VI. Os estábulos de Áugias

O rei, cheio de vilania, logo pensou em algo para manter Héracles longe dos portões do palácio.  Estava certo de que, dessa vez, o herói seria humilhado. Imediatamente chamou seu arauto e transmitiu-lhe a seguinte mensagem: “Mande Héracles limpar os estábulos de Áugias!”

Naquela ocasião, os estábulos de Áugias, rei de Élis, estavam repletos de esterco fétido, jamais removido. Áugias era filho de Hélios, o Sol, e possuía inúmeros animais. Entre eles, estavam trezentos touros negros com pernas brancas, presente do próprio Hélios, outros duzentos tão vermelhos quanto o pôr-do-sol e mais doze tão brancos como cisnes. Sobressaía-se dentre todos um touro que brilhava como se fosse o deus luminoso.

Além de seus rebanhos, Áugias também possuía as terras mais férteis. A planície de Élis era extremamente rica. Os campos eram tão férteis, que não podiam mais ser adubados e, desse modo, o esterco nunca era retirado dos pários do estábulo, onde se amontoava, ano após ano, até formar montes imensos, que nenhum homem podia deslocar. Se todas as pessoas de Élis, inclusive as mulheres e crianças, trabalhassem dia e noite nos estábulos durante anos, ainda assim não seriam capazes de remover a imundície.

A montanha de excrementos pestilentos tinha que ser removida de alguma maneira e, mais ainda, Héracles tinha de fazê-lo sozinho. Assim que chegou a Élis, o herói se deu conta da tarefa que o esperava. Começou a pensar num modo de solucionar o problema. Depois de um tempo, as noções de uma plano formaram-se na mente de Héracles. Subindo ao topo do terreno que circundava os campos, descobriu que dois rios cruzavam a planície, à esquerda e à direita. Os estábulos ficavam entre o Alfeu e o Peneu, os maiores rios de Élis e de todo o Peloponeso. O herói examinou-os cuidadosamente, depois desceu a colina, sorrindo, e foi procurar o rei Áugias.

Héracles se apresentou ao rei e disse a que vinha. Áugias riu e respondeu escarnecendo: “E quantos anos você pensa em viver? Milhares?” O herói sem perder a seriedade respondeu que realizaria a tarefa num único dia. O rei, com olhar cético e sorriso sarcástico, então prometeu que, se Héracles fizesse o que havia dito, daria-lhe um décimo de todos os seus rebanhos. Dito isso, chamou seu filho Fileu para testemunhar o acordo.

Então, Fileu mandou Héracles jurar que os estábulos estariam limpos antes do anoitecer e, embora o herói nunca tivesse feito um juramento antes, consentiu em fazê-lo. Em seguida, pediu para que seu pai jurasse que, caso Héracles fizesse o prometido, lhe daria um décimo de seus rebanhos. Áugias jurou e, no dia seguinte, Héracles começou a trabalhar quando raiou a Aurora.

Quando o Sol já estava alto, Áugias foi até os seus estábulos para ver como andava o trabalho, contudo não havia sinal de Héracles, nem indícios de que algo tivesse sido feito por ali.

Héracles estava nas margens dos rios jogando terra e pedras na água, pedras enormes. “Ele tem mais músculo que um titã” comentou um pastor que o observava. O filho de Alcmena estava construindo dois diques. Por volta do meio-dia, o trabalho havia terminado e massas de água começaram a subir atrás deles. O herói correu para os estábulos, onde fez duas grandes aberturas nos muros que o cercavam. Assim que terminou, subiu até o ponto mais alto, ali perto, para ver o que aconteceria.

Pouco tempo depois, as águas dos dois rios, Alfeu e Peneu, foram entrando nos estábulos pelos buracos feitos nos muros, e fizeram seu trabalho tão rapidamente e tão bem, que Héracles não cabia em si de alegria. Não só tinha limpados os estábulos, como também os lavara. Jamais poderia ter feito um trabalho melhor. O herói voltou aos rios e demoliu os dique, voltou aos estábulos e consertou os buracos nos muros. Sua tarefa estava terminada.

Estábulos de Áugias

Quando o Sol desapareceu atrás das colinas do oeste, Héracles foi ver Áugias. Nesse momento, o rei já sabia do ocorrido, mas em vez de contente, estava furioso, pois não queria entregar os animais que prometera.

Não foi você que limpou os estábulos!! – vociferou Áugias. – Foram os rios. O trabalho foi feito pelos deuses dos rios, Alfeu e Peneu. Eles são os únicos a quem devo agradecer! Não fizemos acordo nem juramento algum! – Áugias gritou enraivecido. – Agora saia daqui, seu ladrão de gado!

Héracles não podia acreditar no que ouvia. A insolência do homem não tinha limites. Não era a perda dos animais prometidos que o perturbava, mas o fato de Áugias tê-lo ludibriado. Aquilo era insuportável. O herói decidiu não deixar que o assunto terminasse assim e levou o rei ao tribunal. Os juízes chamaram Fileu como testemunha e o jovem, corajosamente, contou-lhes toda a verdade sobre o que tinha se passado entre Héracles e o seu pai. Héracles ganhou a causa, mas Áugias teve uma explosão de raiva e não só se recusou a acatar o veredicto dos juízes, como também exilou ambos, ele e seu filho, proibindo Héracles de pôr os pés em Élis para sempre. O herói prometeu voltar e fazê-lo pagar.

Quando Héracles voltou para Micenas, Euristeu ficou totalmente surpreso, pois não esperava vê-lo outra vez. Tremendo de medo, chamou Copreu e mandou-o descobrir como Héracles lograra voltar, uma vez que fora enviado para uma tarefa que tomaria milhares de anos. Copreu então explicou ao mesquinhos rei como o herói havia feito. As palavras do arauto deixaram Euristeu com um pânico ainda maior, pois naquele momento ficara claro para ele que Héracles, além de forte e corajoso, era extremamente inteligente. O rei de Micenas, com seu raciocínio falho e lento, sentiu que não era absolutamente nada em comparação ao herói e, por isso, desejou com todas as forças que ele de fato sucumbisse.

Héracles sempre conseguia sair vitorioso. Estrangulara o Leão de Nemeia, matara a Hidra de Lerna e libertara o lago Estínfalo das aves de rapina. Trouxe o Javali de Erimanto para Micenas, capturou a Corsa cerinita e, agora, dera cabo da sujeira dos estábulos de Áugias. Metade dos trabalhos haviam sido cumpridos, e cada um deles parecia uma tarefa além da capacidade humana.

Os estábulos de Áugias, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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