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Eros

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_A_Young_Girl_Defending_Herself_Against_Eros_(1880)

Jovem defendendo-se de Eros (1880), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Ἒρως (Éros), Eros, do verbo ἒρασθαι (érasthai), estar inflamado de amor, significa desejo incoercível dos sentidos. Personificado, é o deus do amor. O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado, como não poderia deixar de ser, de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.C. ao século VI d.C.

Nas mais antigas teogonias, como se viu em Hesíodo, Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Gaia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um daimon, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens e, como o deus do Amor está a meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se, assim, o elo que une o Todo a si mesmo. Foi contra a tendência generalizada de considerar Eros como um grande deus que o filósofo da Academia lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (Expediente) e de Penía (Pobreza), no Jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e “carência”, sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, “a plenitude”. Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ἐνέργεια (enérgueia), uma “energia”, perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca do objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam ser o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite vulgar, da Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Ártemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência dos poetas, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sob a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incompatível com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

Uma das Odes atribuídas ao grande poeta lírico grego do século VI a.C, Anacreonte, nos dá um retrato de corpo inteiro desse incendiário de corações. Vamos transcrevê-la, para que se tenha uma ideia da concepção sobretudo alexandrina de Eros:

Winged youth (Eros) flying to an altar. Side A of a Lucanian red-figure nestoris, terracotta, ~350-325BC, at Metropolitan Museum of Art

Eros alado, terracota em figtura vermelha (ca 350-325 a.C.), Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta.
“Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?”
Respondeu Eros: “Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua”.
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
“Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo”.
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão.
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro, acrescentou, alegra-te,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido”.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina na consciência, onde poderá tornar-se uma força espiritual de progresso moral e místico.

O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades. Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontra-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sido total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação.

Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo.

Relativamente a TânatosHipno, Eros é acentuadamente mágico e o mais flexível dos três, com um papel mais definido na cosmogonia e fertilidade. Tem, por sua própria natureza, uma capacidade bem maior de cooperar com os mortais dia e noite nas conquistas e no amor. Promotor de uniões e despedidas, recebido sempre com mais simpatia que Hipno e Tânatos, possui um público muito mais entusiasta na poesia e na arte. Nos poemas homéricos, ainda não antropomorfizado, o substantivo Eros compartilha efetivamente os poderes das duas divindades anteriores: derrama uma caligem sobre a cabeça dos homens, apodera-se dos corações, como fez com Páris em relação a Helena; relaxa os membros, domina as criaturas humanas como se fossem corcéis, convertendo-se num déspota e é difícil combatê-lo, quanto mais vencê-lo.

Era companheiro e solidário a Hipno, mas por vezes se tornava inimigo do mesmo. Quando o Sono atrai ou Eros, este pode desencadear aparições de pessoas amadas ou um sono agitado com riscos e despedidas. A mente pode viajar para longe, perturba-se a identidade e a psiqué se afasta para além dos limites da experiência em vigília. Portador, como Hermes, de uma varinha mágica para seguir as pistas de Hipno, tem o poder de encantar, fechando ou despertando os olhos adormecidos dos mortais. Se a θέλξις (thélksis), o encantamento, é um elemento perigoso na magia e no encanto, Eros com frequência se identifica como cantor e músico. É o Eros da lira, capaz de transtornar inteligência e coração. Apresenta-se igualmente como depredador que captura veados e lebres.  Era o caçador clássico com o arco, ἀμήϰανος (amékhanos), difícil de combater, ἀνίκατος μάϰαν (aníkatos mákhan), invencível numa batalha, como se expressa Sófocles na Antígona sublinhando a antiga associação entre τόξα (tóksa) “as armas” e τοξικόν (toksikón), “a flecha envenenada”.

erosExiste, no entanto, um Eros bem mais arcaico, adolescente musculoso, de asas poderosas, um convite falaz para o sexo. Participa, como tal, de um grupo tradicional de violadores alados, que transportam suas vítimas à força para locais inacessíveis, como Bóreas, o vento do norte, Hipno, Tânatos, as Harpias, a Esfinge. É o Eros de que nos fala o poema Íbico (séc. VI a.C.), um Eros atrevido e sombrio, que se manifesta entre relâmpagos e loucuras desenfreadas, como o vento do norte flamejante com seus raios, o qual enlouquece nossas mentes da cabeça aos pés.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Oceano

Oceanus in the Trevi Fountain, Rome

Oceano, em Fontana di Trevi, Roma, Itália.

’Ωκεανός (Okeanós), Oceano, sem etimologia ainda bem definida deve ser um empréstimo, uma vez que os indo-europeus  não tinham noção de “um rio original e universal”, nem tampouco possuíam uma palavra para designar “mar”. É possível que se trate de palavra mediterrânea com o sentido de “circular, envolver”.

Parece que Oceano, nas concepções primitivas helênicas, era concebido, a princípio, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras extremas do globo terráqueo. Pelo menos esta é a ideia que do mesmo faziam os Sumérios, segundo os quais a Terra estava sentada sobre o Oceano, o rio-serpente.

Tal conceito ajuda de muito a explicar a topografia de algumas façanhas de Héracles, deslocando-se de um ponto cardeal a outro por mar, bem como a localização dos Jardins das Hespérides, das Górgonas e de outros pontos geográficos imaginários. No mito grego, Oceano é a personificação da água que rodeia o mundo: é representado como um rio, o Rio-Oceano, que corre em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo em Prometeu Acorrentado: Oceano, cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

Quando, mais tarde, os conhecimentos geográficos se tornaram mais precisos, Oceano passou a designar o Oceano Atlântico, o limite ocidental do mundo antigo.

Filho de Gaia e Urano, é o mais velho dos Titãs, mas, extremamente “conciliador”, visto que jamais se indispôs com Zeus.

Representa o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, simboliza o poder e a fecundidade feminina do mar. Como deus, Oceano é o pai de todos os rios, que, segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceânides. Dentre os rios, Hesíodo cita particularmente o Nilo, Alfeu, Erídano, Estrímon, Meandro, Istro, Fásis, Reso, Aqueloo, Nesso, Ródiom Haliácmon, Heptáporo, Granico, Esepo, Símois, Peneu, Hermo, Caíco, Sangário, Ládon, Partênio, Eveno, Ardesco e Escamandro.

As Oceânides, que personificam os riachos, as fontes e as nascentes. Unidas a deuses e, por vezes, a simples mortais, são responsáveis por numerosa descendência. Dentre elas, as mais importantes no mito são: Estige, Admeta, Iante, Electra, Dóris, Urânia, Hipo, Clímene, Calírroe, Idiia, Pasítoe, Dione, Toe, Polidora, Perseis, Ianira, Acasta, Menesto, Europa, Métis, Eurínome, Telesto, Ásia, Calipso, Eudora e Ocírroe.

O Oceano, em razão mesmo de sua vastidão, aparentemente sem limites, é a imagem da indistinção e da indeterminação primordial.

De outro lado, o simbolismo do Oceano se une ao da água, considerada como origem da vida. Na mitologia egípcia, o nascimento da Terra e da vida era concebido como uma emergência do Oceano, à imagem e semelhança dos montículos lodosos que cobrem o Nilo, quando de sua baixa. Assim, a criação, inclusive a dos deuses, emergiu das águas primordiais. O deus primordial era chamado a Terra que emerge. Afinal, as águas simbolizam a soma de todas as virtualidades: são a fonte, a origem e o reservatório de todas as possibilidades de existência. Precedem a todas as formas e suportam toda a criação.

Oceano e suas filhas, as Oceânides, surgem na literatura grega como personagens da gigantesca tragédia de Ésquilo, Prometeu Acorrentado.

Oceano, apesar de personagem secundária na peça, um mero tritagonista, é finamente marcado por Esquilo: tímido, medroso e conciliador, está sempre disposto a ceder diante do poderio e da arrogância de Zeus. Com o caráter fraco de seu pai contrastam as Oceânides, que formam o Coro da peça: preferem ser sepultadas com Prometeu a sujeitar-se à prepotência do pai dos deuses e dos homens.

Mesmo quando os Titãs, após a mutilação de Urano, se apossaram do mundo, Oceano resolveu não participar das lutas que se seguiram, permanecendo sempre à parte como observador atento dos fatos. . .

Dada a pouca ou nenhuma importância dos Titãs Ceos, Crio e Hipérion no mito grego, a não ser por seus casamentos, filhos e descendentes, vamos diretamente a Crono.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

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Reia

Rhea and Cronus, ca 475 - 425 BC, at Metropolitan Museum, New York City, USA.

Reia e Crono, pélica de figuras vermelhas (ca. 475-425 a.C), Museu Metropolitano de Nova York, EUA.

Ῥέα (Rhéa), Reia, talvez seu nome seja um epíteto da terra: ampla, larga, cheia, da raiz ureia, com o mesmo sentido. Seu nome também pode significar fluxo ou facilidade. Como esposa de Crono, ela representou o eterno fluxo do tempo e de gerações; como a Grande Mãe (Meter Megale), o “fluxo” era sangue menstrual, águas de nascimento, e leite.

Trata-se, em todo caso, de uma divindade minóica, de uma Grande Mãe cretense, que, no sincretismo creto-micênico, decaiu de posto, tornando-se não apenas esposa de Crono, mas sobretudo “atriz de um drama mitológico”, cuja encenação já se começou a ver com a fuga da deusa para a ilha de Creta e o estratagema da pedra.

Reia, uma das titânides, filha de Gaia e Urano, uniu-se ao irmão Crono, era a Rainha dos Céus, e foi mãe, segundo a Teogonia de Hesíodo, de seis filhos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus.

Instruído por um presságio de Gaia, Crono devorava todos os filhos, tão logo nasciam, porque sabia que um deles o destronaria. Grávida de Zeus, a deusa fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Ida ou Dicta, deu à luz ao caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança e o deus, de imediato, a engoliu. Mais tarde, Crono foi obrigado a devolver todos os filhos à luz. Estes, comandados por Zeus, destronaram o pai.

Reia submetida a Crono pariu brilhantes filhos:
Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,
o forte Hades que sob o chão habita um palácio
com impiedoso coração, o troante Treme-terra
e o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,
sob cujo trovão até a ampla terra se abala.
E engolia-os o grande Crono tão logo cada um
do ventre sagrado da mãe descia aos joelhos,
tramando-o para que outro dos magníficos Uranidas
não tivesse entre os imortais a honra de rei.
Pois soube da Terra e do Céu constelado
que lhe era destino por um filho ser submetido
apesar de poderoso, por desígnios do grande Zeus.
E não mantinha vigilância de cego, mas à espreita
engolia os filhos. Reia agarrou-a longa aflição.
Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens
ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos,
aos seus, à Terra e ao Céu constelado,
comporem um ardil para que oculta parisse
o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai
e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar.
Eles escutaram e atenderam à filha querida
e indicaram quanto era destino ocorrer
ao rei Crono e ao filho de violento ânimo.
Enviaram-na a Licto, gorda região de Creta,
quando ela devia parir o filho de ótimas armas,
o grande Zeus, e recebeu-o Terra prodigiosa
na vasta Creta para nutri-lo e criá-lo.
Aí levando-o através da veloz noite negra atingiu
primeiro Licto, e com ele nas mãos escondeu-o
em gruta íngreme sob o covil da terra divina
no monte das Cabras denso de árvores.
Encueirou grande pedra e entregou-a
ao soberano Uranida rei dos antigos Deuses.
Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.
Teogonia – Hesíodo

Na época romana, Reia, antiga divindade da Terra, acabou fundindo-se com Cibele. Reia simboliza a energia escondida no seio da Terra. Gerou os deuses dos quatro elementos. É a fonte primordial ctônia de toda a fecundidade.

 Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.1. Petrópolis: Vozes, 2013.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras, 1995.

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