Arquivo do mês: maio 2015

Belerofonte contra a Quimera

The Winged Horse, by Mary Hamilton Frye (1914)

Belerofonte e Pégaso, por Mary Hamilton Frye (1914).

Depois de domar Pégaso, Belerofonte conduziu o já manso animal à fonte e, tendo ambos bebido água, montou nele. Puxou um pouco as rédeas, ao que imediatamente o cavalo abriu as grandes asas brancas e, com Belerofonte às costas, voou  em direção ao céu. O sonho se tornara realidade!

Agora, conduzindo Pégaso, o herói não se fartava de apreciar aquele incrível voo nas alturas. Enquanto seu peito se enchia de ar puro, seus olhos presenciavam um espetáculo grandioso. Como que enfeitiçado, via a terra de cima e olhava as montanhas com bosques verdejantes, os rios que reluziam ao sol, o mar e suas muitas ilhas… Então o herói tomou forças, voando assim como um deus, em companhia das nuvens.

Não tardaram a chega à Lícia. Belerofonte vasculhou por toda parte para descobrir onde morava a Quimera. Logo chegaram a um lugar deserto, sem árvore alguma. O herói conduziu Pégaso mais baixo para ver melhor.

Não havia uma folha verde sequer, em lugar nenhum. Apenas troncos de árvores queimadas encontravam-se aqui e ali. Entre eles estavam espalhados ossos de animais e, às vezes, de humanos também. Era evidente que em algum lugar por ali deveria estar o covil do monstro.

Belerofonte montado Pégaso e matando a Quimera. Medalhão central restaurado de um mosaico romano de mais de 100m² descoberto em 1830 em Autun, França.

Belerofonte montado Pégaso e matando a Quimera. Medalhão central restaurado de um mosaico romano de mais de 100m² descoberto em 1830 em Autun, França.

Mas eis que a Quimera saiu de seu abrigo. Percebendo que algo incomum acontecia, quis ver do que se tratava. O herói, junto com Pégaso, atentou para ela. Era um monstro repugnante e assustador, mas Belerofonte não teve medo. Pégaso apenas voou mais alto nesse instante, e felizmente, porque a Quimera começou a vomitar fogo pela boca caprina. Se as chamas tocassem o herói e seu cavalo, estariam ambos perdidos.

A besta, vendo que eles haviam escapado, enfureceu-se e começou a berrar e silvar terrivelmente, arremessando o mais longe que podia suas chamas, que brilhavam como relâmpagos em meio ao céu nublado: parecia que uma furiosa tempestade estava prestes a cair.

Bellerophon and the Chimaera, by Walter Crane

Belerofonte mata a Quimera, por Walter Crane.

Belerofonte nem assim teve medo. Montado em Pégaso, voava alto o suficiente para que as chamas não pudessem atingi-los. E agora havia chegado sua vez! Com movimentos lentos e seguros, ele retirou o arco do ombro: em seguida, pegou uma flecha da aljava, retesou o arco com toda a força, apontou cuidadosamente e, quando disparou, um assobio rasgou o ar. Logo um urro pavoroso mostrou que a seta não errara o alvo. Lépido, Belerofonte pegou outra flecha e atirou de novo. Depois outra e outra. A cada tiro ouviam-se os urros de aflição da Quimera. Incapaz de resistir, o monstro levou tantas flechadas que, num espasmo estrondoso, desmoronou morto no chão. A invencível Quimera foi vencida.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: Pégaso é domado

O filho de Glauco, porém, não ficou desencorajado e rumou para a Grécia. Ao chegar, perguntou por toda parte onde vivia Pégaso, mas as pessoas o olhavam com estranheza, pois nenhum jamais vira o cavalo alado com os próprios olhos.

Pegasus 11


Sobre Pégaso:
Belíssimo cavalo alado, com asas grandes, que voava graciosamente pelos céus. Filho de Posídon e Medusa, nasceu, juntamente com o irmão gigante Crisaor, quando a górgona teve sua cabeça decapitada por Perseu. Pégaso era uma cavalo arisco e selvagem, pois gostava de voar livremente e não admitia ser montado por ninguém, fosse mortal ou imortal. 


“Se os homens não sabem”, pensou Belerofonte, “talvez o saibam as ninfas, as nereidas, as Musas!”. Com esse pensamento se pôs a caminho do Hélicon, a montanha de muitas fontes e densas florestas, onde se dizia que viviam várias dessas divindades. O herói subiu as encostas arborizadas, prosseguiu entre os vales frondosos e, depois de caminhar por bastante tempo, chegou a uma fonte. Milhares de plátanos ocultavam o céu e as encostas escarpadas; rochas rodeavam aquele lugar encantador, que parecia inexplorado… Mas eis que, em meio ao murmúrio da água e o gorjeio dos passarinhos, ouviram-se de repente alegres vozes femininas e canções. Vieram à mente do herói as Musas do Hélicon. Realmente, três moas lindíssimas, iguais a deusas, logo surgiram diante dele e ofereceram sua ajuda. Quando Belerofonte disse que queria encontrar Pégaso, as Musas ficaram surpresas:

– O que você pede não é nada fácil! Você não tem sorte. Se tivesse vindo um pouco mais cedo, o encontraria aqui! Esta fonte que está vendo foi ele próprio quem fez e, por isso, se chama Hipocrene. Ao bater sua pata na rocha, a água jorrou. Pégaso se encontra agora em Acrocotrinto, onde há uma outra fonte sua, criada da mesma maneira, chamada Pirene. Vá para lá e pode ser que o encontre. Apenas mantenha-se  a distância, porque Pégaso não deixa que ninguém se aproxime dele. Ainda que consiga chegar perto, não tente montá-lo! Ele é muito selvagem e, se quiser fazer isso, perderá a vida nessa vã tentativa!

Contudo. Belerofonte não desanimou. Satisfeito com as informações, despediu-se das Musas e tomou o rumo de Acrocorinto. A ideia  de libertar a terra de Iobates da fúria destruidora da Quimera lhe dava coragem, e o pensamento de cavalgar Pégaso o encantara tanto, que de modo algum lhe passou pela cabeça recuar diante do perigo.

Marchando para Acrocorinto, Belerofonte avistou um templo dedicado à deusa Atena. Entrou, pôs-se de pé em frente à estátua da deusa, reverenciou-a humildemente e pediu-lhe que o ajudasse a encontrar e domar Pégaso. Em seguida, como era tarde e o Sol já tinha se posto, esticou-se em um canto do lado de fora do templo. Cansado, logo pegou no sono. Em sonho, viu a própria deusa Atena, que segurava entre as mãos uma rédea dourada:

– Belerofonte, filho de Posídon! – disse ela – Saiba que Pégaso é seu irmão, uma vez que também é filho do deus do mar. Porém, não é por isso que vai deixar você montá-lo. Tome estas rédeas; são mágicas. Se as colocar em Pégaso, ele se tornará tão obediente a você quanto o mais calmo dos cavalos.

Belerofonte logo estava voando pelo céu montado em Pégaso. Era incrível. Era mágica, mas uma mágica que não era real, nem durou muito, pois logo o herói acordou e se viu deitado sobre a terra.

Desapontado por tudo não passar de um sonho, decidiu levantar-se, quando enxergou uma rédea ao seu lado. Era a mesma rédea dourada que a deusa lhe dera em sonho. Tomou-a nas mãos. Desta vez não era sonho! Ele realmente tinha em suas mãos rédeas mágicas, com as quais poderia domar Pégaso!

Imediatamente Belerofonte retomou seu caminho para Acrocorinto. Logo encontrou a fonte Pirene, escondeu-se atrás de um arbusto e esperou. A cada farfalhar das folhas, virava a cabeça, pensando ser o cavalo que procurava. De repente, um estranho barulho de bater de asas o fez olhar para o céu e lá estava Pégaso!

Bellerophon on Pegasus, Walter Crane (1892)

Belerofonte montando Pégaso, por Walter Crane (1892).

Belerofonte olhava encantado para ele. Percebeu que precisava se esconder melhor e abaixou-se atrás do arbusto. Em pouco tempo Pégaso desceu até a fonte, bem em frente ao esconderijo do herói.

Apesar de não ter visto Belerofonte, o cavalo percebeu que havia alguém por perto e ficou arisco. Olhando para a esquerda e para a direita, relincho alto, enquanto movia as asas de modo ameaçador. O herói não se acovardou, e ficou esperando que surgisse a oportunidade. Entretanto, não havia jeito de Pégaso se acalmar. Então, o herói pegou uma pedra e jogou-a por sobre o dorso do cavalo para dentro e um arbusto. Ao escutar o barulho no arbusto, Pégaso virou a cabeça naquela direção e, de orelhas em pé, tentou descobrir o que era, ficando quase imóvel. Como um raio, Belerofonte saltou de seu esconderijo e, antes que Pégaso pudesse fazer o menos movimento, passou-lhe as rédeas.

O cavalo, pego de surpresa, virou-se e viu que Belerofonte, naquele momento, o acariciava no pescoço enquanto segurava-o firme pelas rédeas. Ao compreender o que havia acontecido, o cavalo sequer procurou fugir; em vez disso, relinchou amigavelmente, demonstrando submissão. O selvagem Pégaso havia sido domado.

Jan Boeckhorst , Pegaso (1675-1680)

Pégaso, por Jan Boeckhorst (1675-1680), Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte contra a Quimera: preliminares

Após receber a carta de seu genro Preto dizendo que Belerofonte tentara violar a sua filha, Iobates teve uma ideia para se livrar do herói e disse-lhe:

– Há por aqui uma fera abominável que nos faz estragos terríveis, a Quimera, a qual ninguém ousa enfrentar. Se fosse jovem como você, iria eu mesmo! Mas agora já não tenho a força da juventude e, por isso, pensei em você, que é forte e audacioso. Acredito que poderá fazer o que lhe peço.

Belerofonte aceitou diligentemente e Iobates ficou satisfeito em achar um modo de executar o pedido de seu genro. Afinal, tinha certeza de que o jovem encontraria a morte lá onde o enviara.


Sobre a Quimera:
ChimereEra um monstro invencível e assustador. Filha de Tífon e Equidna tinha por irmãos o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, Ortro, Cérbero e os criaturas terríveis. Tinha três cabeças diferentes: na frente, um leão; atrás, um dragão e, no meio, uma cabra selvagem. A cabeça da cabra era a mais perigosa, pois cuspia fogo pela boca. Por toda a redondeza, a Quimera espalhava a catástrofe e a morte. E não eram só os homens e os animais que ela matava e fazia em pedaços; de sua fúria destruidora não se salvavam nem as lavouras, nem os frondosos bosques. Tudo se queimava com as chamas que ela lançava de sua boca caprina.


Como derrotar tal monstro só com entusiasmo e força?! Belerofonte, que compreendia a dificuldade da tarefa, foi encontrar-se com o sábio adivinho Polieido, para pedir seu conselho. Polieido disse que a Quimera só seria derrotada por aquele que cavalgasse Pégaso, filho de Posídon, o cavalo alado e imortal que brotou do pescoço da górgona Medusa quando foi morta pelo herói Perseu. Porém, o adivinho não sabia dizer a exata localização do cavalo alado, só sabia que ele circulava pelas montanhas e céus da Grécia e que evitava os homens.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Belerofonte, o neto de Sísifo

Julius Troschel  Bellerophon and Pegasus - 1840-50

Belerofonte e Pégaso, por Julius Troschel (1840-50)

Com a morte de Sísifo, seu filho Glauco subiu ao trono de Corinto. O herói Belerofonte era filho de Glauco. Esse glorioso herói chamava-se Hipónoo no princípio, mas esse nome foi esquecido quando, ainda muito jovem, matou um terrível ladrão que havia se tornado o terror de toda Corinto. O nome desse malfeitor era Belero. Depois dessa inacreditável proeza, todos passaram a chamá-lo Belerofonte, “o matador de Belero”.

Embora o feito do jovem herói tenha trazido um grande alívio para todos, o deus da guerra zangou-se com ele e exigiu seu castigo. Belerofonte foi então obrigado a fugir de Corinto e abrigou-se na vizinha Tirinto. Era a época em que naquela cidade reinava Preto, filho de Abas (e irmão de Acrísio, o avô de Perseu), que o recebeu de bom grado. Belerofonte se pôs a serviço do rei e, com zelo e abnegação, executava os seus mais difíceis mandados, surpreendendo-o frequentemente.

O filho de Glauco, que era belo como um deus, provocou também a admiração da rainha Estenebeia, admiração que logo tornou-se um amor irreprimível. Um dia, na ausência de Preto, Estenebeia não hesitou em falar com o belo jovem. Belerofonte recusou o seu amor. Como poderia se comportar de maneira tão vil com o homem que o havia acolhido e ajudado com tanta diligência?! Se nobre coração não admitia isso. No entanto, a rainha ficou terrivelmente zangada, e o amor se transformou em um ódio fatal. Agora já não pensava em mais nada, a não ser em como poderia achar um meio de liquidá-lo. Enfim, sem qualquer hesitação, foi até Preto e lhe disse que o homem que ele havia acolhido em seu palácio tentou desonrá-la. Preto ficou estupefato. Afinal, por mais estima que tivesse por seu hóspede, não podia imaginar que fosse possível sua mulher contar uma mentira como aquela.

O peito de Preto se insuflou de raiva. A rainha disse que a única solução era matar o jovem herói. Mas, ao ouvir essas palavras, o rei ficou muito pensativo. Leis sagradas proibiam que se desse tal castigo a um hóspede. Entretanto, não tardou a encontrar uma maneira de satisfazer o desejo da mulher: em vez de ele mesmo matar Belerofonte, o pai de Estenebeia, Iobates, rei da Lícia, poderia fazê-lo.

Assim, sentou-se e pôs-se a escrever estas palavras: “Aquele que lhe traz esta carta tentou desonrar sua filha, por isso deve morrer.” Em seguida, selou-a e a entregou a Belerofonte, para que a levasse a Iobates. Sem desconfiar de nada, o inocente jovem pegou a carta e rumou a Lícia.  Ao chegar, de carta na mão, apresentou-se a Iobates. Este, contudo, ao saber que o rapaz era enviado de seu genro, ficou tão feliz que abandonou a carta num canto e o recebeu com festas e horarias que duraram nove dias inteiros.

No décimo dia, Iobates decidiu ler o que Preto lhe havia escrito e, então, sumiu-lhe toda a alegria, e seu rosto endureceu. Era inacreditável! O homem que ele acolheu em sua casa com tanto entusiasmo havia ultrajado descaradamente a sua filha?! Todavia, não quis matar Belerofonte pessoalmente, pelas mesmas razões de Preto.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu e Andrômeda

Depois de decapitar Medusa e petrificar Atlas, Perseu continuou sua jornada e alcançou a costa da Etiópia. Voando no céu, viu do alto alguma coisa branca entre as escuras rochas da praia. Desceu por curiosidade. A primeira vista pensou se tratar de uma estátua, porém, ao se aproximar um pouco mais, reparou que era uma moça. Estava atada à rocha e chorava desesperadamente. Perseu firmou o pé em terra e se aproximou da jovem. Perguntou-lhe por que a haviam amarrado. Aos soluços, ela se pôs a relatar sua trágica história:

– Meu nome é Andrômeda e sou filha de Cefeu, rei da Etiópia. Fui amarrada à rocha porque preciso pagar por um delito que não cometi! Minha mãe, a rainha Cassiopeia, cometeu um erro inconcebível: quis medir-se em beleza com as formosas nereidas, filhas de Nereu, o adivinho do mar. E ainda brigou com elas no final, insistindo ser a mais bela. As deusas marinhas ficaram muito ofendidas e foram fazer suas queixas não a seu pai, que é calmo e jamais se zanga, mas ao poderoso deus do mar Posídon, o abalador da Terra. A fúria do deus foi irrefreável. Para nos castigar, enviou à nossa terra uma inundação catastrófica! Assim que essa desgraça passou, fez surgir um monstro marinho que devasta nossos campos. Como o mal parecia não ter fim, meu pai foi perguntar ao oráculo o que devia fazer. O adivinho respondeu que o mal só terá fim quando o monstro devorar a filha do rei. O povo não suportando mais a desgraça que se abatera sobre ele, se amotinou. Assim, amarraram-me a esta rocha, e agora estou prestes a ser despedaçada pela fera.

Perseu ficou imensamente comovido. Já estava apaixonado pela linda moça e queria muito salvá-la, para fazê-la sua esposa, mas não sabia com que palavras se dirigir a ela. Então Andrômeda acrescentou:

– Solte-me, caro estrangeiro! E faça de mim sua escrava, se não quiser se casar comigo! Salve-me e lhe serei grata para sempre.

Mal disse isso, a jovem começou a chorar, lamentando seu destino tão impiedoso. Perseu então se apresentou a Andrômeda, dizendo que era filho de Zeus e que podia derrotar o monstro para libertá-la. No momento em que a esperança iluminou o rosto da bela princesa surgiram seus pais, que haviam escutado as palavras de Perseu. Atiraram-se aos seus pés e imploraram para que o herói salvasse sua filha. Eles prometeram dar todas as suas riquezas e o reino inteiro, caso Perseu o quisesse.

Perseus e Andromeda, por Pablo Veronese (1576-78)

Perseu e Andrômeda, por Pablo Veronese (1576-78), Museu de Belas Artes de Rennes, França.

Perseu queria apenas desposar Andrômeda. Então, Cefeu e Cassiopeia juraram em nome da deusa Afrodite que lhe dariam a mão da filha em casamento, se ele derrotasse o abominável monstro. Eis que, num instante, o mar começou a espumar e a revolver-se. Um dorso negro surgiu dentre a espuma, mas desapareceu para ressurgir logo em seguida, até que, em pouco tempo, se podia distinguir um dragão marinho tenebroso sobre as ondas.

O momento era crítico. O monstro rasgava as ondas e se aproximava rapidamente. Perseu voou para o céu. Andrômeda e seus pais olharam-no surpresos, quando, subitamente, o herói colocou o elmo de Hades e ficou invisível, deixando todos perplexos. Arremessou-se, invisível, sobre o dragão e de repente desferiu-lhe um golpe de espada no pescoço, mas este era tão grosso, que a criatura não sofreu grande dano, apenas ficou ainda mais enraivecida. O imenso dragão começou a saltar, formando ondas do tamanho de montanhas, e Perseu não via oportunidade de golpeá-loo novamente. O monstro procurava o inimigo, mas não via nada, nem na terra nem no mar; até que enxergou a sombra de Perseu sobre as ondas espumantes. Enganado, lançou-se em direção a ela. Então, o herói viu a chance que esperava e enterrou a espada até o cabo na cabeça da fera. Enfim, como que por magia, o monstro se acalmou; virou-se de barriga para cima no mar e ficou ali, arrastado pelas ondas. Andando agora sobre ele, Perseu tirou o capacete de Hades,  Andrômeda e seus pais, vendo-o de pé sobre o dragão, choraram de alegria. Após assegurar-se de que a fera estava mesmo morta, Perseu voou até Andrômeda. Depressa soltou as correntes que a prendiam.

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13)

Perseu libertando Andrômeda, por Piero di Cosimo (1510-13), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.

No dia seguinte, prepararam-se as núpcias. No grande salão do palácio reuniram-se todos os nobres da região. Tudo era rico e majestoso. Logo, um cantor, belo como um deus, começou a tocar sua harpa, e a festa teve início. De repente, a canção foi interrompida e todos ficaram mudos e surpresos, pois a porta, escancarando-se, fez um estrondo: Fineu, irmão de Cefeu, entrou acompanhado de vários guerreiros dizendo que Andrômeda pertencia a ele. Cefeu e Cassiopeia ficaram sem palavras.

– Ouçam todos! – gritou um respeitável nobre. – Andrômeda está viva porque Perseu a salvou, arriscando a própria vida! E agora vem Fineu reivindicar seus direitos. Que direitos, Fineu? Onde você andava quando Andrômeda estava presa à rocha? Por que não foi matar o monstro? Por que, em vez disso, você se foi, deixando-a para a morte, sem nem mesmo ir confortá-la em sua desgraça? Quem desfez o noivado? Os pais dela ou você mesmo? E com que direito vem tomá-la agora, ainda por cima à força? Andrômeda pertence a Perseu. Para aquele que discordar disso, há uma solução muito simples: perguntar a ela.

Cefeu, então, perguntou a filha com quem ela se casaria. Andrômeda respondeu que sua vida pertencia a seu salvador e que tomaria o mesmo como esposo.

Fineu irritadíssimo, sem perder tempo, arremessou sua lança em direção a Perseu, que estava parado e pulou para o canto, salvando-se. Mas a arma atingiu mortalmente o peito do cantor. Perseu sacou sua espada para se defender, enquanto, dentre os convidados, vários jovens destemidos e valorosos puseram-se a seu lado. A batalha teve início imediato. Um após outro, os homens de Fineu caíam mortos pelo chão, mas, como eram muitos e pereciam também diversos companheiros de Perseu, a luta continuava desigual.

A própria Atena, vendo o herói em perigo, veio ajudá-lo, protegendo-lhe o corpo com seu escudo. Porém, choviam flechas e lanças, e todos os guerreiros de Perseu já estavam mortos. O valente filho de Zeus guerreava sozinho. Apoiado em um pilar, travava uma luta que não tinha  menor chance de vencer. A não ser que… Então Perseu gritou para que fosse seu amigo, virasse os olhos para o outro lado. Dizendo isso, tirou da sacola a cabeça de Medusa e exibiu-a aos inimigos. De repente, o palácio de Cefeu ficou repleto de estátuas. Eram os guerreiros de Fineu, que haviam se transformado em pedra.

Por último restou o próprio Fineu, que, ao ver o mal que se abatera sobre seus companheiros, caiu apavorado aos pés de Perseu e implorou compaixão. O herói, no entanto, mostrou-lhe a cabeça da górgona e o transformou em pedra. Assim, Fineu ficou petrificado na posição mais humilhante, a do guerreiro suplicante.

Perseu desposou Andrômeda, mas não quis prolongar sua permanência no  palácio de Cefeu, pois precisava voltar à Grécia. Com lágrimas nos olhos, Andrômeda se despediu dos pais e acompanhou o marido.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O regresso de Teseu

Após derrotar o Minotauro, Teseu faz sua viagem de retorno a Atenas. Porém, antes de partir, fura os cascos dos navios cretenses para que Minos não consiga persegui-lo.

Quando Minos tomou conhecimento do que ocorrera, ficou cheio de cólera. Tinha muitos motivos para isso: não apenas Teseu matara o Minotauro, como todos haviam escapado… e o pior de tudo, com a ajuda de Ariadne, sua própria filha, que fugia com eles. O rei ordenou que lançassem os navios ao mar e se pudesse a perseguir os fugitivos, mas as embarcações, como estavam furadas, naufragaram todas.

Por fim Minos se conformou e disse: – Que assim seja! Essa era a vontade dos deuses. Ariadne é minha filha; que seja feliz. Quanto a Teseu, apesar de tudo, não se trata de um simples aventureiro, uma vez que é filho de Posídon.

O navio de Teseu fez escala em Naxos, para que ali pudessem descansar. Dormiram na areia. Entretanto, de noite, Dioniso, o deus do entusiasmo, apareceu no sonho de Teseu:

– Vocês devem se levantar e partir sem Ariadne, porque essa é a vontade de Zeus, pai dos deuses e dos homens!

Triste, mas sem poder desacatar a ordem do deus, Teseu despertou os companheiros. Tendo-lhes dito o que vira em um sonho, decidiram partir imediatamente. Desse modo, retomaram o caminho em direção a Atenas, deixando Ariadne a dormir. Quando ela acordou e se viu sozinha, chorou amargamente por causa da ingratidão de Teseu. Nesse momento, Dioniso surgiu diante dela:

– Não há ingratidão alguma – disse-lhe. – Teseu de nada tem culpa. Eu ordenei que fosse embora e a deixasse na praia. Afinal, é a vontade do grande Zeus que você se torne minha mulher.

Assim, Ariadne, filha de Minos, casou-se com o deus Dioniso.

Em Atenas, Egeu não conseguia abrandar sua dor deses o momento em que seu filho havia partido com os outros rapazes e moças. Não pregou o olho nem por uma noite e, por fim, decidiu descer até o cabo Súnion. Sentou-se em uma alta rocha sobre o mar, olhando persistentemente ao longe, com a esperança de avistar as velas brancas de Teseu e amainar o peso que lhe oprimia o coração.

King Aegeus and the return of Theseus by Panaiotis on deviantART

Rei Egeu e o retorno de Teseu, por Panaiotis (via DeviantArt)

E eis que no horizonte eclode um pequeno, muito pequeno e escuro ponto. Egue não ousou acreditar serem velas negras no navio que tanto esperava. Mas a pequena forma crescia, lentamente, até que o velho rei viu com clareza as velas da desgraça e da morte. Então havia acontecido aquilo que ele mais temia: seu filho fora devorado pelo Minotauro!

Perdido, Egeu olhou mais uma vez o pano negro que lhe dilacerava o peito e, não podendo mais suportar, atirou-se da alta rocha no mar espumante que passou a se chamar Mar Egeu.

Tudo isso porque Teseu, tomado pelas grandes emoções das aventuras que vivera, sequer se lembrou de trocar as velas negras pelas brancas. Enquanto Egeu desaparecia entre as ondas, o herói, feliz e despreocupado, navegava para Atenas.

Assim que Teseu e seus companheiros chegaram ao continente, em Fálero, ele ordenou a um arauto que corresse logo à cidade com as boas notícias, alegrando Egeu e todos os atenienses. Ele decidira ficar junto dos companheiros para realizarem os devidos sacrifícios as deuses, em agradecimento pela salvação e pela vitória.

Já havia terminado essas celebrações quando viram o arauto retornando, acompanhado de atenienses que se aproximavam gritando: “Eleleu! Iu! Iu!”.

Todos se espantaram com aquele gritos: “Eleleu” significava alegria; “Iu! Iu!”, tristeza.

Contudo, não demoraram a ficar sabendo da dolorosa notícia, e Teseu chorou inconsolavelmente a perda vã de seu pai, transtornado com sua falta imperdoável ao esquecer-se de trocar as velas. Do mesmo modo, seus companheiros choraram pela perda do rei Egeu. Apesar de tudo, não era hora só de pranto, mas também de regozijo. Por isso, a volta de Teseu a Atenas foi uma marca de triunfo. À frente ia o próprio herói, seguido pelos dois valorosos jovens que haviam se passado por garotas, e mais atrás, os outros rapazes e moças.

Com gritos de “Eleleu! Iu! Iu!”, toda a cidade recebeu os bravos guerreiros. Enquanto muitos lançavam sobre eles ramos de oliveira, outros lhes colocavam sobre as cabeças coroas enfeitadas com fitas brancas, o que até então só se fazia com as estátuas dos deuses.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Anteu

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690).

Άνταῖος, Anteu, é a personificação de ἀνταῖος (antaîos), “que se opõe, hostil, adversário”, cuja origem é o advérbio e preposição ἂντα (ánta), “em face de, contra”, donde Anteu é “o adversário, o inimigo”.

Anteu é um gigante, filho de Posídon e Gaia. De uma força prodigiosa, obrigava a todos os que passavam pelo deserto da Líbia, onde residia, a lutarem com ele até a morte. Era ajudado por sua mãe, Gaia, durante as batalhas. Quanto mais o corpo de Anteu tocava a Terra, mais ela renovava seus poderes; assim nunca ficava cansado e o resultado era que nunca perdia uma luta.

Héracles, ao atravessar a Líbia, em busca dos pomos de ouro do jardim das Hespérides, encontrou o vigoroso gigante.  aceitou o desafio do gigante. O herói foi desafiado. Sem saber que Anteu tirava sua força da Mãe Gaia, lutou bravamente com ele durante muito tempo, mas em vão. Vezes e mais vezes o herói lançou-o contra o chão, e ficava cada vez pior, pois o gigante punha-se de pé num salto. Héracles estava intrigado com isso: como era o gigante capaz daquelas súbitas explosões de força quando, um momento antes, tinha estado perto ser derrotado, rastejando na poeira? Então o herói se lembrou de que seu oponente era filho de Gaia. Agarrou o gigante, levantou-o bem alto no ar e não o deixou tocar na terra. Na luta desesperada para escapar, todas as suas forças se esgotaram, e o medonho gigante encontrou seu destino.

Anteu se casara com Tinge, que lhe deu um filho, Sófax, fundador da cidade de Tíngis em honra de sua mãe. Tíngis, depois Tânger, ficava na Mauritânia.

Heracles and Antaeus, red-figured krater by Euphronios, 515–510 BCE, Louvre (G 103)

Héracles e Anteu, cratera por Eufrônio 515-510a.C., Louvre.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Perseu e Atlas

Após decepar Medusa, Perseu continuou sua viagem até chegar a um lugar onde se defrontou com um espetáculo incrível: um enorme gigante sustentando nos ombros a abóbada celeste! Era Atlas, o titã castigado pelo grande Zeus com o suplício de segurar para sempre essa carga insuportável, por haver lutado contra os deuses na terrível titanomaquia.

Cheio de admiração pela força inacreditável de Atlas, Perseu desceu ao solo e se apresentou ao gigante. Queria muito conhecer de perto o deus mais forte do mundo, mas o titã não o recebeu bem. Havia uma profecia segundo a qual um filho de Zeus viria àquelas paragens para pegar os pomos de ouro do jardim das Hespérides (o filho de Zeus em questão era Héracles, que buscou os pomos em seu décimo primeiro trabalho). Embora Ládon, um dragão cruel, vigiasse o jardim, Atlas muito se preocupava com o possível desaparecimento dos pomos de ouro. Por isso, mal viu Perseu, espantou-se e perguntou-lhe quem era e o que buscava naquele lugar tão remoto, onde homem algum jamais havia pisado.

– Sou Perseu, filho de Zeus. Venho de…

Atlas não o deixou terminar a frase. Ao ouvir que i estranho era filho de Zeus, pensou nos pomos de ouro e gritou:

– Ladrão! Veio aqui buscar o mais precioso tesouro que guardamos nesse lugar! Suma depressa de minha vista antes que eu chama Ládon, que o fará em pedaços!

– Não sou ladrão nem vim tomar nada de você. Estava passando por aqui porque fui matar a górgona Medusa. Veja, dentro desta sacola trago a cabeça do monstro.

– Você não só é ladrão como também mentiroso, pois ousa me dizer que traz consigo a cabeça da Medusa. Como se alguém pudesse decepar aquelar criatura!

– Pois eu consegui! Veja por si mesmo!

Perseu tirou da sacola a medonha cabeça e a exibiu ao titã. Então aconteceu um espetáculo estarrecedor: ao olhar nos olhos de Medusa, Atlas se petrificou. Todo o seu corpo se transformou numa imensa montanha; seus cabelos e barba viraram florestas e sua cabeça, o cume. Sobre esse cume, desde então, se apóia a abóboda celeste. Até hoje esse montanha chama-se Atlas.

Atlas Turned to Stone, by Edward Burne-Jones (1878)

Atlas transformado em pedra, por Edward Burne-Jones (1878).

O jovem herói ficou aterrorizado. Jamais imaginou que aquela cabeça decepada teria o poder de transformar em pedra um titã como Atlas, que além do mais era imortal. Extremamente penalizado, colocou novamente a cabeça da Medusa na sacola e voou.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Perseu

Περσεύς (Perseús), Perseu, o nome era aproximado etimologicamente pelos lexicógrafos antigos do verbo πέρθειν (pérthein), “devastar, destruir”. A hipótese mais provável é de que o antropônimo seja Περσέπολις (Persépolis), “o destruidor de cidades”, ou um termo de substrato, um nome pré-helênico, que significaria simplesmente “a terra”.

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