Sísifo: a sagacidade, o castigo

Sísifo foi um nome que ficou para sempre na memória dos mortais: era o homem mais astuto que já viveu neste mundo. Filho de Éolo e Enarete, foi o primeiro rei e fundador de Corinto. Apesar de malicioso, não era injusto. No entanto, após a sua morte, foi duramente penalizado porque, com muita astúcia, enganara até os próprios deuses.

Quando Sísifo decidiu construir Corinto, muito lhe agradou a localização próxima ao istmo, pois a cidade teria dois portos: um no golfo coríntio e outro no golfo sarônico. Havia ainda, lá perto, um monte grande e alto para se construir um castelo inexpugnável, que protegeria os habitantes caso houvesse guerra. O lugar, porém, não tinha água, e por isso Sísifo pediu ao deus-rio Asopo que lhe concedesse uma fonte. Asopo quis saber o que ganharia em troca, e, com astúcia, respondeu que podia contar com ele quando precisasse, pois lhe daria a amizade.

Satisfeito com a resposta de Sísifo, Asopo bateu seu bastão na terra e uma fonte de água abundante e cristalina brotou ao pé do monte. Dessa forma, Corinto foi construída e, sobre o monte, Acrocorinto, ou seja, a acrópole de Corinto.

Após um tempo, Zeus passou por ali arrastando uma jovem consigo. Era Egina, filha de Asopo, que ele acabara de roubar do pai. Sísifo os recebeu com humildade, e Zeus e Egina passaram a noite inteira no castelo. Mal partiram, veio Asopo, que procurava aflito pela filha, e perguntou se Sísifo sabia de algo que pudesse lhe ajudar a encontrar Egina. O rei de Corinto se encontrava numa situação difícil: a Asopo devia grandes favores, pois com a fonte por ele concedida tornou-se possível a fundação de Corinto; todavia, como poderia ir contra a vontade do rei dos deuses? Era um impasse. Entretanto, depois de tanto pensar, a obrigação com Asopo falou mais alto e, assim revelou, que havia sequestrado a filha do deus-rio. Asopo, agradecido e admirado, perguntou se o rei não temia o castigo de Zeus. Sísifo disse que daria um jeito de escapar.

Zeus, furioso com a traição de Sísifo, imediatamente ordenou a Caronte que tomasse a alma do rei e a levasse para o escuríssimo Hades. O astuto Sísifo, contudo, já pressentira qual seria o seu castigo. Assim, armou uma emboscada para Caronte e se pôs a esperá-lo com uma corda na mão, que escondeu atrás de si. Quando chegou o temível deus da morte, Sísifo não teve medo. Caiu de repente sobre ele. Antes que Caronte tivesse tempo de fazer o menor movimento, viu-se amarrado.

Um tempo depois, Plutão, o rei do Hades, chegou ao Olimpo e perguntou a Zeus:
– O que acontecerá com Sísifo?
– Eu me ocupo dos vivos, e não dos mortos – respondeu o soberano dos deuses.
– Sim, mas Sísifo está vivo, reinando e rindo à nossa custa! Ainda se fosse só isso… Ele mantém Caronte amarrado e, por isso, nenhum homem morre sobre a Terra, e ninguém vem ao meu reino!

Zeus trovejou e relampejou de cólera. De imediato, chamou Ares, o temível deus da guerra para que o mesmo libertasse Caronte e desse fim à vida de Sísifo. Assim, o pobre Sísifo, que não podia com Ares e Caronte juntos, logo estava nas profundezas do Hades.

Como já esperava que isso acontecesse, instruíra a mulher, Mérope, a não fazer nenhum sacrifício fúnebre a Plutão por ocasião de sua morte. Em vão, Plutão esperou os sacrifícios consagrados pelo rei de Corinto, até que o próprio espírito de Sísifo se colocou diante dele com sua astúcia, e disse:
– Grande rei do Hades, sinto que minha mulher não lhe tenha oferecido sacrifícios fúnebres por minha morte. Deixe-me subir à Terra para castigá-la e ordenar-lhe que cumpra sua obrigação. Retornarei ao seu reino imediatamente depois.

Plutão fora enganado ao deixar que Sísifo subisse à terra. Este, em vez de castigar a mulher conforme prometera, caiu nos braços delas e os dois passaram juntos uma vida feliz até a velhice. Contudo, como todos os homens morrem um dia, Sísifo também morreu. E então os deuses se vingaram.

Plutão fez o fundador de Corinto carregar no mundo ínfero uma rocha maior que ele. Deveria levar essa pedra até o alto de uma montanha. Sísifo se afligia, esgotava suas forças para carregar o peso insustentável até lá em cima, mas antes de chegar ao topo, a pedra escapava e se precipitava novamente para o sopé da montanha. Sísifo corria para alcançá-la e recomeçava seu árduo trabalho, empurrando com as mãos, os ombros e os joelhos a rocha impossível de levantar. O infeliz se angustiava para levá-la ao cume e dar fim ao seu martírio, mas no último instante a pedra novamente escapava e despencava pela encosta. Assim acontecia continuamente, e o tormento de Sísifo era infindável. Este foi seu castigo por ludibriar os deuses.

Punishment_sisyph

Sísifo, por Titian (1549)

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Uma opinião sobre “Sísifo: a sagacidade, o castigo

  1. Paulo Sérgio Alves

    Muito bom seu novo blog… Cheio de conteúdo! Gostei bastante deste artigo sobre Sísifo. Depois vou ler mais! o/

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