O nascimento de Héracles parte I: Anfítrion e Alcmena

Naqueles tempos, os homens atribuíam os rumos de todas as questões importantes aos desígnios dos deuses do Olimpo. Sentiam, por exemplo, que o próprio Zeus queria ver os Estados helênicos unidos e, em nome disso, teria decidido gerar um filho – Héracles – que cresceria para ser um herói munido dos poderes necessários à realização desse desejo.

A cidade em que deveria reinar não era outra senão a dourada Micenas, a mais rica e poderosa de todas, fundada por um grande herói também nascido de Zeus: Perseu.

Depois da morte de seu fundador, Micenas viu subir ao trono Eléctrion, filho de Perseu e pai de nove homens e uma mulher, chamada Alcmena. Alta e imponente, ela era a mais formosa e mais sábia do mundo. Suas tranças grossas e sedosas emolduravam um rosto encantador, seus longos cílios escuros adornavam olhos grandes e expressivos. A filha de Eléctrion tinha todas as graças naturais que predestinavam uma mulher a ser mãe de heróis. E se Zeus fosse o pai da criança, ela certamente daria à luz o maior deles. Assim, dentre todas as mulheres, mortais e imortais, Alcmena foi escolhida para ser a mãe de Hércules.

Zeus já estava casado com Hera. Mas aos homens importava muito que os heróis e grandes líderes fossem filhos de algum deus e, além disso, certos reis gostavam de se vangloriar de sua origem divina. Então, para os gregos antigos, parecia natural que os deuses gerassem filhos em toda mulher que lhes agradasse. Em todo caso, diz-se que depois do nascimento de Héracles nunca mais uma mortal concebeu um filho de Zeus.

Eléctrion tinha prometido a mão de sua filha, Alcmena, a Anfítrion, rei de Tirinto. Porém, uma tragédia se abateu sobre Micenas, e as bodas foram adiadas. Os nove irmãos de Alcmena morreram na batalha contra os temíveis teléboas (uma raça de homens com voz de trovão), que tinham tomado todos os rebanhos de Eléctrion e planejavam colocar seu próprio rei no trono da cidade. Sem êxito em seus planos, os teléboas se viram obrigados a dar o gado para Polixeno, rei da Élida, que se encarregaria de escondê-lo. Mas Anfítrion o descobriu e, querendo ajudar seu futuro sogro, comprou os animais e reconduziu-os a Micenas.

O rei Eléctrion ficou furioso com tal atitude, e, após discussão entre eles, Anfítrion arremessou sua clava no meio dos animais. Apenas um momento de fúria, e o resultado afigurou-se uma tragédia que jamais pôde ser desfeita. Ao dar nos chifres de um touro, a clava ricocheteou, bateu na cabeça de Eléctrion e jogou-o ao chão, morto.

Depois desse infortúnio, Estênelo, irmão de Eléctrion, sucedeu-o no trono de Micenas; e Anfítrion, abalado pela dor do mal que causara involuntariamente, renunciou a tudo que possuía, inclusive ao reinado de Tirinto (que acabou tomado por Estênelo), e partiu para Tebas, onde reinava Creonte.

Nem por um momento Anfítrion deixou de amar Alcmena e, por fim, enviou um homem a Micenas com a missão de implorar que ela o perdoasse e perguntar-lhe se, apesar de tudo, ainda desejava o casamento.

Foi aí que Zeus pôs na mente de Alcmena a resposta que serviria a seu propósito.

– Concordo em me casar com Anfítrion – disse Alcmena ao mensageiro – mas com a condição de que, terminados os ritos nupciais, ele trave guerra contra os teléboas e vingue a morte de todos os meus irmãos. Esse desejo não é apenas meu; estou certa de que assim o quer meu falecido pai.

Anfítrion estava disposto a fazer qualquer coisa por Alcmena e não vacilou em atender a exigência. Mas, com que exército? Ele não tinha mais suas tropas… Apelou, então, a Creonte, rei de Tebas, mas este respondeu que daria o exército somente se ele livrasse Tebas da raposa de Têumesso.


Sobre a Raposa de Têumesso:
A raposa era um animal sanguinário, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.


Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Laelaps and Cadmean vixenAnfítrion pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Finalmente, o próprio Zeus encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátua de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Portanto, Anfítrion não pôde devolver o cão sagrado a Céfalo; mas compensou-o por isso, doando-lhe uma das ilhas que mais tarde tomou dos teléboas – agora, conhecida como Cefalônia, nome originário de seu novo rei, Céfalo.

O que mais importava era Tebas ter se livrado de seu sacrifício de sangue e, com isso, Anfítrion obteve o que precisava – não apenas um exército, mas um grupo de soldados dispostos a servir e a oferecer suas vidas ao salvador das crianças de Tebas. Só então Anfítrion pôde cumprir a promessa feita a Alcmena.

As bodas foram celebradas, mas logo Anfítrion teve que se despedir de sua noiva para assumir o comando da luta contra os teléboas. Alcmena voltou ao palácio, trancou-se no em seu quarto e esperou pela volta do marido, a quem ela mesma mandaram para a guerra, embora o amasse de todo o coração.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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