Arquivo do mês: junho 2015

Perseu: cumpre-se o oráculo

Ao retornar a Argos, seu avô, Acrísio, havia desaparecido. Por medo de que o antigo oráculo se tornasse realidade, abandonou o trono e fugiu em segredo para Lárissa, na Tessália. Perseu tornou-se rei da cidade.

Não muito tempo depois, realizaram-se  em Lárissa grandes competições atléticas, das quais tomaram parte muitos atletas e heróis de toda a Grécia. Perseu também participou, competindo no arremesso de disco. Contudo, o disco arremessado pelo herói foi parar tão longe, que ultrapassou os limites do estádio e caiu na cabeça de um passante, matando-o. Esse infeliz transeunte não era outro senão Acrísio. Dessa maneira, realizou-se o oráculo que previa o seu assassinato pelas mãos do neto.

Perseu retornou a Argos extremamente triste. Não queria reinar no trono do avô que, sem querer, havia matado. Na vizinha Tirinto, o rei era Megapentes, filho de Preto, e a imensa inimizade entre Preto e Acrísio não fora herdada por Perseu e Megapentes. Sendo grandes amigos, concordaram em trocar seus reinos.

Perseu também é conhecido por ser o fundador e primeiro rei de Micenas, a mais rica, brilhante e poderosa cidade dos tempos míticos. Quando certa vez encontrou um bom sítio, um pouco além de Tirinto, resolveu fortificá-lo com um castelo e transferir para lá a sua capital. Os ciclopes o ajudaram muito na construção da cidade: eram os únicos, dizem, que poderiam erguer rochas colossais como aquelas que vemos nas muralhas de Micenas, as muralhas ciclópicas, como são chamadas desde então.

Perseu e Andrômeda viveram muitos anos e tiveram sete filhos. O mais velho deles, Perses, se tornou o primeiro rei dos persas e fundador desse grande povo. O segundo filho, Eléctrion, tornou-se mais tarde rei de Micenas. Sua filha, Alcmena, gerou Héracles, o grande herói da Grécia.

Todos esses fundadores, reis e heróis, descendem da linhagem do deus-rio Ínaco, o fundador e primeiro rei de Argos. Se colocarmos essas grande linhagem em ordem, para ver como chegamos a Perseu e Héracles, teremos: primeiro Ínaco, em seguida Io, depois Épafo, e então Líbia, Belo, Dânao, Hipermnestra, Abas, Acrísio, Dânae e Perseu. Depois virão Eléctrion, Alcmena e, finalmente, Héracles.

Sidney_Hall,_Perseus_and_Caput_Medusæ,_1825

Constelação de Perseu (1825) por Sidney Hall.

Perseu e Andrômeda reinaram em Micenas pacificamente e, quando morreram, não foram para o escuríssimo Hades, mas subiram ao céu, pois assim quis o pai de Perseu, o grande Zeus. Ainda hoje, qualquer um pode achar a constelação de Perseu, ao lado da constelação de Andrômeda. Um pouco mais além, encontram-se as de Cefeu e Cassiopeia, porque Andrômeda, quando morreu, ficou amargurada por não haver revisto os pais desde que se casara e, então, Zeus, o grande soberano do céu e da Terra, colocou Cefeu e Cassiopeia nas estrelas, ao lado da filha.

Sidney_Hall_-_Urania's_Mirror_-_Gloria_Frederici,_Andromeda,_and_Triangula

Constelação de Andrômeda por Sidney Hall.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Polidectes

Perseus Delivering Medusa's Head (1892) by Walter Crane

Perseu mostrando a cabeça da Medusa a Polidectes, por Walter Crane.

Após muito feitos, era hora de Perseu retornar à Grécia com a recém desposada Andrômeda. Quando chegaram na ilha Sérifos, o herói foi primeiro à modesta casa de Díctis procurar sua mãe. Abriu a porta e entrou. Díctis ficou surpreso ao vê-lo outra vez e ajoelhou-se beijando-lhe as mãos. Perseu disse que trazia consigo a cabeça da górgona Medusa, como havia prometido, e quis logo saber onde estava sua mãe, Dânae. Díctis informou-lhe que seu irmão Polidectes a mantinha como prisioneira.

Perseu não perdeu um só instante e foi encontrá-lo. Avistou-o em um terraço ao lado do palácio, a beber, comer e farrear com os amigos. Mas surgiu Perseu, todos ficaram embasbacados. Ninguém esperava rever o herói, muito menos Polidectes, que, ao reconhecê-lo, gritou: – Como ousa pôr os pés aqui novamente? Eu o mandei buscar a cabeça de Medusa!

Perseu disse que estava com a cabeça da górgona. Polidectes ouvindo essa resposta deu uma gargalhada. Imediatamente seus amigos o imitaram e todos juntos caçoavam do herói. E eram gargalhadas e zombarias, uma atrás da outra. Então, Perseu enfiou a mão na sacola e tirou a horrenda cabeça e disse: – Eis aqui, já que não acreditam em mim!

Num instante, assim rindo e caçoando, todos ficaram petrificados, enchendo o lugar de estátuas. E dizem que, se hoje Sérifos tem muitas pedras, é porque vieram dessas estátuas, que pouco a pouco se fragmentaram.

Perseu, após libertar sua mãe, fez de Díctis rei da ilha e, em seguida, juntamente com Dânae e Andrômeda, voltou para Argos. Lá chegando, agradeceu à deusa Atena, que tanto o havia ajudado, e ofereceu-lhe a cabeça da Medusa. A deusa pôs a oferenda em sua égide. Depois, o herói tomou o rumo das ninfas estígias. Ao encontrá-las, devolveu-lhes as sandálias aladas, o capacete de Hades e a sacola mágica.

Athene receives the head of Medousa from Perseus. The hero is depicted as a young man, wearing the winged boots of Hermes and the cap of darkness on his head. Athene holds the Gorgoneion (Gorgon head) by its snaky locks

Perseu entregando a cabeça de Medusa a Atena. Cratera atribuída ao pintor Tarporley de Apúlia (400-385a.C.). Museu de Belas Artes de Boston, Massachusetts, EUA.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Corsa Cerinita

Ελαφος Κερυνιτις (Elaphos Kerynitis), Corsa Cerinita, era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente da ninfa Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.

Héracles foi enviado para buscá-la em seu quinto trabalho. O herói de perseguiu o rápido animal por um ano inteiro. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. O herói aproveitou a chance para capturar o animal e, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas da corsa. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

Nesse momento, Ártemis apareceu furiosa apontando suas flechas certeiras para Héracles. O herói explicou o motivo de suas ações e a deusa permitiu que ele levasse o animal sagrado para Micenas. Segundo algumas tradições, Héracles matou a corsa.

Hercules and the hind, with Athena and Artemis looking on (Attic amphora, 540–530 BC)

Hérakles capturando a corsa, quebrando um de seus chifres de ouro, enquanto Atena (à esquerda) e Ártemis (à direita) observam. Ânfora ática (~540-530 a.C.), Museu Britânico, Londres.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Lélape

Laelaps and Cadmean vixen

Minos possuía um cão de caça de força prodigiosa, chamado Lélape (em grego Λαιλαψ, Lailaps, “tempestade”), que jamais deixava escapar uma presa, e uma flecha que nunca errava o alvo. Zeus, anteriormente, ofertara à Europa muitos presentes valiosos, entre eles estava Lélape. Este foi transmitido de para um dos filhos de Europa, Minos. Por ter inúmeras amantes, o rei Minos tornou-se vítima de uma maldição de sua esposa, Pasífae: a cada vez que ele se unia a uma mulher, nasciam de seu corpo serpentes e escorpiões que a matavam imediatamente. Prócris, para libertá-lo de tal encantamento, deu-lhe uma erva que obtivera da feiticeira Circe, mas exigiu em troca o cão e a flecha. Mais tarde, ela os deu de presente a Céfalo, seu marido.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta que assolava a região, a Raposa de Têumesso – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

The Teumessian Fox and Laelaps

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

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Raposa de Têumesso

Laelaps and Cadmean vixenΑλωπεξ Τευμησιος (Alopex Teumesios), Raposa de Têumesso, era um animal gigantesco que fora enviado pelos deuses para o campo de Tebas como castigo por algum crime. A raposa era uma besta sanguinária, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.

Creonte, o então rei de Tebas, designou a Anfítrion a impossível tarefa de destruir a besta – impossível porque a raposa nunca poderia ser pega. O herói descobriu uma solução para o problema, levando Lélape, cão mágico, para a caça, um animal que estava destinado a nunca perder sua presa.

Anfítrion, para cumprir sua promessa a Alcmena, pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Teumessian Fox And LaelapsSe Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Zeus confrontado com uma contradição do destino (uma raposa incapturável sendo perseguido por um cão inevitável), finalmente, encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátuas de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Referências:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2004.

THEOI: http://www.theoi.com/Ther/AlopexTeumesios.html

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O pequeno Héracles e as serpentes de Hera

Zeus havia confiada a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles, e a deusa da sabedoria fez tudo que estava a seu alcance para ajudar a criança. Ela mandou sua coruja, o pássaro da sabedoria, velar o berço do menino, que, assim, adquiriu novos saberes a cada dia, a cada hora, sempre protegido pela ave atenta. Esta o guardava de todos os perigos e o abanava com suas asas nas noites quentes de verão.

Os gêmeos de Alcmena dormiam dentro de um escudo suspenso, o qual pertencera ao rei dos teléboas e fazia parte do butim que Anfítrion trouxera da batalha. Os dois irmãos brincavam frequentemente ali dentro, enquanto o escudo se balançava no ar; mas Héracles tinha tanta energia que um dia empurrou Íficles pela borda do berço. Alcmena ouviu seus gritos e correu a ver o que acontecera. Felizmente Íficles não se machucara. De todo modo, para ficar tranquila, a rainha abaixou o escudo e, a partir desse dia, deixou-o no chão. Mas a real medida da força do pequeno Héracles não se revelou até a primeira ameaça engenhada por Hera.

A oportunidade surgiu numa noite em que a coruja saiu de seu posto para punir um rato que estragara o bordado mais fino de Atena. Ao sair, naturalmente, a coruja advertiu Alcmena que tomasse conta de seus filhos; ela, então, pôs doze moças robustas para vigiá-los até que a sábia ave voltasse.

As criadas ficaram bordando no quarto das crianças. Porém, antes de começar a amanhecer, com as cabeças pendendo para a frente e os queixos encostados no colo, foram sendo vencidas pelo sono, uma a uma.

A última delas mal começava a cochilar, quando, pela porta entreaberta, deslizaram duas serpentes enormes enviadas por Hera numa missão assassina. Através da janela, a luz da Lua iluminava os bebês, e as duas serpentes dirigiram-se para o berço.

Mas o ruído de seu rastejar bastou para despertar o pequeno Héracles. Ele as viu de imediato e, pondo-se de pé preparou-se para enfrentar o perigo que o ameaçava. Seu movimento súbito acordou Íficles, que bateu os olhos nas serpentes e começou a gritar de pavor. Seus gritos acordaram as criadas que, ao verem as duas enormes serpentes, saíram correndo do quarto, gritando por socorro. Alcmena ouviu os gritos e acordou Anfítrion. Os guardas se alvoroçaram e logo todo o palácio se agitou. Com a espada na mão, Anfítrion entrou rapidamente no quarto das crianças, seguido pela esposa e por uma porção de soldados. A cena com que se depararam foi absolutamente inacreditável! Héracles estava estrangulando as duas enormes serpentes, que se contraíam e estremeciam sob o torniquete. Anfítrion desembainhou sua espada para matá-las, mas percebeu que já não era mais necessário. Héracles jogou seus corpos sem vida aos pés de seu aturdido padrasto, enquanto Íficles, como era natural, continuava a chorar de medo.

The Boy Hercules strangles the serpents by Pietro Benvenuti (1817-29)

Héracles estrangulando as serpentes (1817-29) fresco por Pietro Benvenuti, Palácio Pitti, Florença.

Assim se frustou a tentativa de Hera. E todos os que haviam presenciado a cena perceberam que aquela criança estava predestinada a realizar grandes feitos. Anfítrion, que até aquele momento não sabia qual dos meninos era seu filho, curvou-se, fazendo uma reverência ao filho de Zeus.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte III: nascem os gêmeos

Passaram-se nove meses, até que, uma noite, quando os deuses estavam comendo e bebendo nos brilhantes salões do Olimpo, Zeus levantou-se da mesa e anunciou que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite era seu filho, que esta se transformará no maior herói jamais visto antes, e todas as pessoas da Grécia se curvarão diante de sua vontade. Disse que seu nome será Héracles.

Quando ouviu essas palavras, Hera ficou doida de ciúme. Mais uma vez seu marido tinha gerado uma criança com outra mulher! Não se conteve e sussurrou algo no ouvido da ardilosa deusa Ate, que estava sentada a seu lado, depois virou-se para Zeus e retrucou exigindo que o esposo jurasse diante de todos os deuses que a primeira criança da linhagem de Perseu que nasceria naquela noite seria realmente o herói do qual falou, e que todas as pessoas da Grécia se curvariam diante de sua vontade.

Sem hesitar um só momento, sem suspeitar de nada, Zeus fez um juramento que nunca poderia ser quebrado. Ele jurou pelas águas sagradas do Estige que seria conforme havia dito.

Quando Hera ouviu o juramento do marido, sorriu maliciosamente. Acontece que, em Micenas, Nicipe, mulher de Estênelo, esperava um filho, e seu marido, assim como o pai de Alcmena, era filho de Perseu. Nicipe estava grávida havia apenas sete meses, mas isso não se afigurou um problema para Hera. Ela ordenou a Ilítia, deusa dos parto, que corresse a Tebas, prolongasse o trabalho de parto e as dores de Alcmena e, depois, fosse diretamente a Micenas, para trazer o filho de Nicipe a este mundo antes do tempo.

Birth of Heracles by Jean Jacques Francois Le Barbier

Nascimento de Héracles, por Jean Jacques Francois Le Barbier

As ordens de Hera foram cumpridas ao pé da letra e, assim, a despeito dos bem engendrados planos de Zeus, a primeira criança da linhagem de Perseu a nascer naquela noite foi Euristeu de Micenas, uma criatura tímida, fraca, empurrada para o mundo dois meses antes do tempo. Uma hora depois, nasceu Héracles, seguido imediatamente por outro menino, Íficles, gerado por Anfítrion.

Logo depois do nascimento de Héracles, Hera apresentou-se diante de Zeus e disse cheia de sarcasmo que a primeira criança da linhagem de Perseu que veio a nascer foi Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e que, de acordo com o juramento, Euristeu mandará e Héracles o obedecerá.

Zeus ficou mudo, de tão furioso. Todos os seus maravilhosos planos haviam malogrado. Era essa a terrível verdade – Euristeu mandaria e Héracles o obedeceria. Zeus mesmo jurara isso, pelas sagradas águas do Estige.

Desse modo, Hera burlou o grande senhor dos deuses e dos homens, e o anseio de gerações continuaria sendo um mero sonho, porque Euristeu não parecia de fato capaz de se tornar o verdadeiro líder de toda a Grécia.

A raiva de Zeus era imensa. Ele nem podia imaginar como caíra em tal armadilha. Mas, quando pôs os olhos em Ate, compreendeu tudo: ela turvara seu raciocínio e o pegara desprevenido; sem dúvida pagaria por isso! Agarrando a deusa pelos cabelos trançados, Zeus arremessou-a para fora do Olimpo com uma força tremenda. Desde aquele dia, a ardilosa Ate passou a viver na Terra, entre os homens e as mulheres. E todas as ações desleais dos mortais são atribuídas a sua insidiosa influência. Até hoje, na língua grega, a palavra para fraude significa “aquilo que vem de Ate”, já que a deusa é a personificação do erro.

Depois disso, Zeus dirigiu-se aos outros deuses e disse que havia feito um juramento sagrado e que não podia voltar atrás. Héracles não se tornaria o grande líder que a Grécia há tanto tempo necessita. Em vez disso, ele passará por tanta dor e sofrimento como nenhum outro jamais passara. Mas ele também realizará doze grandes trabalhos e muitos outros feitos maravilhosos e será exaltado e admirado como nenhum outro deus ou mortal jamais foi. E, quando sua vida na Terra chegar ao fim, será recebido no Olimpo. Tornará-se imortal e a própria Hera o aceitará como seu igual, fazendo as pazes com ele.

Hera ao ouvir isso disse a si mesma que aquilo nunca aconteceria, pela simples razão de que Héracles não viverá. Ela tomaria providências para que ele morresse enquanto ainda era um bebê. Mas, diferentemente do que previa, Hera dificultou seus próprios planos.

Num certo anoitecer, Zeus implantou na mente de Alcmena o temor de que Hera, sua esposa, viesse fazer algum mal ao infante Héracles naquela mesma noite. Para proteger seu filho da cólera da deusa, Alcmena tirou o pequeno Héracles do palácio e deixou-o num local isolado, fora dos muros de Tebas, pedindo que Atena o protegesse.

Agindo sob as ordens de Zeus, Atena levou Hero para passear nos arredores da cidade e, fazendo parecer uma mera coincidência, conduziu-a exatamente ao lugar onde Héracles fora deixado.

Hera viu a criança e pegou-a no colo. Atena que observava a cena, sugeriu que a deusa amamentasse o bebê. Hera, com boa vontade, ofereceu seu seio à criança, mas Héracles sugou-o com tal força e machucou-a tanto, que ela o afastou bruscamente, deixando esguichar seu leite no céu escuro. E assim foi criada a via láctea, o “caminho do leite”. Mas não foi só isso que aconteceu. Quando Héracles tomou o leite de Hera, tornou-se muito forte: em vez de destruí-lo como planejara, a deusa o fizera indestrutível.

The Origin of the Milky Way (~1575) by Tintoretto, in National Gallery, London

A origem da Via Láctea (1575), por Tintoretto, National Gallery, Londres.

Depois que as duas deusas saíram de cena, apareceu Alcmena, apressada para pegar seu filho. Hera mordeu os lábios, pálida de raiva. Agora compreendia o acontecido. Assim como enganara Zeus, via-se por ele ludibriada. Ela não podia fazer nada, mas sua determinação de destruir Héracles redobrou-se. A partir daí, Zeus confiou a Atena a tarefa de proteger o pequeno Héracles.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte II: Zeus e Alcmena

Após enfrentar vários obstáculos, o casamento Anfítrion e Alcmena finalmente aconteceu. Contudo, Anfítrion logo partiu para a guerra contra os teléboas, enquanto a esposa esperava pela volta do marido.

Tudo que havia acontecido, como foi visto, era pela vontade do poderoso Zeus, senhor dos deuses e dos homens.

Depois de Alcmena ficar sozinha por alguns dias, Zeus tomou a forma de Anfítrion, abriu a porta do quarto da jovem noiva e precipitou-se, exclamando entusiasticamente: – Vitória! Uma grande vitória! Esmagamos os teléboas! – e, com um expressão de grande júbilo, tomou-a nos braços e beijou-a. Depois contou-lhe toda a história da batalha de que teria participado, narrando relatos vívidos de feitos corajosos.

Zeus cortejando Alcmena com a ajuda de Hermes, cratera em terracota (~360-330a.C.), Museu do Vaticano.

Zeus cortejando Alcmena com a ajuda de Hermes, pintado por Asteas, cratera em terracota (~360-330a.C.), Museu do Vaticano.

Aquele detalhes deram o toque final à dissimulação. Convencida de que aquele homem era seu marido, Alcmena abraçou Zeus sem a menor desconfiança e passou uma longa noite de felicidade com ele – não foi uma noite como as outras, mas uma noite que durou três noites seguidas. Tal foi o desejo do poderoso Zeus.

Para conseguir isso, ele convocara Hermes e mandara que voasse até Hélios, o Sol, informando-o de que, por ordem de Zeus, devia fica em seu palácio brilhante o dia inteiro, sem cumprir sua habitual jornada pelos céus.

Feito isso, Zeus enviou Hermes até as Horas, de modo a impedi-las de aprontar os cavalos alados e do deslumbrante carro de Hélios, uma vez que, assim feito, mesmo que não quisesse, o deus do dia se veria resignado a obedecer.

De bom ou mau grado, Hélios deixou de fazer seu trajeto diário pela face da Terra e permaneceu em seu palácio, resmungando: – Ora, como andam as coisas! Era melhor quando o grande Cronos comandava. Naquela época, pelo menos sabíamos a diferença entre o dia e a noite, e ele não deixava sua esposa para sair correndo atrás de aventuras em Tebas!

Mas Zeus ainda não tinha terminado de dar suas ordens a Hermes, e o mensageiro dos deuses foi, em seguida, até Selene, a Lua, ordenar-lhe que prolongasse sua permanência no céu. A Lua, como seu irmão, o Sol, não teve escolha senão acatar a ordem.

Por fim, Hermes foi até Hipnos, o deus do sono, e lhe disse que, por decreto de Zeus, ele deveria fazer todos os homens caírem num sono profundo. Essa ordem também foi cumprida e, por isso, ninguém no mundo suspeitou de que o sono de uma noite tinha durado três.

Finalmente, rompeu um novo dia. Zeus desapareceu e, um pouco mais tarde, o Anfítrion verdadeiro entrava em cena. Todo entusiasmado por ter voltado vitorioso, correu para abraçar a noiva. Mas ela, como era natural, não mostrou grande alegria ao vê-lo. Anfítrion ficou aturdido quando sua esposa lhe dissera que haviam passado a noite juntos, mas estava tão excitado com a sua vitória e por estarem juntos, que não se deteve a pensar. Em vez disso, começou a descrever detalhadamente a grande batalha e o papel heroico que tinha desempenhado nela.

Mais uma vez, Alcmena não mostrou interesse, pois já sabia da história. Anfítrion não pôde acreditar no que ocorria. Contudo, nada disse a Alcmena. Seguiu ao oráculo de Delfos, procurando explicação para as estranhas observações da esposa. Lá ficou sabendo o que acontecera em sua ausência e também que, no devido tempo, sua mulher daria à luz dois filhos, um dos quais seria de Zeus e estaria destinado a ser o mais poderoso herói de toda de Grécia, Héracles.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O nascimento de Héracles parte I: Anfítrion e Alcmena

Naqueles tempos, os homens atribuíam os rumos de todas as questões importantes aos desígnios dos deuses do Olimpo. Sentiam, por exemplo, que o próprio Zeus queria ver os Estados helênicos unidos e, em nome disso, teria decidido gerar um filho – Héracles – que cresceria para ser um herói munido dos poderes necessários à realização desse desejo.

A cidade em que deveria reinar não era outra senão a dourada Micenas, a mais rica e poderosa de todas, fundada por um grande herói também nascido de Zeus: Perseu.

Depois da morte de seu fundador, Micenas viu subir ao trono Eléctrion, filho de Perseu e pai de nove homens e uma mulher, chamada Alcmena. Alta e imponente, ela era a mais formosa e mais sábia do mundo. Suas tranças grossas e sedosas emolduravam um rosto encantador, seus longos cílios escuros adornavam olhos grandes e expressivos. A filha de Eléctrion tinha todas as graças naturais que predestinavam uma mulher a ser mãe de heróis. E se Zeus fosse o pai da criança, ela certamente daria à luz o maior deles. Assim, dentre todas as mulheres, mortais e imortais, Alcmena foi escolhida para ser a mãe de Hércules.

Zeus já estava casado com Hera. Mas aos homens importava muito que os heróis e grandes líderes fossem filhos de algum deus e, além disso, certos reis gostavam de se vangloriar de sua origem divina. Então, para os gregos antigos, parecia natural que os deuses gerassem filhos em toda mulher que lhes agradasse. Em todo caso, diz-se que depois do nascimento de Héracles nunca mais uma mortal concebeu um filho de Zeus.

Eléctrion tinha prometido a mão de sua filha, Alcmena, a Anfítrion, rei de Tirinto. Porém, uma tragédia se abateu sobre Micenas, e as bodas foram adiadas. Os nove irmãos de Alcmena morreram na batalha contra os temíveis teléboas (uma raça de homens com voz de trovão), que tinham tomado todos os rebanhos de Eléctrion e planejavam colocar seu próprio rei no trono da cidade. Sem êxito em seus planos, os teléboas se viram obrigados a dar o gado para Polixeno, rei da Élida, que se encarregaria de escondê-lo. Mas Anfítrion o descobriu e, querendo ajudar seu futuro sogro, comprou os animais e reconduziu-os a Micenas.

O rei Eléctrion ficou furioso com tal atitude, e, após discussão entre eles, Anfítrion arremessou sua clava no meio dos animais. Apenas um momento de fúria, e o resultado afigurou-se uma tragédia que jamais pôde ser desfeita. Ao dar nos chifres de um touro, a clava ricocheteou, bateu na cabeça de Eléctrion e jogou-o ao chão, morto.

Depois desse infortúnio, Estênelo, irmão de Eléctrion, sucedeu-o no trono de Micenas; e Anfítrion, abalado pela dor do mal que causara involuntariamente, renunciou a tudo que possuía, inclusive ao reinado de Tirinto (que acabou tomado por Estênelo), e partiu para Tebas, onde reinava Creonte.

Nem por um momento Anfítrion deixou de amar Alcmena e, por fim, enviou um homem a Micenas com a missão de implorar que ela o perdoasse e perguntar-lhe se, apesar de tudo, ainda desejava o casamento.

Foi aí que Zeus pôs na mente de Alcmena a resposta que serviria a seu propósito.

– Concordo em me casar com Anfítrion – disse Alcmena ao mensageiro – mas com a condição de que, terminados os ritos nupciais, ele trave guerra contra os teléboas e vingue a morte de todos os meus irmãos. Esse desejo não é apenas meu; estou certa de que assim o quer meu falecido pai.

Anfítrion estava disposto a fazer qualquer coisa por Alcmena e não vacilou em atender a exigência. Mas, com que exército? Ele não tinha mais suas tropas… Apelou, então, a Creonte, rei de Tebas, mas este respondeu que daria o exército somente se ele livrasse Tebas da raposa de Têumesso.


Sobre a Raposa de Têumesso:
A raposa era um animal sanguinário, que espalhava a destruição nas vizinhanças de Tebas. Para conter sua selvageria, os tebanos eram obrigados a entregar-lhe, todos os meses, uma criança do sexo masculino para ser devorada, como decretara o oráculo. Isso era um sacrifício terrível e parecia impossível matar a raposa, pois estava escrito que nenhum homem ou animal seria capaz de superar sua velocidade e agarrá-la. Como se isso não bastasse, a raposa estava sob a proteção de Posídon, o deus do mar.


Anfítrion, quase em desespero, finalmente recebeu ajuda de Céfalo, rei de Atenas, que lhe emprestou Lélape, um cão cujos poderes dados pelos deuses nunca o deixavam perder a presa. Porém, o rei queria o animal de volta o mais rápido possível, pois Lélape era um animal sagrado. Foi um presente de Zeus para Europa, filha de Agenor.

Laelaps and Cadmean vixenAnfítrion pegou o cão e saiu a perseguir tal raposa. Lélape logo identificou-lhe o cheiro e começou a caçá-la. Assim, a raposa que nunca poderia ser capturada e o cão que nunca poderia perder sua presa entraram numa luta selvagem. Qual dos dois venceria? Aquilo era um problema não só para Anfítrion e os tebanos, mas também para os próprios deuses, que tiveram que se reunir e examinar o caso.

Se Lélape pegasse a raposa, de que serviriam as palavras escritas pelas moiras, as três deusas que personificam o destino? Sem falar no fato de que todas elas temiam a ira do protetor, Posídon. Por outro lado, se o temível animal escapasse, de que valeria o dom de Lélape? Quanto aos deuses, ousaria algum deles resistir à vontade de Zeus, que certamente exigiria a vitória de Lélape? Finalmente, o próprio Zeus encontrou uma solução de seu agrado e de aceitação geral: ambos, Lélape e a raposa  de Têumesso, transformariam-se em estátua de pedra. Segundo outra versão, conta-se  que Zeus transformou-os em constelações: Cão maior (Lélape) e Cão menor (raposa de Têumesso).

Portanto, Anfítrion não pôde devolver o cão sagrado a Céfalo; mas compensou-o por isso, doando-lhe uma das ilhas que mais tarde tomou dos teléboas – agora, conhecida como Cefalônia, nome originário de seu novo rei, Céfalo.

O que mais importava era Tebas ter se livrado de seu sacrifício de sangue e, com isso, Anfítrion obteve o que precisava – não apenas um exército, mas um grupo de soldados dispostos a servir e a oferecer suas vidas ao salvador das crianças de Tebas. Só então Anfítrion pôde cumprir a promessa feita a Alcmena.

As bodas foram celebradas, mas logo Anfítrion teve que se despedir de sua noiva para assumir o comando da luta contra os teléboas. Alcmena voltou ao palácio, trancou-se no em seu quarto e esperou pela volta do marido, a quem ela mesma mandaram para a guerra, embora o amasse de todo o coração.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Medusa

Medusa (1595-96), by Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Medusa (1595-96), por Carvaggio, Galleria degli Uffizi, Itália.

Μέδουσα (Médusa), Medusa, é um particípio presente feminino do verbo μέδειν (médein), “comandar, reinar sobre”, donde Medusa é “a que comanda, a que reina”. Etimologicamente, Médusa, está presa à raiz indo-europeia med-, que, em outras línguas aparece com significações diversas: latim modus, “medida, moderação”, meditari, “refletir, meditar”. No irlandês antigo midiur é “eu penso, eu julgo”. Esta noção de pensamento que “regula, modera” está presente no osco mediss, “aquele que julga”, umbro mers, “direito”. Por vezes, o radical med- forneceu termos relativos à medicina, “o médico que regula, domina a doença”, daí o latim mederi, “cuidar de”, medicus, “o que cuida de”. No germânico a raiz se especializou no sentido de “medir, avaliar”, gótico mitan, anglo-saxão metan, antigo alemão messen. Em síntese, o sentido geral da raiz med-, que originou Medusa, “é assumir com autoridade as medidas apropriadas”

Das três Górgonas só Medusa era mortal. Filha de Fórcis e Ceto, vivia com suas duas irmãs em uma ilha na extremidade do mundo, no meio do Grande Oceano, junto ao país das Hespérides. Eram três monstros horripilantes, com grandes asas negras e o corpo coberto de escamas. Seus dedos terminavam em garras recurvas; nas cabeças, em vez de cabelos, tinha um emaranhado de serpentes venenosas, Suas línguas e dois dentes enormes ficavam pendurados do lado de fora da boca e seu olhar era horrendo e selvagem. Além de serem figuras terríveis, seus olhos eram flamejantes e o olhar tão penetrante, que transformavam em pedra quem as fixasse. Eram espantosas e temidas não só pelos homens, mas também pelos deuses.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Perseu decapitando Medusa, vaso ático (~460a.C.), Museu Britânico.

Apenas Posídon ousou aproximar-se de Medusa e fazê-la mãe de Crisaor e Pégaso. Encarregado por Polidectes de lhe trazer a cabeça da górgona, Perseu viajou para o Ocidente. Utilizando determinados objetos mágicos, que pegou emprestado com as ninfas estígias, e sobretudo o seu escudo de bronze, o filho de Dânae pairou acima dos três monstros, graças às sandálias aladas. As górgonas dormiam profundamente. Sem poder olhar diretamente para Medusa, o herói refletiu-lhe a cabeça no escudo e, com a espada que lhe dera Hermes, decapitou o monstro.

Do pescoço ensanguentado de Medusa saíram dois seres engendrados pelo deus Posídon: Crisaor e Pégaso.

Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano
os confins da noite (onde as Hespérides cantoras):
Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto,
era mortal, as outras imortais e sem velhice
ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta
no macio prado entre flores de primavera.
Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
Teogonia, vv. 274-281.

Perseu utilizou a cabeça recém decepada como arma. Em sua viagem de retorno, num ato descuidado, petrificou o titã Atlas. Posteriormente cabeça de Medusa foi colocada por Atena em seu escudo ou no centro da égide. Assim os inimigos da deus eram transformados em pedra, se olhassem para ela. O sangue que escorreu do pescoço da górgona foi recolhido por Perseu, uma vez que este era detentor de propriedades mágicas: o que flui na veia esquerda era um veneno mortal, instantâneo; o da veia direita era uma remédio salutar, capaz até mesmo de ressuscitar os mortos.

Cabeza de Medusa, por Peter Paul Rubens (1617-18)

Cabeça da Medusa (1617-18), por Peter Paul Rubens, Museu de História da Arte em Viena, Áustria.

Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de suas madeixas. Tendo, porém, ousado competir em beleza com Atena, esta eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em górgona.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Trad. TORRANO, J. A. A. São Paulo: Iluminuras.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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