VII. O Touro de Creta

Herácles havia concluído metade dos trabalhos e Euristeu torturava-se pensando em uma tarefa que o herói não pudesse realizar. Outra vez, Hera veio em seu auxílio e aconselhou-o a mandar Héracles a regiões distantes, para trabalhos colossais. Todas as primeiras seis tarefas haviam sido no Peloponeso. As seis seguintes exigiriam longas e perigosas jornadas. E, de fato, o sétimo trabalho foi duplamente perigoso. Euristeu ordenou que Héracles fosse capturar o terrível touro que assolava a região de Creta e trazê-lo vivo para Micenas, pelo mar.


Sobre o Touro de Creta:
Este era um magnífico touro com chifres de ouro e cascos de bronze enviado por Poseidon à ilha de Creta, uma vez que o rei Minos prometera sacrificar um animal ao deus. Contudo, quando o rei viu  a portentosa criatura, não resistiu à tentação de possuir o animal para si e quebrou sua promessa, guardando-o em seus estábulos. Em lugar do touro de Poseidon, sacrificou um touro comum. O deus ficou profundamente ofendido. De repente, o magnífico touro, que até então fora manso, transformou-se num monstro ensandecido. Possuído pela vontade de destruir, atacava homens e animais, deixando um rastro de carnificina por onde passava.


O herói estava incumbido da tarefa de capturar a cruenta fera e levá-la vida para Micenas, através do amplo mar Egeu. Héracles navegou até Creta e foi pedir autorização ao rei Minos para realizar seu trabalho.

– Estou em pleno acordo – respondeu o rei -, mas duvido que o touro também esteja! E você está dizendo que quer levá-lo para Micenas pelo mar? Deve estar fora de seu juízo! Bem, espero que seja bem sucedido. De todo moto, não derramarei minhas lágrimas por você: um herói a menos não é uma grande perda para o mundo.

“Como todos esses reis me odeiam”, pensou Héracles, Euristeu, Áugias e agora Minos. Como sua tarefa era capturar o touro e levá-lo a Micenas, logo foi em busca do animal.

Não foi preciso muito tempo para encontrá-lo, e a luta começou na mesma hora, pois, assim que o touro avistou o herói, arremeteu-se com os chifres baixos. O estrondo dos seus cascos aproximando era suficiente para aterrorizar qualquer homem, porém Héracles continuou firme, jogando-se para o lado só no último momento, quando o touro finalizava a estocada. Em vez do alvo esperado, seus chifres encontraram apenas o ar e, como um raio, o horrendo animal se pôs de pé e, bramindo, tornou a investir contra o herói. Quando a cabeça do touro estava quase atingindo o alvo, Héracles segurou seus chifres e apertou-os como um torniquete de aço, impedindo subitamente o seu curso. Um tremor percorreu o corpo da fera, como se tivesse colidido contra um muro de pedra.

O-Touro-de-Creta

Com toda a sua força, Héracles empurrou a cabeça do touro para baixo até suas narinas rasparem no chão. O animal lutava raivoso, mas em vão. Por mais que tentasse, não conseguia erguer sua cabeça de novo. Seus cascos traseiros arranhavam desesperadamente a terra, tentando encontrar um ponto de apoio, mas nada podia desalojar o filho de Zeus ou fazê-lo perder o equilíbrio. Uma espuma borbulhava na boca do touro, cheio de raiva impotente, não havia nada que pudesse fazer. Em pouco tempo suas últimas forças esgotaram-se, e ele se entregou a seu oponente.

Héracles amarrou uma corda nos chifres do touro, que não pôde mais se libertar ou investir contra o herói. O temível Touro de Creta finalmente fora domado.

Assim, Héracles levou o touro para o mar. Agora, a tarefa que parecia impossível tinha se tornada subitamente fácil: em lugar de nadar para o Peloponeso com o furioso animal, Héracles fez justamente o oposto, sentou-se confortavelmente nas costas e deixou-se levar até lá.

Chegaram à costas e Héracles logo arrumou o touro no estábulo de Euristeu. Quando o rei soube que o terror de toda Creta estava em seu curral, gritou de desespero e mandou que seus homens o levassem para as montanhas, para tão longe de Micenas quanto pudessem. Héracles tinha vencido o touro e o trazido amarrado, e Euristeu o libertava novamente por pura covardia, pouco se incomodando com os prejuízos que isso pudesse trazer a seu povo.

Outra vez em liberdade, o touro tornou-se o terror do Peloponeso. Por fim, atravessou o istmo de Corinto e foi dar em Maratona, onde passou a assolar todos os campos da região. Conhecido a partir daí como o Touro de Maratona, estava destinado a ser morto por Teseu, o grande herói de Atenas.

B. Picart - The Cretan Bull, seventh labour of Heracles.

Héracles domando o Touro de Creta, por B. Picart (1731)

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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