Arquivo do mês: abril 2015

O nascimento de Perseu

Acrísio se casou com Aganipe e teve uma única filha, a Dânae. Preocupado por não ter sucessor e querendo saber se um dia teria um filho varão, o rei foi consultar o oráculo de Delfos. Apolo lhe deu a seguinte resposta:

– Ouça, Acrísio, filho de Abas! Você nunca terá um filho homem a que possa ceder o reino, mas no lugar dele reinará um grande herói nascido de Dânae. Fique sabendo de uma coisa: está escrito pelo destino que esse neto o matará!

Acrísio, ao ouvir aquilo, ficou arrasado, Tinha agora outra preocupação em mente: escapar de seu destino. Para conseguir isso, seria capaz de qualquer coisa. O único problema era assegurar-se de que não teria nenhum neto. Assim, mandou construir uma prisão subterrânea com pesadas portas de bronze e lá trancou sua filha. Acreditava que assim a impediria de se casar e ter um filho.

No entanto, quem se apaixonou pela beleza de Dânae foi o próprio Zeus, e prisão alguma era capaz de impedir o soberano dos deuses e dos homens de realizar sua vontade. Zeus entrou na escura prisão de Dânae, passando pelas frestas da janela, sob a forma de uma chuva de ouro. Depois de nove meses, a filha de Acrísio deu à luz Perseu.

Danae and the Shower of Gold, by Adolf Ulrik Wertmüller 1787

Dânae e a chuva de ouro, por Adolf Ulrik Wertmüller (1787)

Poucos dias depois, Acrísio, passando por perto da prisão, escutou um choro de bebê. Embora pensasse que seus ouvidos o enganavam, abriu a porta e ficou espantado ao ver sua filha com uma criança nos braços. Aterrorizado e sem poder acreditar que aquela criança era filha de Zeus, desconfiou de seu irmão Preto. Sua suspeita logo se tornou certeza, e a cólera imediatamente se adensou em seu peito. Para vingar-se do irmão, mas também para se desvincilhar daquele neto tão perigoso, decidiu matar Dânae e a criança. Contudo, na última hora, teve medo da ria dos deuses e se conteve.

Então teve uma ideia e disse: – Que as ondas espumantes os engulam! Que os peixes os devorem! Não serei eu a lamentar e sim Preto! Ele mesmo não pôde me matar todos esses anos, e não ficarei esperando que seu filho me mate agora!

Logo pôs em curso o que havia planejado. Pouco tempo depois, na ilha de Sérifos, um pescador de nome Díctis estava a pescar num lugar que até então não conhecia. Com a ajuda da deusa Atena, confeccionara as primeiras redes do mundo. que por isso tomaram seu nome.

Dânae por Waterhouse (1892). Dânae e seu filho, Perseu, são lançados ao mar.

Dânae, por Waterhouse (1892)

Quando começou a puxá-las de dentro do mar, viu que traziam um caixote. Tomado de curiosidade, puxou a caixa com força até a areia. Era um baú todo trabalhado, com fortes amarras de bronze. Vendo-o assim tão bem-feito, estranhou ainda mais e perguntou-se que tipo de coisa poderia conter e de onde teria vindo. Tentou abri-lo, mas não era fácil; o baú estava muito bem fechado. Díctis, porém, não desistiu. Desfez as amarras uma a uma, até que, por fim, despregou-lhe a tampa.

Atônito, deparou com duas formas humanas fracas: uma mulher e um bebê. Eram Dânae e Perseu. Acrísio os havia trancado e jogado ao mar, a fim de sufocá-los.

Díctis os ajudou a recobrar as forças e, em seguida, recebeu-os em sua casa. Ofereceu um quarto a Dânae e cuidou para que nada lhe faltasse na criação do filho.

O rei daquela ilha, Polidectes, era irmão de Díctis, mas o que este tinha de bondoso e compassivo, o irmão monarca tinha de duro e cruel. Odiava todas as mulheres e havia jurado nunca se casar. Porém, assim que viu Dânae, ficou admirado com sua beleza e quis tomá-la por esposa. Diante da recusa, ele não só insistiu, como também passou a ameaçá-la. Tudo isso, porém, teve um efeito contrário, pois a jovem mãe tinha horror ao rei, mais nada.

Os anos se passaram e Perseu tornou-se um jovem esbelto, cuja beleza, inteligência e força não tinham rivais. Polidectes jamais desistia de Dânae, mas agora tinha de enfrentar, além da recusa da própria, também a resistência de Perseu, que defendia a mãe.

Perseus and Danae, Museum of Fine Arts, Boston, USA, 490BC

Perseu e Dânae ~490a.C, Museu de Belas Artes, Boston.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Acrísio e Preto: a inimizade entre irmãos

Linceu casou-se com Hipermnestra, tornou-se rei e depois foi sucedido no trono por seu filho Abas, que, por sua vez, teve dois filhos gêmeos: Acrísio e Preto.

A cobiça de Egito fez de Dânao um inimigo mortal. A inimizade entre os dois era tanta que Dânao pediu que suas filhas, as danaides, matassem seus respectivos maridos na noite de núpcias, todos filhos de Egito. Mais tarde, no Hades, as danaides foram castigadas pela eternidade. Entretanto, aqueles que se tornaram célebres pela inimizade entre irmãos foram Acrísio e Preto. Desde pequenos ficaram conhecidos em toda a Grécia por suas disputas intermináveis.

Muitos diziam que a primeira contenda entre os dois aconteceu quando ainda estavam na barriga da mãe! Ela gritava de dor porque eles disputavam quem nasceria primeiro, afinal, este seria o herdeiro do trono.

O mal ficou ainda pior quando os dois cresceram, e isso angustiava demais seus velhos pais. Abas, na hora da morte, a fim de não dar motivo para novas brigas, chamou os filhos e disse que os dois deveriam governar o reino alternadamente: um ano um, um ano outro. O rei, porém, morreu sem ter tempo de dizer qual iria governar primeiro, e uma briga terrível eclodiu ali mesmo, sobre o cadáver do pai.

 Finalmente, Acrísio tomou o reino à força e Preto foi obrigado a se exilar, fugindo para a Lícia, cujo rei, Iobates, não somente o hospedou, como deu-lhe ainda a mão de sua filha, Estenebeia, em casamento. Por fim, obviamente também apoiou o genro em suas reivindicações pelos direitos ao trono de Argos. Deste modo, não passou muito tempo e Preto retornou à terra natal com um exército fornecido pelo sogro, a fim de reclamar junto ao irmão o reino do pai.

Acrísio recusou, e uma grande batalha teve início do lado de fora das muralhas de Argos. Como nenhum dos dois saiu vencedor, acertaram que Preto tomaria para si a vizinha Tirinto e Acrísio manteria Argos sob seu domínio.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Ortro

OrtroὌρθρος (Órthros), Ortro, “o que está vigilante, alerta ao nascer do dia”, era o cão que ajudava a guardar o rebanho de Gérion na Erítia juntamente com o gigante Êurito. Filho de Tífon e Equidna, era irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna e de Cérbero. Ortro tinha duas cabeças em cujas mandíbulas pronunciavam-se dentes pontiagudos e uma cuada que terminava numa cabeça de dragão.

Durante o décimo trabalho, o monstruoso cão de duas cabeças lançou-se contra Héracles com a intenção de estraçalhá-lo. O herói esquivou-se com um giro; quase não teve tempo de ver o que acontecia, e Ortro já pulara em cima dele. Se não fosse pela pele do leão, aqueles dentes terríveis teriam penetrado sua carne. Contudo, Héracles não perdeu a calma. Levantou sua clava e, quando o horrendo animal pulou outra vez, desferiu-lhe um golpe com tamanha força, que não foi necessário mais nenhum, pois a criatura caiu morta.

Orthrus dead at the feet of Geryon and Heracles, red-figure kylix, 510–500 BC, Staatliche Antikensammlungen

Ortro morto aos pés de Gérion e Héracles, 510-500 a.C., Coleções Estatais de Antiguidades, Munique.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Leão de Nemeia

Herakles and the Nemean Lion. Attic white-ground black-figured oinochoe, ca. 520-500 BC. From Vulci

Héracles e o Leão de Nemeia, vaso ático ~520-500 a.C

Leão enorme e aterrorizante que viva nas florestas de Nemeia, nome de uma cidade e de um bosque na Argólida e foi o cenário do primeiro trabalho de Héracles. Seu tamanho era inacreditável, seus rugidos eram tão estrondosos quantos os raios de Zeus, sua força equivalia à força de dez leões comuns e sua pele era tão dura que nenhuma flecha, lança ou espada, por mais afiada que fosse, podia perfurá-la. O animal era filho de Tífon, o monstro que lutara contra o próprio Zeus, e da igualmente temível, Equidna, metade mulher, metade serpente. Esse leão possuía irmãos célebres e terríveis: Hidra de Lerna, Cérbero, Quimera, a Esfinge de Tebas e outros monstros horrendos, temidos até pelos deuses.

Criado pela deusa Hera ou à mesma emprestado pela deusa-Lua “Selene”, para provar Héracles, era uma temeridade dar-lhe caça. O monstro passava parte do dia escondido num bosque, perto de Nemeia. Quando deixava os esconderijo, o fazia para devastar toda a região, devorando-lhe os habitantes e os rebanhos. Entocado numa caverna, com duas saídas, era quase impossível aproximar-se dele.

Héracles atacou-o a flechadas, mas em Mighty_Herculesvão, pois o couro do leão era impenetrável. Astutamente, fechando uma das saídas, o filho de Alcmena o tonteou a golpes de clava e, agarrando-o com seus braços forte, o sufocou. Com o couro da criatura o herói cobriu os próprios ombros.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Aves do Estínfalo

Albrecht Dürer, Hércules mata a las aves de Estinfalo (1500). Temple sobre lienzo, 87cm x 100 cm. Germanisches Nationalmuseun, Nüremberg.

Hércules mata as aves do Estínfalo, por Albrecht Dürer (1500), Museu Nacional Germânico, Nuremberg.

Numa espessa floresta, às margens do lago Estínfalo, na Arcádia, viviam centenas de aves de rapina horrorosas de porte gigantesco, que devoravam os frutos da terra, causando enormes prejuízos aos campos circunvizinhos. Segundo outras fontes, eram antropófagas e liquidavam os passantes com suas penas aceradas, de que se serviam com de dardos mortíferos. Suas asas eram de bronze; seus bicos e suas garras, de ferro, e elas eram imensas e sanguinárias. Nenhum homem ou animal podia se aproximar do lago porque, assim que os viam, as aves despejavam penas de bronze pesadas e afiadas como flechas, depois mergulhavam sobre suas vítimas feridas e as devoravam.

A dificuldade consistia em fazê-las sair de seus escuros abrigos na floresta. Hefesto, a pedido de Atena, fabricou matracas de bronze. Com o barulho ensurdecedor desse instrumentos, as aves levantaram voo e foram exterminadas pelas flechas de Héracles envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna, em seu terceiro trabalho.

Pájaros Estínfalo

Héracles e as Aves do Estínfalo, anfora ateniense 560-530 a.C., Museu Britânico, Londres.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Doze trabalhos: epílogo

Enfim despreocupado, Héracles pegou a estrada novamente; agora não para Micenas, mas rumo a Tirinto. Dez anos haviam se passado desde que ele ficara a servido de Euristeu. Dez anos terríveis de sofrimento, mas cheios de feitos gloriosos. Como um simples soldado que recebe ordens do mais imprestável comandante, Héracles obteve mais glória que o mais vigoroso rei ou o melhor estrategista já haviam conquistado até então.

Agora sua submissão a Euristeu havia terminado. O herói cumprira todas as ordens dos deuses e ganharam o perdão que merecia, suportando firmemente o pior para apagar o horrível crime que cometera ao matar seus próprios filhos, quando tomado pela loucura.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XII. Cérbero

Esse foi o único trabalho que Euristeu escolheu por si mesmo e foi o mais maligno: mandar o herói ir para o reino das profundezas e trazer o temível cão de guarda infernal, Cérbero.

Enquanto o mesquinhos rei fazia planos para aniquilar o herói, Héracles foi entregar os pomos de ouro para Atena. Ela os levou de volta para o jardim das Hespérides, pois lá era o seu lugar.

Após devolver os pomos, o arauto Copreu veio para lhe transmitir as ordens do rei para seu último trabalho: descer ao Hades e traze-lhe Cérbero.


Sobre Cérbero:
Cérbero era outro filho de Tífon e Equidna; portanto, irmão do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna, de Ortro, de Ládon e de muitos outros monstros terríveis. Era um cão com três cabeças circundadas por uma massa de serpentes sibilantes, e no fim de sua cauda havia uma cabeça de dragão. Cérbero era imortal e guardava os portões do Hades com uma vigilância permanente, para que nenhum morto escapasse à superfície. Se qualquer um se aproximasse dos portões, Cérbero o estraçalharia e o engoliria num instante.


Héracles partiu para esse trabalho envolvido em sua pele de leão e armado do arco-e-flecha e da clava. Descer vivo ao reino dos mortos já era algo inacreditável, mas voltar de lá com Cérbero como prisioneiro soava além dos limites da imaginação. Quando Zeus soube dessa tarefa imposta a seu filho, ficou preocupado e mandou Hermes e Atena para guiarem-no.

Entrando por um caverna nas encostas do monte Taígeto, os três mergulharam profundamente na Terra e, depois de horas andando por trilhas subterrâneas que jamais haviam sido pisadas, chegaram às margens do sagrado rio Estige.

Lá encontraram com Caronte, que transportava as almas dos mortos em seu barco. Embora ele não quisesse que Héracles subisse a bordo porque estava vivo, quando Hermes e Atena ordenaram, o barqueiro não teve outra escolha senão obedecer.

CerberusQuando chegaram ao outro lado, Cérbero farejou imediatamente o cheiro de carne humana viva e foi correndo para o portão. Normalmente ele não se incomodava com quem entrava, mas, quando viu Héracles, alto como um gigante e, além disso, armado, começou a rosnar e a mostrar os dentes. Porém não tentou atacar o herói e nem Héracles fez qualquer movimento contra ele. Atena o aconselhara que primeiro obtivesse o consentimento de Plutão, rei do Hades, pois, se não o fizesse, encontraria obstáculos insuperáveis.

Os três passaram pelos portões do reino dos mortos. Atena e Hermes eram imortais. Eles conheciam bem o reino de Plutão e não ficaram abalados com o que viam. Mas Héracles, que não era um deus, não pôde deixar de ficar impressionado. Mesmo sendo corajoso, sentiu o medo apertando seu peito. O reino dos infernos se estendia diante dele, escuro e sem limites. Em vez de céu, era coberto por altos arcos de pedra e sombrias abóbodas escavadas na rocha. Ouviam-se choros e gemidos por todos os lados, ecoando sem parar, e toda aquela vastidão se revestia de sons de sofrimento.

Héracles só tinha dado mais alguns passos quando as almas dos mortos o enxergaram e fugiram. Todas, menos a temível Medusa, a górgona alada, cujos cabelos eram uma massa de serpentes retorcidas. O herói se sentiu intimidado, mas como Medusa estava morta, não podia mais causar mal algum.

Outro morto que não fugiu foi o herói Meléagro. Ele vestia uma armadura brilhante e, assim que avistou Héracles, correu em sua direção. E falou para o herói que ele havia sofrido o pior dos infortúnios que um homem pode sofrer. Dizendo isso, sentou-se e contou sua trágica história: de como sua mãe, que o tinha amado como jamais outra mãe amou o filho, havia sido, no fim, o motivo de sua destruição, levando-o a lutar contra o próprio deus Apolo, o arqueiro mortal cujas flechas nunca erram o alvo. Só um confronto como aquele poderia tê-lo levado para o Hades, porque entre seus amigos ou inimigos nunca houvera um guerreiro como Meléagro.

Héracles nunca tinha ouvido uma história tão triste, e ela o comoveu tanto, que as lágrimas brotaram em seus olhos.

Mas Meléagro ainda não havia terminado e disse: “Ainda há algo que me preocupa. Eu deixei a minha irmã Dejanira na casa de meu pai, solteira e sem ninguém para protegê-la. Ela é encantadora como uma deusa. Torne-se seu guardião, Héracles, ou case-se com ela”. O herói tranquilizou Meléagro e disse que faria o melhor por sua irmã.

Finalmente, após outros encontros inesperados, Héracles apresentou-se diante de Plutão, rei do inferno. Plutão ficou perplexo ao vê-lo e perguntou asperamente o que ele pretendia, aparecendo vivo e armado diante dele. Mas sua mulher, Perséfone, que estava a seu lado, olhou para o herói com simpatia, porque ela também era filha de Zeus e isso fazia de Héracles seu irmão.

– Poderoso soberano do mundo dos mortos – o herói explicou -, eu não vim aqui por minha própria vontade. Fui enviado por Euristeu, a quem os grandes deuses deram o direito de me mandar fazer o que bem entendesse e de exigir de mim uma obediência cega. Eu me sujeitei à vontade desse soberano covarde para lavar a mancha de um crime terrível, e ele me enviou até aqui para realizar a mais impossível das tarefas, com um único objetivo: ocasionar a minha destruição, pois o simples fato de eu existir enche seu coração de medo. Até agora, todos os seus esforços falharam, e ele me mandou ao seu escuro reino, porque, segundo diz, quer ver Cérbero, apesar de eu crer que, se ele pôr os olhos nessa criatura, ficará tão aterrorizado, que não saberá onde se esconder. Seja como for, para mim não há escolha: tenho que levar Cérbero a Micenas.

Plutão parecia cheio de dúvidas. Como poderia permitir que o guardião do inferno fosse à superfície? Jamais ouvira uma coisa dessas. Mas Perséfone olhou para o marido com um ar suplicante que, depois de muito pensar, Plutão disse finalmente:

– Muito bem, pode levar o animal, mas só se puder dominá-lo sem usar suas armas.

Dominar o Cérbero sem nada nas mãos! O herói aceitou a oferta de certo modo aliviado e seguiu direto para os portões. Quando viu Cérbero, largou sua clava e seu arco, mas puxou a pele de leão com que se protegia para perto de seu corpo. Mais uma vez a pele do Leão de Nemeia, que ele conseguiu em seu primeiro trabalho, salvaria o herói.

Assim que Cérbero viu Héracles se aproximando dos portões do inferno, atacou-o. Ele deixara o herói entrar, mas isso não significava que o deixaria sair. Entretanto, nem as presas afiadas de Cérbero eram capazes de perfurar a espessa pele do leão, e Héracles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço, bem no ponto onde suas três cabeças brotavam. Ele apertou com toda sua força, e os esforços de Cérbero para soltar-se foram inúteis; este chegou a morder a perna do herói com os dentes de dragão da ponta da sua cuada, mas, apesar da dor, Héracles não afrouxou seu aperto. No fim, Cérbero não pôde resistir à pressão do estrangulamento e desistiu de lutar, assinalando para seu oponente que admitia a derrota.

Héracles pôs uma forte corrente em volta do pescoço de Cérbero. Subjugado, ele uivava humildemente, com as três cabeças baixas.

Para voltar, Héracles escolheu outra rota, que passava c%C3%A9rberos+o+c%C3%A3o+do+infernopelos Campos Elísios, um lugar muito diferente do escuro mundo do Hades. Lá ficavam os mortos que, por suas nobres ações, tinham ganho o favor dos deuses. Depois, seguindo o curso do rio Aqueronte ao longo de uma caverna, saíram para o mundo superior, através de Tirinto.

Assim que emergiram, Cérbero voltou a ficar selvagem. As serpentes que rodeavam seu pescoço sibilavam perversamente e suas bocas espumaram de raiva. Deu um puxão na corrente com toda a força e, latindo freneticamente, tento escapar de volta para a profundeza escura e fugir da intolerável luz do dia.

Héracles lançou-se sobre ele como um raio, com as mãos abertas para agarrar seu pescoço, e Cérbero viu que não podia fazer nada para se salvar. Curvando suas cabeças outra vez, seguiu o herói, submisso.

Micenas já não estava muito longe, e Héracles devorava a distância com passos largos. O último trabalho estava chegando ao fim.

Agora, ele estava no pátio do palácio! Quando os guardas viram o monstro que o seguia de perto, recuaram e se mantiveram a uma distância segura. Ninguém tentou se opou à sua entrada. Euristeu teria de ver Cérbero, querendo ou não.

Um gemido de terror foi tudo que o rei conseguiu emitir como boas-vindas. Tão grande foi seu medo, que saltou para dentro de uma ânfora de barro – a mesma na qual se escondera quando viu o Javali de Erimanto, o quarto trabalho de Héracles. Desta vez, também puxou a tampa por cima de sua cabeça e ficou ali dentro fechado por três dias e três noites, sem nem mesmo querer sabre o que acontecia do lado de fora.

Héracles riu de desprezo quando viu Euristeu pular no cântaro como uma lebre assustada. Depois, levou Cérbero de volta à caverna pela qual o tinha trazido para luz do dia e soltou a corrente que lhe envolvia o pescoço. Rápido como um raio, o terrível cão desapareceu na escuridão subterrânea.

12th labor of Hercules - Cerberus, by Pierre Salsiccia

Cérbero, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Folos

Φόλος (Phólos), Folos, talvez os antropônimo se relacione com φελλεύς (phelleús), “região perigosa”, mas a hipótese não é segura.

Heracles and Pholus, black-figured hydria, 520–510 BC, Louvre

Héracles e Folos, 520-510 a.C., Louvre

Filho de Sileno e de uma ninfa Melíade (o que contraria a genealogia dos Centauros, que descendiam do criminoso Íxion), Folos era um centauro pacífico. Quando Héracles caminhava em direção à Arcádia, para a caça ao Javali de Erimanto, em seu quarto trabalho, passou pela região de Fóloe, onde vivia Folos. Dioniso o presenteara com uma jarra de vinho hermeticamente fechada, recomendando-lhe, todavia, que não a abrisse, enquanto o filho de Alcmena não lhe viesse pedir hospitalidade. Segundo outra versão, a grande jarra era propriedade de todos os centauros. De qualquer forma, acolheu hospitaleiramente o herói, mas tendo este, após a refeição, pedido vinho, Folos se desculpou, argumentando que o único vinho que possuía só podia ser consumido em comum pelos centauros. Héracles lhe respondeu que não tivesse receio de abrir a jarra. O filho de Sileno, lembrando-se da recomendação de Dioniso, o atendeu.

Os centauros, sentindo o odor no néctar báquico, armados de rochedos, árvores e troncos, avançaram contra Folos e seu hóspede. Na refrega, Héracles matou dez filhos de Íxion e perseguiu os demais até o cabo Mália. Quando se ocupava em sepultar seus companheiros mortos, Folos, ao retirar uma flecha envenenada com o sangue da Hidra de Lerna do corpo de um centauro, deixou-a cair acidentalmente no pé e, mortalmente ferido, sucumbiu logo depois. Héracles organizou em sua honra funerais magníficos e lamentou a perda do bom centauro.

Musée du Louvre, Paris, France Artist-Maker Rider Painter Heracles and Pholus. Laconian black-figured dinos, ca. 560–40 BC

Héracles e Folos, 560-40 a.C, Louvre

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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XI. Os pomos das Hespérides

Hera disse a Euristeu que mandasse o herói trazer três maçãs de ouro, que ele deveria pegar da árvore que Gaia deu a ela como presente de casamento.  Hera estava certa de que Héracles jamais encontraria a macieira e que, caso a encontrasse, perderia a vida na mera tentativa de se aproximar da árvore, pois o imortal dragão Ládon era o guardião da mesma.

O herói teve que partir para seu trabalho seguinte sem ter a menor ideia de seu destino. Por mais que perguntasse, não conseguia obter nenhuma informação importante. Suas andanças sem rumo o levaram à Tessália, onde se defrontou com Cicno, o sanguinário filho de Ares, e depois com o próprio deus da guerra. Derrotou os dois em combate, matando Cicno e ferindo Ares, que caiu de joelhos uivando de dor.

Depois disso, Héracles continuou seu caminho, cruzando a Ilíria e a região norte da península Itálica, até chegar ao rio Pó. Ali, nas margens do rio, encontrou um grupo de ninfas e, como tantas vezes antes, perguntou se elas sabiam do paradeiro da macieira de Hera. Como esperado, elas não sabiam dizer onde achar a árvore, mas disseram-lhe que o único que conhecia o seu paradeiro era o grande vidente, um velho deus marinho, Nereu e que ele nunca revelaria a localização da mesma. Agora o problema de Héracles era arrancar o segredo de Nereu.

O herói despediu-se das ninfas do rio e partiu em busca de Nereu – não que ele tivesse esperança de obter alguma coisa, mas parecia não haver mais nada a fazer. Encontrou-o dormindo em sua caverna e aproveitou a oportunidade para amarrar o velho vidente, no começo com suavidade, para não acordá-lo, mas depois tão apertado que ele despertou de seu sono.

Nereu tentou levantar-se, mas não conseguiu mover-se nem um centímetro. Olhando para seu corpo, viu-se enrolado da cabeça aos pés. Então, perguntou o que estava acontecendo e que era aquele que ousara amarrar-lhe.

– Meu nome é Héracles, e quero que me diga onde está a árvore com os pomos de ouro, o presente que a Mãe Gaia deu à deusa Hera, quando esta se casou com Zeus.
– Isso eu nunca lhe direi!
– Então eu nunca o soltarei.

De fato, Nereu estava tão fortemente amarrado que não conseguia mover nem um músculo. Ele tentou escapar, mas foi impossível, e desamarrar a si mesmo estava fora de questão. Durante algum tempo, ficou sem dizer nada, enraivecido. Depois, começou a considerar sua situação. Perguntou novamente ao herói o que ele queria, obteve a mesma resposta e mais uma vez se negou a falar.

– Então fique aí amarrado! Eu vou bloquear a entrada de sua caverna com pedras e fechar você aí dentro!

Dizendo isso, o herói começou a rolar uma enorme pedra para a entrada da caverna. O que mais Nereu podia fazer? Ele não teve outra escolha senão falar.

– Você encontrará a árvore que procura no Jardim das Hespérides, nos confins do mundo, onde Atlas, irmão de Prometeu, sustenta a abóboda celeste sobre os ombros. Mas pegar os três pomos de outro é impossível, porque a macieira é guardada por Ládon, um horrendo dragão de cem cabeças. E você não conseguirá pegá-lo dormindo, como fez comigo, pois ele nunca adormece com suas cem cabeças ao mesmo tempo, só metade delas de cada vez. Assim, há sempre cinquenta cabeças bem erguidas e com olhos chamejantes bem abertos, vigiando para que nenhum estranho ponha os pés no jardim das Hespérides. Você não pode se aproximar sem ser percebido e, se o fizer, não sairá com vida, pois Ládon é incrivelmente forte e absolutamente invencível. Mesmo que os deuses lhe dessem o dobro da sua força atual, de nada adiantaria, pois Ládon é imortal.

Isso era tudo que Nereu tinha a dizer. Héracles desamarrou-o e saiu deprimido. Ficara sabendo onde estava a árvore, mas não sabia como pegar os pomos, se eram guardados por um monstro tão terrível. Que fazer? Pela primeira vez, não tinha vontade de seguir ao cumprimento do dever. Muito desanimado, deixou que seus passos o guiassem e, lá pelas tantas, viu-se no Cáucaso rochoso e agreste.

Vagando pelas montanhas, Héracles ouviu gemidos terríveis que vinham de longe. Parou a escutá-los atentamente. Não havia dúvida, alguém sofria a mais dolorosa tortura e precisava de ajuda. Depois, mais estranho ainda, o herói ouviu vozes femininas chamando seu nome.

Héracles correu na direção das vozes e subiu num pedra para ter uma visão melhor. Viu um grupo de mulheres com os braços estendidos para ele, pedindo sua ajuda. Então o herói reconheceu-as, eram as Oceânides: as filhas do Oceano, que tinha barba e cabelos prateados. Caminhou em direção a elas, mas dera poucos passos e algo terrível se colocou na sua frente: o titã Prometeu, o mais fiel amigo dos homens, suspenso por corrente pregadas numa rocha, experimentava torturas horrendas e infinitas: uma enorme água mergulhava do céu e, com seu cruel bico escancarado, arremetia-se contra o corpo de Prometeu.

O herói matou a águia e libertou o paciente titã de seus grilhões. Foi a ação mais nobre e bela de sua vida. Héracles contou ao titã para onde ia e o que devia fazer e prometeu preparou seu conselhos para o herói:

– Escute bem, Héracles. Sou vidente e sei todas as coisas. Como Nereu disse, o dragão que guarda os pomos não pode ser derrotado, ele é realmente imortal. Não tente, porque, se o fizer, perderá a vida. Mas se você for capaz de sustentar o céu sobre os ombros, coisa que só Atlas foi capaz de fazer até hoje, poderá ter os pomos. Segure o globo para Atlas e deixe que ele vá buscar os pomos por você. Ele não é estranho ao dragão e não sofrerá mal algum. Mas fique atento! Atlas é esperto – sei disso porque ele é meu irmão. Tome cuidado para que não o deixe suportando o céu para sempre!

O conselho de Prometeu devolveu o ímpeto ao herói. De ânimo recuperado, tomou o longo percurso – atravessar o mundo do leste para oeste. Como de costume, muitos perigos o esperavam no caminho. Em certo lugar do Egito, quando, exausto, deitara-se sob uma árvore, foi surpreendido por soldados que o amarraram e o levaram até seu rei, Busíris.

Depois de inspecionar o herói da cabeça aos pés, Busíris ordenou que o amarrassem com mais força, pois amanhã ele seria sacrificado no altar de Zeus Amon.

Nove anos antes, uma grande desgraça se abatera sobre o Egito. O solo não dava mais colheitas, e uma fome medonha ameaçava matar as pessoas. Vindo de Chipre, chegou um vidente chamado Frásio que disse que para se livrarem daquela praga deveriam sacrificar anualmente um forasteiro a Zeus Amon. Assim, o pobre vidente foi o primeiro a ser sacrificado.

No dia seguinte, os ritos sacrificiais foram feitos. Héracles, cheio de raiva, se livrou das cordas e golpeou primeiro o sacerdote, depois Busíris e, por fim, seu filho. Os três caíram mortos. Todos ficaram aterrorizados com a força do herói e ninguém ousou enfrentá-lo.

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Hércules e Anteu, por Gregorio di Ferrari (1690)

Livre outra vez, Héracles rumou para oeste, em direção às regiões onde o Sol se põe todas as noites. Ao atravessar a Líbia, ele encontrou um gigante vigoroso cujo nome era Anteu. Era incrivelmente forte e obrigava todos os forasteiros a lutar com ele até a morte. Filho de Gaia, era ajudado por ela durante as batalhas. Quanto mais o corpo de Anteu tocava a Terra, mais ela renovava seus poderes; assim nunca ficava cansado e o resultado era que nunca perdia uma luta.

Héracles foi desafiado. Sem saber que Anteu tirava sua força da Mãe Gaia, lutou bravamente com ele durante muito tempo, mas em vão. Vezes e mais vezes o herói lançou-o contra o chão, e ficava cada vez pior, pois o gigante punha-se de pé num salto. Héracles estava intrigado com isso: como era o gigante capaz daquelas súbitas explosões de força quando, um momento antes, tinha estado perto ser derrotado, rastejando na poeira? Então o herói se lembrou de que seu oponente era filho de Gaia. Agarrou o gigante, levantou-o bem alto no ar e não o deixou tocar na terra. Na luta desesperada para escapar, todas as suas forças se esgotaram, e o medonho gigante encontrou seu destino.

Depois de vencer Anteu, Héracles retomou seu rumo ao oeste, até os limites mais afastados do mundo. Lá, durante era incontáveis, o titã Atlas suportava o peso esmagador do céu. Suas únicas companheiras eram as Hespérides, filhas de Héspero e de Nix. Ali perto, em seu jardim, estava a árvore de Hera com os pomos de ouro.

11th-laborO herói se encontrou com Atlas e disse a que vinha. Então Héracles se ofereceu para suster o céu no lugar do titã enquanto o mesmo buscava os três pomos. Atlas sentiu que o peso saía de cima dele e ficou livre. Pela primeira vez em incontáveis eras, Atlas podia respirar livremente. Sentindo-se leve como um pássaro, disparou para o jardim das Hespérides, pisando no ar. Em pouco tempo estava de volta com as três maçãs de ouro, que brilhavam ao sol.  Mas não estava com pressa para retornar a seu posto. Tinha outro plano em mente…

– Ouça, Héracles – disse ele. – Por que eu mesmo não levo os pomo para Euristeu? Isso não vai tomar muito tempo e, assim que eu voltar, o aliviarei de sua carga.

Sem esperar a resposta, virou-se para partir. Héracles lembrou-se imediatamente do aviso de Prometeu e compreendeu que, se não encontrasse um modo de passar a tarefa de volta a Atlas e pegar seus pomo, ficaria ali para sempre, sustentando o céu. E assim disse ele:

– Leve os pomos, de qualquer modo. Eu até gosto de segurar este peso, mas não quero machucar os meus ombros. Você se incomodaria em segurar o céu por um momento enquanto eu ponho uma almofada sobre eles?

Sem desconfiar de nada, Atlas pôs os pomos no chão e levando a abóboda celeste, colocando-o de volta sobre os ombros. Héracles pegou os pomos e prosseguiu em seu caminho, deixando Atlas com sua eterna carga.

Satisfeito por ter, finalmente, os pomos de ouro das Hespérides em suas mãos com segurança, o herói pegou o caminho de volta para a Grécia. Embora a viagem de retorno fosse longa, ela pareceu passar rápido como um raio.

O herói entrou no palácio sem esperar ser convidado. Carregando os frutos de ouro, apresentou-se ao rei. Euristeu ficou estupefato e colérico.

– Eu sei que você não quer estes pomos – disse o herói. Você esperava outra coisa, como em todas as outras vezes. Eu só quero saber qual é a tarefa seguinte que maquinou para mim.

– Vou mandá-lo para o reino das profundezas, de onde ninguém jamais volta. É para lá que você vai!

11th labor of Hercules - The-apples of Hesperides, by Pierre Salsiccia

O pomo das Hespérides, por Pierre Salsiccia

 Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Minotauro

Μινώταυρος (Minótauros), Minotauro, é aparentemente um composto de Μίνως (Mínos), Minos e de ταῦρος (taûros), touro, donde “o touro de Minos”, mas também atribui-se como significado “homem-touro”.

Se, na realidade, Pasífae é a “lua cheia”, o Minotauro, filho da rainha de Creta, é um avatar da lua, cujo crescente se assemelha aos cornos do touro.

Engenho de Dédalo

Minos prometera sacrificar a Posídon o animal que aparecesse em suas praias. O deus marinho fez surgir um belo touro com chifres e cascos de ouro, mas Minos, ao ver o animal, quis tê-lo para si e sacrificou um animal qualquer. Então, a ira do deus caiu sobre Creta. O touro que era um animal dócil se transformou numa criatura cruenta que espalhava a destruição, conhecido como touro de Creta. Contudo, antes disso ocorrer, a rainha Pasífae foi tomada por uma paixão avassaladora pelo animal. Para que Pasífae pudesse satisfazer seus desejos incontroláveis pelo touro, que Posídon fizera nascer do mar, Dédalo construiu uma novilha de bronze. A rainha colocou-se dentro do simulacro e concebeu o Minotauro.

Labyrinth

O rei, assustado e envergonhado com o nascimento do monstro, filho da paixão de sua esposa, encarregou Dédalo de construir, no palácio de Cnossos, o famoso Labirinto, com um emaranhado tal de quartos, salas e corredores, com tantas voltas e ziguezagues, que somente o genial arquiteto seria capaz, lá entrando, de encontrar o caminho de volta. Pois bem, foi nesse “labirinto” que Minos colocou o horrendo Minotauro, que era, por sinal, alimentado com carne humana. Anualmente, outros dizem que de três em três ou ainda de sete em sete anos, sete moças e sete rapazes, tributo que Minos impusera a Atenas, eram enviados a Creta, para matar-lhe a fome. Foi então que Teseu, filho do rei ateniense Egeu, se prontificou a seguir para a ilha das Grandes Mães com outras treze vítimas.

Theseus and Ariadne and the Minotaur

Ariadne, Teseu e Minotauro

Uma vez no reino de Minos, o príncipe ateniense e seus companheiros foram imediatamente lançados no Labirinto. Ariadne, todavia, a mais bela das filhas do rei, apaixonara-se por Teseu. Para que o herói pudesse, uma vez intricado no covil, encontrar o caminho de volta, deu-lhe um novelo de fios, que ele ia desenrolando, à medida que penetrava no Labirinto. Ofereceu-lhe ainda uma coroa luminosa, a fim de que pudesse orientar-se nas trevas e não ser surpreendido pelo horripilante monstro biforme.

Teseu conseguiu matar a criatura antropófaga. Escapou das trevas com os outros treze jovens e, após inutilizar os navios cretenses, para dificultar qualquer perseguição, velejou de retorno a Atenas, levando consigo Ariadne.

O mito do Minotauro conserva a lembrança de um fragmento da gigantesca civilização minoica, que, a par do culto às Grandes Mães, mantinha igualmente o do touro, símbolo da fecundação, por causa do seu sêmen abundante. Nas escavações realizadas em Cnossos e em outras partes de Creta, a presença do touro é uma constante.

Quanto a Λαβύρινθος (Labýrinthos), Labirinto, provém, segundo parece, de λάβρυς (lábrys) e do sufixo pré-helênico -ινθος (-inthos), e significaria “bipene”. Labirinto seria, pois, “a casa bipene”, insígnia da autoridade.

Pasiphae and Minotauros

Passífae e Minotauro

          Minotauro

Referências:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.2. Petrópolis: Vozes, 2008.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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