V. A Corsa Cerinita

Após nove dias, o rei Euristeu conseguiu se recuperar do choque de ver o Javali de Erimanto. Assim, pela primeira vez, Héracles não saiu imediatamente para realizar o trabalho seguinte e descansou um pouco para recobrar sua força. No décimo dia, Copreu, o arauto, chamou-o para dar as novas ordens de seu mestre: encontrar a Corsa Cerinita, consagrada a Ártemis, e trazer o animal, impossível de ser capturado, para Micenas, vivo.

Euristeu regozijava-se ao imaginar o herói tentando apanhar o animal, e regozijava-se mais ainda ao pensar que Ártemis puniria a audácia de Héracles com a morte.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente de Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.


Sobre a Corsa Cerinita:
A corsa cerinita era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.


Héracles perseguiu a corsa durante um ano inteiro – pelas montanhas, através dos desfiladeiros, cruzando rios, seguindo-a pelos vales e grandes planícies. Cruzou o istmo de Corinto, perseguindo a corsa até os píncaros do Citéron, Parnaso e Oetes, depois descendo, perseguiu-a na Tessália e na Ilíria. Algumas vezes ele corria sob um sol causticante; outras, num frio cortante. Às vezes, machucava os pés em pedras pontiagudas ou tropeçava na neve fofa. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. Héracles, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas do animal. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

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Antes que o herói tocasse a corsa, uma voz feminina ecoou pelo lugar deserto dizendo: “Como ousa!” Era Ártemis, a grande deusa dos bosques, com seu arco apontado diretamente apontado para ele, com uma fúria incontrolável estampada no rosto.

– Como ousa! – exclamou a deusa novamente. – Como ousa ferir minha corsa? Você a perseguiu um ano inteiro e eu o deixei em paz, porque sabia que não tinha a velocidade necessária para derrubá-la de mãos vazias. Mas persegui-la não bastou, teve que feri-la também! Quem você pensa que é? Zeus pode ser seu pai e eu sua irmã, mas não é um deus e não terei piedade de você. Explique esse insulto e explique logo, pois minhas flechas jamais erra o alvo!

O herói explicou sua situação. Disse que estava às ordens do mesquinho rei Euristeu, que era desígnio dos deuses que ele realizasse doze grandes trabalhos a mando do mesmo, e finalizou dizendo: “Se você acha que eu agi mal, mate-me”

Ártemis ficou atônita com essa resposta. No entanto, ele agira bem. Por outro lado, tinha ferido sua corsa e aquilo era uma grande insulto. Duas forças lutavam dentro dela: de um lado, estava seu orgulho de deusa olímpia e, do outro, a simples lógica. Durante um bom tempo ela ficou pensativa e indecisa, mas, por fim baixou seu arco e dizendo que o herói podia levar a corsa para Euristeu e que tomasse cuidado para não machucá-la mais. Esta foi a primeira vez que um homem vergou a vontade da deusa.

Assim, o herói pegou a corsa e a levou para micenas. Força, rapidez e esperteza nem sempre são suficiente para realizar grandes façanhas. Às vezes a dignidade do espírito também é necessária, e essa era uma qualidade que o filho de Alcmena nunca perdera.

Mais uma vez, Euristeu espumou de raiva quando soube que aquele trabalho também se cumprira.

Herakles captures the Hind of Keryneia, breaking off one of its golden antlers, while Athena (on the left) and Artemis (on the right) look on. Attic black-figured neck-amphora, ca. 540–530 BC.

Héracles capturando a corsa

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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