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Centauros

Centaur wielding rock, attic bilingual, 520BC, Toledo Museum of Art, Ohio, USA

Centauro erguendo uma pedra, 520 a.C., Museu de Arte de Toledo, Ohio, EUA.

Κένταυροι (Kéntaroi), Centauro, é um termo de etimologia ignorada. Como os centauros são nubigenae, “filhos da nuvem”, tentou-se decompor a palavra em κεντ- (kent-) do verbo κεντεῖν (kenteîn), “picar, furar, ferir” e αὒρα, “ar”, o que se constitui numa etimologia meramente hipotética.

O ingrato Íxion tentou violentar a deusa Hera. Zeus, para punir-lhe o sacrilégio, confeccionou um eídolon da esposa sob forma de nuvem, que, imediatamente, o rei dos lápitas envolveu em seus braços. Dessa união nasceu um monstro, o Centauro. Este, na versão do condor de Tebas, unindo-se a éguas da Magnésia, nos sopés do monte Pélion, deu origem aos Centauros. Segundo outras fontes, talvez mais antigas, todos os centauros, exceto Folos e Quíron, eram filhos de Íxion e de Nefele, o eídolon de Hera. Concebidos como seres monstruosos, selvagens e bestiais, tinham o busto de homem, mas do busto para baixo eram cavalos perfeitos. Violentos, sanguinários e luxuriosos, habitavam montanhas e florestas da Tessália e os arredores dos montes Ossa e Pélion, alimentando-se de carne crua.

Essas criaturas brutais e violentas, estavam quase sempre ébrias. Um ou outro centauro aparece isoladamente no mito, mas sempre com a mesma atitude: raptar ou violentar noivas e mulheres alheias. O episódio mais famoso dos centauros é o das núpcias de Pirítoo. Este também era filho de Íxion, o que fazia dos centauros seus meio-irmãos. Um deles, no dia do casamento, inteiramente embriagado, quis violentar Hipodâmia, a jovem noiva. Pirítoo e Teseu, numa luta terrível que então se travou, ajudados por seus companheiros, mataram quase todos os centauros, que foram, finalmente, massacrados por Héracles.

Quíron, também centauro, não pertencia à raça dos demais, fruto dos amores de Íxion com uma Nuvem (à qual Zeus dera a forma de Hera, a fim de iludir os desejos criminosos desse rei tessálio, que, mais tarde, foi condenado no Hades ao suplício da roda), mas era filho de Chronos e da ninfa Fílira. A respeito do nascimento desse centauro há duas versões: uma diz que ele se transformou em cavalo para possuir a formosa ninfa; outra diz que, surpreendidos ambos no momento em que enlaçados gozavam o prazer do amor, Chronos, assustado, não completou o ato e saiu galopando já transformado em cavalo, deixando, contudo, a ninfa grávida.

Outro centauro que não pertencia a genealogia dos filhos de Íxion era Folos, filho de Sileno e de uma Melíade, ninfa dos freixos. Quíron tornou-se amigo e protetor de Peleu, a quem salvou a vida, e educou Aquiles, Jasão e Asclépio, ensinando-lhes a virtude, a música e a medicina. Folos, está intimamente ligado às lendas de Héracles. Quando este cercava o javali de Erimanto, hospedou-se na gruta do bondoso Folos, ao qual Dioniso havia dado um odre de capitoso vinho, com a recomendação de abri-lo somente quando Héracles estivesse presente. Depois da refeição, Folos abriu o obre de vinho e puseram-se a beber. O perfume atraiu um bando de centauros, armados de brandões, e de árvores inteiras. Travou-se uma terrível luta e Héracles matou vários centauros; Folos, porém, feriu-se acidentalmente com as flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna, o que causou sua morte.

Modern bronze copy of the type of the Young Centaur, Malmaison

Referência:

BRANDÃO, J. S. Dicionário mítico-etimológico v.1. Petrópolis: Vozes, 2008.

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix,1974.

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Héracles

O nascimento de Héracles parte I: Anfítrion e Alcmena

O nascimento de Héracles parte II: Zeus e Alcmena

O nascimento de Héracles parte III: nascem os gêmeos

O pequeno Héracles e as serpentes de Hera

Héracles entre dois caminhos: virtude vs. prazer

Héracles e a guerra contra Orcômeno

A loucura de Héracles

Héracles e a morte de Lino

Héracles – os doze trabalhos

I. Leão de Nemeia

II. Hidra de Lerna

III. As aves do Estínfalo

IV. O Javali de Erimanto

V. A Corsa Cerinita

VI. Os estábulos de Áugias

VII. O Touro de Creta

VIII. Os Cavalos de Diomedes

IX. O cinto de Hipólita

X. O gado de Gérion

XI. Os pomos das Hespérides

XII. Cérbero

Doze trabalhos: epílogo

A descensão de Áugias

Héracles contra Caronte

Héracles e Dejanira

Héracles e a vingança de Nesso

Héracles: ascensão ao Olimpo

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Heróis

Academo
Acrísio
Abdero
Agamêmnon
Ájax
Androgeu
Aquiles
Atalanta
Atreu
Belerofonte
Cadmo
Diomedes
Dióscuros
Édipo
Filoctetes
Ganimedes
Heitor
Héracles
Jasão
Meleágro
Menelau
Neptólemo
Odisseu
Páris
Pátroclo
Peleu
Perseu
Pirítoo
Príamo
Teseu
Triptólemo

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Deuses

Caos
Ceos
Crios
Crono
Érebo
Eros
Éter
Febe
Gaia
Hemera
Hipérion
Jápeto
Mnemosine
Nix
Oceano
Óreas
Pontos
Reia
Tártaro
Teia
Têmis
Tétis
Urano

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V. A Corsa Cerinita

Após nove dias, o rei Euristeu conseguiu se recuperar do choque de ver o Javali de Erimanto. Assim, pela primeira vez, Héracles não saiu imediatamente para realizar o trabalho seguinte e descansou um pouco para recobrar sua força. No décimo dia, Copreu, o arauto, chamou-o para dar as novas ordens de seu mestre: encontrar a Corsa Cerinita, consagrada a Ártemis, e trazer o animal, impossível de ser capturado, para Micenas, vivo.

Euristeu regozijava-se ao imaginar o herói tentando apanhar o animal, e regozijava-se mais ainda ao pensar que Ártemis puniria a audácia de Héracles com a morte.

Ártemis amava a corsa acima de todas as criaturas. Ela tinha sido presente de Taigete, filha de Atlas e mãe de Lacedêmon, um dos primeiros reis de Esparta.


Sobre a Corsa Cerinita:
A corsa cerinita era a mais veloz e mais encantadora criatura do mundo. Habitava o monte Cerineu, na Arcádia, donde cerinita. Podia correr sem nunca se cansar, porque seus cascos eram feitos de bronze e sua cabeça era adornada com esplêndidos chifres de ouro maciço polido. Também conhecida como a Corsa dourada.


Héracles perseguiu a corsa durante um ano inteiro – pelas montanhas, através dos desfiladeiros, cruzando rios, seguindo-a pelos vales e grandes planícies. Cruzou o istmo de Corinto, perseguindo a corsa até os píncaros do Citéron, Parnaso e Oetes, depois descendo, perseguiu-a na Tessália e na Ilíria. Algumas vezes ele corria sob um sol causticante; outras, num frio cortante. Às vezes, machucava os pés em pedras pontiagudas ou tropeçava na neve fofa. A corça cerinita levava-o sempre para diante, além das fontes dos Istros e subindo para as terras dos Hiperbóreos; depois, voltando para a Grécia e descendo o Peloponeso, correndo à sua frente pelo monte Artemísion e atravessando toda a Arcádia. O animal sagrado não dava sinais de cansaço, e Héracles seguia atrás dele obstinadamente, sem o perder de vista, mas nunca chegando perto o bastante para agarrá-lo. Até que chegaram no rio Ládon.

Então a corsa interrompeu sua fuga voraz. Olhou em volta, procurando um lugar para atravessar. Héracles, percebendo que não havia outra solução, estucou o seu arco e apontou para as patas do animal. A pontaria e a escolha do momento exato revelaram toda a sua perícia: a flecha atravessou as quatro patas de uma só vez, no justo instante em que ficaram juntas num salto. A arma passou-lhe entre os tendões e os ossos, sem derramar uma só gota de sangue. Apesar de a corsa não ficar muito ferida, não consegui se mover sequer um centímetro.

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Antes que o herói tocasse a corsa, uma voz feminina ecoou pelo lugar deserto dizendo: “Como ousa!” Era Ártemis, a grande deusa dos bosques, com seu arco apontado diretamente apontado para ele, com uma fúria incontrolável estampada no rosto.

– Como ousa! – exclamou a deusa novamente. – Como ousa ferir minha corsa? Você a perseguiu um ano inteiro e eu o deixei em paz, porque sabia que não tinha a velocidade necessária para derrubá-la de mãos vazias. Mas persegui-la não bastou, teve que feri-la também! Quem você pensa que é? Zeus pode ser seu pai e eu sua irmã, mas não é um deus e não terei piedade de você. Explique esse insulto e explique logo, pois minhas flechas jamais erra o alvo!

O herói explicou sua situação. Disse que estava às ordens do mesquinho rei Euristeu, que era desígnio dos deuses que ele realizasse doze grandes trabalhos a mando do mesmo, e finalizou dizendo: “Se você acha que eu agi mal, mate-me”

Ártemis ficou atônita com essa resposta. No entanto, ele agira bem. Por outro lado, tinha ferido sua corsa e aquilo era uma grande insulto. Duas forças lutavam dentro dela: de um lado, estava seu orgulho de deusa olímpia e, do outro, a simples lógica. Durante um bom tempo ela ficou pensativa e indecisa, mas, por fim baixou seu arco e dizendo que o herói podia levar a corsa para Euristeu e que tomasse cuidado para não machucá-la mais. Esta foi a primeira vez que um homem vergou a vontade da deusa.

Assim, o herói pegou a corsa e a levou para micenas. Força, rapidez e esperteza nem sempre são suficiente para realizar grandes façanhas. Às vezes a dignidade do espírito também é necessária, e essa era uma qualidade que o filho de Alcmena nunca perdera.

Mais uma vez, Euristeu espumou de raiva quando soube que aquele trabalho também se cumprira.

Herakles captures the Hind of Keryneia, breaking off one of its golden antlers, while Athena (on the left) and Artemis (on the right) look on. Attic black-figured neck-amphora, ca. 540–530 BC.

Héracles capturando a corsa

Referência:

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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O pomo da discórdia

Nas núpcias de Peleu e Tétis, Éris, a deusa que personifica a discórdia, fora a única divindade não convidada. Para vingar-se, a divindade malfazeja lançou um pomo de ouro entre as deusas Hera, Atena e Afrodite, com a seguinte inscrição: “à mais bela”. Cada uma das deusas considerava que a maçã lhe pertencia e aferraram-se numa discussão. Para não se envolver na questão, Zeus determinou que o pastor Páris, filho de Príamo, julgaria qual das três deveria ficar com o pomo.

Pomo da discórdia

Éris lançando o pomo

As deusas, conduzidas por Hermes, apresentaram-se diante de Páris e cada uma lhe prometeu algum dom. Hera prometeu torná-lo o soberano da Europa e da Ásia. Atena prometeu torná-lo invencível nos combates, e Afrodite prometeu-lhe Helena, a mais bela de todas as mulheres. Páris, então, entregou o pomo a Afrodite. Essa escolha está na origem da Guerra de Troia, pois, para cumprir a promessa, Afrodite despertou uma paixão irresistível em Helena e esta, na ausência de seu esposo Menelau, acabou partindo com Páris para Troia. Quando Menelau retornou, convocou todos os chefes gregos a uma expedição contra Páris e os troianos.

Julgamento de Páris (1904) Enrique Simonet.

Julgamento de Páris, Enrique Simonet (1904)

Referências:

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix, 1974.

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Bestiário

Anteu (gigante)
Argos
Aves do Estínfalo
Cavalos de Diomedes
Centauros
Cérbero
Ceto
Ciclopes
Corsa Cerinita
Coto (hecatônquiro)
Dragão da Cólquida
Egéon/Briareu (hecatônquiro)
Equidna
Esfinge
Fênix
Folos (centauro)
Gérion (gigante)
Giges (hecatônquiro)
Górgonas
Grifo
Hecatônquiros/Centimanos
Hidra de Lerna
Hipocampo
Javali de Erimanto
Javali do Cálidon
Ládon
Leão de Nemeia
Lélape
Mantícora
Medusa (górgona)
Minotauro
Nesso (centauro)
Ortro
Pégaso
Píton
Polifemo
Quimera
Quíron (centauro)
Raposa de Têumesso
Sátiro
Sereia
Talo (gigante)
Tífon
Touro de Creta
Touro de Maratona
Tritão

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Quíron

Quíron e Aquiles, ânfora ática ~520a.C, Museu do Louvre, França.

Quíron e Aquiles, ânfora ática (~520a.C.), Museu do Louvre, França.

Quíron, em grego Χείρων (Kheíron), nome que é, possivelmente, uma abreviatura de χειρουργός (kheirourgós), “que trabalha ou age com as mãos”, cirurgião, pois esse centauro foi um grande médico, que sabia muito bem compreender seus pacientes, por ser um médico ferido.

Filho de Chronos e Fílira, pertencia à geração divina dos Olímpicos. Pelo fato de Chronos ter-se unido a Fílira sob a forma de um cavalo, o Centauro possuía dupla natureza: equina e humana. Fílira era filha do Oceano e fora seduzida por Chronos. Um dia, estavam ambos terminando o ato amoroso, quando foram surpreendidos por Reia, esposa do mesmo. Este, imediatamente, fugiu sobre a forma de cavalo. Fílira, cheia de vergonha, escondeu-se nas florestas da montanha, onde, passado o tempo, deu à luz um Centauro, o famoso Quíron. À vista do monstro que dela nascera, metade homem, metade cavalo, experimentou a mãe tamanha dor, que suplicou aos deuses que dela se apiedassem e a metamorfosearam. Os imortais atenderam-na e foi transformada em tília, árvore em Grego chamada φιλύρα.

Quíron passou a sua primeira juventude nas florestas e nas montanhas. Vivia numa gruta, situada ao pé do monte Pélion, e era um gênio benfazejo, amigo dos homens. Tornou-se amigo de Ártemis e com ela costumava caçar, indicando-lhe os lugares onde se acolhiam os animais que a deusa desejava matar. Ao contrário dos demais Centauros, possuía uma inteligência brilhante, e o convício com Ártemis trouxe-lhe grandes vantagens. Com ela aprendeu o conhecimentos dos símplices e das estrelas. Sábio, ensinava música, a arte da guerra e da caça, a moral, a astronomia, mas sobretudo medicina. Foi o grande educador de heróis, entre outros, de Jasão, Héracles, Peleu, Teseu, Aquiles e Asclépio.

Centaur. The cenataur Chiron with the goddess Diana-Artmeis holding twoe plants of the genus Artemisia. Bodleian Library, MS. Ashmole 1462, Folio 18r.

Quíron e Ártemis

Na guerra que Héracles moveu contra os centauros, Quíron, que estava do lado do herói e era seu amigo, foi acidentalmente ferido, na perna, por uma flecha envenenada, a qual o filho de Alcmena, ao realizar o segundo trabalho, embebera no veneno da Hidra de Lerna. O Centauro aplicou unguentos sobre o ferimento, mas era incurável. Recolhido à sua gruta, Quíron desejou morrer, mas nem isso conseguiu, porque era imortal. O infeliz, passou anos de agonia sofrendo dores intoleráveis, pediu a Zeus que desse término ao suplício abreviando-lhe os dias. Zeus atendeu a súplica do centauro, mas não deixou que o deus da morte o levasse para as profundezas do inferno. Conta-se que Quíron subiu ao Céu sob a forma da constelação de Sagitário, uma vez que a flecha, em latim sagitta, a que se assimila o Sagitário, estabelece a síntese dinâmica do homem, voando através do conhecimento para sua transformação, de ser animal em ser espiritual. Quíron passou à posterioridade com a alcunha de “o Sábio”.

Conforme outra versão, quando o Centauro examinava as flechas de Héracles, por acaso uma escapou-lhe das mãos e veio a feri-lo no pé. Todos os remédios foram impotentes para acalmar-lhe a dor. Dotado pelos deuses com o dom da imortalidade, não podia morrer; pediu e obteve que sua imortalidade fosse dada a Prometeu.

Há ainda outra versão. Segundo Plínio, o centauro Quíron curou-se da ferida com a planta depois chamada de centáurea.

Bronze Kheiron, the immortal son of the Titan Kronos and a half-brother of Zeus. Kheiron mentored many of the great heroes, including Jason and Akhilleus - Constellation Sagittarius.

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega v.2. Petrópolis: Vozes, 2009.

SPALDING, T. O. Deuses e Heróis da Antiguidade Clássica: dicionário de antropônimos e teônimos vergilianos. São Paulo: Cultrix,1974.

STEPHANIDES, M. Hércules. Trad. MICHAEL, Marylene P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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IV. O Javali de Erimanto

Desta vez, Hera aconselhou Euristeu a mandar Héracles trazer o Javali de Erimanto vivo e contou-lhe sobre os perigos que o herói encontraria pelo caminho. O rei mesquinho esfregou as mãos de satisfação.


Sobre o Javali de Erimanto:
O javali era um animal feroz que sempre descia a montanha arruinando as plantações, aterrorizando e destruindo tudo que encontrava pelo seu caminho. Tinha esse nome porque viveu na famosa Erimanto, uma montanha de Arcádia. Ele era um monstro antropófago, podia causar abalos sísmicos e, com suas presas, era capaz de arrancar pela raiz uma árvore corpulenta e dilacerar homens ou animais que se interpusessem em seu caminho. 


Quando Héracles recebeu as novas ordens, logo ficou desconfiado. Ele sabia bem como se proteger. O problema era descobrir um modo de agarrar o animal vivo. Ainda remoendo o porquê daquele trabalho, o herói partiu para Erimanto. Em alguns dias, chegou ao sopé da montanha. Era noite, ele tinha parado numa fonte para beber água e descansar, quando ouviu algo se aproximando. Por estar escuro, ele pensou que se tratava de um cavaleiro. No entanto, quanto estava próximo, percebeu que não era um homem sobre um cavalo, mas sim um centauro – meio homem, meio cavalo. Seu nome era Folos.

Quando viu Héracles, Folos aproximou-se trotando, saudou o herói amistosamente e perguntou o que o mesmo fazia ali, naquele lugar selvagem. Héracles explicou por que estava ali. O centauro, contente em conhecer o herói, o convidou para ir à sua caverna cear e descansar um pouco.

Chegaram à caverna e Folos mostrou-se um bom anfitrião. Acomodou Héracles e servi-lhe uma boa refeição. O problema é que ele não ofereceu nada para o herói beber. Folos logo tratou de explicar que os centauros possuíam o mais fino vinho do mundo, e que não o ofereciam nem aos deuses. Porém, Folos decidiu fazer uma exceção e serviu duas taças de vinho: uma para si e outra para o herói. O vinho tinha um aroma adocicado único.

Enquanto bebiam, Hera fez com que uma leve brisa soprasse, e os vapores fortes flutuaram para fora da caverna indo até as narinas dos outros centauros. “Estão roubando o nosso vinho”, todos disseram em uníssono e disparam para a caverna a galopes. Folos ouviu o tropel dos irmãos se aproximando e entrou em desespero. Folos e Héracles dispararam para fora da caverna. Contudo os centauros já estavam lá e, ao verem um homem do lado de fora, ficaram ainda mais furiosos. Imediatamente se armaram com tudo que estava a seu alcance, alguns com pedras enormes, outros com troncos inteiros de ciprestes, arrancados na hora. Então, avançaram para a caverna e Héracles viu-se em perigo mortal.

Só um centauro, o sábio Quíron, tentou detê-los, mas foi em vão. Um instante depois, eles começaram a  arremessar grandes pedras, mas devido à distância, as mesma não atingiram o herói. Héracles puxou o seu arco e começou a atirar com força e precisão. Cada flecha derrubava um centauro como se fosse um raio. Quíron gritou que parassem, mas ninguém ouviu, e um após outro, foram caindo mortos. Quando os últimos sobreviventes viram o resultado inacreditável da rápida batalha, deram meia volta e se espalharam por todas as direções. Por fim, alguns se refugiaram-se em Maleia, enquanto outros, como o centauro Nesso, fixaram-se na região do rio Eveno.

Centauros

Embora todos os centauros ferozes tivessem sido mortos ou fugido do monte Erimanto, Héracles não estava feliz com a batalha, sentia um grande pesar. Porque uma das flechas do herói trespassara o braço de um centauro e atingira o velho Quíron no pé. Dentre todos os centauros, apenas Quíron era imortal; por isso o veneno da Hidra abriu-lhe uma ferida tão horrível, cuja a dor era insuportável e que jamais seria curada.

Como se não bastasse isso, o centauro Folos, intrigado, pegou uma das flechas para tentar entender como aquelas flechinhas mataram seus irmãos com tanta facilidade. Héracles gritou desesperado para que Folos largasse a flecha, e quando o fez, sofreu um arranhão na perna e caiu morto. Com grande pesar, o herói enterrou seu amigo centauro. Depois deixou aquele lugar funesto e, com o coração partido, seguiu seu caminho para o alto do Erimanto, em busca do javali selvagem. Agora ele compreendia por que Euristeu o tinha enviado para aquele lugar.

Depois de muito procurar, Héracles finalmente encontrou o rastro do animal. Era muito fácil matá-lo; o problema era pegá-lo vivo. O herói perseguiu o javali durante muitos dias e noites. Inúmeras vezes, perdeu o animal, esgotou-se procurando por ele e saiu de novo em seu encalço, tudo sem proveito algum.

Por fim, Héracles sentou-se e pensou. Força e velocidade nem sempre eram a resposta; a esperteza se fazia necessária. Subindo numa pedra alta, o herói examinou toda a área e percebeu que os picos da montanha estava cobertos de neve. Sua tarefa agora era conduzir o animal até lá. Assim, recomeçou a perseguir o javali, forçando-o a subir. Sempre que o animal tentava mudar de direção, Héracles atirava uma pedras em seu caminho. Finalmente, forçou o javali a entrar numa cavidade cheia de neve. As pernas pequenas e flexíveis do animal, enterradas na massa branca e foca, não puderam mais levá-lo adiante. Seu pesado corpo afundou na neve até o peito e ali ficou imerso, incapaz de mover-se.

Heracles vs. Erymanthian Boar

Assim, finalmente, Héracles pegou o javali, amarrou suas pernas juntas, colocou sobre os ombros de modo que o animal não o ferisse e levou-o para Micenas.

Com passos largos, Héracles passou pelos guardas nos portões do palácio e, por acaso, entrou direto até Euristeu. Quando os olhos do rei viram o herói com o javali selvagem nos ombros, ele deu um grito e suas pernas estremeceram. Então, desenrolou-se uma cena que se tornou o tema favorito dos antigos pintores de vasos da Grécia. Aterrorizado, o poderoso rei de Micenas deu um salto e jogou-se dentro de um grande vaso de barro. Como se nada estranho tivesse acontecido, Héracles continuou andando até que ele se curvou sobre a borda do recipiente, para que Euristeu pudesse ver o javali bem de perto, tão perto que o focinho do animal, com seus dentes afiados, quase tocou o rosto do rei mesquinho. Com medo, suou frio e tremeu feito vara verde. Se Euristeu tivesse avistado o Hades, não teria ficado tão amedrontado.

Javali de Erimanto

Euristeu aterrorizado dentro do vaso de barro

Referência:

STEPHANIDES, Menelaos. Hércules. Trad. MICHAEL, M. P. São Paulo: Odysseus, 2005.

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Sísifo: a sagacidade, o castigo

Sísifo foi um nome que ficou para sempre na memória dos mortais: era o homem mais astuto que já viveu neste mundo. Filho de Éolo e Enarete, foi o primeiro rei e fundador de Corinto. Apesar de malicioso, não era injusto. No entanto, após a sua morte, foi duramente penalizado porque, com muita astúcia, enganara até os próprios deuses.

Quando Sísifo decidiu construir Corinto, muito lhe agradou a localização próxima ao istmo, pois a cidade teria dois portos: um no golfo coríntio e outro no golfo sarônico. Havia ainda, lá perto, um monte grande e alto para se construir um castelo inexpugnável, que protegeria os habitantes caso houvesse guerra. O lugar, porém, não tinha água, e por isso Sísifo pediu ao deus-rio Asopo que lhe concedesse uma fonte. Asopo quis saber o que ganharia em troca, e, com astúcia, respondeu que podia contar com ele quando precisasse, pois lhe daria a amizade.

Satisfeito com a resposta de Sísifo, Asopo bateu seu bastão na terra e uma fonte de água abundante e cristalina brotou ao pé do monte. Dessa forma, Corinto foi construída e, sobre o monte, Acrocorinto, ou seja, a acrópole de Corinto.

Após um tempo, Zeus passou por ali arrastando uma jovem consigo. Era Egina, filha de Asopo, que ele acabara de roubar do pai. Sísifo os recebeu com humildade, e Zeus e Egina passaram a noite inteira no castelo. Mal partiram, veio Asopo, que procurava aflito pela filha, e perguntou se Sísifo sabia de algo que pudesse lhe ajudar a encontrar Egina. O rei de Corinto se encontrava numa situação difícil: a Asopo devia grandes favores, pois com a fonte por ele concedida tornou-se possível a fundação de Corinto; todavia, como poderia ir contra a vontade do rei dos deuses? Era um impasse. Entretanto, depois de tanto pensar, a obrigação com Asopo falou mais alto e, assim revelou, que havia sequestrado a filha do deus-rio. Asopo, agradecido e admirado, perguntou se o rei não temia o castigo de Zeus. Sísifo disse que daria um jeito de escapar.

Zeus, furioso com a traição de Sísifo, imediatamente ordenou a Caronte que tomasse a alma do rei e a levasse para o escuríssimo Hades. O astuto Sísifo, contudo, já pressentira qual seria o seu castigo. Assim, armou uma emboscada para Caronte e se pôs a esperá-lo com uma corda na mão, que escondeu atrás de si. Quando chegou o temível deus da morte, Sísifo não teve medo. Caiu de repente sobre ele. Antes que Caronte tivesse tempo de fazer o menor movimento, viu-se amarrado.

Um tempo depois, Plutão, o rei do Hades, chegou ao Olimpo e perguntou a Zeus:
– O que acontecerá com Sísifo?
– Eu me ocupo dos vivos, e não dos mortos – respondeu o soberano dos deuses.
– Sim, mas Sísifo está vivo, reinando e rindo à nossa custa! Ainda se fosse só isso… Ele mantém Caronte amarrado e, por isso, nenhum homem morre sobre a Terra, e ninguém vem ao meu reino!

Zeus trovejou e relampejou de cólera. De imediato, chamou Ares, o temível deus da guerra para que o mesmo libertasse Caronte e desse fim à vida de Sísifo. Assim, o pobre Sísifo, que não podia com Ares e Caronte juntos, logo estava nas profundezas do Hades.

Como já esperava que isso acontecesse, instruíra a mulher, Mérope, a não fazer nenhum sacrifício fúnebre a Plutão por ocasião de sua morte. Em vão, Plutão esperou os sacrifícios consagrados pelo rei de Corinto, até que o próprio espírito de Sísifo se colocou diante dele com sua astúcia, e disse:
– Grande rei do Hades, sinto que minha mulher não lhe tenha oferecido sacrifícios fúnebres por minha morte. Deixe-me subir à Terra para castigá-la e ordenar-lhe que cumpra sua obrigação. Retornarei ao seu reino imediatamente depois.

Plutão fora enganado ao deixar que Sísifo subisse à terra. Este, em vez de castigar a mulher conforme prometera, caiu nos braços delas e os dois passaram juntos uma vida feliz até a velhice. Contudo, como todos os homens morrem um dia, Sísifo também morreu. E então os deuses se vingaram.

Plutão fez o fundador de Corinto carregar no mundo ínfero uma rocha maior que ele. Deveria levar essa pedra até o alto de uma montanha. Sísifo se afligia, esgotava suas forças para carregar o peso insustentável até lá em cima, mas antes de chegar ao topo, a pedra escapava e se precipitava novamente para o sopé da montanha. Sísifo corria para alcançá-la e recomeçava seu árduo trabalho, empurrando com as mãos, os ombros e os joelhos a rocha impossível de levantar. O infeliz se angustiava para levá-la ao cume e dar fim ao seu martírio, mas no último instante a pedra novamente escapava e despencava pela encosta. Assim acontecia continuamente, e o tormento de Sísifo era infindável. Este foi seu castigo por ludibriar os deuses.

Punishment_sisyph

Sísifo, por Titian (1549)

Referência:

STEPHANIDES, M. Teseu, Perseu e outros mitos. Trad. POTZAMANN, J. R. M. São Paulo: Odysseus, 2004.

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Pensamentos Flutuantes

Entre devaneios e realidade, ideias ascendentes

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