O nascimento de Perseu

Acrísio se casou com Aganipe e teve uma única filha, a Dânae. Preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá trancou sua filha. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

Danae and the Shower of Gold, by Adolf Ulrik Wertmüller 1787

Dânae e a chuva de ouro, por Adolf Ulrik Wertmüller (1787)

Poucos dias depois, Acrísio, passando por perto da prisão, escutou um choro de bebê. Embora pensasse que seus ouvidos o enganavam, abriu a porta e ficou espantado ao ver sua filha com uma criança nos braços. Aterrorizado e sem poder acreditar que aquela criança era filha de Zeus, desconfiou de seu irmão Preto. Sua suspeita logo se tornou certeza, e a cólera imediatamente se adensou em seu peito. Para vingar-se do irmão, mas também para se desvincilhar daquele neto tão perigoso, decidiu matar Dânae e a criança. Contudo, na última hora, teve medo da ria dos deuses e se conteve.

Então teve uma ideia e disse: – Que as ondas espumantes os engulam! Que os peixes os devorem! Não serei eu a lamentar e sim Preto! Ele mesmo não pôde me matar todos esses anos, e não ficarei esperando que seu filho me mate agora!

Logo pôs em curso o que havia planejado. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. que por isso tomaram seu nome.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae, por Waterhouse (1892)

Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Vendo-o assim tão bem-feito, estranhou ainda mais e perguntou-se que tipo de coisa poderia conter e de onde teria vindo. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los.

Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Odiava todas as mulheres e havia jurado nunca se casar. Porém, assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la. Tudo isso, porém, teve um efeito contrário, pois a jovem mãe tinha horror ao rei, mais nada.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

Perseus and Danae, Museum of Fine Arts, Boston, USA, 490BC

Perseu e Dânae ~490a.C, Museu de Belas Artes, Boston.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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