Cérbero

Κέρβερος (Kérberos), Cérbero, apesar de várias hipóteses formuladas, não possui etimologia segura. A aproximação com o sânscrito karbará-sárvara- “pintado, marchetado” tem sido posta em dúvida. O caráter monstruoso do animal e o fato de aparecer a partir de Hesíodo levam a pensar nu empréstimo oriental.

Héraclès, Cerbère et Eurysthée, hydrie à figures noires, v. 525 av. J.-C., musée du Louvre

Héracles, Cérbero e Euristeu, vaso etrusco (~525a.C.), Museu do Louvre.

Filho de Tífon e Equidna, tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Cérbero era imortal, Cão do Hades, um dos monstros que guardava o império dos mortos com uma vigilância permanente e lhe interditava a entrada dos vivos, mas, acima de tudo, se entrassem, impedia-lhes a saída. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.

Segundo Hesíodo, o espantoso animal possuía cinquenta cabeças e voz de bronze. A imagem clássica, porém, o apresenta como dotado de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes sibilantes. O último dos trabalhos imposto por Euristeu a Héracles foi o de ir ao Hades e de lá trazer o monstro. Após iniciar-se nos Mistério de Elêusis, o herói desceu à outra vida. Plutão permitiu-lhe cumprir a tarefa, desde que dominasse Cérbero sem usar de armas. Numa luta corpo-a-corpo o filho de Alcmena o venceu e o trouxe meio sufocado até o palácio de Euristeu, que, apavorado, ordenou a Héracles que o levasse de volta ao Hades.

Cerberus

O cão do Hades representa o terror da morte, simboliza o próprio Hades e o inferno interior de cada um. É de se observar que Héracles o levou de vencida, usando apenas a força de seus braços e que Orfeu “por uma ação espiritual”, com os sons irresistíveis de sua lira mágica o adormeceu por instantes. Estes dois índices militam em favor da interpretação dos neoplatônicos que viam em Cérbero o próprio gênio do demônio interior, o espírito do mal. O guardião dos mortos só pode ser dominado sobre a terra, quer dizer, por uma violenta mudança de nível e pelas forças pessoais da natureza espiritual. Para vencê-lo cada um só pode contar consigo mesmo.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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