emprega a forma krumm.

Os Grifos são pássaros fabulosos, de bico adunco, asas enormes e corpo de leão. Consagrados a Apolo, guardavam-lhe os tesouros contra as investidas dos arimaspos, no deserto da Cítia. Alguns mitógrafos fazem-nos provir da Etiópia ou mesmo da Índia. Estava associados também a Dioniso, por lhe vigiarem dia e noite a cratera cheia de vinho.

Tradições mais recentes dão conta da feroz oposição dos Grifos aos garimpeiros que buscavam ouro nos desertos do norte da Índia. A luta dos violentos “pássaros de Apolo” se explica diversamente: ou porque estavam encarregados por algum deus da guarda do metal ou porque, fazendo seus ninhos nas montanhas, de onde era extraído o ouro, queriam proteger os filhotes contra todo e qualquer depredador.

Ésquilo, em sua tragédia Prometeu Acorrentado, pelos lábios de Prometeu, faz várias advertências, entre as quais o perigo que representam esses pássaros, cuja missão mais importante é “guardar o ouro”:

– Cuidado com os Grifos, esses cães de Zeus, que não ladram.
Em lugar de focinhos, possuem bicos alongados.

Griffin, Der Naturen Bloeme

Grifo. Imagem retirada do manuscrito Der Naturen Bloeme (A flor da Natureza), 1530, Biblioteca Nacional da Holanda.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Equidna

Ἔχιδνα (Ékhidna), Equidna, é um derivado de ἔχις (ékhis), “víbora, serpente”, que, etimologicamente, está bem próximo de όφις (óphis), “serpente”.

Echidna

Ela pariu outro incombatível prodígio nem par
a homens mortais nem a Deuses imortais
numa gruta cava: divina Víbora de ânimo cruel,
semininfa de olhos vivos e belas faces
e prodigiosa semi-serpente terrível e enorme,
cambiante carnívoro sob covil na divina terra
Aí sua gruta lá embaixo está sob côncava pedra
longe dos Deuses imortais e dos homens mortais,
aí lhe deram os Deuses habitar ínclito palácio.
Em Árimos sob o chão reteve-se a lúgubre Víbora
ninfa imortal e sem velhice para sempre.
Teogonia, vv. 295-305.

Equidna, segundo Hesíodo, era filha de Crisaor e Calírroe. Em outras variantes, seus pais são Fórcis e Ceto ou ainda Tártaro e Gaia. Equidna, a víbora, era concebida como mulher até a cintura e daí para baixo como serpente. Seu habitat era uma caverna da Cilícia ou o Peloponeso, onde foi morta por Argos de Cem-Olhos, pelo fato de o monstro devorar os transeuntes. Extremamente fértil, uniu-se a Tífon, monstro horrendo e foi mãe de outros tantos: Ortro, Cérbero, Hidra de Lerna, Quimera, Fix e Leão de Nemeia. Uma variante atribui-lhe igualmente como filhos o dragão da Cólquida, que, no bosque de Ares, guardava o Velocino de Ouro, bem como aquele outro temível que vigiava os pomos de ouro no Jardim das Hespérides.

Segundo ainda uma versão muito antiga, Equidna, tendo-se unido incestuosamente a seu filho Ortro, foi mãe da Fix, isto é, da Esfinge. Na perspectiva analítica do incesto, C. G. Jung retratou Equidna como imagem da mãe: “Bela e jovem mulher até a cintura, mas a partir daí uma serpente horrenda. Este ser duplo corresponde à imagem da mãe: na parte superior, a metade humana, bela e sedutora; na inferior, a metade animal, medonha, que a defesa incestuosa transforma em animal angustiante. Seus filhos são monstros, como Ortro, o cão de Gérion, aos quais Héracles matou. Foi com este cão, seu filho, que em união incestuosa, Equidna gerou a Esfinge. Este material é suficiente para caracterizar a soma de Libido que produziu o símbolo da Esfinge.”

Equidna traduz a prostituta apocalíptica, a libido que queima a carna e a devora. Mãe do abutre que roeu as entranhas de Prometeu, é ainda o fogo do inferno, o desejo excitado e sempre insaciável. É a Sereia devoradora, de cuja sedução Odisseu soube fugir.

Equidna (2)

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

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Ciclopes

Cyclops mask, Siracusa Italy

Máscara de Ciclope, Siracusa, Itália.

Kύκλωψ (Kýklops), Ciclope, é um composto de κύκλος (kýklos) “círculo, o que é redondo” e de ὤψ (óps), acus. ὦπα (ôpa), “olho”, donde “o que tem um grande olho redondo”.

Os poetas e mitógrafos distinguem três espécies de Ciclopes: os Urânios, filhos de Urano e Gaia; os Sicilianos, companheiros do gigantesco e antropófago Polifemo, e os Construtores.

Os primeiros, Brontes, Estérope ou Astérope e Arges, cujos nomes lembram respectivamente o trovão, o relâmpago e o raio, são os urânios. Encadeados pelo pai, foram, a pedido de Gaia, libertados por Crono, mas por pouco tempo.

Temendo-os, o mutilador de Urano lançou-os novamente no Tártaro, até que, advertido por um Oráculo de Gaia de que não poderia vencer os Titãs, sem o concurso dos Ciclopes, Zeus os libertou definitivamente. Estes, agradecidos, deram-lhe o trovão, o relâmpago e o raio.

A Hades ou Plutão ofereceram um capacete, que o tornava invisível e a Posídon, o tridente. Armas tão poderosas foram definitivas na grande vitória de Zeus sobre os Titãs. A partir de então tornaram-se os artífices dos raios de Zeus.

Como o médico Asclépio, filho de Apolo, fizesse tais progressos em sua arte, que chegou mesmo a ressuscitar vários mortos, Zeus temendo que a ordem do mundo fosse transformada e que Hades se empobrecesse por falta de novas almas, fulminou-o para grande regozijo de Plutão.

Não podendo vingar-se do pais dos deuses e dos homens, Apolo matou os Ciclopes a flechadas, os quais, nesta versão do mito, aparecem como seres mortais e não como deuses.

Polyphemus, by Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, 1802 (Landesmuseum Oldenburg)

Polifemo (1802), por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, Landesmuseum Oldenburg, Alemanha.

O segundo grupo de Ciclopes, impropriamente denominados Sicilianos, tendem-se a confundir-se com aquele de que fala Homero na Odisseia. Estes eram selvagens, de altura desmedida e antropófagos. Viviam perto de Nápoles, nos denominados campos de Flegra. Moravam em cavernas e os únicos bens que possuíam eram rebanhos.

Dentre esses monstros “mais altos que os píncaros das árvores que se divisam ao longe”, como diz Homero, destaca-se Polifemo, imortalizado pelo bardo de Quios, no canto IX da Odisseia, retomado, na época clássica (séc. V a.C.), pelo drama satírico de Eurípides, o Ciclope. Virgílio (séc. I a.C.), ressuscitou meio palidamente a Polifemo na monumental Eneida.

Na poesia da época alexandrina (fins do séc. IV-I a.C.), os Ciclopes homéricos transmutaram-se em demônios subalternos, ferreiros e artífices de todas as armas dos deuses, de raios a flechas, mas sempre sob a direção de Hefesto o deus das forjas por excelência. Habitavam a Sicília, onde possuíam uma oficina subterrânea, por vezes localizada nas entranhas do Etna. De antropófagos, transformaram-se na erudita poesia alexandrina em frágeis seres humanos, mordidos por Eros.

No Idílio VI de Teócrito, Polifemo extravasa sua paixão incontida pela branca Galateia. O rude gigante Adamastor camoneano, perdido de amores por Tétis, é uma volta às raízes…

A terceira leva de Ciclopes proviria da Lícia. A eles era atribuída a construção de grandes monumentos da época pré-histórica, formados por gigantescos blocos de pedra, cujo transporte desafiava as forças humanas. Ciclopes pacíficos colocaram-se a serviço de grandes heróis, como Preto, na fortificação de Tirinto e Perseu, no soerguimento da inexpugnável fortaleza de Micenas.

Cyclopes at the forge of Hephaestus, Roman fresco from Pompeii C1st A.D., Archaeological Museum of Naples, Italy

Ciclopes na forja de Hefesto. Fresco romano de Pompeii séc. I d.C., Museu Arqueológico de Nápoles, Itália.

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

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Ceto

Herakles and Ketos, Krater, Fine Arts Museum, Bosto, Massachusetts, USA

Héracles e Ceto, cratera, Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, EUA.

Κῆτος (Kêtos), Ceto, “monstro marinho”, baleia, crocodilo, hipopótamo. Diga-se de passagem, que o latim cetus é mera transliteração do grego κῆτος (kêtos), “ceto” e, através de seus derivados, as formas vernáculas “cetáceo, cetodonte, cetogênio, cetografia, cetologia, cetina”. Ceto designa igualmente a constelação da Baleia. Cetus também é identificado com Tiamat, a serpente da antiga mitologia assíria e babilônica.

O monstro marinho enviado por Posídon para assolar a Etiópia depois de a rainha Cassiopeia ter se gabado de sua beleza com as Nereidas. O oráculo de Amon disse que apenas o sacrifício de Andrômeda a Ceto poderia salvar a terra, e por isso a infeliz princesa foi acorrentada nua a rochas próximas ao mar.

Perseu a viu e, após ter feito um acordo com os pais de Andrômeda para obter sua mão em casamento, a salvou. Ele usou os apetrechos concedidos pelas ninfas estígias (as sandálias aladas e o capacete de Hades) para derrotar o monstro. Segundo outra versão, ele sobrevoou o monstro montado em Pégaso e usou a recém decepada cabeça da górgona Medusa para petrificar Ceto.

Herakles and Ketos, hydrian, ca 530-520BC, at Stavros S Niarchos Collection, Athens, Greece.

Héracles e Ceto, hídria (530-520a.C.), Stavros S Niarchos Collection, Atenas, Grécia.

Além do Ceto enviado a Etiópia, conta-se também que um monstro marinho, igualmente enviado por Posídon, assolou a cidade de Troia como punição pela recusa do rei Laomedonte a pagar-lhe para a construção de muros de fortificação da cidade. Troia tinha a impenetrável muralha graças aos deuses Apolo e Posídon, mas quando trabalho dos deuses estava feito, Laomedonte recusou-se pagar o que havia prometido. Apolo fez uma praga tomar conta da cidade, enquanto Posídon enviou para sua costa um monstro do mar, que devorava quem quer que se aproximasse das praias. Vendo que suas tribulações não tinham fim, os troianos, desesperados, consultaram o oráculo para saber como se livrar dos desastres que se abatiam sobre eles. Um oráculo declarou que a única maneira de se livrar da besta era oferecer a filha do rei como sacrifício. Laomedonte amava sua filha, mas foi obrigado pelo povo a ceder. A jovem Hesíone foi aprisionada às rochas, onde ela foi resgatada por Héracles que despachou a fera com um anzol ou saraivada de flechas.

by Sidney Hall -Urania's Mirror -Cetus (1825)

Constelação de Ceto (1825), por Sidney Hall.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Greco-roman mythology. California, 1998.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Javali de Erimanto

Herakles brings Eurytheus the Erymanthian boar. Attic black-figured amphora, ca. 550 BC. From Vulci. At British Museum, London.

Héracles, Euristeu e o Javali de Erimanto. Ânfora ática (~550a.C.), Museu Britânico, Londres.

Ὑς Ερυμανθιος (Hus Erymanthios), Javali de Erimanto, era um animal feroz que sempre descia a montanha arruinando as plantações, aterrorizando e destruindo tudo que encontrava pelo seu caminho. Tinha esse nome porque viveu na famosa Erimanto, uma escura montanha na Arcádia.

Ele era um monstro antropófago, podia causar abalos sísmicos e, com suas presas, era capaz de arrancar pela raiz uma árvore corpulenta e dilacerar homens ou animais que se interpusessem em seu caminho.

Héracles foi enviado para capturá-lo como um de seus Doze Trabalhos. Designado pelo mesquinho rei Euristeu, o herói, em seu quarto trabalho, deveria levar o javali vivo para Micenas. Depois de perseguir o javali através da neve espessa que encobria o monte Erimanto no inverno, o animal fatigado foi capturado e levado até Euristeu. O rei, aterrorizado com a visão do javali mortal, pulou dentro de um jarro para manter-se seguro.

Javali1.1

Euristeu aterrorizado dentro do vaso de barro

O simbolismo do javali está diretamente relacionado com a tradição hiperbórea, com aquele nostálgico paraíso perdido, onde se localizaria a Ilha dos Bem-Aventurados. Nesse enfoque o javali configuraria o poder espiritual, em contraposição com o urso, símbolo de poder temporal. Assim concebida, a simbólica do javali estaria relacionada com o retiro solitário do druida nas florestas: nutre-se da glande do carvalho, árvore sagrada, e a javalina com seus nove filhotes escava a terra em torno da macieira, a árvore da imortalidade.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Pégaso

Pegasus at the spring, Apulian red-figure vase C4th B.C., Tampa Museum of Art

Pégaso na primavera, vaso apúlio em pintura vermalha séc. IV a.C, Tampa Museum of Art, Flórida, EUA.

Πήγασος (Pégasos), Pégaso, deriva de πηγή (pégue), “fonte”, pelo fato de Pégaso ter feito nascer a fonte Hipocrene (fonte do cavalo), ferindo violentamente o monte Hélicon com uma patada. Talvez o nome do famoso cavalo prenda-se a πηγóς (pegós), “forte, sólido”.

Pégaso passa por ser filho de Posídon e de Medusa, ou da própria terra, fecundada pelo sangue da górgona. Conta-se que Perseu, a mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, grávida de Posídon, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso, ou, segundo uma variante, conforme se viu, este teria nascido de Gaia, “a terra”, fecundada pelo sangue da górgona.

Após relevantes serviços prestados a Perseu, o ginete divino voou para o Olimpo, onde se colocou a serviço de Zeus.

Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
tem este nome porque ao pé das águas do Oceano
nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos,
voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos
e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus,
portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio.
Teogonia, vv. 280-286.

A respeito da maneira como Pégaso desceu para ajudar Belerofonte, as tradições variam: Atena e Posídon o teriam levado ao herói ou este, por inspiração de Atena, o encontrara junto à fonte Pirene. Foi graças o ginete divino que Belerofonte pôde executar duas das grandes tarefas que lhe impusera Iobates: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Após a morte trágica do herói, Pégaso retornou para junto dos deuses.

BellerophonFightsChimera

Belerofonte cavalgando Pégaso e enfrentando a Quimera. Medalhão central de um mosaico romano restaurado encontrado em 1830, Museu Rodin, Paris.

No grande concurso de cantos entre as Piérides e as Musas, o monte Hélicon, sede do certame, se envaideceu e se enfunou tanto de prazer, que ameaçou atingir o Olimpo. Posídon ordenou a Pégaso que desse uma patada no monte, a fim de que ele voltasse às dimensões normais e guardasse “seus limites”. Hélicon obedeceu, mas, no local atingido por Pégaso, brotou uma fonte, Hipocrene, a Fonte do cavalo.

Pégaso, cavalo alado, está sempre relacionado com  a água, daí sua etimologia popular, como proveniente de pegué, fonte. Filho de Posídon e Medusa, teria nascido junto às fontes do Oceano. Belerofonte o encontrou bebendo na fonte Pirene. Com uma só patada fez brotar a Hipocrene, fonte do cavalo. Está também ligado às tempestades, por isso que é o “portador do trovão e do raio por conta do prudente Zeus”. Pégaso é, por conseguinte, uma fonte alada: fecundidade e elevação. O simples cavalo figura tradicionalmente a impetuosidade dos desejos. Quando o ser humano faz corpo com o cavalo, torna-se um monstro, como o Centauro, imaginação criadora sublimada e sua elevação real.

Birth_Of_Pegasus_by_LindaLisa

O nascimento de Pégaso por LindaLisa via Deviantart.

Com efeito, foi cavalgando Pégaso que Belerofonte matou a Quimera. Temos aí os dois sentidos da fonte e das asas: a fecundidade e a criatividade espiritual. É que, como dizia o poeta latino, alis grave nil, para os que têm ideal, as dificuldades não pesam tanto: nada é pesado quando se tem asas… Não é em vão que Pégaso se tornou o símbolo da inspiração poética.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Quimera

Chimera. Apulian red-figure dish, ca. 350-340 BC, Louvre Museum III.jpg

Quimera, representação em um prato (~350-340a.C.), Museu do Louvre, Paris.

Χίμαιρα (Khímaira), Quimera, ainda não possui etimologia clara. A relação etimológica entre χίμαρος (khímaros), “cabrito”, e χίμαιρα (khímaira), “cabrita de um ano, nascida no ano anterior” é defendida por alguns etimólogos.

O sentido mais comum dado a Quimera, no mito, é de um monstro, filha de Tífon e de Equidna que tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Cérbero e os criaturas terríveis.

São muitas formas por que se apresenta Quimera, mas a fusão de cabra com o leão é uma constante. Trata-se, pois, de um monstro híbrido, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente e, segundo outros, de três cabeças diferentes: na frente, um leão; atrás, um dragão (ou serpente) e, no meio, uma cabra selvagem. A cabeça da caprina era a mais perigosa, pois cuspia fogo pela boca. Segundo outra versão, as chamas eram lançadas pelas narinas da cabeça de serpente.

Criada por Amisódaro, rei da Cária, vivia em Patera, devastando a região e sobretudo devorando os rebanhos. Por toda a redondeza, a Quimera espalhava a catástrofe e a morte. E não eram só os homens e os animais que ela matava e fazia em pedaços; de sua fúria destruidora não se salvavam nem as lavouras, nem os frondosos bosques. Tudo se queimava com as chamas que ela lançava de sua boca caprina.

Ela [Equidna] pariu a Cabra que sopra irrepelível fogo,
a terrível e grande e de pés ligeiros e cruel,
tinha três cabeças: uma de leão de olhos rútilos,
outra de cabra, outra de víbora, cruel serpente.
Na frente leão, atrás serpente, no meio cabra,
expirando o terrível furor do fogo aceso.
Teogonia, vv. 319-324

Cavalgando Pégaso, cavalo alado, Belerofonte, de um só golpe, cortou as cabeças da Quimera. Outra tradição conta que Belerofonte matou a quimera com muitas flechadas.

  Chimere 3

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Corsa Cerinita

Ελαφος Κερυνιτις (Elaphos Kerynitis), Corsa Cerinita, era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente da ninfa Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.

Héracles foi enviado para buscá-la em seu quinto trabalho. O herói de perseguiu o rápido animal por um ano inteiro. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. O herói aproveitou a chance para capturar o animal e, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas da corsa. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

Nesse momento, Ártemis apareceu furiosa apontando suas flechas certeiras para Héracles. O herói explicou o motivo de suas ações e a deusa permitiu que ele levasse o animal sagrado para Micenas. Segundo algumas tradições, Héracles matou a corsa.

Hercules and the hind, with Athena and Artemis looking on (Attic amphora, 540–530 BC)

Hérakles capturando a corsa, quebrando um de seus chifres de ouro, enquanto Atena (à esquerda) e Ártemis (à direita) observam. Ânfora ática (~540-530 a.C.), Museu Britânico, Londres.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Lélape

Laelaps and Cadmean vixen

Minos possuía um cão de caça de força prodigiosa, chamado Lélape (em grego Λαιλαψ, Lailaps, “tempestade”), que jamais deixava escapar uma presa, e uma flecha que nunca errava o alvo. Zeus, anteriormente, ofertara à Europa muitos presentes valiosos, entre eles estava Lélape. Este foi transmitido de para um dos filhos de Europa, Minos. Por ter inúmeras amantes, o rei Minos tornou-se vítima de uma maldição de sua esposa, Pasífae: a cada vez que ele se unia a uma mulher, nasciam de seu corpo serpentes e escorpiões que a matavam imediatamente. Prócris, para libertá-lo de tal encantamento, deu-lhe uma erva que obtivera da feiticeira Circe, mas exigiu em troca o cão e a flecha. Mais tarde, ela os deu de presente a Céfalo, seu marido.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta que assolava a região, a Raposa de Têumesso – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

The Teumessian Fox and Laelaps

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

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