O pequeno Héracles e as serpentes de Hera

Zeus havia confiada a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles, e a deusa da sabedoria fez tudo que estava a seu alcance para ajudar a criança. Ela mandou sua coruja, o pássaro da sabedoria, velar o berço do menino, que, assim, adquiriu novos saberes a cada dia, a cada hora, sempre protegido pela ave atenta. Esta o guardava de todos os perigos e o abanava com suas asas nas noites quentes de verão.

Os gêmeos de Alcmena dormiam dentro de um escudo suspenso, o qual pertencera ao rei dos teléboas e fazia parte do butim que Anfítrion trouxera da batalha. Os dois irmãos brincavam frequentemente ali dentro, enquanto o escudo se balançava no ar; mas Héracles tinha tanta energia que um dia empurrou Íficles pela borda do berço. Alcmena ouviu seus gritos e correu a ver o que acontecera. Felizmente Íficles não se machucara. De todo modo, para ficar tranquila, a rainha abaixou o escudo e, a partir desse dia, deixou-o no chão. Mas a real medida da força do pequeno Héracles não se revelou até a primeira ameaça engenhada por Hera.

A oportunidade surgiu numa noite em que a coruja saiu de seu posto para punir um rato que estragara o bordado mais fino de Atena. Ao sair, naturalmente, a coruja advertiu Alcmena que tomasse conta de seus filhos; ela, então, pôs doze moças robustas para vigiá-los até que a sábia ave voltasse.

As criadas ficaram bordando no quarto das crianças. Porém, antes de começar a amanhecer, com as cabeças pendendo para a frente e os queixos encostados no colo, foram sendo vencidas pelo sono, uma a uma.

A última delas mal começava a cochilar, quando, pela porta entreaberta, deslizaram duas serpentes enormes enviadas por Hera numa missão assassina. Através da janela, a luz da Lua iluminava os bebês, e as duas serpentes dirigiram-se para o berço.

Mas o ruído de seu rastejar bastou para despertar o pequeno Héracles. Ele as viu de imediato e, pondo-se de pé preparou-se para enfrentar o perigo que o ameaçava. Seu movimento súbito acordou Íficles, que bateu os olhos nas serpentes e começou a gritar de pavor. Seus gritos acordaram as criadas que, ao verem as duas enormes serpentes, saíram correndo do quarto, gritando por socorro. Alcmena ouviu os gritos e acordou Anfítrion. Os guardas se alvoroçaram e logo todo o palácio se agitou. Com a espada na mão, Anfítrion entrou rapidamente no quarto das crianças, seguido pela esposa e por uma porção de soldados. A cena com que se depararam foi absolutamente inacreditável! Héracles estava estrangulando as duas enormes serpentes, que se contraíam e estremeciam sob o torniquete. Anfítrion desembainhou sua espada para matá-las, mas percebeu que já não era mais necessário. Héracles jogou seus corpos sem vida aos pés de seu aturdido padrasto, enquanto Íficles, como era natural, continuava a chorar de medo.

The Boy Hercules strangles the serpents by Pietro Benvenuti (1817-29)

Héracles estrangulando as serpentes (1817-29) fresco por Pietro Benvenuti, Palácio Pitti, Florença.

Assim se frustou a tentativa de Hera. E todos os que haviam presenciado a cena perceberam que aquela criança estava predestinada a realizar grandes feitos. Anfítrion, que até aquele momento não sabia qual dos meninos era seu filho, curvou-se, fazendo uma reverência ao filho de Zeus.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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