Arquivo do mês: março 2015

VIII. Os Cavalos de Diomedes

Depois da jornada de Creta, seguindo outro conselho de Hera, Euristeu enviou Hércules à Trácia para trazer os cavalos do rei Diomedes.

Esse perigosos animais ficavam trancados nos estábulos reais, presos a pesadas correntes. Dizia-se que suas mandíbulas eram de bronze e que só se alimentavam de carne humana.

Contudo, ainda mais temível que os cavalos era o próprio Diomedes, rei dos selvagens bistones. Filho de Ares, deus da guerra, sua paixão pelas batalhas estava no sangue. Todas as vezes que saía de sua belicosa tribo para combater, a ruína e a destruição espalhavam-se entre seus infelizes vizinhos.

Maior que a paixão pela destruição era seu orgulho pelos cavalos antropófagos. Todo prisioneiro que caía em suas era jogado, ainda vivo, para alimentá-lo. E não só os capturados nas guerras tinhas esse destino horrendo, isso acontecia a todo estrangeiro desavisado que passasse pela Trácia, acreditando nas usuais regras de hospitalidade estabelecidas pelo próprio Zeus. Nenhum estrangeiro caído nas mãos de Diomedes jamais lhe escapou: seus cavalos devoravam todos.

Quando Héracles foi para a terra dos ferozes bistones e de seu rei sanguinário, levou consigo amigos que estavam prontos para lutar a seu lado, se fosse necessário. Entre eles estava Abdero, um jovem ousado da Lócrida.

O herói e seus companheiros chegaram à Trácia pelo mar. Héracles logo descobriu o estábulo e, enquanto seus companheiros desabavam sobre os guardas para amarrá-los, ele desacorrentou os animais de suas baias e, segurando-os pelas rédeas, conduziu o tropel até o navio.

– Fiquem aqui enquanto ponho os cavalos a bordo. Avisem-me se Diomedes vier! – Héracles disse para os outros.

Apesar dessa ordem, Abdero seguiu o herói, achando que ele poderia precisar de ajuda. Antes mesmo de chegarem ao navio, ouviram gritos:

– Diomedes! Diomedes vem vindo com seus soldados!

Héracles hesitou por um momento e Abdero, percebendo o motivo, disse que tomaria conta dos cavalos. O herói não ficou muito satisfeito com a ideia, mas não tinha outra escolha. Deixando os animais com Abdero, voltou correndo para enfrentar o perigo. Ainda longe, avisto uma horda imensa de bistones liderados por Diomedes, que montava um corcel preto. Conforme avançavam, gritavam ferozmente e brandiam suas compridas lanças.

Héracles e seus companheiros estavam diante de um perigo fatal. Como eles, que eram tão poucos, poderiam resistir a tantos? Afinal, o herói encontrou uma resposta.

Notou que a planície onde estava ficava abaixo do nível do mar, que se mantinha recuado por causa de uma parede de dunas, formadas pela areia que as ondas lançavam. Com a ajuda de seus companheiros, abriu um canal para inundar a planície. Rapidamente o canal foi alargado pela enxurrada de água do mar. Em pouco tempo, uma imensa massa d’água invadiu a planície, formando um grande lago, o Bistônide. Muitos bistones que atacavam foram levados pelas águas espumantes da inundação; outros fugiram. Diomedes e seu acompanhante, que estava bem à frente, escaparam da invasão de águas, porém tiveram bloqueada qualquer outra saída e agora tinham de enfrentar Héracles e seu companheiros.

Como animais numa armadilha, logo se viram dominados. Diomedes foi derrubado de seu cavalo por um golpe de clava de Héracles. Não morreu, mas imediatamente o amarraram – por uma boa razão: o cruel rei merecia pagar por seus crimes e, assim, foi jogado vivo para ser devorado por seus próprios cavalos.

Cavalos de Diomedes

Após derrotarem o inimigo, Héracles e seus amigos verificaram que tinham sofrido uma triste perda. Os cavalos selvagens haviam estraçalhado Abdero… Não havia palavras que pudessem descrever a dor de todos eles diante da morte de um jovem tão bravo e corajoso. Héracles ficou inconsolável, e se achava culpado pelo que aconteceu a Abdero. Mas todos sabiam que o herói não tivera escolha.

Héracles pediu a seus companheiros que dessem um funeral esplêndido para Abdero. Sacrificaram os melhores animais que puderam encontrar e honraram seu companheiro morto com competições atléticas. Para que o seu nome nunca fosse esquecido, construíram uma cidade naquele lugar e deram-lhe o nome de Abdera.

Quando os heróis por fim tinham pago sua dívida para com a memória do jovem, subiram a bordo de seu navio e velejaram para Micenas com os cavalos.

Iam desembarcar no porto de Argos. Entretanto, Euristeu proibiu Héracles de levar os animais para Micenas. Disse para que o herói os levasse para qualquer lugar, desde que ficasse longe dele e de seu palácio.

Para impedir que os cavalos fizessem algum mal aos homens, Héracles levou-os para bem longe, perto de uma encosta remota do monte Olimpo, onde acabaram sendo devorados por animais ainda mais selvagens.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Dédalo e o Labirinto

LabirintoDédalo, ao ser exilado de Atenas, partiu para Creta e lá realizou muitos trabalhos a pedido do rei Minos, sendo o maior deles o Labirinto.

O Labirinto era uma construção de toda complexa, com tantos partimentos e corredores, que quem nela entrasse jamais encontraria o caminho para sair.

Na parte mais recôndita do labirinto estava preso o Minotauro, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro, devorador de homens. Teseu, o grande herói de Atenas, matou essa terrível fera e, assim, salvou seu povo do terrível tributo de sangue que há muito tempo era pago ao cruel Minos: todo ano, sete rapazes e sete donzelas eram trazidos de Atenas para serem devorados pelo Minotauro.

Quando o rei soube que Dédalo ajudara Teseu, sua ira foi tremenda. O artista e seu filho, Ícaro, foram presos, à noite, e colocados no mesmo labirinto. Agora os dois só pensavam em encontrar o caminho para sair dali e fugir de Creta.


Sobre o Labirinto:
Nome atribuído a uma construção extremamente complexa em Creta, onde ficava confinado o Minotauro. Segundo a tradição, foi projetado por Dédalo. O termo provém, provavelmente, de lábrys, uma palavra lídia ou cária que significa “machado de duplo corte”, um símbolo com conotações religiosas, encontrado com frequência esculpido em pedras e pilares em ruínas do período minoico. A ideia de labirinto talvez se deva ao projeto arquitetônico do grande palácio minoico em Cnossos.


Trecho das Metamorfoses de Ovídio:

Agora, o opróbrio da família crescera: estava à vista de todos,
pela estranheza do monstro biforme, o imundo adultério da mãe.
Minos decide expulsar esta vergonha para o seu matrimônio
e fechá-la numa casa complexíssima, de aposentos nas trevas.
Celebérrimo pelo seu talento na arte da arquitetura, Dédalo
encarrega-se da obra, baralha os sinais e faz o olhar enganar-se
em retorcidas curvas e contracurvas de corredores sem conta.
Tal como na Frígia o Meandro nas límpias águas se diverte
fluindo e refluindo num deslizar que confunde, e, correndo
ao encontro de si próprio, contempla a água que há de vir,
e, voltando-se ora para a nascente, ora para o mar aberto,
empurra a sua corrente sem rumo certo, assim enche Dédalo
os inumeráveis corredores equívocos. A custo ele próprio
logrou voltar à entrada: de tal forma enganador era o edifício.
Met. 8, 155-168


Sobre Dédalo:
Δαίδαλος (Daídalos), Dédalo, provém do verbo δαιδάλλοειν (daidállein), cujo sentido exato é “confeccionar com arte” alguma coisa. Dédalo, o grande arquiteto mítico, era ateniense, da família real de Cécrops e foi o mais famoso artista universal: além de arquiteto, era escultor e inventor consumado. Era a ele que se atribuíam as mais notáveis obras-de-arte da época arcaica, mesmo aquelas de caráter mítico, como as estátuas animadas de fala Platão no Mênon, 97-98. Foi exilado de Atenas sob a acusação de ter matado seu sobrinho e ajudante, Talos. Acolhido por Minos, tornou-se o arquiteto oficial do rei e, a pedido deste, construiu o célebre Labirinto, o gigantesco palácio de Cnossos, com um emaranhado de quartos, salas e corredores, que somente Dédalo seria capaz, lá entrando, de encontrar a saída. Foi nesse Labirinto que Minos colocou o Minotauro, produto da monstruosa união de Pasífae, esposa do rei, com um Touro, que Poseidon fizera sair do mar, para que lhe fosse sacrificado, conforme a promessa de Minos. Como este não cumprira o juramento, o deus fez que a esposa concebesse uma paixão irresistível pelo animal. Sem saber como entregar-se ao touro, Pasífae recorreu às artes de Dédalo, que fabricou uma novilha de bronze tão perfeita, que conseguiu enganar o animal. Dédalo ajudou Teseu a sair do Labirinto graças ao novelo que Ariadne, filha de Minos, entregou ao herói. Minos, ao saber disso, castigou Dédalo e seu filho, Ícaro, aprisionando-os no Labirinto. Então, Dédalo construiu asas e fugiu de Creta voando junto com o seu filho. Ícaro morreu, pois voou tão alto que o calor do Sol derreteu a cera que segurava as penas. Dédalo se refugiou na Sicília, terra do rei Cócalo. Este, matou o rei Minos. Dédalo se viu livre da perseguição e pôde voltar para Atenas (pois Teseu tinha subido ao trono e revogara seu exílio) onde passou o resto de seus dias.


Referêcias:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

OVÍDIO. Metamorfoses. Trad. FARMHOUSE. P. Lisboa: Cotovia, 2007.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

STEPHANIDES, M. Prometeu, os homens e outros mitos. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2004

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Teseu contra o Minotauro

Em Creta, Encontraram Minos no porto a esperar por eles. Os jovens desembarcaram, e Minos olhava-os um por um, atentamente. Teseu ficou inquieto por causa dos dois valorosos rapazes vestidos de mulher, mas eles estavam tão perfeitamente disfarçados, que Minos nada percebeu. Seus olhos, contudo, pousaram sobre uma moça lindíssima, Eribeia. Como Minos não era de se importar com os outros, fazendo o que lhe vinha à cabeça, estendeu a mão e começou a importuná-la. Imediatamente Teseu apresentou-se corajoso: “Viemos aqui para morrer, não para sermos desonrados!” Minos logo perguntou quem era aquele insolente rapaz que ousava levantar a voz para o rei:

-Quem é você, que ousa me fazer advertências? Está se esquecendo de que sou rei da poderosa Creta? E se isso não bastar, fique sabendo que sou filho de Zeus! – voltou-se para o céu e gritou: – Zeus, meu pai, por favor, mostre que eu sou!

Um raio brilhou no céu sem nuvens, sinal de que Zeus reconhecia seu filho. Teseu ficou surpreso, mas nem assim perdeu a coragem e retrucou:

– Se isso tem tanta importância, devo dizer-lhe que também sou filho de um deus, o deus que governa os mares. Sou filho de Poseidon!

Minos, totalmente cético, Tirou seu anel e lançou-o, com toda força, ao mar, e disse que se Teseu fosse realmente filho de Poseidon, poderia trazê-lo de volta. Teseu, dando um mergulho, desapareceu nas águas profundas. Passou-se um bom tempo sem que ele reaparecesse. Todos diziam que teria se afogado, e Minos, irônico, acrescentou: “Que pena! O Minotauro comerá um a menos”. Mas Ariadne, filha de Minos, que também estava entre os presentes, encobriu o rosto e secretamente enxugou as lágrimas. Prestara atenção em Teseu desde o primeiro momento, e sua ousadia a havia comovido. De imediato, um forte amor se aninhou dentro dela, quando uma flecha de Eros, o filho alado da deusa, Afrodite, trespassou-lhe o coração. Por isso sofria.

Teseu, entretanto, não estava perdido. Assim que mergulhou na água, golfinhos o apanharam e conduziram-no sem demora até o palácio do deus marítimo, Poseidon, o abalador da Terra, irmão de Zeus e nada inferior em força ao deus portador dos raios.

Em um majestoso trono, semelhante a uma imensa concha, sentava-se o deus que governa as ondas. Ao seu lado estava a belíssima Anfitrite, esposa do eminente deus. Perto deles encontravam-se Tríton e muitas outras divindades marinhas.

Poseidon recebeu Teseu com afeto e, assim que ouviu o porquê de ele ter descido ao seu reino aquático, ordenou a Tríton que trouxesse o anel rapidamente. O deus marinho não demorou a voltar, juntamente com uma multidão de nereidas. Uma delas trazia o anel e o entregou a Teseu. Imediatamente Anfitrite colocou sobre os cabelos de Teseu uma coroa de ouro, e Poseidon, ciente de que o herói não devia se demorar, ordenou a Tríton e às nereidas que o conduzissem à praia.

Teseu saiu do mar no momento em que todos se preparavam para ir embora. De repente alguém gritou: “Teseu! Teseu está vivo!” Minos não ousava crer em seus próprios olhos! Além de não ter se afogado Teseu usava uma coroa na cabeça, toda de folhas de ouro! Mas o rei de Creta ficou ainda mais surpreso quando recebeu o anel. Percebeu que Teseu não era um mortal comum, e teve medo. Por isso, disse ao seu séquito que o herói deveria ser o primeiro a ser devorado pelo monstro biforme. Ao ouvir isso, Ariadne ficou mortificada. Tinha pena dos outros rapazes e moças, mas ouvir tais palavras sobre Teseu era como se um punhal lhe atravessasse o coração.

Minos ordenou que levassem Teseu ao Labirinto na manhã seguinte para ser devorado pelo Minotauro.

Quando a inquietação de Ariadne já chegava ao seu ápice, ela lamentou. Ariadne pousou a cabeça sobre o ombro de sua irmã, Fedra, para ocultar seus olhos lacrimosos. Então contou tudo que sentia à irmã e lhe pediu ajuda, um meio de salvá-lo. Fedra não acreditava que seria possível salvá-lo, disse que nem Dédalo o conseguiria. Nesse momento, Ariadne se alegrou e correu para a oficina do grande artífice, que era sua última esperança.

Dédalo era o arquiteto ateniense que construiu o Labirinto. Mas, além de ser um grande arquiteto e artista, era também sábio e engenhoso como nenhum outro no mundo. Ariadne pediu por ajuda e Dédalo consentiu, pois também queria salvar seus conterrâneos.

O Minotauro no labirinto Conimbriga

O Minotauro no labirinto Conimbriga

– Então escute-me. – disse ele. – Junto com os jovens está também Teseu, filho do rei de Atenas. Teseu é um grande herói. Matou saqueadores, bandidos e monstros. Creio que poderá matar também o Minotauro. A grande dificuldade não está nisso, mas em como ele poderá sair do Labirinto. Eu o construí a mando de Minos, mas jamais imaginei que se tornaria morada de um monstro! O Labirinto é uma obra muito estranha. Seus corredores, galerias, escadas, portas, e todos os seus espaços foram construídos de tal maneira que é fácil entrar e chegar ao centro, mas é totalmente impossível sair do edifício depois. Já tenho a solução para isso, entretanto, é preciso que alguém se encontre secretamente com Teseu. Não vejo outra pessoa que não você! Tome este novelo. Ache uma maneira de entregá-lo a Teseu sem que a vejam, diga-lhe que amarre uma das pontas junto à entrada e prossiga desnovelando a lã. Enrolando novamente o novelo, ele achará a saída e não se perderá.

Depois de ouvir cuidadosamente as instruções de Dédalo, Ariadne, com o novelo escondido debaixo do braço, correu para encontrar Teseu:

– Sou filha de Minos – disse-lhe. – Meu nome é Ariadne e, por mais estranho que lhe possa parecer, não quero que pereça. Preferiria morrer se você morresse.

Teseu ficou surpreso, mas logo se lembro de que havia pedido a ajuda de Afrodite e compreendeu prontamente. Olhou para Ariadne. Era belíssima, como uma deusa. Admirou sua coragem, ficou maravilhado com sua beleza e também se apaixonou. Disse a ela para que ficasse tranquila, pois ele mataria o monstro e voltaria vivo para Atenas. Ariadne, então, entregou o novelo para Teseu e repassou as instruções que recebera de Dédalo.

Theseus and The Minotaur 4

O herói ficou entusiasmado. Pela manhã, assim que foi colocado no Labirinto, amarrou a ponta do fio na entrada, conforme Ariadne instruíra, e prosseguiu desenrolando-o. O caminho dentro do Labirinto era interminável e confuso. Teseu seguia ora pela direita, ora pela esquerda; ora retrocedia, ora avançava; subia e descia… Assim Teseu caminhou por muito tempo, até que, de repente, onde menos esperava, topou com o Minotauro!

A luta começou no mesmo instante! O terrível monstro investia com os chifres contra Teseu, que, muito ágil, esquivava-se, golpeando-o no flanco com a espada. Os golpes pouco dano causavam ao Minotauro, que arremetia contra o herói incessantemente. Teseu, sem nada sofre, desviava-se de todos os ataques do touro. Num dado momento, o monstro, visivelmente extenuado, quis tomar fôlego. Teseu não perdeu a oportunidade: agarrando-o pelos chifres com uma força extraordinária, arremessou-o ao chão e cravou-lhe mortalmente a espada.

O herói olhou o cadáver do Minotauro, enxugou o suor da testa e pensou: “Agora só me resta encontrar a saída”. Então começou a empreitada, tornando a enrolar o novelo. Felizmente ele o tinha, porque, se algo lhe dizia que devia seguir por um lado, o fio o conduzia por outro. Quando novamente achava que determinado caminho era o certo, o fio indicava outro. Perplexo, Teseu não podia entender por que o fio o conduzia por entre passagens tão inusitadas, até que avistou a saída.

Ariadne o esperava sozinha. Por sorte, Minos não havia se preocupado em convocar sentinelas. Chorando de alegria, a filha de Minos caiu nos braços de Teseu, que não tinha palavra para agradecer. Apenas entregou-lhe o novelo, o “fio de Ariadne”, como ficou conhecido desde então.

Em seguida, foram correndo encontrar os outros, mas a prisão onde estavam os jovens não estava desprotegida. Teseu assobiou três vezes. Ao ouvirem da prisão os assobios, os jovens de um salto se puseram em pé. Todos juntos se lançaram impetuosamente sobre a porta, arrebentando-a. Os sentinelas correram para verificar o que era e viram duas garotas saindo. Foram tentar empurrá-las de volta, mas levaram socos tão fortes, que desmoronaram no chão. Vieram correndo também os guardas, mas com eles aconteceu o mesmo, porque “as garotas” eram os dois rapazes vestidos de mulher. Logo veio também Teseu, de espada em punho, mas nada precisou fazer… Tudo havia terminado e, correndo, chegaram à praia, que, àquela hora, estava deserta. Na areia, todos os navios cretenses; na água, apenas o de Teseu.

Teseu e Minotauro

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Teseu contra o Minotauro: preliminares

Após a exigência de Minos, os atenienses se preparavam para cumpri-la. O Minotauro era antropófago, com cabeça de touro e corpo de homem, vivia no interior do Labirinto, um edifício muito complexo e tão vasto que quem lá entrasse não podia mais encontrar a saída. Estava próximos os dias em que, pela terceira vez, os atenienses enviariam para Creta os sete rapazes e as sete moças para servirem de repasto ao Minotauro.

Chegou o dia em que deviam ser escolhidos os jovens, e Teseu de nada sabia, pois Egeu havia proibido que lhe dissessem qualquer coisa sobre o tributo sangrento. Porém, o lamento que se espalhava pela cidade fez com que ele ficasse desconfiado e saísse às ruas, perguntando a todos que encontrava o que estava se passando. Todos baixavam a cabeça e nada respondiam. Até que um pai, infeliz porque o filho estava entre os jovens que partiriam para Creta, não pôde se conter mais e gritou: – Já chega de escárnio! Por que o filho de Egeu é preservado enquanto os nossos são devorados pelo Minotauro?

Teseu não podia acreditar em seus ouvidos! Em pouco tempo, uma multidão se aglomerava no local. O jovem herói exigiu que lhe contassem tudo e, então, ficou sabendo a verdade. Declarou que também iria para Creta e que ou pereceria junto aos demais ou livraria para sempre Atenas desse macabro imposto de sangue.

Quando Egeu tomou conhecimento do que tinha acontecido, entrou em pânico. Tentou impedir o filho de fazer o que devia e não conseguiu. Foi obrigado a suportar a sua dor.

Teseu tomou seu lugar entre os sete rapazes. A primeira coisa que teve que fazer foi escolher outros dois moços, entre os mais intrépidos de Atenas – tão fortes que poderiam matar uma pessoa com um único golpe. Vestiu-os como mulheres e colocou-os no lugar de duas moças, que, então, mandou embora. A fim de que ninguém percebesse a farsa, ensinou-lhes a andar de maneira feminina e os penteou como meninas. Quando tudo estava pronto, foram todos juntos ao templo de Apolo para oferecer ao deus de cabelos dourados “o ramo dos suplicantes”, um galho de oliveira com fitas brancas. Quando Teseu perguntou ao oráculo qual era o deus a quem devia pedir ajuda, recebeu a resposta de que deveria pedir ajuda a Afrodite, deusa do amor, que lhe fosse guia e auxiliadora. E assim foi.

Chegou a hora dos jovens partirem para Creta. Teseu tentava encorajá-los. Dizia aos rapazes e às moças que não tivessem medo, porque, daquela vez, ninguém morreria. Da mesma maneira, dava ânimo aos atenienses e tentava tranquilizar os pais dos jovens. Entretanto, a lamentação não cessava, pois ninguém acreditava que os rapazes e as moças se salvariam. Ao mesmo tempo, eram muitos os que agora estavam mais tristes ainda, pensando que Teseu, orgulho e esperança de Atenas, morreria.

O rei Egeu, por um lado, estava sem esperança; por outro, encorajado por Teseu, ainda acreditava em algum milagre. Assim como das outras vezes, o navio partiria com velas negras, em sinal de desgraça e morte. Egeu deu ao filho também uma vela branca, para que ele trocasse na volta, se, evidentemente, eles voltassem com vida.

Os jovens embarcaram no navio que, por mais estranho que possa parecer, não era ateniense. A cidade que viria a se tornar fortíssima potência naval não tinha, até então, nenhum navio. Sequer marinheiros atenienses havia. Porém, um capitão ilhéu, de nome Féax, ofereceu-se para levá-los a Creta com o seu navio. Felizmente, pois, de outro modo, seria preciso que tomassem um navio cretense, uma vez que Creta era uma das poucas cidades que contavam com um bom número de naus. E isso, Teseu não queria de modo algum, pois dificultaria muito seu plano, que não era apenas matar o Minotauro, mas também reconduzir todos de volta a Atenas.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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A exigência de Minos

No episódio da morte de Androgeu, o rei Minos foi tomado pela raiva e jurou vingança preparando-se para a guerra. De fato, pouco tempo depois, chegaram a Fálero (principal porto de Atenas). Rapidamente, o exército de Minos desembarcou e marchou para Atenas.

Os atenienses ficaram cheios de pavor. Diante da poderosíssima Creta, Atenas era então muito fraca. Exército e civis, para se salvar, fecharam-se dentro dos muros da cidade.

Minos cercou Atenas e o período de sítio durou muito tempo. Fome e doenças começaram a ceifar os atenienses. Não sabendo mais o que fazer, pediram ao oráculo que lhes desse um conselho. O oráculo disse-lhes que tudo o que estavam sofrendo era um castigo enviado pelos deuses, pois haviam obrigado Androgeu a lutar contra o touro de Maratona. Agora, se quisessem que o mal tivesse fim, deveriam fazer o que o rei de Creta lhe dissesse. O que Minos pediu era algo terrível:

– Vocês me entregarão os sete rapazes e as sete moças mais seletos da cidade para eu levar comigo a Creta e dá-los como refeição ao Minotauro. E isso deve ser feito anualmente, durante nove anos.!

Uma grande dor tomou conta de Atenas, mas, como não podiam desobedecer o oráculo, tiveram que aceitar as exigências.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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O Touro de Maratona

Em Maratona, um touro terrível e furioso espalhava a ruína e a desgraça. Era o touro que Héracles trouxera vivo de Creta para Micenas, no seu sétimo trabalho, conforme a ordem de Euristeu, que o deixou desavisadamente em liberdade. Desde então, centenas de pessoas perderam a vida, perfuradas pelos chifres do monstro. Entra elas estava também o herói Androgeu, filho do rei Minos. Todos diziam que matar ou capturar o animal era uma façanha quase impossível. Mas Teseu decidiu fazer isso.

Egeu, rei de Atenas, não queria que seu filho, Teseu, rumasse para uma tarefa tão perigosa, contudo não pôde impedi-lo. Então, deu sua benção e permitiu que  Teseu fosse a Maratona. O herói, cheio de coragem e otimismo, partiu para encontrar e matar o touro.

Na estrada, encontrou uma velhinha pobre e fraca, Hécale, que vivia só, isolada numa cabana miserável, no sopé do monte Pentélico. Teseu lhe falou de maneira afável, dividiu com ela sua refeição e, em seguida, contou-lhe para onde estava indo e por que razão. A boa velhinha tentou impedir o herói, mas sem êxito. Como não podia fazê-lo mudar de ideia, prometeu, apesar de ser tão pobre, sacrificar um carneiro a Zeus se pudesse ver Teseu retornar com vida. Na hora que ele se despediu, ela, vendo-o jovem assim, quase uma criança, acariciou-lhe a face. Queria muito beijá-lo como se fosse um filho, mas não pôde, pois o rosto estava molhado de lágrimas.

Entretanto, a pobre velhinha não conseguiu oferecer o sacrifício prometido a Zeus, porque, antes que o herói retornasse, ela já havia falecido. Teseu nunca se esqueceu daquela bondade. Mais tarde, ao tornar-se rei de Atenas, foi até o lugar onde havia encontrado Hécale e ergueu um templo,o templo de Zeus Hecáleo, como o chamou. Depois estabeleceu as hecáleas, festas e competições esportivas que aconteciam em memória da boa velhinha. Mas por que tudo isso? O que Teseu tinha ganhado de Hécale? Nada. Nada mesmo, se a bondade for medida sempre de acordo com o ganho material. Às vezes, porém, uma só lágrima ou um carinho na face valem muito mais do que parece. Bravo, Teseu, por haver estimado esses gestos! E eis que a memória de Hécale, perdurou, ainda que tenham se passado milhares de anos. Afinal, ainda hoje as pessoas chamam de Hécale o distrito que existe naquele lugar.

Teseu, assim como Héracles, capturou o touro vivo. Com seus braços, que mais pareciam duas tenazes de ferro, ele o agarrou pelos chifres, amarrou-o bem firme e, em seguida, o carregou até Atenas, arrastando-o em triunfo pelas ruas da cidade. Finalmente, levou-o para o alto da acrópole e o sacrificou no altar da deusa Atena, entre os gritos de alegria de todos os atenienses.

Theseus Taming the Bull of Marathon, by Charles-André Van Loo (~1730)

Teseu domando o Touro de Maratona, por Charles-André Van Loo (~1730).

Entretanto, as alegrias por todos esses agradáveis eventos foram logo esquecidas; negros dias chegavam, dias de lamento. O motivo era o seguinte: Três anos antes, quando Teseu ainda morava em Trezena, aconteceram em Atenas grandes competições atléticas. Na ocasião, veio, para competir com os ateniense o herói Androgeu, filho de Minos, o grande rei de Creta. Androgeu tomou parte em todas as competições e em todas saiu vitorioso. Esse fato, todavia, causou grande aborrecimento a Egeu e a todos os atenienses. Então, Egeu disse ao herói que se ele fosse realmente forte, então deveria ser capaz de matar o touro de Maratona.

Seguro de mais essa vitória tão importante, Androgeu correu a Maratona. Contudo, ao chegar lá, além de perder a luta com o terrível monstro, o filho de Minos perdeu a vida. Ao ficar sabendo disso, o grande rei Minos jurou vingança e, imediatamente, começou as preparações para uma guerra, guerra que só seria evitada com o acordo que Egeu aceitou com muito pesar:  enviar sete rapazes e sete moças mais seletas da cidade, anualmente, durante nove anos, para servir de alimento para o Minotauro.

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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VII. O Touro de Creta

Herácles havia concluído metade dos trabalhos e Euristeu torturava-se pensando em uma tarefa que o herói não pudesse realizar. Outra vez, Hera veio em seu auxílio e aconselhou-o a mandar Héracles a regiões distantes, para trabalhos colossais. Todas as primeiras seis tarefas haviam sido no Peloponeso. As seis seguintes exigiriam longas e perigosas jornadas. E, de fato, o sétimo trabalho foi duplamente perigoso. Euristeu ordenou que Héracles fosse capturar o terrível touro que assolava a região de Creta e trazê-lo vivo para Micenas, pelo mar.


Sobre o Touro de Creta:
Este era um magnífico touro com chifres de ouro e cascos de bronze enviado por Poseidon à ilha de Creta, uma vez que o rei Minos prometera sacrificar um animal ao deus. Contudo, quando o rei viu  a portentosa criatura, não resistiu à tentação de possuir o animal para si e quebrou sua promessa, guardando-o em seus estábulos. Em lugar do touro de Poseidon, sacrificou um touro comum. O deus ficou profundamente ofendido. De repente, o magnífico touro, que até então fora manso, transformou-se num monstro ensandecido. Possuído pela vontade de destruir, atacava homens e animais, deixando um rastro de carnificina por onde passava.


O herói estava incumbido da tarefa de capturar a cruenta fera e levá-la vida para Micenas, através do amplo mar Egeu. Héracles navegou até Creta e foi pedir autorização ao rei Minos para realizar seu trabalho.

– Estou em pleno acordo – respondeu o rei -, mas duvido que o touro também esteja! E você está dizendo que quer levá-lo para Micenas pelo mar? Deve estar fora de seu juízo! Bem, espero que seja bem sucedido. De todo moto, não derramarei minhas lágrimas por você: um herói a menos não é uma grande perda para o mundo.

“Como todos esses reis me odeiam”, pensou Héracles, Euristeu, Áugias e agora Minos. Como sua tarefa era capturar o touro e levá-lo a Micenas, logo foi em busca do animal.

Não foi preciso muito tempo para encontrá-lo, e a luta começou na mesma hora, pois, assim que o touro avistou o herói, arremeteu-se com os chifres baixos. O estrondo dos seus cascos aproximando era suficiente para aterrorizar qualquer homem, porém Héracles continuou firme, jogando-se para o lado só no último momento, quando o touro finalizava a estocada. Em vez do alvo esperado, seus chifres encontraram apenas o ar e, como um raio, o horrendo animal se pôs de pé e, bramindo, tornou a investir contra o herói. Quando a cabeça do touro estava quase atingindo o alvo, Héracles segurou seus chifres e apertou-os como um torniquete de aço, impedindo subitamente o seu curso. Um tremor percorreu o corpo da fera, como se tivesse colidido contra um muro de pedra.

O-Touro-de-Creta

Com toda a sua força, Héracles empurrou a cabeça do touro para baixo até suas narinas rasparem no chão. O animal lutava raivoso, mas em vão. Por mais que tentasse, não conseguia erguer sua cabeça de novo. Seus cascos traseiros arranhavam desesperadamente a terra, tentando encontrar um ponto de apoio, mas nada podia desalojar o filho de Zeus ou fazê-lo perder o equilíbrio. Uma espuma borbulhava na boca do touro, cheio de raiva impotente, não havia nada que pudesse fazer. Em pouco tempo suas últimas forças esgotaram-se, e ele se entregou a seu oponente.

Héracles amarrou uma corda nos chifres do touro, que não pôde mais se libertar ou investir contra o herói. O temível Touro de Creta finalmente fora domado.

Assim, Héracles levou o touro para o mar. Agora, a tarefa que parecia impossível tinha se tornada subitamente fácil: em lugar de nadar para o Peloponeso com o furioso animal, Héracles fez justamente o oposto, sentou-se confortavelmente nas costas e deixou-se levar até lá.

Chegaram à costas e Héracles logo arrumou o touro no estábulo de Euristeu. Quando o rei soube que o terror de toda Creta estava em seu curral, gritou de desespero e mandou que seus homens o levassem para as montanhas, para tão longe de Micenas quanto pudessem. Héracles tinha vencido o touro e o trazido amarrado, e Euristeu o libertava novamente por pura covardia, pouco se incomodando com os prejuízos que isso pudesse trazer a seu povo.

Outra vez em liberdade, o touro tornou-se o terror do Peloponeso. Por fim, atravessou o istmo de Corinto e foi dar em Maratona, onde passou a assolar todos os campos da região. Conhecido a partir daí como o Touro de Maratona, estava destinado a ser morto por Teseu, o grande herói de Atenas.

B. Picart - The Cretan Bull, seventh labour of Heracles.

Héracles domando o Touro de Creta, por B. Picart (1731)

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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A descensão de Áugias

No episódio do sexto trabalho, Héracles limpou os estábulos do rei Áugias e foi pago com ingratidão e insolência. O herói foi exitado de Élis, mas prometeu voltar e fazer com que o rei pagasse caro pelos truques sujos usados. Ele não o fez pagar naquela hora, pois não era o momento propício para isso. O herói tinha que realizar outros grandes trabalhos por desígnio dos deuses para obter sua redenção. “Não me esquecerei, pode ter certeza”, disse para Áugias e partiu para Micenas.

E não se esqueceu. Quando todos os doze trabalhos haviam sido realizados, Héracles voltou a Élis com um exército. Combateu Áugias, matando-o ao final, e fez de Fileu o novo rei. Héracles não quis ficar com o gado que lhe era devido e Fileu ofereceu-lhe uma faixa de terra perto do rio Peneu. Lá, Héracles construiu um templo para Zeus Olímpio e um grande estádio, cujo tamanho, dizia o povo, fora medido com seus próprios passos largos. Deu o nome de Olímpia ao lugar e ali realizou os primeiros jogos olímpicos.

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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VI. Os estábulos de Áugias

O rei, cheio de vilania, logo pensou em algo para manter Héracles longe dos portões do palácio.  Estava certo de que, dessa vez, o herói seria humilhado. Imediatamente chamou seu arauto e transmitiu-lhe a seguinte mensagem: “Mande Héracles limpar os estábulos de Áugias!”

Naquela ocasião, os estábulos de Áugias, rei de Élis, estavam repletos de esterco fétido, jamais removido. Áugias era filho de Hélios, o Sol, e possuía inúmeros animais. Entre eles, estavam trezentos touros negros com pernas brancas, presente do próprio Hélios, outros duzentos tão vermelhos quanto o pôr-do-sol e mais doze tão brancos como cisnes. Sobressaía-se dentre todos um touro que brilhava como se fosse o deus luminoso.

Além de seus rebanhos, Áugias também possuía as terras mais férteis. A planície de Élis era extremamente rica. Os campos eram tão férteis, que não podiam mais ser adubados e, desse modo, o esterco nunca era retirado dos pários do estábulo, onde se amontoava, ano após ano, até formar montes imensos, que nenhum homem podia deslocar. Se todas as pessoas de Élis, inclusive as mulheres e crianças, trabalhassem dia e noite nos estábulos durante anos, ainda assim não seriam capazes de remover a imundície.

A montanha de excrementos pestilentos tinha que ser removida de alguma maneira e, mais ainda, Héracles tinha de fazê-lo sozinho. Assim que chegou a Élis, o herói se deu conta da tarefa que o esperava. Começou a pensar num modo de solucionar o problema. Depois de um tempo, as noções de uma plano formaram-se na mente de Héracles. Subindo ao topo do terreno que circundava os campos, descobriu que dois rios cruzavam a planície, à esquerda e à direita. Os estábulos ficavam entre o Alfeu e o Peneu, os maiores rios de Élis e de todo o Peloponeso. O herói examinou-os cuidadosamente, depois desceu a colina, sorrindo, e foi procurar o rei Áugias.

Héracles se apresentou ao rei e disse a que vinha. Áugias riu e respondeu escarnecendo: “E quantos anos você pensa em viver? Milhares?” O herói sem perder a seriedade respondeu que realizaria a tarefa num único dia. O rei, com olhar cético e sorriso sarcástico, então prometeu que, se Héracles fizesse o que havia dito, daria-lhe um décimo de todos os seus rebanhos. Dito isso, chamou seu filho Fileu para testemunhar o acordo.

Então, Fileu mandou Héracles jurar que os estábulos estariam limpos antes do anoitecer e, embora o herói nunca tivesse feito um juramento antes, consentiu em fazê-lo. Em seguida, pediu para que seu pai jurasse que, caso Héracles fizesse o prometido, lhe daria um décimo de seus rebanhos. Áugias jurou e, no dia seguinte, Héracles começou a trabalhar quando raiou a Aurora.

Quando o Sol já estava alto, Áugias foi até os seus estábulos para ver como andava o trabalho, contudo não havia sinal de Héracles, nem indícios de que algo tivesse sido feito por ali.

Héracles estava nas margens dos rios jogando terra e pedras na água, pedras enormes. “Ele tem mais músculo que um titã” comentou um pastor que o observava. O filho de Alcmena estava construindo dois diques. Por volta do meio-dia, o trabalho havia terminado e massas de água começaram a subir atrás deles. O herói correu para os estábulos, onde fez duas grandes aberturas nos muros que o cercavam. Assim que terminou, subiu até o ponto mais alto, ali perto, para ver o que aconteceria.

Pouco tempo depois, as águas dos dois rios, Alfeu e Peneu, foram entrando nos estábulos pelos buracos feitos nos muros, e fizeram seu trabalho tão rapidamente e tão bem, que Héracles não cabia em si de alegria. Não só tinha limpados os estábulos, como também os lavara. Jamais poderia ter feito um trabalho melhor. O herói voltou aos rios e demoliu os dique, voltou aos estábulos e consertou os buracos nos muros. Sua tarefa estava terminada.

Estábulos de Áugias

Quando o Sol desapareceu atrás das colinas do oeste, Héracles foi ver Áugias. Nesse momento, o rei já sabia do ocorrido, mas em vez de contente, estava furioso, pois não queria entregar os animais que prometera.

Não foi você que limpou os estábulos!! – vociferou Áugias. – Foram os rios. O trabalho foi feito pelos deuses dos rios, Alfeu e Peneu. Eles são os únicos a quem devo agradecer! Não fizemos acordo nem juramento algum! – Áugias gritou enraivecido. – Agora saia daqui, seu ladrão de gado!

Héracles não podia acreditar no que ouvia. A insolência do homem não tinha limites. Não era a perda dos animais prometidos que o perturbava, mas o fato de Áugias tê-lo ludibriado. Aquilo era insuportável. O herói decidiu não deixar que o assunto terminasse assim e levou o rei ao tribunal. Os juízes chamaram Fileu como testemunha e o jovem, corajosamente, contou-lhes toda a verdade sobre o que tinha se passado entre Héracles e o seu pai. Héracles ganhou a causa, mas Áugias teve uma explosão de raiva e não só se recusou a acatar o veredicto dos juízes, como também exilou ambos, ele e seu filho, proibindo Héracles de pôr os pés em Élis para sempre. O herói prometeu voltar e fazê-lo pagar.

Quando Héracles voltou para Micenas, Euristeu ficou totalmente surpreso, pois não esperava vê-lo outra vez. Tremendo de medo, chamou Copreu e mandou-o descobrir como Héracles lograra voltar, uma vez que fora enviado para uma tarefa que tomaria milhares de anos. Copreu então explicou ao mesquinhos rei como o herói havia feito. As palavras do arauto deixaram Euristeu com um pânico ainda maior, pois naquele momento ficara claro para ele que Héracles, além de forte e corajoso, era extremamente inteligente. O rei de Micenas, com seu raciocínio falho e lento, sentiu que não era absolutamente nada em comparação ao herói e, por isso, desejou com todas as forças que ele de fato sucumbisse.

Héracles sempre conseguia sair vitorioso. Estrangulara o Leão de Nemeia, matara a Hidra de Lerna e libertara o lago Estínfalo das aves de rapina. Trouxe o Javali de Erimanto para Micenas, capturou a Corsa cerinita e, agora, dera cabo da sujeira dos estábulos de Áugias. Metade dos trabalhos haviam sido cumpridos, e cada um deles parecia uma tarefa além da capacidade humana.

Os estábulos de Áugias, por Pierre Salsiccia

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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