O engenho de Dédalo, o sonho de Ícaro

Dédalo, após ajudar Teseu a fugir do Labirinto, foi preso por Minos no mesmo Labirinto. O rei de Creta estava furioso com a traição de Dédalo e com a fuga de Ariadne junto dos atenienses. Como punição, prendeu Dédalo e seu filho, Ícaro, na construção complexa. O renomado artista agora era um prisioneiro.

– A escravidão é difícil de ser suportada – disse Dédalo -, mas, para um artista, é dez vezes pior. Contudo, como deixaremos Creta, se nem podemos escapar do labirinto?

– Só os pássaros são livres – respondeu Ícaro. – Se pudéssemos voar como eles, escaparíamos daqui. Infelizmente, os deuses não deram asas ao homem.

– Mas deram o cérebro, Ícaro – replicou o pai e subitamente ficou em silêncio, alheado em seus pensamentos.

– Sim, nós temos cérebro – continuou Ícaro – mas, se também tivéssemos asas, como seria maravilhoso! Planaríamos lá em cima, no céu, tão alto quanto o Sol; viajaríamos como os pássaros, como as nuvens, como os próprios deuses.

Daedalus Attaching Wings to Icarus, by Pyotr Ivanovich Sokolov (1777)

Dédalo prendendo as asas em Ícaro, por Pyotr Ivanovich Sokolov (1777)

Dédalo estava absorto em seus pensamentos quando Pasífae, rainha de Creta, chegou para visitá-lo. Pasífae, ao contrário do marido, era uma pessoa compassiva e estava disposta a ajudar o ilustre artista a escapar. Dédalo, que não suportava mais ficar aprisionado, pediu a ela que trouxesse tantas plumas quanto pudesse. Penas de cisnes, águias, cegonhas e abutres para que ele construísse asas.

No dia seguinte, Pasífae começou a supri-lo de penas, tomando o cuidado de levá-las em pequenas quantidades para não ser descoberta. Dédalo imediatamente pôs mãos à obra. Com grande arte e habilidade, ligava as penas com cera, para fixar cada uma no lugar certo. Era um trabalho delicado, que exigia tempo e paciência, mas em poucos dias as asas já tinham tomado forma. Dois pares de asas bem feitas.

Usando correias de couro, Dédalo prendeu um par de asas nos braços e nos ombros de Ícaro, depois colocou as suas. Movimentando os braços para cima e para baixo, Dédalo elevou-se nos ares facilmente. Ícaro fez o mesmo. Tudo estava pronto, porém, antes de partirem, Dédalo olho seu filho nos olhos e disse:

– Ícaro, a viagem que vamos fazer não será fácil. Temos um longo caminho a percorrer. Só chegaremos a nosso destino com segurança se tomarmos cuidado. Não podemos voar muito baixo, poque as ondas do mar molhariam as penas, e tampouco muito alto, porque o Sol derreteria a cera que prende as penas das asas. Devemos viajar devagar, mantendo a mesma velocidade e altura, como as cegonhas, para termos um voo seguro e agradável. Siga-me e lembre-se de meus conselhos.

Dizendo isso, Dédalo agitou suas grandes asas e elevou-se no céu, seguido por Ícaro. Logo sobrevoaram o palácio do rei Minos, onde Pasífae, aflita, desde cedo estava no terraço olhando para o alto.

Dédalo e Ícaro voavam tranquilamente, mantendo a velocidade e a altura, avançando sempre. Enxergaram a primeira Cíclade, em forma de meia-lua. Era a ilha de Tera, ou o que restou dela após a grande erupção vulcânica que lhe cobrira o centro. Voando para o norte, viram Naxos, a ilha de Dioniso, e depois Delos, com seu grande tempo de Apolo. Finalmente o mar aberto estendeu-se novamente abaixo deles.

Ícaro estava radiante com as asas. Seguia o rumo, mas subindo e descendo, fazendo brincadeiras. Dédalo alertou para que o filho tomasse cuidado, mas, lamentavelmente, Ícaro sentia-se confiante demais e não ouviu os conselhos do pai. Ícaro estava destinado a um triste fim. Ele era ousado. Quanto mais alto subia, mais exultante ficava. O Sol o atraía como um ímã, e o conselho do pai foi esquecido.

Quando Dédalo voltou a cabeça outra vez para verificar se tudo corria bem, não viu sinal do rapaz. Em pânico, procuro pelo céu, até que viu um minúsculo ponto afastando-se rápido em direção ao astro reluzente. Ele tentou, em vão, chamar seu filho. Em pouco tempo, o que Dédalo temia aconteceu. O Sol derreteu a cera e as penas espalharam-se pelo ar. Logo não restou uma só, e Ícaro caia lá do alto como uma pedra. Batendo as asas freneticamente, Dédalo fez um esforço desesperado para pegá-lo, mas foi em vão: o jovem encontrou sua morte no mar.

Usando as asas com dificuldade, Dédalo carregou o corpo do filho para a ilha mais próxima, onde o sepultou. Desde então, a ilha passou a ser chamada de Icária, e o mar que a circunda, Icário.

Jacob Peter Gowy's The Flight of Icarus

O voo de Ícaro, por Jacob Peter Gowy’s (1630)

Voar, voar
Subi, subir
Ir por onde for
Descer até o céu cair
Ou mudar de cor
Anjos de gás
Asas de ilusão
E um sonho audaz
Feito um balão…
[…]
Além do mais
Amargo fim
Simplesmente sol…
[…]
Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derreta
A cera até o fim…
Sonho de Ícaro – Byafra

A feliz música acima retrata bem o mito de Ícaro. As “asas de ilusão” enganam. Ícaro voou cego pelo entusiasmo, estava exultante, o jovem que se leva pela adrenalina, inconsequente. Seu “sonho audaz”, se desfez… Instável, inconstante e perigoso rarefez-se. Teve seu “amargo fim” tragado pelas ondas oceânicas. Se elevou, depois despencou. Morreu.

Embora Minos nos feche a terra e o mar,
ao menos o céu está aberto: iremos por lá.
Senhor de todas as coisas, ele não tem domínio sobre o ar.
Ovídio, Metamorfoses, 8, 185-187

E um poeminha meu:

.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2004

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